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Análise | Code Vein

Disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC

Code Vein é um título que inevitavelmente vai ser comparado com jogos dentro da fórmula Dark Souls, famosa franquia do estúdio FromSoftware, e que sempre contou com a parceria da Bandai Namco para a distribuições global destes jogos. Aqui, neste caso, a Bandai Namco não só é a publisher de Code Vein, como também o desenvolveu, possivelmente inspirada nos resultados que a empresa obtém nessa sua parceria com a FromSoftware.

E não, o resultado aqui não é uma cópia, e sim o aproveito de uma fórmula que hoje em dia não é mais exclusiva da FromSoftware. Há muitos estúdios nesta geração aplicando o gênero “Souls” a diversos jogos. Por exemplo, na mesma semana, do dia 27 de setembro – a qual Code Vein foi lançado – saiu The Surge 2, desenvolvido pela Deck13 Interactive e distribuído pela  Focus Home Interactive, que também tem inspirações em tal fórmula/gênero. Desenvolvedores estão expandindo ideias e conceitos mediante as mecânicas e elementos desse gênero de RPG de ação, com combate brutal e mundo aberto. A própria FromSoftware em 2019 lançou o brilhante Sekiro: Shadows Die Twice, que também tem uma base Souls, porém reinventado de uma maneira que surpreendeu muitos de seus fãs – e pode estar tranquilamente na categoria dos melhores jogos deste ano. Prova de que esta fórmula pode ser usada e reutilizada em novos modelos e ideias, e que irá gerar resultados tão incríveis quanto Dark Souls sempre conseguiu ser.

Assim, Code Vein chega com algumas ideias novas em termos de mecânicas e acessibilidade à fórmula, uma arte original totalmente própria, em um universo rico em detalhes, cenários e personagens. O jogo chegou aos atuais consoles e PC, com exceção do Nintendo Switch – ainda que eu consiga imaginá-lo rodando tranquilamente  no console da Nintendo. E já vou deixar claro: não é um jogo perfeito, entretanto está longe de ser um jogo ruim. É uma investida solo da Bandai Namco e o início de algo que pode vir a ser aprimorado em eventuais sequências. Dito isso, para fãs deste gênero estabelecido por Dark Souls, é um título quase que obrigatório de ser experimentado. Na análise abaixo destrincharei o que Code Vein tem a oferecer, além de apontar o que acho que são seus pontos mais fortes e os mais fracos.

Sede de sangue

Entender o que está acontecendo no universo de Code Vein é parte da jornada do jogador. Você acorda em um mundo pós-apocalíptico. Imponentes arranha céus destruídos, abandonados pela passagem do tempo, em meio a um mundo repletos de deformações e grandes espinhos rasgando a terra. Sua sede não é de água, mas de sangue. Logo você descobre que não é mais um mero humano.

O jogo não trabalha com o termo vampiros, usando a expressão Aparições (Revenants no original). São seres que um dia foram humanos, mas que morreram sob circunstâncias em que sua jornada pela campanha lhe dará mais detalhes, transformados em seres com sede por sangue em um mundo escasso pelo mesmo. O que você logo descobre é que há uma toxina no ar, chamada Miasma, que não faz bem a ninguém, transformando qualquer um que tem contado com a mesma em seres agressivos, violentos e irracionais. O mundo está tomado por bizarras e estranhas criaturas, dominadas pelas toxinas desse mundo agourento. Daí surge a ideia das máscaras de gás a qual as artes e telas do jogo tanto enfatizam.

O protagonista de Code Vein é um personagem totalmente customizado pelo jogador, podendo ser um personagem masculino ou feminino. A ferramenta de customização do jogo é muito bem organizada e detalhada, com dezenas de opções para detalhes do rosto e acessórios da vestimenta. Há diversas opções pré-moldadas e que o jogador poderá refazer a partir destes modelos. É realmente impressionante e não tem um ponto sequer que deixa a desejar.

Esse personagem que o jogador cria é um ser especial dentro desse universo. Diferente das demais Aparições, o jogador tem o poder de purificar áreas em que o Miasma domina, além de conseguir reviver uma espécie de árvore que pode brotar cristais de sangue, a qual aparições podem usar para beber e saciar sua sede. O jogador purifica essa estranha vegetação, que também serve para lhe mostrar o mapa da área, além de um visco que funciona exatamente como a fogueira de Dark Souls, lhe permitindo descansar para revitalizar todos seus status, além de deixar subir de nível e revivendo (respawn) a todos os inimigos da área. Ao longo de sua jornada você irá aprender mais sobre si mesmo e do porque conseguir fazer o que faz.

Essa jornada dentro da trama de Code Vein não é solitária, logo no começo da história o jogador conhece Io, uma estranha garota, também sem memória, que deseja lhe auxiliar. Mais a frente vocês conhecem Louis, que tem um grupo de Aparições que trabalham juntos para tentar consertar parte desse mundo errático. Você e Io se aliam a Louis para tentar limpar o Miasma da área em que vivem e descobrir mais sobre o passado de todos. O ponto aqui é que quando se vira uma Aparição, parte de suas memórias de quando era um humano vão embora. O jogador é o único com a capacidade de purificar o Miasma, restaurar as árvores que brotam cristais de sangue e também de restaurar estes fragmentos de memórias de todos que estão ali em sua jornada.

Code Vein trabalha uma narrativa em um formato bem mais tradicional do que a experiência de um Dark Souls, onde o mundo ao seu redor não é explicado de forma direta, onde boa parte é preciso interpretar e refletir a seu respeito. Aqui há muitas cenas de animação (cutscenes) em pontos chaves de cada área, com dramas e dilemas apresentados pelos companheiros do jogador. É mais fácil seguir com a aventura, curioso pelo que o enredo irá lhe apresentar a seguir. Não dá para dizer que é melhor ou pior, mas certamente é mais assertiva para jogadores que gostam de seguir uma trilha narrativa para não se sentirem perdidos dentro do jogo em si.

Você nunca está sozinho (a menos que queira estar)

Há pessoas que vão discordar do que vou dizer neste ponto do texto – e respeito quem tiver opinião contrária -, entretanto tenho que revelar aqui que gostei da ideia de um NPC/Companheiro/Parceiro/CPU sempre lhe acompanhar pela aventura, lhe ajudando em todos os confrontos que serão encontrados pelo caminho, incluindo as grandiosas batalhas contra os chefes principais da aventura.

Aqui o jogador pode escolher, dentre algumas opções, qual dos personagens que fazem parte do grupo de Louis, ou até mesmo ele, irá lhe acompanhar ao explorar estas terras devastadas. O companheiro funciona como uma IA que vai lutar junto ao jogador. Ele segue algumas regras, como nunca engatilhar um confronto fazendo o primeiro movimento, e sempre irá compartilhar parte de sua barra de saúde quando o jogador ficar sem, na medida do possível em que essa técnica possa ser realizada. Se esse NPC morrer, o jogo não encerra, sendo possível continuar sozinho e ressuscitar esse personagem quando encontrar um visco (ponto de save) em que possa descansar.

Infelizmente não é possível dar ordens a esse NPC. Não dá para dizer quando parar de lutar, quando recuar ou quando usar alguma habilidade. A inteligência artificial faz tudo sozinha, prestando o suporte que achar melhor ao jogador. É possível ver esse companheiro eliminando inimigos fortes sozinho caso você apenas fique fugindo ou distraindo esse mesmo inimigo para que ele não ataque seu parceiro (porque se ele se focar apenas no NPC, certamente o eliminará).

Dentro desta proposta acaba sendo um elemento que vai gerar contradição. A ideia aqui é bem clara: tornar um jogo com esse combate brutal e cruel, vindo do gênero Souls, acessível a qualquer um não acostumado com o mesmo. Ter um companheiro controlado pela CPU, que toma conta de boa parte do combate, é dar meios para que os jogadores avancem sem se sentirem frustrados demais com as mortes que vão ocorrer em certos pontos das áreas. Morrer faz parte desse gênero, para você aprender mais sobre certos tipos de inimigos e emboscadas que eles podem proporcionar, para só aí bolar uma estratégia diferente quando for confrontá-los novamente. Code Vein é um ótimo jogo para novatos nessa experiência Souls.

Como mencionei, particularmente gostei desse elemento. Sim, usar um companheiro torna a experiência mais fácil, e em várias situações até mais do que deveria, mas Code Vein é um jogo bem longo e vai chegar o momento em que sua dificuldade vai se elevar de uma maneira que ter ou não um companheiro não o fará vencer os confrontos. Por isso acho-os interessante, são úteis para o começo, para dar acessibilidade a quem não está habituado com esse tipo de jogo.

E há diferentes tipos de companheiros com distintas habilidades. Louis, por exemplo, é um batedor. Ao engatilhar o confronto, ele sai correndo para a frente da batalha e começa a atacar diretamente os inimigos. Diferente de Mia, que é uma espécie de atiradora de elite, sendo que ela prefere ataques elementais e à distância, enquanto os inimigos estão vindo em sua direção. Mia é uma personagem perfeita para lidar com inimigos distantes, permitindo avançar por áreas sem tomar emboscadas.

Mas você é um jogador hardcore, né? Profissional experiente em Dark Souls, correto? Bem, nesse caso, saiba que é possível seguir a aventura de Code Vein sem a utilização de um companheiro controlado pela CPU. O jogo vai ficar agressivamente mais complicado e difícil, especialmente em momentos em que dois ou mais inimigos irão partir para cima de você. Porém é totalmente possível se virar solo, se você é destes jogadores que é realmente bom nesse gênero de jogo.

Indo para o outro lado desse aspecto, não satisfeito com um sistema de companheiro, Code Vein permite que um terceiro companheiro lhe acompanhe, desta vez com o uso do elemento multiplayer. É possível habilitar o jogo para funcionar online e assim transformar a sua partida pela campanha em um host, em quê um jogador pode entrar e lhe auxiliar em sua jornada. Você é quem dá permissão para isso acontecer, então não tem que se preocupar com jogadores aleatórios entrando em seu gameplay e lhe atrapalhando na aventura. O progresso alias é totalmente do jogador que estiver hosteando essa partida. O segundo jogador humano atua apenas como suporte mesmo.

Sempre sou a favor da acessibilidade. Gosto da ideia de companheiros, de não viajar por um mundo hostil e agressivo sozinho. Ainda que a CPU seja claramente mais forte do que ela precisaria ser, prestando um suporte a qual o jogador não tem qualquer tipo de controle. Além disso esse companheiro tem um hábito bem irritante de ficar tecendo pequenos comentários a todo o momento, repetindo até mesmo alguns padrões. Entendo que a ideia seria torná-lo mais verossímil ao fazer isso, porém o tiro talvez tenha saído pela culatra, pois a repetição é tamanha que isso torna claro que é um NPC com falas limitadas. Enfim, é um elemento válido, gosto bastante da ideia, porém é carente de opções que poderiam ser ajustadas ao gosto do freguês.

Classes, combate e dádivas

O terceiro ponto que vale a pena se discutir sobre Code Vein diz respeito as mecânicas de combate e as possibilidades de uso de habilidades especiais, aqui chamadas de Dádivas. O combate é bem semelhante ao de Dark Souls, onde a brutalidade e agressividade dos inimigos pressionam o jogador e qualquer erro pode resultar em morte do mesmo. Ao morrer o jogador perde brumas, que são obtidas ao eliminar inimigos e são a moeda do jogo para aprimorar itens, comprar dádivas e pagar a subida de nível que aumenta todos seus status de forma geral.

Falando em subir de nível, aqui é um pouco diferente de Dark Souls, onde os atributos são manualmente selecionados pelos jogadores, criando assim personagens com status diferenciados. Em Code Vein essa escalada do level é automatizada, sendo que o jogador não pode selecionar os atributos a qual deseja ter um melhor desempenho – como força, defesa, destreza, equilíbrio e afins. Novamente penso no conceito de dar acessibilidade aos novatos no gênero, de tal maneira que os mesmos não possam quebrar o jogo atribuindo pontos apenas um único atributo, deixando de dar importâncias a outros que terão maior importância nos momentos mais elevados do jogo.

O jogo compensa essa limitação criando inúmeras classes que o jogador pode equipar seu personagem. Estas classes são chamadas de Códigos de Sangue. Cada código tem seu próprio status de atributos de acordo com o nível em que o jogador estiver. Não é preciso subir de nível individualmente, cada classe se adapta ao seu nível atual, o que é ótimo. Com isso o jogador pode a qualquer ponto da aventura trocar de classe sem ter a sensação que esta nova lhe enfraqueceu em detrimento de outras que vinha sendo utilizada a mais tempo. A troca também pode ser realizada em tempo real, apenas pausando e mudando no menu principal. A qualquer momento, sem precisar descansar em um visco.

Cada código de sangue possui um catálogo de dádivas, que são uma espécie de magia que o jogador poderá usar nos confrontos. Estes códigos tem habilidade passivas e ativas. Passivas melhoram seus próprios atributos quando equipadas, possuindo quatro espaços de seu inventário para ativar até quatro habilidades passivas. Estas não ocupam espaço das habilidades ativas, que possuem 8 (!) espaços em seu inventário.

Dádivas ativas são basicamente magias, que vão desde fortalecimento temporário de seus atributos, como defesa ou ataque, assim como golpes especiais que podem ser ativados a uma certa distância do algo e também magia de projéteis, que atacam oponentes a distância, possuindo até mesmo atributos elementais, como raio, gelo e fogo. Estas dádivas ativas não são ilimitadas, sendo necessário uma barra de mana para serem utilizados. Essa barra aqui é chamada de sangue negro, cada dádiva gasta pontos desse sangue, que podem ser consultados na parte inferior à direita da tela do jogo. Há classes que lhe permite concentrar mais deste sangue, enquanto há classes que fazem o contrário.

E este é, na minha opinião, o ponto mais forte de Code Vein: a forma como o jogo lhe deixa manipular os Códigos de Sangue e Dádivas em tempo real enquanto explora o jogo, deixando equipar e desequipá-las a vontade, sem qualquer tipo de penalidade. Em Dark Souls, o uso de magia é bem mais restritivo, sendo que o jogador começa a construir um personagem no começo de sua jornada e conforme a mesma avança, sempre vai ficando mais difícil mudar essa construção. Em Code Vein essa mudança pode ser realizada a qualquer momento, de uma forma muito simples. E a cada código adquirido, o jogo lhe incentiva fortemente a mudar e testar esse novo estilo e novas habilidades, fazendo com que o combate esteja sempre em constante mudança.

Expliquei que cada código tem seu leque de dádiva, certo? Só que é preciso ir além. Ao usar uma classe e colocar as dádivas em seu inventários, estas passam por um processo de progressão que permitirá ter maestria em sua utilização. Ao conseguir isso, que não é nem um pouco demorado, esta dádiva passa a funcionar em qualquer uma dos códigos ativados. E aí o jogador passa a construir seu personagem misturando dádivas de diferentes códigos, tornando ainda mais aberto a construção de seu personagem. Isso é realmente muito bacana.

E há dádivas para todos os gostos, assim como algumas extremamente úteis, como uma que lhe permite escanear áreas em busca de itens secretos ou aquelas exclusivas de uso de cada um dos companheiros que o jogador pode escolher para usar na aventura.

Com tudo isso, é muito natural que o jogador use estas muitas habilidades em favorecimento do combate em si, que deixa de ser apenas espadas, defesa e contra-ataque, para um uso mais inteligente de magias a longa distância e habilidades que turbinem seus status de uma forma que você não se sinta penalidade por estar gastando sua barra de mana. Pra mim é exatamente o contrário de como jogo Dark Souls, sempre economizando habilidades e magias especiais, e sofrendo com um combate mais direto com apenas a arma em si.

Claro que tudo isso novamente fica a favor do freguês, sendo que as mecânicas básicas do combate de um Dark Souls também estão presentes aqui. Há diferentes tipos de armas, que exigem atributos diferentes, indo de espadas ágeis, para espadas que precisam das duas mãos, tornando-as mais lentas, assim como machados e lanchas. O jogador tem a possibilidade de se defender, esquivar e aparar (como o jogo demonina o parry, ato de contra atacar interrompendo um ataque inimigo). O uso do parry é algo que vai de cada um. Parece ser generoso o tempo de acionar em relação ao ataque do inimigo, mas também pode ser confuso em alguns casos, até porque é preciso pensar que sempre há o seu companheiro atacando um inimigo e fazendo com que ele possa ou não atrasar um ataque.

E tudo isso conta com uma barra de vigor, ou seja, cada arma, cada tipo de ataque irá fazer essa barra esvaziar, dependendo da arma de forma mais rápida ou mais lenta. Com o vigor esgotado, o jogador não consegue atacar, defender, esquivar ou até mesmo correr para longe do inimigo. Então é preciso tomar cuidado com esse aspecto do combate.

Além disso o jogador possui uma barra de foco, bem semelhante, mas não tão complexo, com o encontrado no Sekiro. Essa barra de foco ao ficar completamente cheia permite ao jogador entrar em um estado de foco que lhe dará ataques mais poderosos, melhor defesa, além de encher seu vigor. Para encher essa barra é preciso usar defesa, esquivas e parry. Tomar dano também irá encher essa barra, servindo como um salva guarda para momentos em que você estiver perto de morrer. A contra partida disso tudo é que inimigos também possuem essa barra de foco, ficando bem mais perigosos quando estão próximos de serem derrotados.

Com tudo o que foi explicado é possível perceber que Code Vein é um emaranhado de muitas mecânicas de combates, servindo aos diferentes gostos dos jogadores. Funciona de diferentes maneiras, com diferentes técnicas de combate. Sendo bem adaptativo caso o jogador resolva a qualquer momento mudar sua tática de combate. Não é preciso interromper a exploração para isso. O que é algo bem pensado.

Pontos fracos

Exposto o que acho que são os pontos mais expressivos e interessantes de Code Vein, eis que chegou a hora de apontar alguns dos elementos que não me agradaram muito na obra. Acredito que Code Vein tem problemas na diversidade de inimigos, na ambientação da exploração de seu mundo e em certos clichês do universo dos animês japoneses.

Na parte dos inimigos o ponto em foco aqui é na forma como eles não são marcantes ao longo da aventura. Muitos deles se fazem presentes em diversas das áreas do jogo, repetindo muito alguns combates, sendo que o desafio sequer é muito diferente entre alguns destes tipos. Então mais para povoar o mundo em si, além de permitir ao jogador o uso de grinding (batalhar apenas para ficar subindo de nível).

Existe aqui uma falta de um melhor design de certos personagens. Por exemplo, há um tipo de inimigo gordão gigante que se faz mais presente do que normalmente ele deveria ter a necessidade de existir. Eles são guardiões de pontos de rota de áreas ou de itens e tudo bem existirem inimigos mais fortes em locais assim, mas precisa realmente ser uma variação do mesmo tipo gordão? Por que não criar alguns diferentes, exclusivos para certas ocasiões? Não que não haja, mas não o suficiente para que o jogador não perceba tal repetição de inimigos. Fora que os inimigos mais básicos (que parecem corvos humanoides) são muito parecidos entre si, mesmo com suas variações em diferentes áreas.

O mais interessante acaba sendo quando encontramos criaturas realmente diferentes, mais monstruosas. Gosto muito do soldado formiga encontrado pela primeira vez no poço uivante (a segunda ou terceira área do jogo, dependendo da rota que escolher seguir, não contando como primeira a área que serve como tutorial ao jogo). Bem diferente são os chefes principais do jogo. Estes sim são todos diferentes e incrivelmente ameaçadores e difíceis. Destes não há do que realmente reclamar, ainda que tenha impressão que o jogo trabalhe bem mal com a ideia de mini chefes, sendo eles apenas variações dos inimigos básicos ou depois se tornando inimigos básicos.

E aí vem o segundo ponto fraco: a estética e atmosfera do mundo de Code Vein pode ser interessante, mas se torna cansativa facilmente. Não estou me referindo ao enredo e sua trama, mas ao visual dos cenários do jogo. Estes não causam o impacto que poderiam causar para um mundo pós-apocalíptico. Cidades com prédios enormes destruídos e grandes espinhos/cristais cortando tudo não são exatamente algo inédito em jogos eletrônicos. A impressão que fico tendo ao jogar Code Vein é de já ter visto esse ambiente em muitos jogos que abordam o fim do mundo.

E as áreas posteriores do jogo não ajudam muito isso. Há cavernas e penhascos que são exatamente conglomerados de terras, pedras e mais coisas destruídas. Não é um ambiente que vai lhe impressionar por mundo tempo. Diferente de mundos de fantasias de certos jogos, onde coisas improváveis podem ser inseridas. Code Vein tem uma arquitetura muito comum, muito previsível com o que se espera no momento em que o título lhe é apresentado. Ele vai te surpreender em alguns momentos, mas não consegue lhe manter admirado por muito tempo.

A exceção a isso talvez seja em algumas das poucas áreas que experimenta fazer algo fora do comum do tema. Gosto da beleza da área da Catedral por exemplo, que aí entregar ao jogador um belo exemplo de arquitetura e que você não está bem ou pouco esperando encontrar em um jogo de mundo pós-apocalipse de destruição em massa. Eu gostaria que houvesse mais áreas como essa no jogo, mas no geral são cidades destruídas, esgotos, cavernas e áreas mais áridas. Até mesmo áreas avançadas, como de neve ou uma cidade em chamas, acabam reforçando estereótipos esperados do tema.

E por fim, falando em estereótipos, há um último ponto que acho conveniente mencionar, a forma como o jogo tem toda essa ambientação em animê e com isso reforça certos clichês do estilo de animação japonesa. Personagens femininas, por exemplo, sempre com roupas mínimas, daquele fanservice que não dá para dizer que é um aspecto positivo do jogo. Isso faz o game soar como um jogo pensado exclusivamente no público masculino. Io, que é uma das primeiras personagens apresentadas ao jogados, surge em cenas em que quase não possui roupa, mesmo após ser resgatadas e estacionar na base do Louis, a personagem continua portanto a menor quantidade possível de roupas. Qual a real necessidade de ser assim?

Pontuo isso porque talvez Code Vein pudesse atrair um maior escopo de público se não tropeçasse nesse aspecto. Não vejo problema em seguir o estilo de visual animê, acho que isso até dá personalidade o jogo, só que não tem motivos para também trazer esse aspecto forçado que os animês japoneses acabam criando ((nem todos são assim, mas há uma quantidade impressionante). Isso faz o jogo, em certos momentos, não se levar à sério como talvez pudesse ser levado.

Considerações finais

Com tudo o que foi exposto, estou perto de concluir essa análise. Code Vein é uma IP nova da Bandai Namco que vem para dar alguma experimentação no gênero Souls, sem que o jogador se sinta frustrado como normalmente fica  (ainda que de uma forma positiva) ao jogar os títulos da FromSoftware.

Há sim pequenas falhas, coisas que poderiam ser melhor trabalhadas, mas no contexto geral o título entrega tudo aqui que promete ao jogador. Tem um sistema de combate bem diversificado, com muitas opções de como o jogador vai usar suas mecânicas, podendo ser mais focado em lutas de ataque e defesa ou mais táticas com o uso de dádivas e aproveitando o máximo o conceito de um companheiro CPU lhe acompanhando e oferecendo suporte. Há uma trama que é interessante, ainda que não seja nenhum super roteiro inacreditável. O clichê do protagonista que é o escolhido e guarda o destino de todos talvez soa meio superficial.

É preciso apontar que Code Vein é um jogo extenso, que vai lhe render dezenas de horas de jogo, de 30 a 50 horas, dependendo de quão bom for em vencer os desafios propostos. Além disso seu valor de gameplay é altíssimo, com o jogo lhe oferecendo áreas avançadas, não obrigatórias, onde os inimigos são extremamente fortes, com altas recompensas em itens e equipamentos, além de três possíveis finais (ruim, neutro e bom) e um sistema de New Game Plus que carrega seu nível, classes, dádivas e alguns itens para uma nova campanha, com boa parte das coisas habilidades desde o começo e um novo nível de dificuldade. Para quem gosta do estilo de jogo, é um prato cheio em relação ao replay.

No mais, é certo dizer que Code Vein não está reinventando uma fórmula a qual claramente se inspirou. Acrescenta boas ideias, como os Códigos de Sangue e seu funcionamento com a Dádivas, entretanto não surpreende muito na forma como apresenta seu mundo, com até mesmo uma progressão bem óbvia dos caminhos a serem explorados. O próprio sistema de armas e aprimoramentos não me encantou em qualquer aspecto, sendo tudo muito básico ou com um design que não me soou criativo.

A boa é que Code Vein chegou ao Brasil totalmente localizado em português, o que abre ainda mais todo esse conceito de acessibilidade que o título quer e entrega com sucesso aos jogadores. Tudo está muito bem legendado, com menus e tutoriais muito bem explicados (há até um excesso de explicações no começo, mas que some depois quando a história avança). Gosto de sua trilha sonora, mesmo nos momentos em que nem sempre ela casa com alguns dos diálogos do jogo em certas cutscenes.

É certo dizer que Code Vein não é um Dark Souls, mas isso não deve ser encarado com algo ruim. Há valor no título, especialmente aos fãs do gênero em si, e também a todos que tem a curiosidade de adentrar nesse mundo, mas que se sentem intimidados pela franquia da FromSoftware. Parece ser um destes jogos que podem abrir as portas para mais jogadores, enquanto fica com um terreno que pode se aprimorado em uma sequência. Há a entrega do que promete, e potencial para melhorar caso faça sucesso. Certamente vale ser indicado.

Galeria

Dando uma nota

Sim, é claro sua inspiração ao gênero de jogos baseados em Dark Souls - 8
Tem uma trama e atmosfera que move o jogador a querer saber mais - 8.2
Mecânicas envolvendo classes e habilidades chamam a atenção e incentivam a experimentação - 9
Estilo animê encanta, mesmo quando segue alguns clichês desnecessários desse formato - 7.9
Localização em português é competente e dá mais acessibilidade ao jogo - 9
Com exceção dos chefes (estes incríveis), o catálogo de inimigos do jogo deixa um pouco a desejar - 7
Ter um companheiro (opcional) controlado pela CPU é uma boa ideia, porém carente de opções de comandos - 7.9

8.1

Bom

Code Vein é uma interessante empreitada da Bandai Namco em uma IP nova inspirada em Dark Souls. Fãs desse estilo de jogo, com combate brutal e agressivo vão se sentir em casa. O título ainda tem a vantagem de ser mais acessível (e fácil) do que um Souls, funcionando como uma porta de entrada aos interessados no gênero. Tem como ponto forte a apresentação de um mundo intrigante e com história, enquanto nas mecânicas de gameplay entregam um sistema de classes e habilidades que podem ser usadas em tempo real e instigam o jogador a experimentação. Tem seu defeitos, mas está longe disso prejudicar o jogo como um todo. Vale a pena experimentá-lo.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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