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Flinthook | Nostálgico e moderno em uma mesma moeda! (Impressões)

Está para fazer quase um mês que Flinthook foi lançado e tenho uma pequena sensação de que ele não recebeu toda a atenção de que realmente deveria por parte da imprensa em geral, tanto nacional, quanto internacional. Poucos veículos fizeram seu review, poucos comentaram a respeito.

Claro que isso é só uma sensação daquilo que transcorreu pela minha bolha de feedback. É impossível olhar e se atentar a todos os sites, mas pra mim, parece que Flinthook merecia ter sido mais enaltecido pelos veículos que sigo, e tirando um ou outro, não foi o que pareceu pra mim.

Talvez o problema tenha sido o fato de Flinthook ter saído em uma semana de abril cheio de bons games. Foi na mesma semana em que foram lançados títulos como Wonder Boy: The Dragon’s Trap, The Disney Afternoon Collection, Shiness: The Lightning Kingdom, Rise & Shine (no PS4), o primeiro episódio de Marvel’s Guardians of the Galaxy: The Telltale Series e Full Throttle Remastered. A concorrência estava acirrada na semana de 18 de abril, sem mencionar que o mês de abril inteiro foi um mês interessantíssimo na esfera de Indie Games.

Enfim, indo adiante, Flinthook é um game de plataforma com vários elementos roguelike (fases geradas de forma aleatória). Título desenvolvido pela Tribute Game, pequeno estúdio indie localizado em Montreal, no Canadá. Não é o primeiro game do estúdio, que parece ter um histórico de apostar em games com belíssimos gráficos em estilo pixel art.

Tantos bons pontos positivos…

  • Visual e gráficos

Quase cometi a gafe no parágrafo acima de dizer que os gráficos em pixel art de Flinthook são o ponto alto do game. Não são. Na verdade o jogo tem diversos pontos altos. Diversas qualidades que enaltecem e criam um game maravilhosamente apaixonante. Daqueles que você sente vontade de jogar e jogar e jogar, só para ver no que mais ele consegue lhe surpreender.

Parece exagero, mas não é. Em um primeiro contato superficial Flinthook parece um game de plataforma qualquer, em gráficos de pixel art como tantos outros por aí. Porém é no esmero, no capricho dos muitos detalhes que o título se sobressai acima da concorrência.

O visual é inacreditável. Tem esse estilo retro de gráficos, mas imagino que um Super Nintendo jamais conseguiria rodar um game como ele. A riqueza do cenário e ambiente do jogo beiram o absurdo. Há profundidade no cenário, com detalhes ao fundo. Na parte da frente do jogo, há muitos itens na tela, brigando pela atenção do jogador. São itens de cenário, objetos destrutíveis, armadilhas das mais diversas formas que se movimentam, ganchos espalhados por todo o espaço do ambiente, inimigos ricos em detalhes visuais. É animal.

Há quem possa considerar isso poluição visual que pode atrapalhar o gameplay, mas pra mim é justamente o contrário. É isso que dá charme ao game. A explosão de cores e objetos torna tudo mais interessante, mais imersivo e interativo. Dá uma sensação de vivacidade que poucos jogos 2D conseguem passar. O game te leva para dentro do universo proposto por sua arte única.

  • Roguelike

Indo além dos gráficos, Flinthook também te ganha pelos elementos roguelike. Cada jogo é único. Cada aventura de cada jogador será de um jeito. Todo o jogo é baseado em masmorras, com diversas salas. Tais masmorras são interpretadas pelo game como navios de batalha especiais. Cada navio é único, criando salas dentro de si com desafios próprios.

Flinthook, o protagonista do game, é (supostamente) um pirata espacial caçando a cabeças de alguns vilões que possuem altas recompensas (há uma história além disso, mas você só a entende e descobre mais se jogar, então qualquer coisa que eu disser será spoiler).

Ao entrar em um navio, que é composto por diversas salas, é preciso encontrar a saída. As entradas dentro do navio não são lineares, o que significa que o jogador pode vir a ter até três direções para onde deve ir. Cada sala pode conter um tesouro, um vendedor, um desafio de plataforma ou um modo arena com inimigos surgindo em ondas.  Antes da saída há sempre uma sala de combate com alguns inimigos mais aprimorados.

  • Dificuldade

O objetivo principal da campanha é coletar pequenas pedras especiais que você dá para sua bússola comer (ela é uma pequena criatura espacial) e ao completar uma certa quantidade de pedras coletadas (a primeira vez, por exemplo, são três pedras) a bússola irá lhe guiar para o navio do chefe da história, a quem Flinthook está caçando.

Tem uma pegada aqui. Coletou duas pedras, falta uma, e aconteceu de morrer? Você perde todo o progresso e precisa viajar novamente para três navios e coletar três pedras novamente. Chegou no chefe principal da campanha e morreu? Ele foge e o jogador precisa coletar novamente mais três pedras até encontrá-lo de novo.

Parece cruel, e as vezes é mesmo. Imagine jogar por uma hora para encontrar as pedras e chegar ao chefe e morrer nele? Ou estar coletando – por exemplo na segunda caçada são 4 pedras – e ao faltar uma para completar o caminho da bússola você morre? Chato, não? Eu passei por isso na segunda recompensa da campanha. Morri no último navio masmorra antes do chefe da história. E aí tem que começar tudo de novo.

Quer algo mais cruel? A sua energia não volta à 100% ao sair de um navio e ir para o outro. Deu sorte e coletou a segunda pedra de bússola com 10 pontos de energia? Ao começar o próximo navio, sua energia irá continuar com 10 pontos. Felizmente há diversos meios dentro das fases para conseguir restaurar parte ou totalmente sua energia (normalmente entre 100 a 125 pontos).

Essa questão do “morreu perdeu” pode parecer um ponto negativo, mas não é (necessariamente). É isso que dá longevidade ao título. Isso porque os navios são gerados de forma aleatório. Existem diversos tipos, com as mais diferentes salas e situação. Mesmo refazendo toda a coleta de pedras tudo de novo, a sensação é de sempre estar em uma nova experiência dentro do game.

Ao todo Flinthook tem 4 chefes principais e 3 chefes secretos (estes levem a um final secreto). Parece pouco, mas tome como exemplo meu caso. Com três horas de campanha, ainda não havia conseguido sequer derrotar o segundo chefe do game.

Acaba que Flinthook não é sobre avançar dentro de sua campanha, mas de se divertir pelos diversos navios e situações diferentes na qual o game consegue impor ao jogador.

  • Habilidades e perks

A tudo isso também soma-se as mecânicas de RPG que o game possui. Seu personagem sobe de nível, pode adquirir novas habilidades (com o dinheiro coletado pelas fases), além de muita coisa que se ganha ser obtida através do conceito de loot. Isso porque também existe um menu de habilidades e perks.

Isso quer dizer que há slots que podem mexer na jogabilidade. Quer começar um navio comendo uma maça e recuperando a energia? Basta ter uma carta dessa habilidade e ter um espaço no seu menu de habilidades para inseri-la. Estes slots podem ser expandidos comprando novos espaços na vendinha do game (o Black Market). Eu gosto muito, por exemplo, de um perk que duplica o tamanho do tiro da minha pistola, fazendo com que a bala seja praticamente do tamanho de Flinthook. É ótimo para não precisar ser tão preciso em combates.

E existem habilidades e perks de tudo quanto é tipo. Aumentam seu ataque, torna-o mais resistente, dá mais XP para subir de experiência mais rápido, aumenta o HP do personagem e assim por diante. Estas cartas são encontradas de forma aleatória dentro das fases e em salas especiais dentro dos navios. Por isso explorar, e não apenas ir até a saída de cada fase acaba sendo também importante.

Além disso, há um menu de colecionáveis dentro do game. De objetos e de conteúdo de lore, que contextualiza o universo da série e dá detalhes extras da história do game. Estes objetos deixam o jogador curioso para saber o que mais ele irá encontrar explorando o game.

  • Jogabilidade

Então recapitulando: belos gráficos (nostálgicos, mas altamente modernos), longevidade graças a inteligência de geração aleatória de fases (navios, salas e desafios), um grau de dificuldade para não dar tudo de mão beijada ao jogador, sistema de progressão de nível, menu de habilidades customizáveis por meio de cartas e slots que mudam status e jogabilidade, e o incentivo ferrenho a explorar mais pelo loot a ser descoberto. O que mais falta? Jogabilidade, é claro!

A jogabilidade de Flinthook é uma delícia. Não é perfeita, mas dentro de sua proposta é muito melhor do que poderia esperar. O maior destaque sem dúvida fica para o gancho, na qual Flinthook pode atirar em locais onde ele se engancha, puxando o jogador para o ar, permitindo escalar as fases, ao invés apenas de pular de uma plataforma para outra. Isso aumenta bastante a agilidade e mobilidade do personagem.

E o game é sobre ser ágil e rápido, especialmente nas salas de desafio em plataforma. Nas arenas de combate é mais sobre saber se posicionar diante dos diferentes tipos de inimigos que vão surgindo, ainda que para isso seja necessário ser rápido para onde ir e assim ficar posicionado.

O gancho também permite estourar bolhas, que normalmente podem proteger algum inimigo ou um sino que ao ser tocado ativa alguma coisa dentro da sala, como uma plataforma inativa. Só que o gancho não serve para atacar inimigos. Estes só recebem dano de sua pistola.

O grande lance do gancho é que os desenvolvedores optaram por uma medida incomum de controle e mira do mesmo. O normal seria utilizar a alavanca da direita do controle para mirar o gancho antes de atirar ele para algum lugar, só que não é assim aqui. A alavanca (analógico) da esquerda, aquele que controla o personagem, é a mesma alavanca que mira e direciona também o gancho. Significa que o jogador mira com o gancho sempre em movimento, indo para a direção na qual quer que o gancho se prenda.

É difícil no começo se acostumar a essa ideia de mirar em movimento. Parece natural a qualquer jogador querer ficar parado e mirar antes de atirar, o que é impossível aqui já que o analógico que mira também movimenta o personagem. Não é um esquema de controles ruins, mas é incomum e leva tempo para se acostumar, especialmente nos momentos mais caóticos de certos estágios do game.

Para tornar esse recurso mais amigável, dentro das mecânicas do game, há um artefato que Flinthook carrega consigo que pode diminuir a velocidade do espaço tempo, fazendo tudo se mexer em câmera lenta. Assim em um pulo mais complicado, em uma batalha com inimigos atirando para todos os lados, em momentos onde não se consiga se concentrar em tudo que está acontecendo dentro da sala é dado ao jogador a opção de reduzir a velocidade do jogo momentaneamente, apenas por alguns segundos (o suficiente para se encontrar e se posicionar de forma adequada ao desafio enfrentado).

https://www.facebook.com/Portallos/videos/1292364210849266/

Há inclusive barreiras de energia que só podem ser ultrapassadas quando se diminui o tempo, fazendo-as desaparecerem enquanto o tempo desacelera.

A jogabilidade de Flinthook é uma mistura de tudo isso um pouco. Shooter, plataforma, agilidade em escalar sem pisar no chão, combates por hordas, desafios de tempo desacelerado e por aí vai. Ao menos tempo em que é simples, também é complexo (e completo), no sentido de que o jogador não fica entediado fácil com estes mecanismos e recursos, porque a cada sala você está fazendo algo e jogando de uma forma diferente. É um game que estimula a exploração, a curiosidade e a criatividade.

  • Trilha sonora

Na cereja de tudo isso, acaba sendo impossível não elogiar a belíssima trilha sonora do game. A música tema do game é incrível, o som das fases é ótimo. Dá uma vibração de energia, de vibrar e pular com a agitação do game. Tudo regado a essa pegada de música 8-Bit de antigos games, mas suspeito que um pouco mais moderna e não tão limitada quanto era compor trilhas nos antigos games da década de 80 e 90.

https://www.facebook.com/Portallos/videos/1292358540849833/

Tudo é contagiante em Flinthook. Ao menos foi o que senti, como um veterano que vivenciou os games desde a era do Atari. Não posso dar a visão de um jogador que nasceu nessa década, que teve seu primeiro console com um PlayStation ou um videogame similar. Flinthook é uma homenagem aos clássicos de uma época um pouco mais atrás, mas sem se apegar as limitações dos antigos games. Ele é moderno e audacioso, fazendo coisas que os antigos games não dariam conta de fazer.

Depois de tantos elogios, quais os problemas?

Não existe game perfeito, certo? Claro que Flinthook é maravilhoso, mas isso não o isenta de algumas críticas.

A dificuldade do game é escalonada, quanto mais se avança, mais difícil fica. Isso pode ser bom, mas também pode ser muito ruim. É uma faca de dois cumes, pois o sistema na qual o jogador ao morrer perde todo seu progresso com a bússola para encontrar o chefe pode dar a sensação de que o jogo não está progredindo.

Quando isso ocorre uma ou duas vezes tudo bem, mas sendo um game de sistema roguelike, com tudo sendo gerado de forma aleatória, as vezes o game dá essa sensação de que você mais depende da sorte de cair em uma boa masmorra do que conseguir progredir por mérito próprio. Em outras situações é impossível não pensar que o game quer que o jogador faça grinding (jogar apenas para subir de nível) antes que novos chefes se tornem acessíveis.

Acaba que o nível de dificuldade não acompanha a vontade do jogador de progredir. Há essa barreira na qual o game vai ficar muito difícil e fará o jogador ter que se fortalecer melhor antes de continuar. Exceto se você for muito bom mesmo, o que nem sempre é o caso, porque o game é feito para te pegar desprevenido a todo momento, seja por armadilhas ou novos esquemas de hordas de inimigos.

Com isso, dentro da repetição de looping em busca de pedras para a bússola para chegar aos chefes finais de cada ato da campanha, o jogador acaba passando por muitos navios, bem mais do que o exigido, e é impossível não perceber certas configuração de masmorras. Não é tão comum, mas as vezes as salas vão se repetir dentro de masmorras diferentes. Isso quebra um pouco a magia do game. Fica aquela sensação “já passei por isso“, mesmo que a sala seguinte seja diferente de tudo até então visto.

E como todo o jogo é configurado para ser um navio espacial atrás do outro, a ambientação não se torna tão diferente assim do começo ao final do game. O layout muda um pouco conforme o game progride, mas na essência, Flinthook está indo de um navio pirata a outro navio. Não é como se o jogo tivesse “mundos” diferentes, como floresta, deserto e outros clichês do gênero plataforma 2D. Se ao menos a pilhagem acontecesse alguns planetas também, o visual poderia vez ou outra ser diferente.

O que estou dizendo é que pode acontecer do jogador se cansar um pouco do game após algumas horas, caso não esteja progredindo nele. E somente o sistema de nível, que segue melhorando mesmo que o jogador siga perdendo, não sustenta todo o resto.

E tudo isso não tem conserto. É parte do DNA de Flinthook. É bom até o momento em que não é mais tão bom assim. O que não significa que parando um pouco com o game e retornando algumas horas depois não volte a ficar divertido de novo, pois realmente volta.

Uma boa alternativa disso é jogar um pouco os modos desafios, em especial a modalidade de desafio diário e semanal, que customiza uma masmorra especial para todos os jogadores vencerem e ganharem um loot bacana. Desencanar um pouco do modo história.

Também é uma pena que Flinthook não tenha nenhuma modalidade multiplayer. Penso como um modo cooperativo dentro da campanha principal, com dois jogadores em tela, seria algo bem interessante de se ver. Uma competição para ver quem coleta mais moedas, quem elimina mais inimigos. Seria muito legal e é pena não ter nada assim.

https://www.facebook.com/Portallos/videos/1292361064182914/

Considerações finais

Um boa vantagem de Flinthook – porque o brasileiro se preocupa com isso – é o seu preço. O game custa apenas 29 reais na Steam e na Microsoft Store. Na PlayStation Store está um pouco mais caro, como é de costume da plataforma, saindo por 48 reais – e mesmo assim é um preço que vale a pena pelo game.

Acaba sendo um ótimo título com bom custo benefício. É um daqueles games para se jogar e intercalar com outros games maiores. Não que seja um game curto. Eu meio que duvido alguém na primeira vez que estiver jogando vá conseguir bater o game antes de 5 horas de jogo. Acho bem impossível, especialmente pegando tudo, completando os colecionáveis, encontrando os chefes segredos e etc.

É um game longo, mas que não instiga o jogado a terminar o mais rápido possível. Ele sabe ser apreciado e quer que o jogador explore ao máximo seus recursos, mesmo que para isso ele tenha que ser meio cruel em sua dificuldade. É um game gostoso de se jogar por algumas horas, antes de ir para algo mais pesado.

Ele tem esse clima nostálgico com a era de ouro dos videogames, mas sem soar arcaico ou ultrapassado. As mecânicas e os trejeitos do game ressoam perfeitamente com os games modernos dessa geração. Flinthook é um acerto certeiro da Tribute Games ao coração de muitos jogadores veteranos. E espero que também seja aos novos jogadores que nasceram agora, depois dos anos 2000. É um título que vale a pena experimentar e tirar suas próprias conclusões a seu respeito.

Visual e gráficos em pixel art incríveis
Sistema roguelike torna cada gameplay único
Personagem evolui e dá sensação de progressão
Dificuldade "tudo ou nada" pode soar cruel
Excelente e contagiante trilha sonora
Jogabilidade e mecânicas em harmonia com level design
Loot é generoso e o game instiga grinding

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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