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Análise | Going Under

Disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch & PC

Going Under é aquele conto de todo estagiário que vai trabalhar no emprego dos sonhos e acaba sendo mandando pro calabouço da empresa para eliminar monstros que ali habitam. Acontece sempre. O jogo foi desenvolvido pelo estúdio Aggro Crab Games e está sendo distribuído globalmente pela Team17. Seu lançamento aconteceu no último dia 24 de setembro.

O título é um roguelike/roguelite a qual o jogador precisa entrar com tudo no mundo corporativo nada saudável de pequenas startups repletas de seres nada amigáveis, cuja meta é descer o cacete em todos os trolls e outros seres bizarros que habitam o porão da grande corporação a qual você acaba de ser contratado. Sendo uma novata na companhia, Jackeline Fiasco precisa lidar com o trabalho braçal e soltar a porrada para abrir caminho por salas repletas de criaturas obviamente nada satisfeitas com sua presença ali.

Com salas geradas proceduralmente, o jogador terá a sua disposição um arsenal de armas baseadas em materiais de escritório, entre outros utensílios úteis para bater em empregados insatisfeitos. Habilidades equipáveis, itens consumíveis e bônus de atributos vão auxiliar o jogador em suas várias partidas até conseguir vencer cada um dos calabouços presentes no jogo. Será que Jackie será promovida antes que seu contrato seja rescindido?

Desengonçadamente divertido

Going Under tem um charme peculiar, e parte disso vem de uma divertida direção de arte, com um estilo gráfico realmente único e apresentando um ambiente de cores super saturadas e vibrantes. Some também o fato dos personagens andarem meio desengonçados, como se o menor dos movimentos fossem propositalmente exagerados. O mesmo vale para seus movimentos de bater, rolar, esquivar, pegar objetos e sair correndo dos inimigos. E mesmo desengonçados, a movimentação apresenta uma ótima fluidez em relação a ação e respostas dos controles.

Outro mérito destes elementos está na construção dos ambientes das salas procedurais, recheadas de muitos objetos e detalhes, sendo que boa parte dessa cenografia pode ser usada como arma pelo jogador ou destruído e empurrado por seus ataques ou dos ataques dos inimigos. Dá um ótimo senso de apresentação ao jogo, levando facilmente o jogador para a imersão desejada.

Elogios também precisam ser feitos a trilha sonora, assim como os efeitos de sonoplastia do bater, dos ruídos dos inimigos, do quebrar de coisas e afins. É um jogo gostoso de se ouvir, especialmente as músicas de cada um dos calabouços representados por ambientes de empresas e escritórios. Normalmente músicas não me despertam muito atenção em diversos jogos, mas sempre que conseguem fazê-lo faço questão de apontar tal fato.

O resultado de todos estes elementos resulta em um título divertido de se jogar, pois acaba sendo agradável aos olhos, aos ouvidos e tem uma excelente resposta nos controles. É um jogo que encanta logo nos primeiros momentos em que a ação começa. E que mesmo diante das primeiras mortes e fracassos, o jogador sente a vontade de tentar mais uma vez. De novo e de novo.

Materiais de escritório, seu arsenal

Grampeadores, laptops, monitores, lápis, canetas, cadeiras, extintores, almofadas, leques, caixotes de papelão, tachinhas, teclados de PC, garrafas entre outros objetos cotidianos se tornam possíveis armas em Going Under. Como mencionei, quase tudo no ambiente pode ser coletado e usado para esmurrar os inimigos. Claro que estes objetos não são os mais eficientes, porém na hora do aperto, o que estiver ao seu alcance já lhe ajudará.

Isso porque o jogo tem esse sistema a qual os objetos quebram após alguns acertos em inimigos. Normalmente o jogador tem que quebrar dois a três objetos comuns para eliminar inimigos mais comuns dentro de cada sala da masmorra. Isso faz com que se esteja constantemente buscando os melhores itens para serem utilizados como armas.

Então sim, você irá encontrar espadas, porretes de espinhos, marretas enormes, picaretas, diversos tipos de lanças, facas de açougueiro, espadas entre outros objetos afiados e pontudos que tendem a durar mais tempo do que uma caneca ou um vaso com um cacto. Mas estes também quebram após utilizar em uma ou duas salas, as vezes até menos dependendo da quantidade de inimigos que estiverem entre estas salas. E normalmente são estes inimigos que, ao morrer, derrubam tais itens tão almejados.

Também importante apontar que o jogador irá usar muitas armas de diferentes formas. Lápis e lanças, por exemplo, são utilizadas como armas que espetam, ou seja, seus ataques serão sempre frontais. Enquanto uma caneca ou um vaso, são objetos que o jogador quebra na cabeça de inimigos de uma única vez, fazendo o movimento vertical de cima para baixo. Já objetos como espadas e picaretas tem um ataque horizontal, com uma raio de alcance lateral muito maior. Existem também objetos que podem atirar coisas nos inimigos, como grampos de um grampeador e armas como uma que pode atirar dinheiro ou camisas. Por fim, existem objetos que causam danos elementais, como teclados e laptops que dão choque elétrico nos inimigos, imobilizando-os momentaneamente. Há também os extintores que congelam oponentes e tochas que podem colocar fogo, tanto no cenário quanto nos inimigos.

Durante as diversas partidas que tive jogando o título, já que é preciso ser derrotado nas masmorras algumas vezes até entendê-la por completo, não houve uma vez sequer em que fiquei sem opções de cenários ao redor. Há sim momentos em que todas as melhores armas em sua mão quebram, mas o improviso faz parte da dinâmica do jogo, e é isso que o torna divertido, na mesma proporções da dificuldade que um roguelike precisa proporcionar. Vai morrer porque está numa sala apenas com objetos que causam dano mínimo? É possível. Mas e se não houver mais objetos? Bem, Jackie tem seus punhos, ainda que causem apenas 1 de dano em seus adversários. Mais uma informações importante: você pode sempre carregar consigo três armas.

Apps, mentores & Perks

Como todo bom roguelite, algum senso de progressão é preciso entregar ao jogador após certo número de derrotas. Com Going Under não é diferente, permitindo que o jogador destrave habilidades passivas (perks) e mentores que vão atribuir certos bônus permanentes para cada partida que você estiver. Além disso, o conhecimento do que faz cada item consumível, aqui inseridos como apps de um celular, permitem que o jogador crie estratégias de acordo com aquilo que encontrou dentro das masmorras. Mas permita-me explicá-los indivualmente.

A começar pelos perks, as habilidades passivas que geram certos status ao seu personagem sempre que você o encontrar dentro de uma partida, mas que ao morrer tal atributo se perde, sendo necessário reencontrá-lo novamente na próxima tentativa. Estas habilidades são das mais variadas, desde fazer o último inimigo da sala virar seu aliado, seus ataques dar choques nos inimigos vez ou outra, fazer as armas ficarem gigantes, aumentando seu dano, ou seu braço fica gigante e aumenta seu raio de ataque. Há também habilidades como congelar inimigos ao tomar um dano, trocar um coração permanente por quatro temporários (não pode ser repostos quando se os perdem), aumentar sua taxa de crítico etc. São diversos perks e quando mais você conseguir acumulá-los dentro de uma masmorra, maiores são suas chances de sucesso.

Há ainda um elemento bastante legal dentro do sistema de perks: a possibilidade de equipar um de forma permanente. Funciona assim, ao encontrar um na masmorra e ativá-lo, isso fará encher um status do perk. Quando o mesmo chegar a 100% ele é destravado de forma permanente, dando a opção de equipá-lo antes de iniciar uma partida. Mas atenção: é somente um perk que pode ser ativado assim. O jogador pode trocar entre os que já atingiram 100%, e estão destravados, mas somente um pode ser equipado de forma para se ter ao iniciar uma partida. E no meio dela não se pode trocar.

Similar aos perks, há os mentores, empregados dessa empresa que lhe contratou e que vão lhe auxiliar (de longe) a cumprir suas metas nas masmorras. Mas no mundo dos estagiários nada vem de graça, certo? O jogador precisa cumprir certas metas para estes funcionários aceitarem lhe ajudar. Colocar fogo em certo número de objetos, levar um cachorro que lhe atraso em meios a três andares de uma masmorra, comprar armas nas lojinhas, ou não gastar nada até chegar ao final de uma masmorra e assim por diante. Estes mentores funcionam como os perks no sentido de que o jogador pode sempre escolher um por partida. E nada de trocar no meio da mesma.

Estes mentores ainda possuem níveis, que destravam ainda mais recursos ao jogador. E são bônus bem úteis. Um deles, por exemplo, pode roubar um item da loja sempre que você entrar em uma. É aleatório, mas como seu dinheiro se perde a cada partida, é sempre uma mão na roda. Uma outra mentora vai lhe dar uma loja exclusiva, com preços bem mais em conta, mas que lhe entregará os itens depois de três a quatro salas a frente da masmorra. Um outro troca os apps (a qual já explicarei) por latinhas de refrigerantes que causam outros efeitos nos inimigos. Também há alguns bônus relacionados a conseguir mais dinheiro para conseguir comprar mais itens ou poder carregar dois apps ao invés de um. Enfim, são habilidades que são úteis e permitem ir mais longe nas masmorras. Quanto mais missões secundárias você realizar para seu mentor favorito, mais atributos bônus conseguirá.

Estes dois elementos dão o senso de progressão dentro do título. Com isso você não começa uma partida com a mesma impressão que teve quando iniciou o game. Depois é aprender os padrões de ataques dos inimigos, suas classes, e quais armas são melhores ou piores. E então há os apps: aplicativos para seu smartphone que se comportam como uma espécie de item consumível. Estes apps caem de inimigos derrotados e possuem múltiplas funções, sempre de curto efeito. Pode ser ativar um mini carro que lhe torna invencível, ou criar um boneco de Jackie que distrai inimigos, ou até mesmo invocar um aliado. Eles ainda podem chamar um drone de item, ou melhorar as armas que estiver carregando ou causar um clarão de luz que cega momentaneamente os inimigos. São bem úteis, mas só se pode carregar um por vez. Se já estiver em posse de um e pegar outro, o anterior simplesmente desaparece. Lembrar o que cada app faz é parte importante da estratégia de saber usá-lo.

Pormenores

Feitos os elogios, mais que merecidos, e explicado boa parte de seu gameplay, tenho alguns pormenores a serem comentados acerca de Going Under. Acredito que são detalhes mínimos que ou não me agradaram ou não enaltecem o título quanto seus demais atributos. Acho que vale esclarecer estes pontos e dar minha sincera opinião.

Bem, a começar que o título é mais curto do que achei que seria. São entre sete a nove horas de experiência para finalizá-lo. Algo que dá para se fazer em um final de semana tranquilamente, com uma valor de replay um tanto quanto baixo quando se colocado lado a lado com outros títulos desse gênero roguelike/roguelite. E uma vez fechado, não há incentivo para continuar jogando. Some ao fato do game ter basicamente três masmorras, só que no meio da campanha principal estas sofrem modificações para serem mais desafiadoras e soarem como três novas masmorras (e até soam, porém apenas em parte). Quando há essa virada nas masmorras, após vence-las uma primeira vez, novos inimigos surgem e a dificuldade delas aumentam. Mas as armas e ambientes seguem a temática da masmorra em si.

Até mesmo os chefes que existem em cada uma delas, ganham uma versão aprimorada. Alias, os chefes, em particular, não são tão difíceis quanto chegar até eles. Basta chegar até eles com uma boa quantidade de vida e aprender a desviar de seus ataques. Jackie alias é eficientemente boa em rolar de ataques inimigos. Alguns deles cheguei a derrotar logo no primeiro encontro com os mesmos. Nenhum em particular chegou a me dar grande trabalho.

E então vem o segundo ponto que não me agrada no título: a ausência de uma localização em nosso idioma. Sim, o título está todo em inglês. Isso não faz diferença na hora da ação, mas Going Under tem toda uma narrativa cheia de tiradas inteligentes sobre o mundo corporativo, estagiários e ambientes de trabalho tóxico. É uma construção feita massivamente em caixas de textos de falas dos personagens, sem um áudio para os mesmos. Não sou fluente em inglês, porém me viro muito bem com idioma, mas tenho que admitir que chegou um momento a qual tantos diálogos com termos desse universo das startups me cansou e apenas parei de ficar querendo acompanhar tudo. Eu estava gostando do gameplay e a barreira de tantos diálogos estava estragando um agradável ritmo.

O ponto é que essa parte narrativa é um dos muitos elogios que são feitos ao jogo lá fora. O texto é inteligente e engraçado. As críticas são pontuais e reflexivas. Tudo lindo, entretanto acho que perde muito desse efeito quando se tem um título lançado globalmente, a qual o nosso idioma não se faz presente. Acaba sendo uma barreira de acessibilidade para muitas pessoas. Não ajuda o fato das cenas de história serem estáticas, com artes dos personagens em caixas de texto. Talvez se tivessem um áudio, ainda que inglês. Juro que tentei, mas não me encantei com o formato a qual a narrativa se apresenta, e certamente teria me esforçado mais se estivesse em nosso idioma.

Considerações finais

Going Under certamente tem ótimas ideias e funciona muito bem quando analiso seu lado videogame: sentar e jogar sem ficar pensando demais sobre seu tema ou sua proposta narrativa. Posso estar sendo rabugento demais? Talvez, não vou negar. É possível também que o tema simplesmente não seja combine muito com aquilo que gosto. Essa coisa de empregados menosprezados, chefes sem noção e ambientes tóxicos são sim temas importantes e atuais, só que não sei que casa com a diversão aqui proposta. Só me parece tirar sarro de algo que talvez devêssemos levar mais a sério, sabe? Entendo a mensagem, mas no final do dia descobri que só queria mesmo atirar grampos na cara de trolls e não escorregar em poças de café.

Dado a particularidade de ser um jogo indie, dá também para relevar a ausência de uma modalidade cooperativa multiplayer, o que me parece que seria bem legal se fosse bem aplicada dentro da mecânica criada. Assim como a inserção de extras após a finalização do jogo. Um modo infinito, com mais aleatoriedades, novos perks e modificadores seria bem vindo. Pena que nada disso foi criado, ao menos não nesta janela inicial de lançamento.

A conclusão que posso tirar é que Going Under vale ser jogado porque é um título com muita personalidade, com charme singular e uma deliciosa jogabilidade, destas que dá muita liberdade para o jogador improvisar nos piores momentos. É diversão garantida e não tem qualquer tipo de frustração. Não é um jogo super difícil, que lhe deixará dezenas de vezes travado em algum lugar, e sim algo que apresenta um bom desafio balanceado. Vai ter que morrer algumas vezes, mas cada retorno terá um sabor um pouco diferente do anterior. É um destes jogos que o jogador aprender com seus erros, ou sua impaciência de ser cuidadoso, e possui a sensação de estar sempre conseguindo avançar. É um destes jogos que se joga com um sorriso no rosto, sem sequer se dar conta de estar sorrindo.

Galeria

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Dando uma nota

Ótima apresentação, título apresenta própria personalidade e charme singular - 9
Visualmente super colorido, vibrante e cheio de estilo - 8.8
Contagiante trilha sonora, com eficientes efeitos sonoros - 8.8
Delicioso combate de improviso, com armas e objetos diversos - 9
Ausência de localização em português compromete parte de sua narrativa (feita com muitos textos) - 7
Termina ao ter sua campanha concluída, baixo valor de replay após isso - 6
Bom senso de progressão e ritmo para um roguelike/roguelite - 8

8.1

Divertido

Going Under oferece uma divertida proposta de combate de improviso com uma grande variedade de objetos comuns de um ambiente de trabalho, com uma sátira em torno do mundo cooperativo e um desafio que não frustra, mas ainda não facilita demais. Um título cheio de personalidade e charme, mas que também tropeça em alguns detalhes.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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