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Análise | Venture Kid

Disponível para Nintendo Switch, PC e iOS

Claramente inspirada nos clássicos jogos 8 bits de Mega Man, Venture Kid é um jogo independente que diverte, mas que poderia ter ido além daquilo que promete. O título é uma produção do estúdio Snikkabo AS em parceria com a FDG Entertainment, esta última também a responsável pela distribuição global do jogo. Lançado no começo de maio, está disponível por um preço honestíssimo de apenas 10 dólares no Switch, 20 reais em nosso Steam e 5 dólares na App Store.

Como uma homenagem ao passado dos videogames, em toda sua glória da fase 8 bits, Venture Kid funciona muito bem. Os gráficos se mantém fiel ao que foram no passado, assim como a própria trilha sonora do jogo em chiptune. É um título que poderia tranquilamente ter sido lançado no auge de um Nintendinho (NES) ou Master System.

A fórmula dos clássicos Mega Man é utilizada aqui no sentido de que são 8 chefes, com o protagonista ganhando novas habilidades assim que derrota um destes chefes, e utilizando estas novas armas para ir adiante na campanha em si. Ao final resta mais dois estágios finais, com o vilão principal do game. A principal diferença fica por conta da impossibilidade de escolher qual estágio começar, sendo a progressão bem linear.

Desafio não encontrado

Acredito que a minha maior crítica em relação a Venture Kid diz respeito a baixa dificuldade que encontrei para vencer seus estágios e chefes. Foi tudo muito mais fácil do que esperava, com raríssimas exceções dentro do jogo.

Especialmente por se inspirar nos jogos antigos de Mega Man, minha expectativa era encontrar um desafio de passar raiva e ficar frustrado. Daqueles que o jogador morre até amaldiçoar todos os envolvidos na produção do jogo. E não foi isso que aconteceu desta vez. Venture Kid é super acessível e bem fácil.

Passei praticamente quase todos os estágios sem precisar de uma segunda chance. Em alguns casos morri, é claro. Mas não o suficiente para ficar sem vidas e ter que recomeçar tudo novamente. E não, não é o caso de ser muito bom nesse estilo de jogo retrô de ação e plataforma.

O que houve foram momento de desafio, um especificamente na fase da pirâmide onde não encontrei um objeto secreto, a qual tive que voltar eventualmente, e no primeiro estágio dos dois estágios finais, em quê há alguns desafios envolvendo pulos e espinhos. Até mesmo o chefe final venci de primeira, com ajuda de vidas e corações extras comprados na loja do jogo (acessível a qualquer momento das fases apertando Pause).

E não é como se o design das fases não fossem bons. Alguns são básicos, mas há boas ideias aqui e ali. O estágio da pirâmide, em específico, me chamou bastante atenção por ter uma brincadeira meio labirinto. É simples, mas é inteligente. Assim o da selva, que dá uma sensação de perda de direção ao subir e ir em sentidos opostos em certo momento de sua progressão.

Boas ideias também estão em alguns dos chefes do jogo. A dupla de chefes em um carrinho de mineração é muito bom (e relativamente difícil). Assim como o chefe usando uma motocicleta, outro que é um robô que faz uma brincadeira com a encarnação da morte e os diversos estágios finais do último chefe, um cientista maluco.

Outros pormenores

O que talvez dê um senso de dificuldade ao jogo seja a forma como o mesmo trata a barra de saúde do protagonista. Em Mega Man é um tranque com tracinhos que vão se esvaziando, aqui são os tradicionais corações. Inicialmente são apenas quatro corações. É pouco para alguns estágios. Mas aí estes possuem checkpoints e corações espalhados em sua progressão. Isso ajuda mais do que penso que deveria ajudar.

As armas obtidas ao final de cada chefe vencido não necessariamente está relacionado a sua habilidade. Até porque o protagonista é só um garoto. Não um robô que assimila tais habilidades. Na verdade um outro personagem, meio que um mecânico, é que constrói novos aparatos para o garoto. A própria história não tem nada demais, ao envolver um cientista louco criando uma arma de destruição em massa e um garoto indo atrás dele depois que sua irmã saiu machucada em um atentado envolvendo o vilão.

E estas novas armas servem de forma inteligente para avançar pelos próximos estágios, mas não necessariamente são eficazes contra os chefes em si. Ao menos não notei, fora que algumas são passivas, como poder andar sobre espinhos e a habilidade de pulo duplo. Certamente isso não serve para causar dano em alguns chefes, ainda que sejam práticos para a mobilidade do personagem em si.

Em boa parte do jogo, a arma padrão foi suficiente para quase todos os embates. Sendo que o bumerangue foi eficiente para pegar itens atrás de paredes, assim como a granada de chão para destruir inimigos que a arma principal não causava dano, ou um escudo que repele tiros de alguns tipos de robôs. São momentos bem pontuais para o uso dessas habilidades, tirando um pouco a inventividade do jogador para lidar com diferentes situações.

Os estágios de Venture Kid também possuem itens escondidos, que nem sempre estão realmente bem escondidos. Cheguei a ficar animado para saber o que estes objetos fariam ao fim, e me decepcionei ao saber que era apenas um requisito obrigatório para enfrentar a última parte do chefe ao final da campanha.

Considerações finais

Venture Kid é um jogo independente muito simples, tanto que talvez esse seja seu maior pecado. Mesmo que sua simplicidade esteja condizente com o preço ou com o caráter de jogo de baixíssimo orçamento, feito por um estúdio indie, ainda assim é um problema.

Isso porque seus problemas não são exatamente coisas que deveria ser inseridas no jogo e não foram por conta de seu orçamento ou para não encarecer o preço final. Nada disso. O jogo é redondinho em sua proposta do jeito que está, porém precisava apenas repensar um pouco o balanceamento de sua dificuldade. Meios de deixar pulos desafiadores e situações mais tensas em que o jogador sentisse pressionado em não morrer.

Checkpoints nos estágios e até mesmo o acesso a lojinha para comprar  vidas e corações são completamente desnecessários aqui. Especialmente porque os estágios não são tão longos assim. E os chefes nem tão difíceis.

Além disso basta pensar que muitos jogos que atualmente se inspiram em Mega Man, em suas versões mais clássicas ou não, normalmente pensam em coisas novas ou elementos mais modernos que poderiam agregar e causar um diferencial na fórmula, sem a perda daquele gostinho de clássico do passado. Há um jogo independente chamado 20xx que faz exatamente isso, de pensar além dos padrões clássicos.

Nem mesmo os modos extras salvam o valor de replay do jogo. Modo Clássico é tudo que comentei ser ao longo dessa análise, restando os Modos Aventura, a qual o jogador pode escolher a ordem das fases, e o Modo Sobrevivência, a qual imagino que seja vencer tudo sem morrer. Um outro modo, Batalha de Chefes é liberado ao vencer o Modo Clássico, que consiste em derrotar todos os chefes sem passar pelas fases. O ponto é que nada disso acaba sendo realmente interessante depois de você já ter visto e jogado todas as situações e cenários no Modo Clássico. Pense em como os últimos jogos de Mega Man pensaram além disso, ao criar o Modo Challenges que reorganizam estágios e inimigos, justamente para fugir da sensação de “ser tudo igual” a qual modalidades assim normalmente passam aos jogadores.

E veja bem, não estou dizendo que Venture Kid é um jogo ruim. O título é divertido, porém não me impressionou como queria que tivesse impressionado. Não me desafiou como queria que tivesse feito. Foi bacana jogá-lo, mas não passou disso. Não vai ficar na minha memória por muito tempo.

Por fim, Venture Kid é um jogo mediano. Jogar vai lhe divertir, até porque é curtinho e barato, porém não vai além disso. Seu problemas não estragam a experiência em si, porém atrapalham o jogo ser melhor do que poderia ser. Há um problema com balanceamento, assim como ideias engenhosas para tirar o jogo apenas da mesmice a qual a fórmula clássica de Mega Man se estagnou.

Galeria

Dando uma nota

Propositais 8 bits funcionam - 7.5
Forte inspiração dos clássicos Mega Man - 7
Há segmentos de fases e certos chefes realmente bons - 7.9
Dificuldade não equilibra bem, chega a ser fácil demais - 5.5
Valor de replay é baixo, condizente com seu preço - 7
Controles respondem com ótima precisão - 8
Simples e divertido, porém não impressiona - 7

7.1

Regular

Venture Kid é um jogo sincero. É simples em sua estrutura, um tanto fácil demais, porém entrega um sentimento nostálgico em relação aos clássicos da era dos jogos em 8 bits. Tem boas influências de Mega Man, mas tropeça ao não entregar um desafio equiparado e novas ideias que tornassem o jogo mais atrativo. Diverte, mas não é memorável.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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