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Análise | Sayonara Wild Hearts

Disponível para PlayStation 4, Nintendo Switch e Apple Arcade

Sayonara Wild Hearts é denominado por seus criadores como um pop álbum videogame. A produção é do estúdio sueco Simogo, fundado em 2010, que conta um catálogo bem singular de jogos, onde todos aparentam ter boas ideias e design únicos, quase todos dedicados a plataformas mobile. O título também conta com o suporte da Annapurna Interactive, que também tem sido responsável por jogos bem diferentes e originais nesta geração de consoles – Gorogoa, Donut County e Ashen são alguns destes exemplos.

Outra curiosidade bacana é que Sayonara Wild Hearts conta com a narração da cantora, rapper, atriz, compositora, produtora e muitos outros talentos, Queen Latifah. O convite para que a atriz emprestasse sua voz para a narradora do jogo parece ter sido feito algumas semanas antes do lançamento de Sayonara, meio que de forma inesperada pelos desenvolvedores, agenciado pela própria Annapurna. Queen Latifah narra a introdução do jogo e seu final, enquanto também diz ao jogador, ao final de cada fase, o ranking obtido – bronze, prata ou ouro. Um detalhe pequeno da obra, mas muito legal.

Sayonara Wild Hearts é um jogo que mistura gêneros e elementos diversos. Em sua essência é um jogo musical de ritmo, misturado com ação em formato arcade, onde o jogador deve pontuar por melhores placares, enquanto brinca com o estilo runner, em que se avança sem parar por uma fase, tentando coletar tudo que aparecer na sua frente. Seu estilo de gameplay muda com o avançar das fases e fica sempre surpreendendo o jogador pela forma como apresenta elementos abstratos e surreais, sem nunca fugir de uma narrativa interpretativa.

Corações partidos

O coração de uma jovem foi partido e a balança do universo foi perturbada. Bem, quem nunca sofreu uma decepção amorosa e teve a sensação de que o mundo chegara ao fim e que nada mais fazia sentido? Sayonara Wild Hearts brinca um pouco com isso, enquanto a jovem protagonista se aventura por uma jornada de auto descoberta, seguindo novos caminhos para seu coração, e sendo partido repetidamente, até encontrar alguma resposta que traga de volta sua paz interior.

O ponto é que essa narrativa nunca toma ares literais. Tudo é conversado com o jogador de forma muito figurativo, usando e abusando da interpretação, com elementos visuais totalmente abstratos e surreais. Sua personagem se torna uma heroína de sua própria história, enquanto viaja em uma jornada com seu skate, motocicleta ou carro, conhecendo novas pessoas e novos perigos criados por tais relacionamentos. Se amar é um jogo de risco, então nada melhor do que brincar com isso dentro de um videogame, não?

Essa ideia acaba se exteriorizando em um gameplay de percursos de obstáculos, aonde a protagonista está sempre seguindo em frente, enquanto coletando fragmentos de corações pelo caminho. Assim é a vida, não? Obstáculos sempre nos colocando à prova, enquanto coletamos pequenas emoções que tornam um todo quando se colocados na balança. Bem, essa é uma interpretação que posso tirar. Cada jogador pode ter a sua.

Velocidade constante

Mecanicamente Sayonara Wild Hearts impressiona porque não para um segundo de apresentar novidade em sua proposta de gameplay. O jogador começa em um skate em alta velocidade em uma auto estrada, para logo estar em uma motocicleta a toda velocidade em contramão a uma congestionada pista. Ou então voando/surfando em uma imensa carta de tarô, coletando os estilhaços e corações deixados pelo espaço. Que tal um carro? Ou um cervo? Bem, é o que estou dizendo. O jogo cria meios incríveis para transitar entre o real e o surreal, de uma forma que você sequer está preocupado com o fazer ou não sentido. Visualmente é inacreditavelmente fantástico.

E a jogabilidade sempre se mantém dentro da ideia de avançar automaticamente por estágios que nunca desaceleram, com o jogador podendo apenas se deslocar lateralmente, da esquerda ou direita, desviando de obstáculos e coletando os itens pelo percurso que vão ditar seu placar ao final de cada um dos estágios. O que muda é a forma como esse universo se apresenta ao jogador. Perspectiva e ângulos de como você vai avançar por estes mundos sofrem mudanças constantemente. Quem tal sair da perspectiva de terceira pessoa para ficar em primeira pessoa? Isso acontece.

Outro ponto importante dentro das mecânicas são os quick time events. Bem, talvez não sejam exatamente isso, mas o simples apertar de um botão na hora certa para que uma sequência animada não interrompa a animação em tela. É sempre o mesmo botão, não há desafio de botões distintos. O desafio está em acertar o ritmo musical que acompanha essa mecânica, tentando conseguir pontos de perfect ao acertar o tempo exato. Entretanto o jogo é generoso no sentido de não punir o jogador por apertar muito antes ou depois do tempo exato.

Com isso as rápidas fases de Sayonara Wild Hearts é um misto de aceleração, coleta de itens, apertar de um botão e se guiar da esquerda para a direita se desviando de obstáculos. Tudo isso em meio a uma ambientação fantástica e uma melodia sonora que envolve e imerge o jogador nessa ação. O objetivo é surpreender o jogador em meio a ação e transições entre estas mecânicas, com a jovem saindo voando, pulando, com inimigos e grandes mudanças do cenário mudando com um estalar de dedos (e esse último acontece literalmente). Corra pelas paredes, de ponta cabeça, em florestas, em pistas com rampas, armadilhas, na contramão, em florestas e até mesmo em um ambiente virtual que muda a forma do jogo para algo muito parecido com os antigos jogos de Atari. Espere o inesperado quando tudo isso começar a mexer contigo.

Ambientação e melodia aqui importam

Certamente o ponto alto de Sayonara Wild Hearts são seus gráficos e estilo visual atrelado a condução musical de como seus estágios se comportam. Não é pra menos que é chamado de pop álbum videogame. Esta é sua principal atração.

O tom visual, brincando muito com tons escuros mesclados com roxo e rosa criam um visual único a atmosfera do jogo. Tanto que quando uma outra cor surge, é para enaltecer um momento e compor uma mudança drástica ao evento que está ocorrendo em tela. Há também um aspecto minimalista dentro da ação e velocidade do jogo, onde não se quer nada realista demais, mas com a menor quantidade de detalhes possíveis, mas sem nunca parecer que os gráficos se tornaram visualmente pobres. Há uma preocupação em brincar com efeitos minimalistas, mas mantê-los também surreais.

E aí entra a música, que transitam entre melodias eletrônicas, com tecno e dance, com algumas canções com vocais e letras. Há canções com toque de romance, mais lentas, outras mais aceleradas, assim como também tem um pouco de baladinhas mais pop. A música não muda drasticamente dentro da narrativa, mas evolui e se altera de forma muito orgânica de acordo com a aventura visual colocada em tela. É bem impressionante o quão natural isso ocorre. Além disso são peças musicais originais, composto para o jogo em si.

É difícil perceber, mas em muitos momentos o ritmo musical está inteiramente lhe dizendo como conduzir sua personagem pelo percurso. Ouça e sinta o ritmo, especialmente em trajetos em que obstáculos precisam ser desviados. O tom musical lhe diz como sair destas situações se você decidir ouvir a canção. Decididamente Sayonara Wild Hearts não é um jogo para se jogar com o som baixinho. Ideal mesmo é com fones de ouvido.

Para sentir um pouco do que lhe aguarda em Sayonara Wild Hearts, há um álbum no Spotify com sua trilha sonora. Vale a pena ouvir. O fluxo da trilha é tão constante que no Spotify com propagandas o ritmo é totalmente quebrado, algo que no jogo isso não ocorre. Todas suas faixas compõem um todo musical. É bem impressionante como as faixas se conectam entre si.

Considerações finais

Tudo bem, então qual a pegadinha de Sayonara Wild Hearts? Pois até agora só foram elogios, certo? Essencialmente o jogo é curtinho. Você o termina em menos de duas horas. Dá para fechá-lo em uma só sentada. Sendo um jogo que parece um videoclipe musical você pode realmente dizer que isso é o esperado. Suas fases tem em torno de 1 a 3 minutos, dependendo da música e da narrativa apresentada.

O jogo é dividido em capítulos. A protagonista está em uma jornada de auto descobrimento, então ela sai por aí para conhecer novas pessoas e grupos. O formato dos capítulos começa com ela indo para tal jornada, depois conhecendo pessoas, depois passando por estágios em que luta com as mesmas (literalmente e figurativamente) e até culminar em um estágio que os vence e parte para outra. É bem legal esse sistema, pois segmento o jogo em atos e diferentes formas como o gameplay se apresenta. Nesse sentido, o ato da floresta, que até apresenta elementos de shooter, primeira pessoa e um chefe gigantes, é meu ato predileto de todo o jogo.

O valor de replay de Sayonara Wild Hearts está na intenção de que o jogador pode repetir cada um destes estágios, buscando melhores rankings. A posição ouro é realmente difícil de se conseguir em uma primeira ou segunda tentativa. É preciso realmente memorizar e seguir muito bem o ritmo musical do estágio. Após terminar a campanha, é possível jogá-la de forma ininterrupta, com todos os atos sendo uma coisa só, sem interrupção de placar. Somente os jogadores mais dedicadas vão entrar nessa vibe. Ainda que devo admitir que me vejo voltando para brincar novamente em alguns estágios do jogo de tempo em tempos, ou até mesmo para apresentar o jogo a amigos e familiares. É um bom jogo para se mostrar a outras pessoas, especialmente para aqueles que não jogam videogames.

Um último elogio que posso fazer diz respeito ao gameplay e a velocidade de alguns estágios. Houve momentos em que as fases com diversos obstáculos para se desviar, como uma em que a realidade fica se alternando, me remeteram ao desafio e a dificuldade da clássica fase da motinho de Battletoads. Não acho que tenha sido algo intencional do jogo, mas gostei de ter feito essa associação. São desafios muito bem planejados, porém não impossíveis. É saber aproveitar o potencial de seu gameplay. Vejo muito mérito nisso.

Por fim, é fácil colocar Sayonara Wild Hearts como uma experiência singular, igualmente eletrizante, divertida e imersiva. É um jogo com uma energia própria. Apresenta um formato que qualquer pessoa pode apreciá-lo, sendo um jogador ou não, querendo entender sua narrativa ou não. Seus controles são simples, porém ótimos. Não é um título punitivo ou que quer que o jogador fique fracassando em seus estágios. Tanto que ao errar algumas vezes uma tela aparece e lhe pergunta se quer pular esse segmento. É um título que sabe brincar com sua própria atmosfera, tanto em seu visual, quanto em sua parte sonora. Não importa se é curtinho, pois isso não o torna menos fantástico. Se puder, jogue-o!

Galeria

Dando uma nota

Original, não há muita coisa por aí como este jogo - 9
Bela jogabilidade, sem qualquer intenção de frustrar ou punir o jogador - 8.5
Visualmente fantástico, sabe aproveitar do surrealismo e minimalismo - 9
Trilha sonora basicamente conduz a energia do game, envolve o jogador - 9.5
É curtinho, com um valor de replay questionável - 6.5
Tem uma proposta narrativa interessante, aberto a interpretações - 8.5
Momentos incríveis em que mecânicas e a perspectiva dos estágios mudam completamente - 9.5

8.6

Incrível

Sayonara Wild Hearts é uma experiência curta, porém envolvente e marcante. O título entrega uma experiência singular ao oferecer um jogo estilo arcade, onde música e visuais conversam com o jogador e com o gameplay em tela. Corações partidos precisam da experiência de novas jornadas para se curarem.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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