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Análise | A Fold Apart

Disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch, PC & Apple Arcade

A Fold Apart é um apaixonante indie game sobre o amor e dobraduras, desenvolvido e distribuído por um pequeno estúdio em Toronto (Canadá) chamado Lightning Rod Games. O título chegou em abril ao Nintendo Switch, PC e no catálogo da Apple Arcade. Um mês depois, em meados de maio, seguiu para o PlayStation 4 e Xbox One. Ou seja, é fácil encontrá-lo em sua plataforma de jogo preferida.

O título é um jogo de puzzle envolvendo o ambiente, a qual tem dois pontos altos de destaque: primeiro a apresentação de uma narrativa sobre relacionamentos à distância, e segundo, tem a ver com sua direção de arte e estética, que está amarrada tanto ao tema proposto, quanto as mecânicas de jogabilidade. O que quero dizer com isso é que a história se passa em folhas de papel a qual o jogador deve dobrar o ambiente afim de permitir que os personagens acessem outros cenários em novas folhas.

Antes de dissecar um pouco mais os elementos do jogo, vale informar que A Fold Apart jogo está totalmente localizado para o português. Inclusive em plataformas que as vezes não recebe tal tratamento, como o Nintendo Switch, plataforma que utilizei para escrever esta análise. O jogo não tem falas em áudio, mas os personagens se comunicam em textos por meio de celulares, e todos estão devidamente em nosso idioma.

Desdobrando um relacionamento

A Fold Apart apresenta o relacionamento de um casal que é colocado a prova quando um destes personagens recebe uma oferta de trabalho irrecusável para, temporariamente, ir executar uma tarefa que o obrigará a ficar um período de tempo longe de seu (relativamente) recém descoberto amor.

Um detalhe muito bacana aqui, que dá sensibilidade ao jogo, é a possibilidade de permitir que esse casal não se limita exatamente ao convencional gênero homem e mulher. Antes de iniciar o jogo é dado ao jogador a possibilidade de escolher os sexos do casal, dando inclusive a escolha de serem do mesmo sexo, ou até mesmo invertendo o papel daquele que irá trabalhar à distância e aquele que ficará na cidade de origem. É um aspecto que não impacta a jogabilidade, mas que certamente reflete bem a sociedade atual e as liberdades que as pessoas conquistaram para amar aqueles que elas quiserem, independente do sexo. Inclusive o papel da mulher, que pode ser a figura que neste exemplo precisa ir trabalhar a distância, e o homem que irá aguardar seu retorno.

A narrativa trabalha justamente esse exemplo de provação que talvez muitos tenham que passar em um relacionamento: a separação temporária por meio de um evento que os mantém afastados (fisicamente) por muito tempo, e que coloca muitas dúvidas de quão forte ou verdadeiro tal relacionamento realmente é.

E o mais interessante na proposta do tema da história é que o jogo não escolhe lados. O ponto de vista sobre o que está acontecendo com o relacionamento vem dos dois lados. Seja daquele que aceito a oferta de trabalho e foi viajar a quilômetros de distância de tudo e todos. Suas dúvidas e angústias, em meio a pressão e estresses do trabalho, atrelado a um mundo a qual não lhe é habitual. Enquanto que a contraparte também sofre com a espera, em dúvida se aquele que irá retornar um dia será a mesma pessoa que partiu, se o fato dela ter ido trabalhar tão longe significa que o relacionamento não é tão forte quanto pensaram que fosse entre outras dúvidas tão comuns desse cenário em um relacionamento.

Particularmente, nunca passei por algo tão drástico assim. O máximo que posso pensar foi um período em que namorei a minha esposa e tínhamos um ano de diferença escolar. Eu fui para o primeiro ano de faculdade, enquanto ela terminava o último ano do Ensino Médio. Foi um período em que estranhamos e levantamos dúvidas em nosso relacionamento. Afinal, estava em um mundo totalmente diferente, estudando em outra cidade, pressionado pelos estudos, sem o tempo e energia que havia enquanto estava no colegial e estudava a cinco minutos de casa. Foi uma provação que superamos, porém muitos dos questionamentos que vi em A Fold Apart são muito semelhantes a coisas que passaram em nossas cabeças nessa fase pessoal de nossas vidas. O jogo sabe tocar os pontos emocionais certos, e é fácil se relacionar com o casal do jogo, enquanto nenhum deles está legitimamente errado, enquanto ambos sofrem com uma situação a qual precisam descobrir como superar.

Nisso o título apresenta com uma metáfora interessante, pois a mecânica principal da jogabilidade brinca com esse tema das folhas que precisam ser dobradas para abrir caminhos. Você precisa aprender a se “desdobrar” em um relacionamento (sacou?). É preciso saber quando virar a página, deixar de lado angústias e confiar em seu parceiro e até mesmo em seus sentimentos verdadeiros. De precisar descobrir novos caminhos que estão ali, a uma “dobra” de distância. A narrativa combina a mecânica de jogo, servindo como ponte de reflexão de como tudo irá se… desdobrar.

Páginas dobradas

Então, jogabilidade e narrativa andam juntas em A Fold Apart. O avanço do jogo se divide em momentos de diálogos, a qual o casal conversa por meio de mensagens no celular, para segmentos a qual o jogador acompanha um dos lados dessa história. Aprendendo assim o que um dos personagens do casal está pensando, o porque está sofrendo e como este resolverá o conflito interno afim de seguir amando tal pessoa à distância. Logo em seguida o jogador assume o controle do outro personagem, para aprender também o que ele está pensando e como está sofrendo com a distância.

Nestes momentos de reflexões individuais é que o jogador precisa assumir o controle dos puzzles que são colocados a frente da progressão da história. Aqui os personagens andam por cenários distintos de suas respectivas localidades. O personagem que fica na cidade a qual eles se conheceram passeia por campos e áreas mais calmas, enquanto aquele que foi trabalhar tem a angústia de prédios e obras, já que é sua profissão é a de arquiteto e envolve a construção de um prédio. O jogador passeia entre cenários tridimensionais, mas aqui reproduzidos em (bidimensionais) folhas de papel.

Enquanto o personagem reflete sobre o que lhe atinge o cenário a qual ele deve percorrer pode estar bloqueado. Se faz então necessário dobrar o cenário afim de descobrir como posicionar um caminho a se seguir até o próximo ponto, que dá acesso a uma nova folha.

Assim você dobra um cenário para descobrir uma plataforma na parte traseira da folha, ou até mesmo objetos e caminhos que vão te levar adiante. Conforme o jogo progride, a intensidade destes puzzles e suas mecânicas vão se tornando mais complexas.

O jogador aprenderá a dobrar horizontalmente e verticalmente o cenário, assim como a virar a folha do avesso, a girar as folhas e até mesmo a dobrá-las diagonalmente. E muitos vezes é preciso fazer mais de uma destas tarefas em conjunto para descobrir como sair da folha a qual você está preso.

Nem sempre é sobre colocar uma plataforma no local exato, mas de andar com seu personagem pelo trajeto. Leve-o para o verso da folha, faça-o cair em outras plataformas girando a folha, ou até mesmo levando pequenos cubos até seu personagem para que o mesmo possa empurrar e formar uma escada para subir até o final do percurso, sendo indicado por uma estrela coletável.

A Fold Apart não apresenta inimigos para serem derrotados, chefes ou exploração livre. É um jogo bem linear. Não há caminhos alternativos ou objetivos secundários. É uma jornada para conhecer a história de um casal que está em dificuldade, enquanto resolve os puzzles propostos relacionados a dobrar o mundo a volta destes. É uma jornada simples, porém cativante. É um jogo que quer lhe contar uma história, enquanto lhe dá uma interação com o mundo que conversa justamente com o sentimento ali proposto.

Considerações finais

Sendo um jogo independente, A Fold Apart não tem a pretensão de ser uma longa experiência de jogo eletrônico. E acho que nem precisaria de algo assim, sob o risco de tornar sua história maçante demais. É um título que termina-se em quatro horas, talvez até menos. No meu caso, o virei em duas sessões em um final de semana, jogando um pouquinho em um sábado e concluindo no domingo. Foi breve, mas muito satisfatório.

Talvez pudesse detalhar um pouco mais de suas mecânicas aqui, mas acho que não tem a necessidade de contar demais, sendo que parte da graça da experiência é justamente descobrir a evolução de sua jogabilidade envolvendo as dobraduras. Basta dizer que a mecânica principal funciona e que é divertida. Houve puzzles em que fiquei severos minutos até descobrir como deveria interagir com o cenário afim de conseguir progredir, mas eventualmente conseguia na base da tentativa e erro.

Se há alguma crítica que possa fazer sobre A Fold Apart é sobre o tempo em que o jogo demora para sair da jogabilidade básica do simples dobrar para ficar mais complexo com a gama de novas opções que vão surgindo a frente da aventura. O movimento básico é muito usado na hora inicial e leva-se tempo para quebrar esse ritmo. Pra não dizer que nunca topei com um puzzle que me desse a liberdade de resolver de alguma forma diferente da preestabelecida. O jogo poderia permitir que os jogadores saíssem de alguns puzzles sendo mais inventivos. Pena que isso não ocorre.

No geral, saio da experiência de A Fold Apart com um sentimento muito positivo sobre o game. Acho que o tema proposto é muito bacana, e conversa muito bem com um público mais jovem adulto, que certamente sofre com esse tipo de cenário de relacionamento a distância. A lição aqui é tocante, os valores discutidos são bons, e talvez até possa servir de lição para alguém que de fato esteja passando por isso nesse momento. Ou até mesmo servir de lição para quem possa vir a passar no futuro. É super importante que o jogo não tome partido e apresente os dois lados do casal, com o mesmo peso e intensidade para cada um deles. Só consigo imaginar que manter esse equilíbrio narrativo não é nada fácil.

Dentre os elogios, reforço novamente como é legal que esteja em português, pois dá acessibilidade ao público aqui do Brasil para sua narrativa, que tem um peso até maior do que sua jogabilidade. Ainda que lamente um pouco que a parte da tipografia no cenário tenha se mantido no original (em inglês), deixando a tradução da mesma em forma de legenda no canto superior da tela.

Por fim, A Fold Apart não é um jogo que você deva querer jogar apenas por sua jogabilidade ou pelos puzzles. Todo o conjunto da obra importa e deve ser apreciada. Isso pra não dizer que a escolha da arte aqui é impecavelmente bonita. É um destes jogos que encantam pela simpatia, criatividade e charme único. Um ótimo título para jogar com sua alma gêmea.

Galeria

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Dando uma nota

Visualmente é super charmoso e muito bonito - 8.9
Narrativamente bem executado, uma história, dois lados - 8.5
Jogabilidade envolvendo dobraduras é criativa, ainda que não se prove complexa - 7.8
Curtinho, mas se prova o suficiente para não cansar o tema abordado - 7
Acessível por contar com localização em português - 8
Puzzles lineares, sem margem para soluções diferentes - 7
Escolha do sexo do casal é um detalhe importante sobre nossas liberdades - 9

8

Tocante

A Fold Apart é um pequeno jogo independente que possui um coração. Apresenta uma tocante reflexão sobre os sentimentos que norteiam casais em relacionamentos à distância, enquanto se prova bem equilibrado para dar os dois lados de uma mesma história. Sua jogabilidade é criativa e os puzzles mesmo simples, são divertidos. O jogo progride bem e mesmo curto, é uma bacana experiência de se vivenciar.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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