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Análise | Kaze and the Wild Masks

Disponível para PlayStation 4 e 5, Xbox One e Series, Nintendo Switch & PC

Kaze and the Wild Masks é um jogo indie de ação e plataforma 2D, desenvolvido pelo estúdio PixelHive (estúdio brasileiro, com sede em Porto Alegre – Rio Grande do Sul) e distribuído pela holandesa Soedesco, lançado em 26 de março de 2021 para as plataformas PC, Google Stadia, Nintendo Switch, PlayStation 4 (e PS5 por retrocompatibilidade), Xbox One (e Xbox Series por retrocompatibilidade). A versão utilizada para esta análise foi a do Xbox One.

Mesmo não contando com diálogos em áudio, o jogo conta com diversas opções de idioma para seus textos e menus, sendo que o português está entre estas opções de localização, o que é interessante para o pessoal que não está familiarizado com outras línguas. Ponto para a desenvolvedora que teve tal cuidado.

Se você faz parte do mundo dos games há mais tempo (claramente o meu caso) já vai notar de cara as semelhanças de Kaze and the Wild Masks com os jogos da trilogia Donkey Kong Country (SNES), lembrando que os 3 jogos que formam esta trilogia estão disponíveis gratuitamente para os assinantes do serviço online da Nintendo nos jogos clássicos de SNES, a consagrada série da Nintendo apresentou desde sempre essa mesma pegada encontrada aqui em Kaze and the Wild Masks, e nem de longe isso é ruim, fica o aviso.

O conceito aqui é controlarmos Kaze, uma coelha, por diversas áreas, cada uma formada por várias fases distintas, lotadas de inimigos vegetais (tomates que atiram ervilhas com bazucas, rabanetes voadores, cenouras andantes, sabugo de milho e por aí vai), obviamente cada mundo termina com uma batalha contra um chefe desafiador e que vai exigir reflexos rápidos e, ao mesmo, tempo calma e análise por parte do jogador.

Kaze pode pular e planar ao girar suas orelhas por um determinado período, o que pode ser útil para atravessar penhascos no decorrer das fases, além disso, para eliminar os inimigos podemos pular sobre eles. Hugo faz a vez da fada Navi de Zelda, voando ao nosso redor e funciona como proteção fornecendo uma vida extra. Um diferencial aqui é que Kaze ao encontrar as Wild Masks (máscaras selvagens na tradução) acaba por se transformar em outros 4 animais (águia, tubarão, tigre e dragão) e a jogabilidade muda conforme a transformação, fato que entrarei em detalhe mais tarde neste texto.

Como tudo começa

Kaze e seu amigo Hogo exploraram um templo em um local antigo, e ao acessar o mesmo dão de cara com um anel voador, que imediatamente chama a atenção de ambos. Este artefato emite uma forte rajada elétrica e com o impacto Kaze é arremessada para longe, e Hugo é sugado pela joia para seu interior. Ao recobrar a consciência Kaze percebe que um antigo mal despertou, mal este que estava contido pelo artefato, e que agora quem está aprisionado no artefato é seu amigo Hogo.

Hogo consegue produzir uma barreira de proteção e salva Kaze da explosão que acontece a seguir, mas os danos de tal acontecimento recaem sobre as Ilhas Cristalinas. Os vegetais ganham vida e se transformam em inimigos variados e poderosos que passam a proteger as fases, obviamente impedindo o progresso de Kaze em sua busca para restaurar a ordem no mundo. Em cada mundo há um grande chefão, causando mal a região, a qual Kaze deve derrotar para seguir sua jornada em busca de máscaras que lhe concederão o poder e as habilidades necessárias para derrotar o que quer que estivesse aprisionado no anel.

Aqui fica uma ressalva, a narrativa da aventura acontece somente por meio de animações em certas fases e por meio de ilustrações que são desbloqueadas ao se coletar certos itens (vou explicar mais tarde), cabendo ao jogador bastante atenção nas artes e ilustrações que contextualizam a trama do jogo. Por mais simples que essa direção seja, é o suficiente para se encantar com o mundo de Kaze.

O poder das Wild Masks

As “máscaras selvagens” liberam para uso os poderes dos quatro lendários guardiões das Ilhas Cristalinas, e são encontradas em totens, disponíveis em algumas fases, permanecendo em uso até o final da mesma. Infelizmente não é possível levá-las de uma fase para outra quando o concluímos usando alguma das máscaras.

De uma certa forma, lembra um pouco a estrutura de como se utiliza os animais nos clássicos títulos de Donkey Kong Country. Estes segmentos de fases são justamente moldadas para serem jogadas com tais máscaras e suas habilidades correspondentes. Não é possível perdê-las, portanto.

Para vestirmos as máscaras há que se passar na frente do totem correspondente, vai rolar uma animação que mostra a transformação de Kaze, e logo em seguida já estaremos com a forma do animal correspondente, com novas habilidades e, consequentemente, mudanças na jogabilidade. Vamos a uma rápida descrição das habilidades de cada uma:

  • Águia – Permite a Kaze voar e atirar em seus inimigos. As fases com essa transformação geralmente são com scroll para cima ou para baixo, onde devemos desviar de obstáculos e atacar inimigos, podendo ser derrotados ao pisarmos sobre eles durante o voo ou ao serem atingidos.
  • Tubarão – Essencial para as fases onde o mergulho é necessário, podemos nadar mais rápido ao pressionar um botão ou dar um bote para atacar os inimigos debaixo d’água. Dá um ótimo sendo de controle para estes estágios.
  • Lagarto – Dá para dizer aqui que Kaze se torna um “Sonic Lagarto”, não parando de correr por nada e cabe ao jogador conseguir desviar de obstáculos, atacar inimigos e calcular milimetricamente pulos em sequência. Ao pressionarmos o botão de B para baixo no momento de realizarmos o salto com o botão A iremos cair em alta velocidade, o que vai ser necessário para desviar de inimigos posicionados na altura do pulo e dar o ricochete necessário para passar determinadas áreas (soa meio complicado, eu sei). Declaro aqui que as fases com a máscara de lagarto são as qual achei as seções mais desafiadoras dessa grande aventura.
  • Tigre – Kaze passa a poder escalar paredes e realizar botes rasantes na horizontal. Ótimo para alcançar áreas do cenário que não podemos alcançar como o pulo convencional. E em determinadas áreas teremos que fazer manobras usando esta habilidade (com o botão de ataque) e pular em seguida, conseguindo assim acessar áreas mais distantes.

Escolha sua dificuldade

O lance da dificuldade se baseia no fato de contarmos somente com 1 coração de vida, podendo ter um adicional extra de dano caso se tenha a proteção fornecida por Hogo, que estará voando ao redor como um escudo protetor. Isso ocorre toda vez que encontrarmos um coração durante a exploração da fase, fazendo Hogo se juntar a aventura. Ao ser derrotado, esgotado o escudo de Hogo e o coração de Kaze, o jogador é enviado ao começo da fase ou ao último checkpoint conquistado. Se coletarmos um coração extra já possuindo Hogo, o coração extra vai se converter em cristais – que são como as moedas de jogos como Super Mario.

Para quem não curte o sofrimento de morrer e recomeçar estágios, o jogo apresenta duas opções: o Casual Mode, que apresenta mais pontos de salvamento (checkpoints) nas fases, além de vidas extras (Hugo armazena mais do que 1 coração), sendo a dificuldade recomendado para quem não jogou jogos plataforma nos últimos tempos ou só quer curtir o jogo sem se preocupar em morrer.

Já o Original Mode, por sua vez, apresenta um maior desafio justamente por não conter tantos checkpoints e Hugo armazenar somente 1 escudo extra, logo esse modo vai exigir uma dedicação do jogador. Escolhi o Original Mode e ele realmente apresenta um desafio constante, mas nada que vai arrancar seus cabelos. Claro que algumas fases vão apresentar um desafio um pouco mais elevado que outras, enquanto os chefes vão ser bem desafiantes, justamente por Kaze não pode tomar dano se estiver sem o escudo de Hogo.

A fórmula estrutural

Como estamos acostumados, todo jogo de plataforma se baseia em um ambiente formado por vários mundos, os quais por sua vez são compostos por vários estágios que vão sendo desbloqueados à medida  que os ultrapassamos. No final de cada mundo (são quatro mundos no total) temos uma luta com um chefe final que ao ser derrotado vai possibilitar a visita ao próximo mundo, onde seguiremos a mesma estratégia mais uma vez.

Outra característica de jogos de plataforma é a sua facilidade de ter seus comandos básicos assimilados pelo jogador durante a sua jornada na aventura, mesmo que haja alterações nas formas de controle, que acontecem durante as transformações de Kaze, assim como nas mudanças de estruturas apresentadas pelas fases. Nada vai demorar mais do que alguns segundos ou umas duas tentativas para se tornar padrão. Não exigir combinações mirabolantes de botões para se executar ações rotineiras é muito bem vindo, pois torna o título bem acessível a uma gama maior de público.

Por falar em mudanças e exploração, temos diversos colecionáveis para serem conquistados ao longo da jornada. Primeiramente cada fase possui seus conjuntos individuais de colecionáveis, e pegar todos vai dar uma apresentação diferente na tela de conclusão da fase. Primeiramente temos a possibilidade de coletar as letras que formam o nome K-A-Z-E. Estas letras estão em locais variados das fases, e somente adicionamos a letra definitivamente ao nosso inventário ao passar por um ponto de salvamento ou concluir a mesma. Se morrer e não “salvar” vamos ter que coletar as letras novamente. Pegar todas vai liberar uma ilustração que nos conta um pouco mais da história do jogo.

Temos ainda 2 cristais verdes por fase que formam um cristal único ao concluir a fase, cada pedaço por sua vez é obtido ao entrarmos em um portal e concluirmos um desafio. Os desafios variam entre chegar a determinada área sem morrer em um tempo determinado, derrotar uma quantidade X de inimigos ou a coleta de cristais, todos estes desafios com um limite de tempo na contagem de segundos. Cada um destes cristais verdes se torna necessário para abrir o acesso a uma fase central nos mundos, que está sempre protegida por um portal com espaço para o encaixe de 6 cristais verdes.

Por fim, a terceira etapa para completar 100% a fase são os cristais roxos. Todas as fases possuem 100 ou mais cristais roxos para serem coletados. A quantidade mínima é 100 para concluir o cristal roxo na tela de conclusão da fase,  porém diversos níveis possuem uma quantidade um pouco maior destes. O coração de Hogo mesmo, se estiver ativo, ao coletar os demais corações se tornam estes cristais.

Retornar a fases já concluídas e ficar à procura dos cristais e das letras acaba facilmente elevando em muito a duração do jogo, pois muitas vezes os portais que levam a estes desafios estão em locais de difícil acesso e bem escondidos pelo cenário. Para assistir ao final verdadeiro da aventura se faz necessário pegar todos os colecionáveis e abrir todas as fases.

Dá para perceber que essa estrutura sofre uma forte influência da trilogia original de Donkey Kong Country, não? As quatro letras escondidas, as salas secretas com missões que vão desde coletar todos os cristais a eliminar inimigos, coletar cristais (bananas), das máscaras que se assemelham aos segmentos com animais de DKC, Kaze pode até mesmo pegar um vaso com sua orelha para arremessar em inimigos, além disso as fases são sempre muito bem diversificadas em seus ambientes e desafios. Estágios que vão desde o tradicional esquema siga em frente, para algo mais vertical, escalando, para ambientes escuros, a qual luzes precisam ser acessas, aos níveis aquáticos e assim por diante. É um nível de diversidade que reforçam as altas qualidades desse gênero tão clássico. E a inspiração oriunda de DKC é mais do que certeira aqui, sem nunca soar uma cópia. Isso é bacana.

Gráficos e trilha sonora

Kaze and the Wild Masks é bem colorido e bonito esteticamente, o que nos mostra claramente sua inspiração criativa nos jogos clássicos de plataforma da era 16 bits, porém também demonstra técnicas mais atuais, o que nos brinda com efeitos simples mais funcionais, como a variação de ambiente das fases, nos levando a florestas, montanhas, praias, vulcões, todas ainda apresentando variações climáticas como chuva, neve, ventanias e etc.

Obviamente não posso deixar de falar das animações dos personagens que contam com comportamentos distintos e até mesmo com expressão facial demonstrando seu humor e as caretas de susto ao serem derrotados por Kaze. É uma arte desenhada muito impressionante e marcante, notavelmente feita com muito esmero.

Quanto a trilha sonora, a mesma não fica devendo em nada para a trilha de outros jogos desenvolvidos fora do país, o que deixa bem claro o poderio de nosso estúdios no mundo dos games. As músicas casam perfeitamente com a aventura do jogo, nos apresentando momentos mais dramáticos nas lutas contra os chefes, nas partes mais “corridas” do gameplay e também músicas mais calmas nas partes mais tranquilas. Adorável.

Considerações finais

Kaze and the Wild Masks pode até ter muitas coisas parecidas com a trilogia original de Donkey Kong, o que pode ser ruim para quem somente quer jogar coisas novas e não se importa com o passado ou acha ruim um game se parecer com outro mais antigo. Entretanto Kaze apresenta, sim, coisas novas e estas são bem planejadas e executadas. O título resgata um frescor dos anos de ouro de seu gênero.

Para quem não tem essa bronca tão grande com revisitações ao passado, claramente o meu caso, Kaze and the Wild Masks é uma aventura que vale a pena ser conhecida e que se torna gostosa de se jogar. Traz memórias do passado e também novidades bem interessantes e desafiadoras. O fato de não termos que ficar acumulando vidas, já que ao morrermos somos transportados para o último checkpoint, tira aquela velha necessidade de ficar farmando (acumulando) vidas em fases anteriores, algo muito comum nos antigos jogos de DK e tantos outros da década de 90.

Poder explorar mais livremente as fases, e até decidir se matar caindo em penhascos para talvez encontrar algum dos segredos escondidos casa bem com essa desnecessidade de não preocupar com o número de vidas perdidas. Acaba sendo uma exploração  que se torna mais recompensadora e menos punitiva. Até porque os estágios são curtinhos, o jogador não pede um grande segmento de progresso quando resolve morrer. Fora que ao conhecer a fase, isso lhe permite ir ainda mais rápido pela mesma, outra característica tão nostálgica dos clássicos de plataforma.

Preciso elogiar os confrontos com os chefes, os quais achei bem desafiadores. Pode demorar algum tempo até serem derrotados com sucesso, mas fica claro que a dificuldade não se encontra por erros de programação ou por ser algo impossível de ser superado, é tudo uma questão de reflexos do jogador e do mesmo se acostumar com os padrões de ataque. Após algumas tentativas é possível até derrotá-los sem perder nenhuma vida, o que também é um dos bônus destes confrontos, o de não tomar nenhum dano durante o confronto.

Meu único desejo fica com o fato de não existir uma maior exploração maior da narrativa e história do jogo, afim de podermos conhecer mais deste intrigante mundo. Porém isso, de uma história apenas básica, acaba também sendo outra característica comum dos grandes clássicos de plataforma. Acaba sendo apenas um detalhe mínimo perto dos grandes acertos apresentados por sua equipe de desenvolvimento.

Em termos de jogabilidade, o título é um deleite para os amantes do gênero. Kaze se movimenta com bastante agilidade e precisão, sendo bem responsiva com o apertos dos botões do controle. O tempo de reposta é excelente, e os controles são fáceis de serem assimilados. A variedade dos estágios também é bem impressionante, com um jogo que tenta se reinventar a cada nova fase, sempre apresentando um desafio novo, uma ideia nova para compor sua dinâmica e ritmo. Não é um jogo que te deixa enjoado de seguir adianta. É justamente o contrário.

Kaze and the Wild Masks é um jogo incrível, super charmoso, que vai facilmente alcançar o seu espaço no coração dos jogadores mundo afora. Já deixa um forte desejo de, quem sabe um dia, termos uma continuação onde Kaze poderá viver novas aventuras em novos ambientes e novas máscaras. Seria o máximo.

Galeria

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Dando uma nota

Claramente o título tem fortes inspirações em Donkey Kong Country, porém possui um charme próprio - 8.5
Explorar as fases de cabo a rabo é divertido e recompensador - 9
Chefes desafiadores e sem dicas, descubra aí como vencer - 9
Fator replay se dá pelo colecionismo presente nas fases - 8.5
Design das fases é muito bem planejado, super funcionais - 9
Fases podem ser curtas, mas funcionam dentro da proposta do título - 8.5
Narrativamente fica o desejo de que o jogo explorasse mais sua história e mundo, é tudo meio básico demais - 7.5

8.6

Excelente

Kaze and the Wild Masks é, sem sombra de dúvidas, uma honesta e bela homenagem aos jogos clássicos de plataforma. Tendo como forte fonte de inspiração a famosa e inesquecível trilogia Donkey Kong Country da Nintendo. O título consegue ter um charme próprio, enquanto entrega uma boa diversidade de estágios, criando um ótimo ritmo de progressão. As fases instigam a exploração, além do jogo ter controles precisos e acessíveis para qualquer tipo de jogador. Certamente é um bonito tributo a um gênero da era de ouro dos videogames. O resultado é uma bela obra, e devemos ter bastante orgulho de ter sido desenvolvida por um estúdio brasileiro. Mais uma prova do nosso talento nacional para criar ótimos games.

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Paulo Roberto L. S.

Gamer desde o antigo Master System 3. Leitor de HQs (Marvel/DC) e de Mangás, como atividades extras me dedico a treinar Pokémon e sair em busca de conquistas e troféus.
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