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O Homem que Foge – Nigeru Otoko | A floresta, o urso e nossas próprias decisões! (Impressões)

Anunciado ano passado, porém lançado somente agora no início de fevereiro, Nigeru Otoko, ou como a JBC o traduziu para nosso idioma: O Homem que Foge, é uma obra da mangaká Natsume Ono que segundo a edição alerta é uma autora que vem se destacando no Japão por suas obras voltadas ao público mais adulto, tendo esta sido publicado por lá entre 2010 e 2011.

Trata-se de um mangá razoavelmente recente. A autora começou sua carreira em 2003, e pelo que pude encontrar pela internet, já possui uma quantidade interessante de obras publicadas. E até onde sei – me corrijam se estiver errado – esta é a primeira a sair no Brasil. — A editora LPM chegou a anunciar há muito tempo atrás (em 2014) que lançaria o mangá Not Simple da autora, mas isso até o momento não chegou a acontecer (não consta em seu site).

O Homem que Foge é uma obra de um único volume. Então não é um título que vai encarecer qualquer colecionador de mangá. Custa 20 reais, o que pode parecer um pouco caro, mas o mangá tem um bom tratamento de capa, papel e impressão. As fotos nesta matéria apresentam um pouco mais destes aspectos. Sendo um título de nicho, focado a um público bem específico, sem ser popular como um shonen juvenil, faz sentido o preço cobrado. E acredito que valha a pena para quem se interessar por algo mais alternativo, mais adulto.

De uma certa forma a obra me fez recordar de antigos quadrinhos nacionais da década de 80, encontradas em revistas como a antológica Chiclete com Banana, em grande parte vinda de talentos como Angeli, Laerte e Glauco. Penas do Laerte é um bom exemplo. Eram histórias de humor, mas com temas adultos. Aqui, em O Homem que Foge há menos humor, mas o formato ainda lembra algo mais independente, não pensado em agradar a massa, mas em um público menor, mais direcionado.

A Editora JBC diz na capa da edição que o mangá é uma espécie de conto de fadas para adultos. Uma fábula. Em grande parte é verdade, porém devo admitir que me decepcionei um pouco com essa taxação, pois acabei esperando que houvesse algo fantasioso no conto, do tipo inexplicável e que o leitor precisasse acreditar que aquilo fosse o que fosse, como muitos mangás fazem hoje em dia. Só que Nigeru Otoko não tem nada de fantasioso, ainda que ele inicie querendo ser isso, mas logo fica claro que não era essa intenção da autora.

O próprio conceito de que apenas crianças podem enxergar o suposto urso não é exatamente um grande tema em discussão no mangá, que é dividido em 5 capítulos. Esse elemento, a parte da lenda, dura apenas ao redor do primeiro capítulo, e nunca mais volta a ser instigado na trama. Porque não é sobre crianças ou a inocência delas. Ou sobre um urso mágico vivendo em uma floresta amaldiçoada. É um mangá sobre adultos e as decisões que tomamos em nossas vidas.

É óbvio que não vou dar spoilers sobre mais nada além dessa menção da quebra imaginativa que o primeiro capítulo coloca em cheque muito rapidamente. Isso não estraga a leitura, é claro, pois o que vem a seguir é até muito melhor do que a ideia de um urso mágico, desejos e crianças se aventurando por uma floresta. O mangá não é sobre nada disso.

Realmente acabei me surpreendendo com o conto. Na forma como ele conduz a sua narrativa, após essa quebra inicial da proposta. Não é um mangá de muitos diálogos, então a história exige mais atenção do leitor. A autora conta a trama através do quadros da história. Há passagem, há pontos visuais importantes. Quem não gosta de mangás com poucos diálogos pode se sentir incomodado aqui, porém a ausência não é o suficiente para que certos detalhes não sejam explicados. Não é um mangá na qual um leitor precise interpretar por completo o que a autora queria dizer aqui ou ali. Existem explicações e elas ocorrem em diálogos. Porém, é claro que a mensagem maior está nas entrelinhas.

O Homem que Foge acaba sendo uma obra que trata sobre nossas decisões na vida adulta e muitas vezes das consequências que não vemos de imediato em nossos atos. Encarar nossos problemas e dilemas ou fugir deles? Fugir os fará desaparecer? E se fomos covarde a ponto de fugirmos, como encontrar coragem para sair desse caminho? Quando retornar? Quais os motivos para isso? A floresta, o urso e o personagem central são símbolos para esse pequeno conflito interno que não só os adultos possuem, mas os jovens também.

Existe essa pequena recomendação na capa de que a obra seria indicada para maiores de 18 anos. Eu diria que ela pode ser até apreciada por jovens mais novos. Talvez 15 em diante. Não há um tema impróprio para essa faixa etária, talvez tirando uma cena muito leve de sexo, na qual nada é mostrado e existe apenas uma leve indicação de que isso aconteceu. E mesmo assim, essa cena não é o combustível total da trama, ainda que ela tenha sua importância.

Eu gostei da obra. Por sinal venho adorando essa nova linha de mangás de volumes únicos que estão chegando ao Brasil pelas editoras daqui. São obras que apresentam e concluem uma ideia em uma única edição. Muitas vezes são mais reflexivas e complexas do que um mangá de 40 volumes, na qual obviamente é feito mais para entreter do que fazer seus leitores refletirem a respeito de um tema ou assunto mais adulto.  Espero que a JBC consiga sucesso com Nigeru Otoko e que isso abra as portas para trazer outras obras da Natsume Ono.

Acho que não posso encerrar estas impressões são mencionar o traço, né? O Homem que Foge não tem um traço super realista e rebuscado. É um traço mais cru, o que novamente digo que me remete ao trabalho independente em quadrinhos que encontrava na saudosa Chiclete com Banana. É um estilo mais autoral, que dá esse ar interessante a obra. Se tudo fosse muito redondinho ou perfeitinho, talvez o resultado não fosse tão interessante assim.

E por mais que o traço lembre rabiscos, ao se olhar com atenção, é possível perceber as nuances dele. Não é um traço na qual você não entenda o que está sendo colocado nos quadros. Os personagens possuem expressões impressionantes. Repare no olhar destes personagens. É possível ver a angústia, a tristeza em alguns momentos. É realmente fantástico como um traço simples consegue um resultado tão complexo.

Para quem está procurando algo diferente e incomum, vale muito a pena dar uma olhada em O Homem que Foge. É uma leitura rápida para suas 200 páginas, mas que dá o que pensar. O que o fará voltar para alguns momentos só para olhar novamente os quadros e as reflexões propostas. É muito bom mesmo!

E não, não vá para a floresta!

Mais imagens!

Obra de volume único para um público mais adulto
Fábula moderna, sem faz de conta...
Traço é simples, porém cria o sentimento da obra
Poucos diálogos talvez incomodem alguns leitores
Proposta reflexiva é condizente com os tempos atuais
Não há muito humor, trata-se de um gênero mais sério

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!

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