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Fábulas | Quem (ainda) tem medo do Lobo Mau?

Como recontar velhas fábulas, mais uma vez, sem soar repetitivo?

Fiquei motivado a escrever esse pequeno texto após a Disney ter liberado o primeiro trailer do filme Live Action de Cinderela, que está marcado para estrear em abril de 2015 nos cinemas. O trailer legendado está um pouco mais abaixo aí na postagem para que você possa conferir e pegar alguns dos pontos que quero fazer por aqui.

E assim, entendo que exista uma tendência que vem sendo reforçada nestes últimos anos de trazer de volta velhos contos de fadas atualizados as novas tecnologias do cinema, ou até mesmo em outras mídias, como TV, quadrinhos e videogames. Claro que há crianças que desconhecem muitos destes contos e que vão curtir muito mais um novo filme ou novo game, produzido com tudo que há de moderno hoje em dia do que pegar um velho desenho da Disney (sendo que alguns já estão datados) ou um antigo livro de décadas atrás sendo que muitas vezes estas antigas produção não sabem conversar com a criança e o jovem dos dias de hoje. Até aí tudo bem.

Sendo assim, não sei exatamente o que esperar desse novo filme da Cinderela. Quer dizer, ainda é cedo para ficar tacando ovos e dizendo que vai ser uma porcaria. Não é isso. Mas qual a mensagem que o novo trailer passa? Me pareceu o mesmo conto do clássico de 1950, porém sem canções e com atores de verdade. Qual a repaginada no conto? O trailer não mostra e me preocupo se o filme será apenas isso, uma recontagem pura de algo que parte das pessoas já conhecem, até porque a Disney não é a única que já trabalhou com a fábula da Cinderela. Será que não dá para fazer algo diferente nesse conto já batido da Cinderela?

Lembra de Hook – A Volta do Capitão Gancho?  Trata-se de uma outra produção da Disney, lá do distante ano de 1991 que trabalhou com o clássico conto do Peter Pan com uma pegada diferente. Eu acho que esse é o exemplo máximo de como trazer de volta uma velha fábula para uma segunda viagem, sem que você tenha necessariamente que fazer a primeira, abocanhando dois tipos de público, os que conhecem a história original e aqueles que não conhecem.

Até porque, como disse, certos clássicos como Chapeuzinho Vermelho, Três Porquinhos, Branca de Neve, Bela Adormecida as crianças acabam conhecendo através de livros infantis, na escola, desenhos na TV e até mesmo pelos pais que acabam contando a história a seus filhos. Então a gente meio que cresce conhecendo parte dos contos de fadas populares.

Posso dar outro exemplo mais recente de uma fábula que recebeu uma nova adaptação aos cinemas: Oz, Mágico e Poderoso. Outra produção da Disney, lançado em 2013 e que trabalha com o universo de O Mágico de Oz, que diga-se de passagem é um conto de fadas que nunca fui muito fã, apesar de reconhecer a qualidade da obra. Quanto ao filme, me parece que ele não fez todo o sucesso que se esperava, muita gente alias adora criticar o ator James Franco (eu não acho o cara ruim) e sei lá, eu achei Oz divertidíssimo e tem toda uma história alternativa do clássico, focando em outros personagens na mesma fórmula de Hook, trabalhando com personagens dentro de um universo popularmente conhecido ao mesmo tempo em que se esforça para fazer algo diferente do conhecimento popular.

Só estou dizendo que acho bacana quando novas produções de velhos clássicos conseguem criar essa transformação, expandir algo conhecido, dar uma visão alternativa, mudar certas premissas sem distorcer totalmente a antiga história. E espero que a Disney faça algo assim Cinderela e que não seja apenas o mesmo conto de 1950. Seria incrível se o trailer que me motivou todo esse pensamento fosse apenas com o primeiro ato do filme, que ainda haja muito além da história original. Eu duvido um pouco disso, de fato me parece apenas a mesma história sendo recontada novamente. Não digo desnecessariamente, porque um remake de um clássico da Disney de 1950 de certa forma é válida, ainda que pra mim, um filme assim é muito mais fácil de em poucos anos ficar muito mais datado do que o desenho de 1950. Basta pensar no filme Encantada, que é de 2007 e revendo hoje já mostra alguns sinais de envelhecimento justamente porque o universo criado ali estagnou e depois dele vieram tantos outros filmes de contos de fadas que fica difícil lembrar como na época, Encantada era algo realmente original e criativo e hoje o filme me parece apenas uma produção bacana para uma tarde de filmes no Disney Channel.

Enfim, já imaginou se daqui uns 10 ou 20 anos a Disney resolve pegar animações como Aladdin ou Pequena Sereia para fazer versões com live action com estes clássicos? Putz, não sei como a minha memória afetiva reagiria com algo assim. Acho que não conseguiria aceitar uma produção assim.


Os Contos de Fada Serializados na TV…

Aproveitando o tema, acho que é oportuno comentar duas séries da atualidade que anda trabalhando muito bem com esse universo de fábulas e criaturas do imaginário popular: Once Upon a Time e Grimm.

Once Upon a Time S4

Once Upon a Time já comentei algumas vezes aqui no blog e não é uma novidade para ninguém, mas acho que vale a recomendação porque dentro do tema aqui abordado é uma produção que sabe trabalhar muito bem com personagens popularmente conhecido por todas as pessoas, mas que consegue a árdua tarefa de não ficar recontando a velha história exatamente como a conhecemos. A série sempre muda algo, trás algo diferente ou até mesmo interliga velhos contos com outros contos, criando novos vínculos entre personagens que nunca imaginamos que poderia se entrelaçar em suas origens.

É verdade que o modelo da série de 22 episódios as vezes torna o programa cansativo e até arrastado, mas isso não tira os méritos da produção conseguir trabalhar tão bem com alguns contos de fadas. O próprio arco do Peter Pan na terceira temporada que o colocava como um grande vilão, muito mais focado ao conto original do que ao conto que a Disney disseminou com seu clássico, é muito mais interessante da forma como foi colocado no enredo. Agora na atual temporada a série resolveu trabalhar com Frozen, que é meio que uma fábula que a Disney mexeu e adaptou bastante para conseguir dar certo nos dias de hoje e meio que virou algo original, mas Onde Upon a Time já conseguiu fazer com que o universo de Frozen se conectasse de uma maneira interessante ao universo já criado em três anos de show, explicando de onde vem a Magia de Elsa, contextualizando melhor a morte dos pais das irmãs e começando a moldar alguns aspectos que casam com a personalidade de Anna.

Nesse sentido, eu gosto de Once Upon a Time pela forma como o show consegue criar perspectivas a personagens que achamos que conhecemos, mas que talvez num âmago mais profundo até mesmo os vilões dos contos de fadas podem ser injustiçados. Claro que a série as vezes escorrega, há personagens xaropes e até mesmo protagonistas que talvez não devessem mais se o foco dentro da premissa do  programa, mas ainda assim é algo diferente me meio a tudo que vem se fazendo dentro do gênero de contos de fadas. Tem lá suas limitações, devido ao orçamento de um programa de TV e tal, mas ainda assim é uma produção que muitas vezes consegue ser bem mais interessante do que certos filmes fracos de fábulas que Hollywood andou produzindo nos últimos anos.

Grimm

Na outra ponta há a série Grimm, que me passa a sensação de que originalmente ela se esforçava um pouco mais para brincar com a mitologia das criaturas das fábulas e que após três temporadas, ela não está mais preocupada com isso, o que meio que acabou funcionando para melhor felizmente. A pegada original da série seria trabalhar com alguns personagens dos contos de fadas no formato mais original, mais macabro, tal qual os contos dos Irmãos Grimms e isso funcionou bem no primeiro ano do show. Depois que a estrutura da série foi sedimentada e os personagens principais foram apresentados, a história não precisa mais usar esse recurso com frequência porque foi criado um universo muito mais interessante e original para se trabalhar. Não que algumas coisas ainda não sejam usadas e estejam ali, mas o foco disso não é mais algo principal do show.

O curioso é que Grimm não é uma série excelente originalmente. O primeiro ano é mais pela curiosidade de ver o que os produtores conseguem criar dentro das regras estabelecidas para esse universo. Quem é o Lobo Mau? O que é um Grimm? Como estes seres convivem com os seres humanos na sociedade dos dias de hoje. Nesse ponto Grimm consegue criar um seriado sobre o sobrenatural que não fica parecido ou semelhante com outras produções existentes, como a própria série Supernatural e isso é bacana porque não fica aquela comparação chata entre uma série e outra. Por exemplo, comecei há algumas semanas a acompanhar Constantine e não consigo deixar de comparar ela com Supernatural, mesmo sabendo que Supernatural tem bases e influências das próprias comics de Constantine. Esse sentimento de “isso é parecido com aquilo” é muito ruim para uma série iniciante e nessa direção Grimm foi muito bem sucedido ao conseguir fugir desse tipo de comparação.

Claro que depois do primeiro ano, a produção de Grimm se perde totalmente, ao menos na minha opinião. A segunda temporada da série acho péssima. Foi com muito esforço que a terminei e que bom que não dropei, porque acabou valendo a pena. Parece que os produtores perceberam a merda que fizeram no segundo ano porque aí na terceira temporada a série volta com outra cara, com outro ritmo e aí ela passa de uma série que era apenas boa em seu primeiro ano para uma série ótima, terminando de forma incrível o terceiro ano. E a quarta temporada começou agora e parece ainda melhor!

Sei que é difícil recomendar uma série assim, que possui uma temporada inteira ruim (2º ano), mas acho que até dá para pular essa temporada. Dá pra fazer isso sem medo. Veja o primeiro ano e depois disso vá para o terceiro sem medo! Grimm trabalha com a ideia de um policial que desperta uma habilidade de ver seres que convivem entre os humanos, descobrindo que ele mesmo é uma espécie de raça antiga que possui essa habilidade e que originalmente caçava estes seres, mas ele descobre com um sendo um Grimm diferente do comum, tal como algumas criaturas que vivem entre os humanos e que não são tão vilões assim.

No final do terceiro ano, os produtores da série criaram uma nova personagem, que descobre ser uma Grimm, tal qual o protagonista, a o próprio ritmo da série muda por conta disso. Me lembrou muito a pagada que existia em Buffy – A Caça Vampiros, já que a garota que descobre ser uma Grimm é bem mais jovem que o protagonista e bem mais inconsequente também, afinal o protagonista é policial, o que faz sua personalidade ser mais pragmática, enquanto a garota Grimm é mais maluca, indo de cara com criaturas e deixando as coisas muito mais agitadas e tensas. A série ganhou outra roupagem com a inclusão da personagem, e me parece que ela tem uma participação ainda maior e mais importante na quarta temporada que começou mês passado nos Estados Unidos. E meio que tornou Grimm uma das minhas séries prediletas de acompanhar atualmente.

Acho que aqui no Brasil ela não faz muito sucesso, então é uma boa dica para se recomendar. Se estiver afim de ver algo dentro desse gênero do fabuloso e fantasioso, procure ver Grimm!

obs: a ilustração que a abre a postagem é do usuário gindenvodd lá do DeviantArt. 😉

E é isso!


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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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