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The Disney Afternoon Collection | Raridades (quase) esquecidas! (Impressões)

Lançado no último dia 18 de abril, The Diney Afternoon Collection é uma viagem no tempo, para um delicioso período na qual a Capcom foi responsável por incríveis games de personagens de propriedade da Disney. Jogos que sofreram forte influência dos games clássicos de 8-Bits de Mega Man, porém sem que soassem como meros clones. Cada um dos games dessa coletânea tem sua própria pegada e charme original.

O mais interessante nessa coleção é o respeito e o cuidado em como ao trazer de volta estes games para serem apresentados a uma nova geração de jogadores, mantendo totalmente a identidade e experiência original de quando estes jogos foram lançados, entre o final da década de 80 e início dos anos 90.

Isso significa que bugs, glitches e até mesmo aquelas engasgadinhas quando há muitos elementos na tela – típicos de muitos jogos dessa época – ainda existem aqui, tornando bem real a experiência que estes games proporcionaram no passado. E não é algo necessariamente ruim, pois os jogos rodavam assim mesmo (sempre) e os jogadores se adaptavam e utilizam estas cenas em que tudo ficava mais lento para se adaptarem e escaparem dos perigos que surgiam nestas horas.

Idem para os casos de speedruns, em que se utilizavam de pequenos bugs para se conseguir atravessar paredes ou obstáculos, sem precisar fazer o que o game originalmente exigia. Eram recursos que estes games traziam, sem querer, mas que acabariam se tornando parte do DNA destes jogos com o passar dos anos e que continua incluso nessa coleção.

O jeito de jogar videogame no passado, na qual o jogador tinha vidas e continues limitados, e nenhum tipo de checkpoint ou saves para serem carregados – as vezes com sorte haviam os passwords – eram muitas vezes bem mais cruéis do que os games hoje em dia são. Afinal tais jogos eram, em comparação com os de hoje, muito menores em tempo de duração. Era preciso matar o jogador, fazê-lo recomeçar tudo de novo, e por várias vezes se os produtores quisessem que um game fizesse sucesso. Parte do sucesso do Mega Man de 8-Bits se resumia a isso, e boa parte dos games encontrados em The Disney Afternoon Collection também são.

Port com Twist

A Capcom soube respeitar o máximo a fidelidade destes seis games, tal como aconteceu com Mega Man Legacy Collection, permitindo ao jogador de hoje experimentar como era ser um jogador da era NES. Também houve a preocupação com proporcionar algo novo, algo que não era possível nos meus tempos de suar com uma única vida tentando ir em frente até onde era possível (ou conseguir ganhar mais uma vida) em games como DuckTales e Rescue Rangers, os dois títulos que mais joguei quando criança.

Portanto, junto da experiência original, todos os seis jogos apresentam dois recursos mais do que bem vindos: a possibilidade de salvar a qualquer momento para que seja possível continuar de onde parou depois de algumas horas de descanso, já que por mais que sejam curtinhos, jogar um destes jogos sem saber exatamente o que vem a seguir nas fases pode ser bem exaustivo; e a função de rebobinar seus erros em tempo real, na qual basta segurar um botão no controle para que o game comece a rebobinar (tal qual uma fita VHS – você sabe o que é isso, né?) segundos ou trechos inteiro do game, permitindo que o jogador refaça tudo de novo, sem qualquer tipo de penalidade.

E talvez isso soe estranho depois de todo o papo mais acima, sobre jogar com a fidelidade original da época, mas logo fica claro que estes games funcionavam no passado por alguns motivos que hoje em dia não fazem mais sentido. Experimentar eles como foram concebidos, em seus gráficos, formado e gracejos não significa jogar todos de cabo a rabo assim. Estas features de salvamento e rebobinar erros estão entre o meio termo, permitindo o jogador a experiência clássica… até não querer mais – e aí vale usar estes recursos para ver o que há adiante nestes jogos. Mais justo do que penalizá-los por um sistema que hoje em dia não funciona mais assim, ainda mais com todo mundo sempre com pressa pelo próximo game a ser jogado.

Por último, parece importante também mencionar os modos extras, como os modos Ataque por Tempo e o Corrida do Chefe, que consistem justamente em duas modalidades na qual o jogador corre contra o relógio, um para zerar o game todo o mais rápido possível e o outro para enfrentar todos os chefes do jogo em sequência. São ótimos modos que aumentam o replay do game e adicionam leaderboards em todos os títulos da coleção, permitindo inclusive que os jogadores assistam outros jogadores baterem seus recordes.

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Baú de recordações

Outro detalhe que faz toda a diferença nesse tipo de coletânea de clássicos do passado tem sido o museu que a Capcom tem inserido nestas coleções, preservando não só a memória dos jogos em si, mas também dos bastidores do desenvolvimento dos títulos.

Aqui em The Disney Afternoon Collection o museu é parte importantíssimo do conteúdo do game. São storyboards, artes conceituais e não usadas, caixinhas da época em que os games foram lançados e muito mais. E toda a trilha sonora dos games pode ser ouvida em um menu à parte, apenas para matar a saudade desse sonzinho gostoso que eram os games das antigas. Tudo devidamente documentado, com observações colocadas aqui para contextualizar o jogador. Houve até mesmo o carinho de localizar estes extras, colocando os textos informativos com legendas em português.

Mesmo que a localização se dê apenas nos menus e nestes extras, a localização já vale a pena. Claro que os games originais não foram localizados para esta coleção, mantendo-se apenas em seu idioma original (inglês), porque na época não tínhamos games em português. Felizmente isso não era um empecilho para os jogadores das antigas, e continuam não sendo até hoje. Os jogos são simples, com apenas caixas de textos no começo e em pontuais momentos entre capítulos ou fases. E são historinhas simples, apenas para justificar o momento ou as fases, sem serem nada grandioso ou incrível.

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Patos, ursos e esquilos!

Eliminado toda a bagagem sobre a coletânea, seus extras e recursos que a tornam tão especial quanto os games que a compõem acho importante, agora, falar um pouco sobre tais títulos.

Então para os desavisados, rapidamente vamos relembrar todos os jogos que estão no pacote The Disney Afternoon Collection: Chip ‘n Dale Rescue Rangers, Chip ‘n Dale Rescue Rangers 2, Darkwing Duck, DuckTales, DuckTales 2 e TaleSpin. Lembrando que o nome da coleção remete ao bloco que existia na TV norte-americana que exibia tais desenhos. Aqui no Brasil não se chegou a ter um bloco assim, sendo que os desenhos que inspiraram os games chegaram a ser exibidos por aqui entre o final dos anos 80, por toda a década de 90 e até mesmo depois nos anos 2000, em grande parte entre os canais do SBT e Globo (esta última quando a mesma ainda tinha um bloco matinal para desenhos animados).

A título de curiosidade, é comum muita gente confundir hoje em dia o bloco do Disney Afternoon dos Estados Unidos com o clássico Disney Cruj que foi lançado no Brasil pelo no SBT no final dos anos 90. Uma coisa não tem exatamente nada a ver com a outra. Sem mencionar que o Disney Cruj chegou ao Brasil em um período na qual tais desenhos já haviam sido cancelados lá fora. Os destaques maiores do Disney Cruj, quando o mesmo estreou em 1997, eram desenhos como A Turma do Pateta, Os Superpatos, Timão & Pumba, entre outros. DuckTales até chegou a ser exibido por um curto período, mas ele já havia sido cancelado há anos lá fora.

Então talvez o nome da coletânea não seja tão emblemático para o público brasileiro quanto os games e os nomes dos desenhos em si. O que não a torna menos importante, claro.

Aqui no Brasil Chip ‘n Dale Rescue Rangers recebeu o nome de Tico e Teco e os Defensores da Lei – ainda que eu me lembre de um outro nome ainda mais antigo: Conexão Salva-Ação. O game baseado no desenho animado era um coop para dois jogadores, algo nem tão comum para a época. E era esse aspecto que tornava o game tão bom.

Jogar com um amigo era incrível porque o game exigia coordenação dos jogadores. Era um daqueles clássicos games na qual um jogador poderia avançar demais e travar o outro jogador, era a famosa situação de “não trava a tela, fulano“. E é estranho jogar Rescue Ranger hoje em dia e pensar que não é possível voltar a fase, se a tela andou, o que ficou para trás ficou.

Rescue Ranger era diferente de games como Mega Man ou Super Mario. O jogador não tinha nenhuma arma de tiro ou a possibilidade de pular na cabeça de inimigos para matá-los. Era preciso pegar caixas no cenário para se esconder ou arremessar nos inimigos. E havia fogo amigo, ou seja, atirar uma caixa em direção ao segundo jogador o deixava tonto e vulnerável aos inimigos em tela. Era um cooperativo caótico, na qual em partes de plataforma era muito mais fácil um jogador pegar o outro e carregá-lo na suas costas para que um não trombasse no outro e alguém caísse para a morte.

Até hoje as mecânicas de Rescue Ranger são geniais. E pouquíssimos games passariam a sensação e diversão que essa franquia passava em seus tempos de ouro. A sequência, Chip ‘n Dale Rescue Rangers 2, aprimora um pouco as mecânicas, feita alguns anos depois também traz gráficos um pouco mais detalhados, mas no geral mantém o mesmo clima divertido e cooperativo do primeiro game.

 Destaque para as batalhas de chefes. Sempre diferentes e sempre envolvendo ter que pegar um objeto na tela para arremessar contra o chefão. Só era preciso aprender seus movimentos e aguardar o momento certo para atacar.

De todos os títulos da coleção, certamente Rescue Rangers (o primeiro) é o meu favorito. Gostaria muito que a Capcom um dia fizesse um remake do game tal qual fez com DuckTales Remastered há alguns anos atrás.

Falando em DuckTales, eis outro títulos da coleção que merece algumas palavrinhas. Quem justamente jogou a remaster lançada em 2013 vai poder apreciar o game original, já que a nova versão desenvolvida pela WayForward toma várias liberdades criativas, modificando um pouco mecânicas e deu uma outra (nova) cara ao título em questão.

A versão original é mais… como dizer? Rústica? Talvez seja isso. O fato é que a WayForward usa toda a base, mas acrescente tantos pequenos detalhes e mimos que parte da essência do original fica meio perdido nos belíssimos gráficos da versão remasterizada.

Aqui, nesta coletânea, a experiência com o game original de DuckTales é mais pé no chão, mais de raiz. E isso é muito bom! É um título que todo mundo que teve um NES nos anos 90 deve ter jogado. E é um título genial até hoje, também mantendo mecânicas originais e respeitando muito o legado que o desenho na TV havia criado, que por consequência também respeita muito o material original do Tio Patinhas criado por Carl Barks. E é por isso que tudo que tem o nome DuckTales é bom até os dias de hoje. Incluindo o game aqui discutido!

É legal como o game DuckTales é cheio de segredinhos, de salas secretas, itens escondidos e não é um típico game de plataforma na qual o jogador se desloca de forma linear. Existem diversos caminhos, tornando confuso a tarefa de saber para qual sala ir primeiro. É interessante ver como todos estes games eram diferentes entre si, cada um com suas próprias ideias originais. E pensar que décadas depois, a bengala de Tio Patinhas acabou sendo influência para o indie game Shovel Knight, que faz tanto sucesso nos dias de hoje.

Quanto a sequência de DuckTales, não tão famosa quanto o game original, ainda assim é tão icônica quanto. Sem mencionar que tanto quanto Rescue Rangers 2, são duas raridades incríveis que nunca estiveram em outras plataformas. Nunca tiveram remakers ou relançamentos. É preciso agradecer imensamente a Capcom por estar tirando essas pérolas de seu baú, pois certamente já estavam esquecidas (e perdidas) no tempo.

https://www.facebook.com/Portallos/videos/1292179604201060/

Tão esquecido quanto estas sequências, são os games de Darkwing Duck, que até então eu nem sequer sabia que existia, e TaleSpin, que aqui no Brasil o desenho tem mais fama pelo nome de Esquadrilha Parafuso.

De todos os seis games, o jogo de Darkwing Duck é o que mais lembra um Mega Man em sua fórmula mais clássica. Isso porque DW tem uma pistola de balas infinitas para lidar com os inimigos em tela. É um jogo de pular e atirar, com o plot twist de que DW pode se enganchar em quase todos os tipos de plataformas e subir nelas de uma forma que Mega Man nunca pôde.

Há diferentes tipos de tipos, os chefes são icônicos vilões da série animada e o game esconde alguns segredinhos escondidinhos para aqueles jogadores que escalarem com atenção as plataformas do game. É um título que usa e abusa dessa ideia de plataforma, de estar pulando de um lugar para o outro constantemente. Com a boa notícia de que é possível selecionar a fase por onde iniciar a aventura, tal qual DuckTales e Mega Man permitem.

De todos os títulos dessa coleção, Darkwing Duck foi o que me pareceu mais tranquilo, mais facinho. Não que isso seja um demérito, é claro. Talvez seja a experiência de infância com os Mega Man. De qualquer forma, foi bem legal viajar de novo pelo universo de DW e de toda a sua galeria de vilões.

TaleSpin, por outro lado, foi o título mais difícil dessa coleção. Diferente dos demais, que consistem basicamente em games de plataforma clássico, TaleSpin é um shooter de navinha. E um dos difíceis!

As fases rolam de forma automática e Balu e seu avião são lentos. Os tiros são intercalados, com um bom espaço entre eles. Assim o jogador precisa pensar com muita calma quando atirar e quanto apenas desviar. O jogo ainda tem uma mecânica que permite que Balu fique de ponta cabeça, o que faz o avião voltar a fase, o que é estranho e assustadoramente perigoso.

O que mais me impressionou foram as fases mais adiantes, como a mansão assombrada, em que o jogador morre muito fácil. Sem a habilidade de rebobinar acho que jamais chegaria tão longe nesse jogo. Não me imagino jogando esse título quando criança e conseguindo ir longe nele. Não é difícil quanto um Battletoads, mas achei que chegou bem perto em certos momentos. Em especial para algumas das batalhas de chefes.

Ao fim, é interessante como cada série dessa coletânea tem sua própria pegada, suas próprias mecânicas e como todas parecem funcionar a proposta do universo de cada uma das séries animada que serviram como base para os games. Bons tempos de Capcom, de o porquê muitos jogadores veteranos a ama-la até os dias de hoje. E até rola uma certa lamentação da Disney de não apresentar interesse em criar novos games com os muitos clássicos que existem em seu passado.

Vale a pena revisitar esse passado. Ou… se você for desta geração, tenha certeza que vai se divertir conhecendo estes clássicos. Apresentei todos ao meu filho de 4 anos, e apesar dele não ter gostado muito de um ou outro, DuckTales e Rescue Ranger (este principalmente) ele adorou. Especialmente depois de entender que poderia rebobinar e arrumar seus erros. Uma prova que gráficos até hoje não são tudo que realmente importa. É realmente a experiência e a diversão que ainda contam e valem a pena, especialmente nestes jogos de um passado tão maravilhoso.

https://www.facebook.com/Portallos/videos/1292174267534927/

(Extra) Para saber mais…

O canal no You Tube da Capcom US liberou há alguns dias quatro vídeos especiais apresentando as quatro séries animadas que compõem os seis games dessa coleção. Achei oportuno encerrar a análise de The Disney Afternoon Collection com estes vídeos. É isso!

Ports fiéis para a experiência original dos seis games
Rebobinar e salvar ajudam os games a serem mais divertidos
Games raros e preciosos, que mereciam esse retorno
Conteúdo extra e curiosidades no Museu
DuckTales e Rescue Rangers são as estrelas da coleção
Modos extras e leadeboards aumentam o replay

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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