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Análise | Bayonetta (revisitando)

Disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC

Bayonetta já pode ser considerado um clássico, e um dos melhores jogos da geração passada. O título foi lançado originalmente em 2009 no PlayStation 3 e Xbox 360, e desde então continuar sendo relançado em mais e mais plataformas. Em 2014 chegou ao Nintendo Wii U, depois em 2017 no PC, aí em 2018 foi a vez do Nintendo Switch e, agora, no último dia 18 de fevereiro, o jogo chegou ao PlayStation 4 e Xbox One. Fechando assim o ciclo de principais plataformas em que é possível encontrá-lo nesta atual geração.

Este relançamento ocorre em um momento bem interessante para o estúdio o desenvolveu, a PlatinumGames. O estúdio tem estado em grande evidência em 2020, com importantes decisões sobre seu futuro, em meio ao lançamento de The Wonderful 101 em novas plataformas, graças a uma campanha no Kickstarter de tremendo sucesso, a qual também colocam a prova a capacidade da Platinum de auto distribuir seus futuros jogos (sem que haja a necessidade de negociar direitos e licenças com uma publisher). Enquanto isso uma nova IP em desenvolvimento, intitulada Project G. G., também foi recém revelada, assim como a criação de um novo estúdi o em Tokyo que irá desenvolver novos tipos de jogos. Sem esquecer que o estúdio também segue desenvolvendo Bayonetta 3 para o Nintendo Switch. E, por fim, há ainda um quarto anúncio que ainda irá ser revelado em breve.

E em meio a esse turbilhão de anúncios, a PlatinumGames e a Sega (publisher do título) decidiram celebrar os 10 anos do primeiro Bayonetta e Vanquish, relançando ambos os títulos no PlayStation 4 e Xbox One agora no último mês de fevereiro. O texto de hoje será sobre Bayonetta, mas em alguns dias espero também revisitar Vanquish – um título realmente injustiçado que certamente merecia novas sequências.

Caça às Bruxas

Bayonetta conta com a direção de Hideki Kamiya, grande mestre dos games, criador dos primeiros games das franquias Devil May Cry e Resident Evil, além de importantes criações no tempo em que esteve envolvido na Clover Studio (estúdio da Capcom que foi fechado em 2006) como Viewtiful Joe e Ōkami. É importante mencionar isso porque o título detém muitas inspirações em algumas destas obras, enquanto também faz muitas referências a outros.

Para quem não se recorda, Bayonetta é um hack & slash muito semelhante à fórmula de Devil May Cry, com foco em combate frenética mediante a performance de combos e uma avaliação por ranking ao final de cada segmento. A diferenciação surge nos pequenos detalhes, nos poderes exagerados, nas diferentes armas, em ter uma protagonista feminina um tanto quanto sexy, só que ainda confiante e empoderada sobre si mesma (mesmo que possa se discutir a sexualização exacerbada), além de uma trama toda estranha envolvendo bruxas e anjos com algumas inspirações da mitologia escandinava.

O jogador assume a personagem que dá nome ao jogo, que desperta após 500 anos estar selada em um cenário que só será contextualizado ao longo da aventura. Bayonetta não tem qualquer memória de seu passado, até que começa a se envolver com Jeanne, outra bruxa que meio que se torna sua rival, enquanto também lhe ensina alguns truques sobre seus próprios poderes, enquanto uma corja celestial passa a caçar as duas. Tudo isso em meio a uma situação que se revela sobre ser o despertar de uma entidade que colocará fim a era como a conhecemos.

10 anos depois…

Revisitei Bayonetta no último final de semana em relação à publicação deste texto, levei um pouco mais de 10 horas para encerrar sua campanha principal, além de ter ficado um pouquinho mais para relembrar o que havia para ser feito depois. Poderia ter gasto mais 10 horas buscando todos os colecionáveis deixados para trás, suado na dificuldade mais difícil e feitos os chefes e estágio secretos. Ainda quero fazer isso eventualmente. E sim, já havia terminado o game na geração passada, mas foi divertido rejogar tudo uma nova vez.

Talvez a maior questão aqui seja se Bayonetta envelheceu demais para ser apreciado em 2020 ou se continua tão fantástico quanto foi na geração passada? Talvez a melhor resposta seja dizer que em termos de diversão e jogabilidade, sua fórmula permanece viciante e comprometida em ser excepcional ao que o gênero hack & slash tende a oferecer. Há sinais sim de que existem elementos que hoje em dia são visivelmente indicadores de seu tempo, e do orçamento mais limitado dos anos iniciais da PlatinumGames, mas que em nada engessam a aventura.

Posso dar exemplos. A ambientação do jogo, que se passa em uma fictícia cidade na Europa, é pequena e inteligentemente reprisada diversas vezes até o segundo ato de sua campanha. Há uma praça que o jogador deve encontrar diversas vezes, seja com um visual normal, outra com ela toda em lava e até mesmo uma versão divina. E sendo justo, não é como se Devil May Cry 5, lançado ano passado, também não tenha abusado deste mesmo elemento de reprisar ambientes e tenha sido criticado por tal.

E não é que isso comprometa o ritmo ou a dinâmica do jogo. Só achei um pouco cansativo e não me lembrava que o demorava-se tanto para que o título apresentasse diferentes ambientes com diferentes ideias. Entretanto quanto o faz é quase sempre incrível. Parte das lutas e do sistema de combos com uma alta diversidade faz com que o jogador queira chutar seres divinos mais e mais vezes, independente da cenografia ao redor.

Outro elemento que também me remeteu ao tempo em que este jogo foi lançado diz respeito as cutscenes, que se dividem entre a tradicional animação in-game com telas estáticas que simulam um rolo antigo de filme, como se parte da obra estivessem sendo contada em uma telona de cinema. Esta característica diz muito sobre a inteligente direção artística do jogo do que um orçamento limitado para animar tudo. Dá charme a forma como conta parte da história da obra, enquanto economiza um pouco no tempo e dinheiro que se leva para animar de forma mais tradicional. Alias esse recurso de rolo de filme de cinema também foi sabiamente usado em Viewtiful Joe, alguns anos antes de Bayonetta existir, e também foi muito assertivo em tal efeito. No final das contas, é um recurso que funciona muitíssimo bem.

Na parte das coisas positivas, tive algumas surpresas pelo lapso de memória ao não me recordar tudo sobre sua campanha. Novamente mencionando Devil May Cry 5, fiquei impressionado com as cenas de Jeanne com sua moto, me remetendo ao que Dante fez ano passado com a sua. Difícil apontar a inspiração no jogo da Capcom do ano passado, porém foi uma surpresa relembrar que Bayonetta brincou com isso e não me recordava.

Até mesmo as mecânicas do combate com diferentes armas em Bayonetta, a qual o jogador pode selecionar entre punhos, espada, chicote entre outras belezinhas que mudam totalmente as técnicas de combate físico e o sistema de combos é algo que me agradou muito ver aqui neste título, sendo que também tinha sido algo que havia me impressionado ano passado com DMC5, que tradicionalmente sempre associei mais ao sistema de lutas com espadas. Essa diversidade em Bayonetta, que lhe permite usar diferentes armas brancas ainda é um grande fator de rejogabilidade do título, permitindo que o jogador brinque e experimente e se adapte com o que for melhor para si. Ao fim, cada um curte o sistema de uma forma muito mais particular e pessoal.

Ainda no âmbito das surpresas a qual minha memória não se provou tão afiada, adorei relembrar que o jogo oferecia uma enorme quantidade de grandiosas batalhas de chefes, algumas na qual sequer me lembrava existir (como uma grande batalha em meio ao oceano). Fora algumas fases especiais, como em uma rodovia em movimento, no melhor estilo Matrix Reload, além de uma em estilo shmup a qual você está em cima de um míssil em movimento.

Em termos gráficos e efeitos de som, Bayonetta não soam tão datados quanto alguns títulos da geração passada hoje soam. Os personagens são muito expressivos, com um movimento muito fluido, enquanto são fantasticamente bem dublados, com vozes que esbanjam personalidades. A trilha sonora é uma das melhores que a Platinum já produziu, enquanto que o som dos tiros e armas ditam muito bem o peso dos confrontos. Há uma efeito meio embaçante no ambiente que evita visualizar os polígonos não tão perfeitos quanto os jogos dessa geração possuem, o que mantém a boa aparência do jogo frente ao que existe hoje em dia.

Por fim, um último elogio digno de ser feito diz respeito as telas de loadings, que quase que sumiram por completo do jogo. Disso eu me lembro serem bem mais pesados no meu antigo Xbox 360, pois eram a tela em que ficava praticando os combos. Claro que se o jogador quiser ficar um pouco nessa tela, praticando, ainda é possível por meio de um botão que a segura até que você esteja pronto para continuar (função que também existia na versão original do jogo).

O teste de Bayonetta feito para esta análise foi realizado em seu novo port no Xbox One, ainda que também seja possível rodar sua versão para Xbox 360 via retrocompatibilidade. Não tive nenhum problema de engasgos, queda de taxa de quadros ou bugs. O título rodou maravilhosamente bem nos testes realizado. Está perfeito.

Considerações finais

Após terminar de escrever esta análise até o ponto do parágrafo acima, resolvi procurar aqui no site por antigos textos de Bayonetta, e encontrei dois, ambos de minha própria autoria. Ambos são de 2010, quando o jogo chegou ao ocidente após seu lançamento no Japão um ano antes. Uma análise antes dos tempos de análises com notas no atual modelo de reviews do site, e outro – de uma extinta colunaabordando a excitação de seu final.

São textos antigos, feitos em uma outra época de internet, com uma certa escrita (bem acelerada) a qual hoje em dia tenho um pouco mais de atenção e cuidado, porém ainda assim bem interessante de reler. Deu para perceber que minha opinião sobre Bayonetta não mudou muito desde aquela época, e que os pontos apontados aqui são os mesmos que me chamaram a atenção no passado. Mas ressalto a forma inteligente que menciono lá – e que me passou desapercebido ao criar este texto – sobre como o game trabalha bem a questão da guerra angelical sem apontar dedos para qualquer tipo de religião, afim de evitar afrontas ou ofensas desnecessárias. Gosto até mesmo da discussão mais elaborada que faço nesse antigo texto sobre a sexualização da personagem e que aqui achei que só caberia uma rápida menção. Faço um convite a quem se interessar, o link está no parágrafo acima.

Chega a ser curioso que Bayonetta 2 – que até hoje não tive a oportunidade de jogar, porém devo resolver isso muito em breve – quase não chegou a acontecer. E só aconteceu porque a Nintendo assumiu a bronca para si, fechando um acordo com a Platinum e lançando-o exclusivamente no Nintendo Wii U, e posteriormente no Nintendo Switch. A franquia está completando uma década e ainda estamos aguardando Bayonetta 3, que felizmente está em desenvolvimento. Tudo isso soa como uma obra que não está recebendo os devidos méritos que certamente possui.

Bayonetta é uma obra prima, não há motivos para que qualquer jogador que seja apaixonado por videogames não conheça ou tenha experimentado o título em algum momento de sua vida. É um título incrível, que mantém boa parte de sua qualidade mesmo que já tenham se passado 10 anos de seu lançamento.

Tudo funciona muito bem aqui. O título tem uma excelente apresentação, entregando um universo de fantasia altamente instigante, fazendo referências – de forma positiva – a muitas outras obras clássicas dos videogames, enquanto entrega um gameplay viciante, totalmente entorpecido em ação e adrenalina, protagonizado por uma forte personagem feminina, altamente consciente de seu empoderamento, a qual a sexualização parece condizente com sua capacidade de enfrentar o mundo colocado a sua frente. E quanto necessário, o jogo ainda a demonstra como uma mulher que se apaixona, seja por um interesse romântico, seja por sua irmã do passado, seja pelos laços maternos quando uma criança passa a lhe chamar de mamãe. O jogo tem ritmo, é desafiador, mas longe de ser frustrante. Tem alto valor de replay, ainda que admita que recicla muita coisa graças ao mérito de seus elementos serem bons o bastante para lhe instigar a repetir. Há muito para de coletar, para se comprar, para evoluir a forma de jogar, e você quer fazer isso, tendo ou não já virado o jogo. Bayonetta, ao fim, é uma obra singular, seja em 2009, ou 2010 ou em pleno 2020. Se você ainda não jogou, você está errado. Ponto.

Galeria

Extra – Gameplay do prólogo

Dando uma nota

Sua apresentação permanece tão incrível quanto sempre foi - 10
Jogabilidade se mantém viciante e altamente divertida - 9.5
Altíssimo valor de replay, instigando continuar jogando após o final - 9
Mesmo reciclando ambientes, nunca perde o ritmo e a oportunidades de mexer em sua dinâmica - 8.9
Referências a outras jogos estão por toda a parte, e isso é bom demais - 10
Ainda é visualmente incrível, mesmo 10 anos depois - 9
Bom tom de humor. Fortes e apaixonantes personagens, em especial Bayonetta - 9.5

9.4

Fantástico

Bayonetta já era um jogo incrível quando lançado originalmente geração passada, e vê-lo sendo relançado novamente, celebrando seus 10 anos, ainda é impressionante perceber como muitos de seus excelentes atributos permanecem presentes e compatíveis com os jogos atuais. Suas referências, inspirações, a forma como trama alguns temas, a jogabilidade tão viciante. É uma obra que ainda se mantém divertido de se jogar uma nova vez, como se torna obrigatório qualquer apaixonado por jogos conhecê-la. E aqui uma nova oportunidade foi dada. Não fique de fora.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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