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Blu-ray | Uma História de Amor e Fúria (Brasil)

Uma-História-de-Amor-e-Fúria

Tecer uma opinião sobre uma animação americana é fácil em grande parte das ocasiões. Afinal há inúmeros parâmetros já estabelecidos dentro deste gênero vindo de Hollywood que auxiliam na formação de uma crítica ou opinião. Há uma base já estabelecida, há clichês já formados, há um histórico para se ter como base. Mas o que fazer quando se tem uma animação fora desse círculo? Quais parâmetros usar e em que momento se é justo ou não se percebe uma injustiça ao se avaliar algo assim?

Este é caso de Uma História de Amor e Fúria, uma produção genuinamente nacional, que corre por fora de qualquer outro tipo de animação que já tenha sido feita aqui no Brasil e que ainda assim, não é justo comparar e pedir uma qualidade semelhante ao que se vê em Hollywood. Não é fácil dar bom senso a crítica com um material assim, ainda mais sendo um fruto nacional na qual temos que admirar e apoiar para que possamos crescer e aprimorar esse gênero.

Talvez o meu medo seja passar a impressão de que estou puxando o saco apenas porque foi feito no Brasil, só que talvez seja exatamente esse o caso. Se Uma História de Amor e Fúria fosse uma produção americana, certamente eu teceria críticas mais duras e severas, porque como disse lá no início, há parâmetros maiores e melhores para algo feito por lá. Mas foi feito aqui e só por isso, é prefiro entender algumas limitações e contextos presentes na produção. São pesos e medidas diferentes no final das contas.

A animação conta a história de um casal, um homem e uma mulher, que são apaixonados e acompanham 600 anos da história do Brasil, indo desde o tempo da colonização, da escravidão, da ditadura e indo para o futuro fictício, porém surpreendente, onde são feitas reflexões a respeito do ser humano, do Brasil e do nosso próprio futuro. No fim, o filme tem camadas muito mais profundas do que apenas o protagonista que almeja o final feliz com a mulher que é o amor de sua vida.

É interessante como a história é criada com pedaços da história real do Brasil, sem transparecer demais uma ideia de algo didático demais. Funciona até o contrário, mostrando uma visão que não é visto nos livros escolares. Há uma percepção de que nosso Brasil, nossa história não possui apenas um único lado e que até mesmo heróis e os mocinhos nessa história, não são necessariamente mocinhos. Gostei muito desse aspecto emocional do filme, onde os personagens sofrem com a nossa história e o Fúria do título funciona perfeitamente em contraste com o Amor do casal de protagonistas. Alias, falando em título, apesar de entender as razões na qual a animação tem esse longo título, acredito que falte algo, mais curto para que as pessoas possam lembrar dessa animação. Uma História de Amor e Fúria é bacana como um sub-título, mas como título, apenas parece que falta… impacto.

Para não ficar apenas elogiando, acho importante reforçar que há alguns pontos que me desagradaram na animação.  Acho simplório, por exemplo, a forma como a história se divide em 4 arcos completamente isolados. Parece uma série animada em 4 capítulos. A narrativa linear não causa, mais uma vez essa palavra, o impacto que uma construção diferente talvez causasse. Talvez seja uma má impressão pessoal minha, pois tenho essa concepção de que a gente aqui na República das Bananas não conseguimos criar enredos longos, sem que pareçam pedaços menores que forma um todo. Lembram quando a Turma da Mônica voltou aos cinemas alguns anos atrás com o Cinegibi e na verdade o filme era apenas um apanhado de pequenas histórias? Tudo bem que a trama de Uma História de Amor é uma coisa só, porém ela também passa essa impressão de funcionar de forma episódica, e esse é uma elemento que gostaria muito de que as animações brasileiras perdessem.

Ainda pensando em produções nacionais, vale tecer alguns elogios ao estilo da animação, que é totalmente voltada a um público mais adolescente e adulto. Decididamente não é um filme para crianças. Há violência, nudez e uma certa depressão na história do filme. Não é um filme para rir. Ele é mais reflexivo, cabeça, que parece ter aquela intenção de provocar, sabem? Ele dá o que pensar. Inicialmente, quando o filme inicia sua história nos tempos de colonização, dá uma impressão de que a animação é meio fraca, com os personagens com movimentos pouco fluidos. Por ser algo diferente do que se faz por aí, incomoda mesmo e parece ruim, mas isso passa conforme o filme avança. Quando ele chega em 2096 você pira em como a animação cresce e evolui de maneira animal e isso também me levantou outra questão: porque não contar uma história inteira em 2096?

O que ocorre é que a animação faz um exercício mental, mostrando como talvez seja o Brasil daqui algumas décadas. Um cenário futurista, porém ainda realista. Vamos sofrer com a falta d’água? A desigualdade social vai crescer exponencialmente até chegar no nível altamente agressivo? E as forças polícias? Tudo num cenário do futuro, prédios enormes, telas de televisão em qualquer lugar e assim por diante. O arco final do filme é sem dúvida alguma a melhor coisa da animação. Nesse ponto fica a minha dúvida se todos os três primeiros atos do filme não poderiam ser totalmente descartados e um filme inteiramente novo não poderia ter sido criado nesse universo do Brasil 2096? Tudo bem que a mensagem e a história dos protagonistas principais não funcionariam apenas desse jeito, mas no fim, fiquei com a impressão que ao final de tudo, estava muito mais interessado na história desse universo futurista do que no casal de protagonistas da história. Me perdi um pouco o foco ao fim talvez.

É nesse ponto que percebo que precisamos mesmo de pesos e medidas diferentes. Não dá para comparar com qualquer produção hollywoodiana. Lá fora, a gente consegue imaginar totalmente o desenvolvimento de uma animação onde partes inteiras de uma história sendo jogadas no lixo porque durante o rumo da produção, o desenvolvimento chegou a um conceito ainda maior e melhor. A Pixar e Disney se você estudar suas histórias verá que ambas possuem casos assim. Claro que aqui, como somos menores, fica muito mais difícil mudar a direção de algo que já está indo para algum lugar.

Para encerrar, é preciso elogiar o belo trabalho do blu-ray, lançado aqui pela Europa Filmes, pois possui vários extras interessantíssimos no que diz respeito aos bastidores da produção. Algo que nos tempos em que eu colecionava DVDs e possuía alguns de filmes nacionais, não conseguia encontrar com facilidade. Coisas de bastidores que gostaria de ver, mas os DVDs nunca traziam tal material. No caso de Uma História de Amor e Fúria, o BD vem recheado com o material que se torna necessário para um conteúdo de bastidores do desenvolvimento. Vale muito a pena ver o documentário chamado “Só para Educadores”, onde o próprio produtor do filme, Luiz Bolognesi, explica em grandes detalhes toda a questão histórica do filme e a sua mensagem, como se estivesse conversando para uma enorme sala de aula e seus alunos. Eu adorei!

Fica a recomendação!

Uma-História-de-Amor-e-Fúria Blu-Ray

No Submarino há as versões em DVD (link) e Blu-ray (link) da animação, apesar de que – particularmente – o preço que está lá no momento em que escrevo esse texto não me agrade muito. Mas fica essa decisão para cada um. Ou até mesmo para ficar de olho caso role uma promoção ou desconto futuramente.


Animações fora da curva…

Esta postagem completa uma trilogia aqui no blog que se iniciou com Lifi – Uma Galinha na Selva, passou por Um Gato em Paris e agora termina com Uma História de Amor e Fúria, na qual a proposta era apresentar animações fora do eixo Hollywood. Mostrar que tem coisa interessante sendo feita atualmente por outros países. Isso não significa que essa série termina por aqui. De jeito nenhum!

Isso porque agora descobri uma fonte bacana de indicações para animações alternativas. O site da Annecy International Animation Film Festival! Trata-se de uma festival internacional que premia estas animações de diversos países. Lifi concorreu em 2012 , mas não ganhou. Já em 2013 o Brasil levou com a animação resenhada neste post! Bacana, não?

Passeando pelo site da Annecy, encontrei lá a galeria de campeões ano a ano (e de lá posso ver os indicados para as categoria). Aí resta ver com calma os nomes, o que são longas e curtas animados e cruzar os dedos para que eles estejam em algum canto da internet – e de preferência com a camarada legenda feita por alguma alma bondosa – afinal boa parte desse acervo não vai chegar nunca no Brasil. Para ver o indicados de 2013, clique aqui.

Fica então essa dica de onde procurar outras animações diferentes das rotineiras hollywoodianas!

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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