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Fullmetal Alchemist – Vol. 01 | De volta às bancas, uma troca equivalente! (Impressões)

É muito estranho pensar em um “top 10 melhores animes de todos os tempos” e não pensar em colocar Fullmetal Alchemist em alguma posição de tal lista, seja a versão do animê de 2003 ou a versão chamada Brotherhood de 2009. Não vou discutir hoje qual é a melhor versão, pois sei que há aqueles que preferem o primeiro animê, por mais distante que ele possa ser do mangá após determinado momento, e há quem prefira – e eu estou neste time – a versão Brotherhood, melhor influenciada pela obra original – o mangá de Hiromu Arakawa.

Tenho que admitir, porém, que nunca cheguei a ler o mangá. Talvez tenha lido o capítulo final pela internet, após Brotherhood ter se encerrado, pois queria muito saber se o final da versão animada estava digna em relação a versão da autora. Mas isso faz muito tempo e não me recordo em que conclusão cheguei, ainda que exista duas matérias bem antigas aqui no site a respeito do final de Fullmetal Alchemist (esta aqui e esta aqui), recheado de spoilers acredito – aviso isso pois se quiser ir lá ler esteja ciente desta possibilidade. Aqui nestas impressões, fique tranquilo, pois não trarei spoilers sobre a trama além deste primeiro volume, mesmo sabendo que muitos sabem de cor e salteado a respeito de toda a história e jornada dos irmãos alquimistas.

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É bizarro pensar que até hoje nunca tenha criado vergonha na cara ou arranjado tempo para ler Fullmetal Alchemist. Apesar de que algumas coisas no passado contribuíram para que algo assim nunca acontecesse. Primeiro porque tenho a sensação de que muitos antigamente se davam por satisfeitos apenas vendo a versão animada, e eu me incluíra nesse grupo (hoje não mais, gosto de conferir o original sempre). Segundo porque o mangá já lançado no Brasil não era lançado no formato que hoje se equipara muito ao modelo original de publicação no Japão. A primeira versão de Fullmetal Alchemist publicado aqui no Brasil em 2007 foi concluída em 54 volumes, ainda seguindo o arcaico modelo de cada edição ser na verdade metade do modelo tankōbon japonês. E terceiro, bem, nunca tive tempo e coragem para encarar uma maratona do mangá em algum site de leitura de mangás online, fora que sendo um mangá antigo as scans geralmente nunca são da mesma qualidade dos muitos mangás que hoje as pessoas seguem online.

De volta às bancas!

Porém, como colecionador assumido de mangás, sempre houve essa vontade de ter Fullmetal Alchemist nas prateleiras aqui de casa. É uma das minhas séries favoritas e poxa, o mangá sempre mereceu uma versão impressa melhor, mais condizente com nosso atual mercado. Então pacientemente soube esperar.

Até que chegamos em julho de 2016 e finalmente a JBC, após ter anunciado alguns meses atrás, lançou uma nova versão do mangá! Desta vez com tudo aquilo que os fãs e colecionadores desejavam para Fullmetal Alchemist: volumes completos, de acordo com o modelo japonês, papel off-set (xô papel jornal!), novo design de capa, distribuição nacional e saindo mensalmente, com cada edição custando 17 reais. O modelo ficou bem parecido com o que aconteceu com o mangá de Yu Yu Hakusho, para quem não pescou apenas com a descrição mais técnica. A exceção talvez seja que a capa em si ficou bem mais bacana do que o padrão escolhido para o Yu Yu Hakusho (minha opinião, é claro).

Falando logo desta nova edição, antes de entrar nos méritos em si da leitura deste primeiro volume, não tenho muito do que reclamar em relação ao aspecto físico da nova edição. Claro que na internet, há sempre aqueles que se sentem insatisfeitos com tudo, já que a grama do vizinho está sempre mais verde.

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Por exemplo, já virou praxe reclamar hoje em dia da gramatura das páginas dos mangás, que estas são mais transparentes do que deviam, que o fato de hoje em dia existir mangás sendo impressos em papel off-set que isso torna as edições branquinhas (graças aos céus), porém acaba ressaltando ainda mais essa transparência e blá blá blá. Bem, pra mim nada disso é um demérito, conforme já comentei em outras ocasiões, em outros reviews de mangás por aqui.

É sério. Esse não é um aspecto que normalmente me incomoda ao ler, seja um mangá ou um quadrinho mais tradicional do ocidente. Fora que as editoras já cansaram de comentar que o papel hoje em dia está caro, que a crise não anda ajudando e quanto melhor for a gramatura de cada folha, mais caro os mangás acabariam ficando. E olha que vamos ser sincero, os mangás e quadrinhos em geral já estão bem mais caros do que deveriam normalmente custar aqui no Brasil. A alta do dólar nos últimos 4 anos não ajudou em nada, seja o mercado em geral, quando o de quadrinhos e mangás. Então, lidar com essa qualidade de transparência dos mangás hoje em dia não me parece um problema, até porque não é como se estivessem imprimindo os mangás em papel vegetal – aquele papel que muitos usam (ou usavam) na escola para copiar mapas na aula de geografia.

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Claro que há obras onde isso é mais visível e obras que passam melhor despercebidos. Aqui, na nova versão de Fullmetal Alchemist, digo que em nada me incomodou. Aliás tive que abrir o mangá enquanto escrevia estas impressões para me certificar que a transparência estivesse dentro de um padrão okey, pois nem sequer a percebi enquanto devorava esta primeira edição, algo que aliás fiz em uma única sentada.

Porém não vou dizer que é uma edição perfeita. Sabe um ponto que me incomodou? A ausência de impressões no versos das capas, as contracapas. Fazia tempo que um mangá não me fazia perceber o quão estranho é não ter mais nada neste espaço da obra. Ainda mais tendo resenhado tantas primeiras edições de mangás nestes últimos meses. Adoraria entender o que levou a JBC a decidir por não colocar nada nestes espaços. Será que foi imposição do licenciante japonês? É a única desculpa que seria quase aceitável na minha opinião.

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Quer dizer, o freetalk, que normalmente se encontra em uma destas contra capas está lá, ao final da primeira edição, porém não nesta área. Há também uma arte inacreditável dos irmãos Elric bem ao lado do freetalk lá no fim. Por que não usar exatamente isso para preencher as contracapas da edição? Que chato isso. O pior é pensar que agora se criou um modelo, então todo o resto da coleção virá com estas contracapas vazias, carentes de um “tcham“.

Não estraga totalmente o conjunto da obra, mas no meu caso acabou se fazendo perceptível. O que não precisava ter acontecido. Vi comentários e comparações com One-Punch Man na Panini, que custa apenas um real a mais e é uma edição tão bonita quanto. As capas possuem orelhas e as contra capas estão preenchidas com algum conteúdo. Sim, realmente a preocupação estética é importante, mas acho que as comparações ficam apenas por aí mesmo. Fullmetal Alchemist é um mangá mais clássico, de uma outra fase dos mangás japoneses, enquanto as aventuras de Saitama são mais modernas, condizentes até mesmo com o formato gráfico do mangá.

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As pessoas podem justificar dizendo que são comparações válidas e que o preço é um fator importante aqui. Talvez seja, mas na boa? Não entre nesta situação onde você precise escolher entre One-Punch Man ou Fullmetal Alchemist. Ambos são obras nota 10, excelentes e fenomenais. Se tiver que escolher qual colecionar, não tem outra resposta aqui: escolha ambas! Ao menos One-Punch Man é bimestral e tem poucos volumes impressões no Japão, enquanto Fullmetal Alchemist já acabou, você sabe então que são 27 volumes e que a obra é exponencialmente fantástica do começo ao fim, ao contrário de outros mangás atualmente em publicação – cof… cof… – que mesmo com um começo incrível, o autor conseguiu fazer uma meleca inacreditável no final da obra, que sacaneou todo mundo que vem ou vinha colecionando o mangá (e sim, eu estou neste time também).

Enfim, entre escolher qualquer outro mangá ou Fullmetal Alchemist, não posso dizer quando ao outro títulos sem saber exatamente qual seria, mas Fullmetal Alchemist é sempre a escolha correta. Não vem me dizer que vai esperar outra versão definitiva ou colorida e etc, porque lembre-se tem gente até hoje esperando isso de Dragon Ball. A oportunidade de ter Fullmetal Alchemist, lindão e completíssimo, é agora!

De volta para o mundo da alquimia e da troca equivalente!

Achei que seria mais importante para esta primeira edição discutir um pouco sobre estes aspectos sobre as versões animadas de Fullmetal Alchemist e dos aspectos em torno desta nova impressão nacional oferecida pela JBC do que precisar ficar explicando e contanto a história do mangá. Presumo que boa parte das pessoas se não assistiram ou leram, que já tenham ao menos ouvido falar de Fullmetal Alchemist. Estou certo?

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Entretanto não posso deixar de comentar o quão prazeroso foi ler e voltar ao incrível mundo da Alquimia oferecido pela Hiromu Arakawa e relembrar o quão carismático e divertido são os personagens que a autora criou para esta obra. Como comentei alguns parágrafos acima: li toda esta primeira edição em uma sentada, como se o tempo ao me redor não mais importasse e tivesse sido sugado pelo mangá. Normalmente não é assim que leio mangás. Um volume impresso costuma levar entre 3 ou 4 sentadas médias, dado a quantidade de coisas que leio e estou sempre fazendo ao mesmo tempo. Parar pot completo e ser imerso por uma única obra não é fácil pra mim, e Fullmetal Alchemist conseguiu tal mérito. A coisa estava em um ritmo tão prazeroso que se eu estivesse com a segunda edição em mãos acabaria pegando-a e a leria logo após a conclusão desta primeira edição. Que loucura!

E olha que hoje em dia é comum que nossa memória afetiva atrapalhe o bom senso ao nos depararmos de novo com obrar que curtimos muito em um passado um pouco distante. Admito que estava com um certo receio de que ao reler Fullmetal Alchemist acabasse descobrindo que a obra não era tão incrível quanto a minha memória estava dizendo que era. E que alívio foi descobrir que a trama dos irmãos Elric não demonstra qualquer sinal de envelhecimento pelo tempo em que foi publicado originalmente. O mangá ainda é divertido, intenso e os personagens parecem vivos. Nem mesmo o traço dá sinais de ter sido feito a uma geração atrás de mangakás. E isso é um feito muito impressionante.

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Legal também foi descobrir que tudo que está aqui, nesta primeira edição, eu me recordava com uma quantidade impressionante de detalhes. Melhor ainda foi descobrir que isso não tornou a minha leitura cansativa ou tediosa. Foi como rever aquele seu filme favorito pela vigésima vez e descobrir que ele ainda continua tão bom quanto a primeira vez (tenho isso com Jurassic Park).

Agora, e se você nunca ouviu falar de Fullmetal Alchemist? Será que alguém que acordou deste coma e vai conhecer hoje a série vai gostar tanto quanto eu, fã inveterado deste mundo e de seus personagens? Eu quero muito acreditar que sim. Não vejo motivos para pensar o contrário. A trama em geral da série ainda funciona muito bem e nem mesmo dicas óbvias de eventos do futuro da história me parecem que não soam tão óbvias para novos leitores (e sim, elas já estão aqui, neste primeiro volume).

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E se você está querendo me estrangular porque estou falando e falando e anda não descrevi nem mesmo a bendita sinopse do mangá, calma, vamos então a isso, porém ao mesmo tempo em que a sinopse aparenta ser simples, a trama e as reflexões morais e dilemas dos personagens são profundas e complexas. Não deixa a simplicidade lhe enganar.

Fullmetal Alchemist conta a história destes dois irmãos, Edward e Alphonse Elric, em um mundo onde a alquimia existe. E como qualquer ciência, a alquimia tem regras, regras estas que são respeitadas do começo ao fim do mangá, que isso fique bem claro. Os irmãos quebraram um dos maiores tabus das regras da alquimia, e tentaram trazer uma pessoa à vida. Tudo deu errado e tal feito lhes cobrou um terrível preço. O mangá conta a jornada deles para tentar recuperar aquilo que perderam e descobrir mais sobre os limites da alquimia. Existe mesmo algo que possa quebrar ou flexionar estas regras? O tabu da alquimia pode ser feito sem que um preço tão alto seja pago?

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Claro que essa sinopse é simples, até superficial. O mangá para quem não conhece vai muito além dos irmãos Elric. Há questões religiosas, de crença e fé, de moral e ética, de pátria e de classe social. É um mangá sem medo de propor discussões nestas barreiras da sociedade moderna. E além disso há personagens secundários incríveis, mortes terríveis (e emblemáticas, e tristes de fazer você chorar como uma garotinha), e vilões e batalhas incríveis, dignas de um blockbuster hollywoodiano. E tudo isso sem perde ritmo e nem o tempo certo para as piadas e o bom humor, um elemento super importante aliás.

Fullmetal Alchemist é uma obra completa. Com tudo que se espera de algo épico. Quem não conhece, precisa obrigatoriamente conhecer. Quem já conhece, e tem saudades, tem que agradecer a JBC por esta oportunidade de poder relembrar novamente essa incrível jornada e também de finalmente a poder colecionar, caso já não o tenha feito. Vale a pena! Isso eu prometo sem dúvida!

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É clássico de grande sucesso mundial
Não sofre de envelhecimento precoce pelo tempo da publicação original
História e personagens são extraordinários
Finalmente sendo publicado no Brasil em um formato louvável
Fechado em 27 volumes (tranquilo de colecionar)
É polêmico, é divertido, é recheado de ação, tem de tudo um pouco
Reler se provou prazeiroso, independente de já conhecer a obra e seu fim

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!

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