O que dizer de: O Incrível Mundo de Gumball?

É o Cartoon Network fazendo aquele humor absurdo das antigas?

Se você não conhece essa produção do Cartoon Network, é possível que ao olhar a imagem acima você automaticamente pense: “que diabos é isso?”. Porque esse é o impacto visual causado ao ser apresentado pela primeira vez a qualquer episódio da série, que é exatamente essa coisa absurda e maluca que talvez não faça o menor sentido para quem está passando em frente a TV e repara nestes personagens 2D com 3D interagindo em cenários que parecem reais e sem qualquer tipo de contexto do porque diabos é tudo tão… incrível como afirma o nome da série.

O segundo impacto após esse choque visual talvez se pegar pensando qual é a faixa etária do desenho, afinal ele tem todo um ar meio infantil, aparentando ser algo para crianças pequenas. Afinal os personagens são fofinhos (alguns nem tanto), todos bem coloridos com cores realmente vibrantes. alguns bem toscos com expressões faciais exageradas. Fora que os protagonistas, Gumball e Darwin, são personagens hiperativos, estando sempre correndo, gritando e se metendo em confusões absurdas e até mesmo surreais. Alias surreal é um bom termo para definir muitas das produções do Cartoon Network, seja as mais recentes – como Titio Avô ou Apenas um Show – quanto algumas mais clássicas (A Vaca e o Frango ou Coragem, o Cão Covarde).

Aí de repente você percebe que Gumball tem essa pegada dos bons tempos de Cartoon Network, onde os desenhos podiam ser para pessoas de 8 a 80 anos, pois há espaço para todo tipo de humor, seja do infantil ao mais adulto, quase sempre nas entrelinhas para o bom entendedor. E que toda essa bizarrice visual tem um papel importantíssimo para o charme da série, sendo impossível pensar que ela funcionaria caso fosse animada em um formato mais tradicional usando apenas a modelagem 2D e num modelo mais comum para desenhos animados. Boa parte do vislumbre visual de O Incrível Mundo de Gumball é realmente causado pelo impacto visual do estilo misto de animação e no quão diferente a produção se torna frente ao que existe hoje em termos de séries animadas.

Já faz um bom tempo que acompanho a série e tenho a impressão de que os primeiros episódios, produzidos em 2011, não são tão bons como os mais recentes são. Mas esse é um problema comum em séries ou animações, onde primeiro a gente precisa se acostumar com algo diferente e os produtores as vezes precisam aprender melhor como esse universo original e diferente pode funcionar em sua totalidade. Porém não considero os primeiros episódios ruins, pelo contrário, eles seguem seu ritmo, apresentando a sua maneira, os personagens, suas personalidades e um pouco do contexto – ou falta dele – para que o desenho funcione. Muitas vezes os próprios personagens tiram sarro de como estranho e absurdo é ter um amigo que é um balão com um rosto feito com canetinha ou um T-Rex fêmea que frequentemente sai atacando seus próprios amigos quando fica ofendida. E tudo bem isso. Você entende que até pra eles isso é estranho, mas é a realidade deles e não tem muito o que se fazer quanto a isso. Muito parecido com a nossa realidade, que também possuem coisas que não entendemos e não conseguimos explicar. Uma das muitas sacadas inteligentes do desenho para que não seja necessário contextualizar tudo que existe de surreal e nonsense no universo do desenho.

O que torna Gumball divertido é a diversidade de situações e histórias que a série traz consigo. O modelo lembra muito o modelo narrativo de animações mais adultas, como Simpsons ou Family Guy, onde temos uma família principal – a do Gumball – e isso permite que os episódios tenham plots dedicados a certos membros da família Watterson, que é composta por Gumball e Darwin, um gato e um peixinho dourado que um dia ganhou pernas e virou o irmão de Gumball – sim, isso mesmo, o desenho mesmo cita dessa forma -, a irmã Anais que é a caçula e a mais inteligente da família, e os pais Nicole e Ricardo, sendo que o pai não trabalha e é o preguiçoso e mais toupeira da família – estereótipo que também é usado em desenhos da fórmula Simpsons – e a mãe que sustenta a família e tem um temperamento explosivo quando Gumball e Ricardo dão motivos – e eles dão muito – para tal. Ah, e sim é um coelho que é casado com uma gata e não, isso está longe de ser a coisa mais bizarra da série.

E com esse elenco há episódios relacionados a convivência familiar, episódios na escola dos garotos, de cotidiano como supermercado (estes quase sempre hilários), com o pai desafiando os meninos a fazerem algo absurdo que sempre vai causar um efeito cascata de confusão ainda maior e assim por diante. Os coadjuvantes da série também garantem excelentes episódios como o personagem que tem um rádio no lugar da cabeça onde os meninos passam o episódio inteiro tentando descobrir o que diabos o personagem quer já que ele fala apenas por sons de boombox ou em um outro onde eles emprestam um jogo de videogame para um amigo da escola que nunca devolve a fita e então eles resolvem pegar algo do amigo e decidem por sequestrar a sua irmão. Sim, é nesse nível de humor sem noção.

Alias há muitos episódios que mostram que os produtores estão antenados no que as crianças curtem hoje em dia. Há muitas piadas relacionadas a videogame e muitas nostálgicas, como os meninos indo comprar um cartucho de videogame que não roda no console deles e o cara da loja não admite trocar e eles passam o episódio inteiro azucrinando o empregado da loja. Há muita piada da geração anos 80/90 adaptadas ao mundo de hoje dos videogames. Isso atrai as crianças e adultos nestas histórias.

Há excelentes episódios que brincam com clichês de sucesso, como a família jogando um jogo de tabuleiro que tem os mesmos efeitos que lembram o filme Jumanji, ou em outra situação onde o Ricardo consegue um emprego e isso desencadeia a distorção da realidade levando quase a destruição do mundo ou os meninos tendo que tomar conta da irmã e com isso quase destroem a casa inteira.

gumball

O Incrível Mundo de Gumball então tem realmente um visual que pode a princípio parecer infantil demais, mas na verdade ele é feito nesse sentido para que faça sentido o “incrível” do título, indo do absurdo, do surreal ao sem noção, mas do jeito correto, sem parecer forçado ou sem graça. O humor é naquele nível que agrada a todo mundo, independente da idade, com piadas para crianças e para adultos. É diferente, ao mesmo tempo que é aquilo que as pessoas sempre esperam de um desenho do Cartoon Network, dos bons tempos em que adorávamos O Laboratório de Dexter, Johnny Bravo e A Vaca e o Frango. E eles zoam todo mundo, professores, vegetarianos, trabalhadores, velhinhas, policiais, pais e filhos etc tudo de uma forma inocente para as crianças, mas que os adultos pesquem a sátira.

A série faz parte da trinca de sucesso atual do Cartoon Network, com Hora de Aventura e Apenas um Show. Porém na minha opinião, Gumball corre por fora para ser a melhor produção do canal da atualidade. Isso porque Hora de Aventura com suas temporadas mais recentes, na minha opinião, perdeu um pouco daquela coisa sem sentido e bacana que tinha antes dos produtores ficarem tentando contextualizar e explicar tudo, que obriga a gente a ver certos episódios em sequência, sem entender algo quando pegamos as coisas meio espaçadas pelo canal. Já Apenas um Show é realmente muito bom, mas depois de tantos e tantos episódios já exibidos começo a ter a impressão de que a fórmula da série meio que se desgastou, onde os episódios mais recentes parece mais do mesmo, onde o fator originalidade e novidade meio que se perderam, ainda que haja um esforço para acrescentar coisas novas (como os novos episódios com o estagiário do parque). Alias os melhores episódios atuais de Apenas um Show são realmente aqueles fora da curva da série, como aquele em que o estagiário congela ao tomar uma raspadinha supercongelante ou a disputa de mergulho na piscina com o Mordecai e o pai da margaret. Enfim, atualmente me pego me divertindo mais com Gumball do que com os desenhos citados, mas talvez seja apenas eu.

Enquanto isso o Cartoon Network tem investido em outros desenhos tão maluco quanto. Titio Avô já comentei por aqui quando estava prestes a estrear e estou gostando bastante. Essa semana rolou um episódio muito maluco com um cachorro que queria sua bolinha que caiu no telhado da casa do vizinho e que ele não podia adentrar pelo quintal do cara que é um nervosão e qual a solução do Titio Avô para resgatar a bolinha? Inverter o mundo inteiro, fazendo o que fica no chão ir pro céu e o que fica no céu ir pro chão. Faz sentido, aí ele vai pelas nuvens até o telhado do vizinho e pega a bola sem tocar no jardim do cara. OK, então. Claro que depois a coisa vai ficando ainda mais absurda com buracos negros, tentáculos gigantes etc. Ah e o CN começou a exibir recentemente Steven Universe por aqui, mas infelizmente perdi a estreia e peguei apenas 2 episódios qualquer e ainda não entendi a pegada da série, que tem um garoto com uma jóia mágica no umbigo ajudando três heroínas estranhas com umas missões estranhas e o guri com um pai todo estranho que tem um lava-jato. Parece legal, mas carece de um contexto para entender melhor a história que parece que tem uma tendência a ser mais sequencial do que outros desenhos do canal.

E só para fechar, voltando para Gumball, deem uma olhada nesse desenho. Deixem o preconceito inicial que pode rolar nos primeiros minutos passar. Tentem ver primeiramente alguns episódios focados na família, pois são os melhores e mais divertidos. Duvido que vá se arrepender.

Fica a dica!

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