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Batman: The Telltale Series | Atos e consequências da primeira temporada! (Impressões)

Quando escrevi, ano passado, minhas impressões do primeiro episódio de Batman: The Telltale Series acabei acertando quase todos os aspectos e elementos do que viria a ser o tom do game ao longo de toda a sua primeira temporada (composta de cinco episódios).

Na ocasião indaguei se valeria a pena continuar jogando os episódios conforme eles seriam lançados ou se aguardaria o lançamento da temporada completa, já que esta última opção talvez deixasse o jogador melhor saciado com o game como um todo. No fim, eu mesmo acabei optando por esperar também.

A sensação é que assim funcionou melhor a proposta do game pra mim. Saio dessa temporada animadão para já engatar a segunda (The Enemy Within), cujo o primeiro episódio foi lançado na semana passada. Porém, em contra partida, não acho que toda produção da Telltale Games precise funcionar assim, esperando a conclusão de uma temporada. Digo isso tendo como base a minha experiência atual com Guardiões da Galáxia, onde estou jogando-o episódio a episódio e está funcionando muito bem essa experiência episódica.

O que acho que aconteceu comigo em Batman: The Telltale Series foi a demora na qual o roteiro levou a engatar e me convencer de que tratava de um universo próprio para um personagem que tem mil versões de origem, sendo que nem estas novas versões conseguem ser tão impactantes ou revigorantes quanto possuem a pretensão de serem.

Foi justamente no final do segundo episódio, o miolo do terceiro (que possui uma barrigada de gordura grande para a trama) e com o início do quarto (talvez episódio mais legal de todos) que o título me convenceu plenamente de que se tratava de uma nova releitura desse universo e que valeria a pena conhecer e torcer para continuar crescendo. E felizmente irá, pois já saiu o primeiro episódio da semana temporada que fará justamente isso.

De fato, é a sua história!

ATENÇÃO: pequenos spoilers de pontos secundários de alguns episódios, mas nada que vá estragar a sua experiência como um todo com o jogo caso ainda não tenha jogado ou decida jogá-lo eventualmente.

Um dos pontos que mudou bastante em relação ao texto em que fiz sobre o primeiro episódio diz respeito as decisões e em como elas moldam parcialmente o universo e contexto dessa versão do morcego de Gotham. Por exemplo, a minha temporada foi encerrada sem que o Harvey Dent tivesse seu rosto desfigurado, tal como é clássica faceta do vilão Duas Caras nos quadrinhos.

E foi chocante descobrir que para a maior parte dos jogadores esse ponto de virada aconteceu por causa de uma simples decisão ao final do segundo episódio. E a Telltale fez um excelente trabalho com esse personagem aqui. Se ele não tem sua face queimada pelo Pinguim, significa que ele não irá se tornar o Duas Caras? Não necessariamente. O jogo cria soluções realmente interessantes para que o psicológico de Harvey o pertupe, independente do trauma físico ter ocorrido ou não, mas essa mudança é muito mais sutil, talvez até mais perturbadora, pois aí é o monstro interior dele falando sem que haja o facilitador visual para convencer o espectador.

Fiquei verdadeiramente satisfeito de ter apoiado Harvey incondicionalmente ao longo de toda a aventura, independente do fato de que ao fim não fosse possível salvá-lo daquilo que o atormentava em interior. Meu único pesar foi ter resolvido enfrentá-lo como Batman no desfecho final de sua história, pois com isso ocasionei uma lesão nele que certamente trará consequências futuras. O final da história do Harvey com o confronto acontecendo contra o Bruce Wayne tem um impacto narrativo muito maior (sei disso porque acabei espiando no You Tube).

E a Telltale faz uma pegadinha bem interessante nesse revés de Harvey Dent versus Mulher Gato, pois me parece óbvio que a maioria esmagadora dos jogadores do sexo masculino iriam optar em fazer de tudo para se aproximarem e dormirem com a Selina, algo que não fiz em minha história (só a beijei em um momento na qual não havia mais motivos para continuar defendendo Harvey).

Acho legal que a Telltale mostre as estatísticas gerais dos jogadores para cada decisão chave da trama justamente para estes momentos de reflexão. Fiquei espantado, por exemplo, como a maioria esmagadora ajudou a Mulher Gato ao invés de Harvey no final do segundo ato. Ou como muitos foram recuperar a tecnologia de Batman do Pinguim, deixando a mansão Wayne a mercê do Harvey. São nestes pontos chaves que o título ganha méritos e demonstra a qualidade dos roteiros que a Telltale tem a fama de possuir.

Inicialmente todas as decisões que necessitam serem tomadas em Batman: The Telltale Series parecem meio óbvias, mas isso muda conforme a temporada avança. E existem, mais uma vez olhando as estatísticas globais, momentos em que os jogadores pareceram genuinamente divididos, como aqueles que escolheram tirar a máscara no confronto final da temporada (eu tirei) ou aqueles que não tiraram e sofreram com uma consequência terrível (que não revelarei). Ou aqueles que resolveram dever um favor ao “Coringa” (que ainda não é chamado assim) no começo do quarto episódio e se deixaram levar pela baderna dentro de Arkham (resultando na morte de alguém). Decididamente não aceitei ser ajudado nesse ponto, pois confiei que Alfred daria um jeito de me tirar dali. Dito e feito.

Essa construção multi lateral da trama em Batman: The Telltale Series é realmente bacana, independente do fato de que tudo isso irá levar aos mesmos pontos, ao mesmo confronto final. Apenas pequenas sequelas e consequências mudam, sem um impacto gigante no roteiro. Tudo é muito sutil, e esse é um ponto que divide também as discussões em torno do roteiro. Entendo a necessidade dessa sutileza em detrimento da existência de mais temporadas, porém é impossível não deixar de pensar que a Telltale poderia ter ousado mais em alguns momentos da trama.

As mortes que ocorrem nesta primeira temporada por exemplo. São poucas e pontuais, e todas meio que obrigatórias. Não encontrei nenhum momento onde poderia ter evitado que alguém morresse ou que vice versa. E queria muito que o game me desse esse tipo de impacto. De fato me levantai ao final do segundo episódio onde o jogo me pediu para decidir quem salvar – diante da dúvida se isso resultaria na morte de quem não escolhesse. Uma pena que o game não teve nada disso (especialmente sabendo que existem momentos assim na série de The Walking Dead da Telltales).

Narrativamente a Telltale parece ter jogado com certa segurança nesta primeira temporada de Batman: The Telltale Series. Minhas expectativas para esta segunda temporada é que isso possa escalonar um pouco mais agora que seu universo com o Batman estabeleceu alguns pilares. A primeira temporada tem aparições de diversos personagens que podem e devem voltar eventualmente na trama. Então que isso venha com mais impacto.

Mecânicas enferrujadas

Nas questões que envolvem a jogabilidade e mecânicas não só em Batman: The Telltale Series, mas nos títulos atuais da Telltale Games, meio que já comentei na análise dos primeiros episódios desse Batman e de Guardiões da Galáxia (links estão lá no começo desta postagem) onde digo que o estúdio anda deixando um pouco a desejar nestes aspectos, especialmente em detrimento de outros games semelhante ao gênero de storytelling existentes no mercado e nesta geração de consoles.

Os momentos de ação nos games da Telltale precisam irem além do Quick Time Event básico, onde a penalidade do erro é simplesmente um Game Over e “faça essa cena de novo”. É preciso dar um senso de causa e efeito, trazer as consequências também para esse momento. Oferecer caminhos e comandos alternativos para estes momentos. E não há. Em Batman: The Telltale Series, estes momentos de pancadaria são bem menos interessantes do que deveriam.

O quinto episódio tem cinematograficamente momentos de ação melhores do que todos os episódios anteriores, mas é só isso mesmo: são mais bonitos de se assistir. Talvez pelo próprio senso de urgência da trama, que está no ápice de seu clímax. O caso é que tais mecânicas talvez parecessem menos engessada se funcionassem dessa forma em todos os episódios, o que pra mim não funcionou.

Em adição a esse problema tem os puzzles de investigação que também não são tão difíceis ou engenhosos como se esperaria que fossem. Em alguns deles simplesmente já sabia aonde ligar, em outros apenas fiquei ligando até acertar os pontos certos. E novamente, os puzzles do último episódio são em geral os melhores de toda a temporada, não pela dificuldade em si, mas pelo momento em que acontecem e também porque estão revelando parte importante da trama. Eles se encaixam de uma forma essencial, porém ainda não oferecem um desafio de nível que causa impacto ao jogador.

O que me parece é que o estúdio precisa evoluir sua atual engine, chamada Telltale Tool. Essa é uma engine criada originalmente em 2004 e que mesmo que tenha recebido aprimoramentos ao longos do últimos anos, ainda dá claros sinais de envelhecimento.

Tudo bem que no caso de Batman: The Telltale Series o título chegou a sair nos consoles da geração passada e possui até versões em mobile, e quanto mais plataformas ele é desenvolvido, mais esse gargalho técnico parece não pode ser aprimorado. Infelizmente isso prejudica bastante quando se joga-o nos atuais consoles. Visualmente parece um título da geração passada, essa é a verdade. O que não dá a entender é porque esse Batman sofre com tantas quedas de frame rate nos atuais consoles (ao menos na versão de Xbox One tive em todos os episódios, mas já vi reclamações gerais disso em outras plataformas também).

A meu ver é essa necessidade de um título que precisa ser lançado em muitas plataformas, tanto atuais, quanto antigas, quanto mobile, que acaba nivelando a qualidade artística e técnica do game pela média padrão do que pode ser suportada em todas, assim não se usa todo o potencial que um Xbox One, PlayStation 4 e PC possuem.

E veja bem, não estou defendendo que o título não saia em determinadas plataformas. Estou dizendo que esse me parece um problema na qual a Telltale Games deveria estar estudando alternativas. E espero que esteja.

Uma última crítica diz respeito a localização do game no Brasil. O jogo possui legendas em português, porém existem diversas linhas de diálogos que não foram localizadas e apareceram pra mim em inglês. Ao menos foi assim durante a minha história e escalona conforme vai se aproximando perto do último episódio da temporada. Faltou cuidado com isso na hora de localizar todas as possível linhas de diálogo.

Considerações finais

Mesmo que Batman: The Telltale Series possua então uma jogabilidade mais engessada que outros títulos narrativos lançados nestes últimos anos, não significa que ele deixa de ser menos divertido. A Telltale Games ainda é um estúdio que sabe construir universos próprios e contar muito bem histórias inseridas nestes.

Esta primeira temporada tem como foco a faceta de Bruce Wayne, que nem sempre é muito bem explorada nos quadrinhos. E o game apresenta bons argumentos para mostrar dois lados de uma mesma moeda, enquanto também (não por mera coincidência) faz a mesma coisa ao trabalhar com a criação do vilão conhecido como Duas Caras.

O único fato que é um pouco difícil de comprar nesse universo (e não estou certo se os quadrinhos atuais do personagem também mexeram nisso) diz respeito aos pais de Bruce. Aqui, Thomas Wayne não é um santinho como muitos torciam para que fosse. Ter uma fortuna obtida por meios corruptos, uma corporação que surgiu dessa forma, com ligações com a máfia, com pais que não tinham uma moral impecável certamente desconstrói um pouco daquilo que estas figuras paternas sempre foram para o Batman. Se até mesmo seus pais se renderam a podridão de Gotham, o que diabos Batman está fazendo tentando argumentar o contrário? Há mesmo esperanças para Gotham?

Sempre tive pra mim que Bruce Wayne tinha esse apego da moral inabalável justamente porque sabia que seus pais faziam de tudo pelo bem de Gotham. Eles eram sua bússola moral. A Telltale desconstrói isso com um baque que ainda estou tentando me levantar e entender se haverá mais consequências desse terrível segredo colocado as caras de toda Gotham.

De todos os méritos, certamente são estas mudanças sutis no universo do Batman que tornam essa versão da Telltale tão interessante e instigante de ser apreciada. Não é aquela velha história recheada dos mesmos clichês óbvios, sem soar distante o suficiente para descaracterizar esse universo do Batman. Para quem é fã do personagem, é uma história que vale a pena conhecer. E também é um ótimo título para conhecer mais sobre a Telltale Games. É uma boa porta de entrada para aqueles jogadores que não estão habituados com esse gênero narrativo com tomada de decisões.

Galeria de imagens

Narrativamente fica melhor a cada episódio
Pontuais decisões que são difíceis de serem tomadas
Legendas bugadas (saem em inglês as vezes)
Jogabilidade engessada (combates e investigação)
Teltalle criando seu próprio universo do Batman
Visualmente e graficamente deixa a desejar

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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