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Análise | Outriders

Disponível para PlayStation 4 e 5, Xbox One e Series, Stadia & PC

Outriders talvez se enquadre em um destes jogos que nem sempre despertam merecida atenção dos jogadores logo no momento de seu lançamento, entretanto àqueles que decidem dar chance acabam encontrando uma agradável surpresa. O grande trunfo aqui certamente é uma mistura de elementos, somado a expertise de um estúdio que sabe o que está fazendo.

O título, distribuído globalmente pela Square Enix, foi desenvolvido pelo icônico estúdio People Can Fly, a qual você talvez tenha ouvido a seu respeito pelo fato de terem sido os desenvolvedores do acelerado Bulletstorm (2011) e do (talvez) incompreendido Gears of War: Judgment (2013). Além disso, também são responsáveis por um clássico cult, Painkiller (2004), e até mesmo pelo auxílio prestado à Epic Games com o modo Salve o Mundo (2017) de Fortnite. É uma galera muito competente para criar universos interessantes e instigadores.

Antes de dar sequência, se faz necessário dizer que Outriders sofreu alguns problemas técnicos em seu lançamento, lá em 1º de abril, especialmente por se tratar de um título que se conecta a servidores online para funcionar. E é por isso que decidir aguardar algumas semanas antes de sair jogando e testando-o para esta análise. Alguns patchs já foram lançados e, neste momento, nas sessões que fiz em um Xbox Series S, o jogo está rodando muitíssimo bem. Mais detalhes volto a discutir mais à frente do texto, quando for mais oportuno.

Também é oportuno dizer que trata-se de um título que está disponível no serviço Xbox Game Pass (Console & PC) deste o dia de seu lançamento. E por isso a observação acima se faz necessária. Se você o jogou por meio desse serviço algumas semanas atrás e achou problemas técnicos ou de conexão online, aconselho a voltar e testá-lo agora, já com a atualização 1.04 em vigor. Acredito que valerá a pena.

Mistura de sabores

Sei que nem sempre tentar resumir um jogo em uma mistura de outros soa como um elogio, mas acho que no caso de Outriders essa retórica pode sim funcionar. Então direi: o primeiro impacto que se tem ao jogá-lo é de é um jogo que faz uma mistura (muito boa) de Gears of War, Mass Effect e Destiny. Odeia todos estes títulos? Putz, aí temos um problema sério, não?

Veja bem, Outriders é um jogo de ação e tiro em terceira pessoa, com uma enorme narrativa sci-fi, possuindo elementos de RPGs ocidentais, desde sua árvore de diálogos e uma outra de habilidades habilitadas por meio de pontos de experiência adquiridos em combate. Os combates usam uma jogabilidade bem acelerada, que exige do jogador movimentação, porém que se apoia em um sistema de coberturas estratégicas, enquanto se utiliza de um sistema de loot randômico de armas e equipamentos que dropam em meio a ação, ou são encontradas em baús enquanto se explora seu mundo. E esse loot é baseado em sistemas de cores e raridade: cinza comum, verde incomum, azul raro, roxo lendário e laranja épico – é, isso soa muito familiar nos dias de hoje.

Tem mais? Ah sim, o jogo também possui um sólido sistema de multiplayer online cooperativo para três jogadores, que funciona tanto entre amigos, quanto em matchmaking, com times sendo fechados por meio de um sistema de busca com qualquer um interessado em adentrar a sua partida. Para engrossar o caldo, vale dizer que o jogo funciona em crossplay, ou seja, jogadores de diferentes plataformas pode jogar juntos. No entanto o cross-save, seu progresso dentro do jogo, só funcionam em ecossistemas iguais, tipo PS4 para o PS5 e Xbox One para Xbox Series.

E claro que se você é destes que curte fazer a aventura principal em single player, sendo o herói solitário, o jogo lhe permite desligar as funções online e jogar essa aventura com sua conexão fechada, somente a convites ou amigos. E sim, o jogo faz adequações caso você jogue sozinho, como adequar números de inimigos dentro das arenas em que normalmente se teriam três jogadores online.

Em termos gerais, Outriders é um jogo de ação em terceira pessoa, bastante focado em combate por meio de tiroteio, baseado em pequenas arenas, repletas de coberturas, enquanto o jogador usa armas de fogo e poderes sobrenaturais para derrotar diferentes classes de inimigos. Sempre em busca de aprimorar seu level, suas armas e seus equipamentos.

Colonização além das fronteiras do espaço

O grande mote de Outriders está ligado a sua narrativa. Estamos em volta novamente daquele trama em que o planeta Terra morreu. A humanidade o destruído mais uma vez aqui, o que faz com que a humanidade vá para o espaço procurar uma nova casa, e neste caso é o planeta Enoch.

Após uma viagem de 83 anos, uma das duas naves que partiu para o planeta atingiu seu objetivo. Uma primeira equipe é enviada, protegida pelo pelotão de soldados de elite conhecidos como Outriders. É aqui que o jogador assume o papel de um avatar customizável, pode ser um homem ou mulher, com alguns detalhes como rosto, cabelo, marcas e afins. A construção de personagem não tem a profundidade de um Fallout, mas é um pouco mais do que apenas a seleção de raça de Destiny. Dado o fato de que posteriormente o jogador vai usar diferentes armaduras e capacetes maneiros, sua forma física vai mesmo fazer sentido apenas nas cutscenes da campanha.

Enfim, esta primeira equipe pousa no solo de Enoch para as primeiras análises do planeta. Seu personagem Outrider faz parte desse grupo. Tudo ia bem, até que algo inesperado ocorre, exatamente como manda a cartilha de toda trama de colonização especial na ficção científica. Uma enorme e massiva tempestade de uma estranha energia ocorre próximo ao acampamento desta primeira equipe de expedição, pulverizando pessoas e modificando animais próximos. O terror é instaurado.

Um dos responsáveis da expedição já havia dado a ordem para toda a humanidade descer ao planeta e se recusa a deixar que essa tempestade, denominada a Anomalia, impedir que os humanos colonizem o planeta. Não temos para onde ir, não há muito o que fazer. Mas nem todos da equipe pensam assim e assim abre um pequeno conflito, a qual o jogador está do lado em que acha que seria mais prudente esperar e impedir que a nave venha para o planeta. Tudo bem, o cara que deu a ordem era um mau caráter duma figa. Enfim, em meio a briga e a anomalia, seu personagem é ferido mortalmente, e uma das pesquisadoras ali resolve lhe colocar em uma câmara criogênica até conseguir chegar ao laboratório e curar seus ferimentos. 31 anos se passaram então!

Seu personagem acorda então em Enoch, três décadas após o incidente inicial de chegada da colonização. Para descobrir que a humanidade está em uma guerra civil, entre duas facções que disputam território, recursos e soberania, em um planeta que não dá folga para ninguém. A Anomalia ainda afeta ambos os lados, cria mutantes terríveis e todos estão sofrendo em um cenário miserável de guerra perpétua em um planeta altamente hostil a nossa presença.

Não para por aí. A Anomalia não só pulveriza as pessoas, mas em algumas delas a altera geneticamente, dando lhe poderes além da compreensão da ciência. Pessoas com tais habilidades, que vão desde controlar o fogo, terra, raio, teleporte entre outros elementos e ambientes, são denominadas divergentes. Muitos divergentes perdem a cabeça com tal podem, se tornando malucos sanguinários que acham que pessoas normais devem se curvem a eles. Os Outriders? Não sobraram tantos assim para contar história. Muitos não acordaram das câmaras criogênicas. Na trama, o jogador é um dos poucos Outriders que estão acordados nesse mundo e que também ocorre de ser um Divergente, após ter contato com a Anomalia.

A trama do jogo te coloca em uma posição em que tem o poder de investigar mais o planeta, enquanto possui força para tentar colocar um fim nessa guerra civil, encontrando os loucos sanguinários que tomaram o poder, dando cabo deles, enquanto descobre algum meio em que todos possam coexistir em meio a um ambiente tão hostil frente a presença humana.

Trata-se de uma narrativa bem clichê de ficção científica. Alguns podem não ficar muito interessado pela premissa, mas como fã do gênero, não achei de todo mal. Ela é bem básica em diversos elementos, o que até acho aceitável em uma mídia como videogame. Primeiro porque trata-se de um jogo de ação e não um RPG do nível de um Mass Effect. O planeta é interessante, e o avatar do jogador é um tipinho maneiro. Este personagem é muito mais expressivo do que aquele em que você pode construir em Destiny, por exemplo. A contrapartida é que os demais personagens muitas vezes são como clichês do gênero, muitas vezes desinteressantes, sem um merecido aprofundamento.

A menção em torno de Mass Effect não é exatamente sem propósito, porque neste existe uma série de conflitos morais e éticos que tornam subtramas interessantíssimas, mediante árvores de diálogos em que aquilo que o jogador escolhe dizer pode afetar narrativamente eventos futuros e o destino de certos segmentos de história. Outriders certamente não tem tal ambição, ainda que goste como o jogo investe muitas vezes em tentar apresentar NPCs que pareçam ter algo a contar, ainda que nem sempre tenham. Há diálogos e conversas com personagens lhe ajuda a descobrir mais sobre esse mundo e as pessoas que vivem nele.

Entretanto o aspecto que favorece muito a narrativa se dá pelo fato do jogo estar completamente localização com uma bela dublagem em português. Escolhi jogar o título com uma protagonista feminina e a dublagem está excelente. Não tenho realmente nada a reclamar, apenas elogiar mesmo. O jogo está totalmente traduzido, com menus, legendas e explicações. Tudo perfeitinho. Apenas encontrei alguns raros momentos em que algumas legendas acabaram saindo em inglês, mas como o título está dublado, a fala em si saiu em português. E digo e repito sempre: jogos com dublagem em nosso idioma merecem apoio de nossa comunidade, porque ainda não é uma iniciativa totalmente padrão em nosso mercado.

Ação de qualidade

Se a trama não é algo que esteja reinventando o gênero da ficção, por outro lado, na hora da jogabilidade Outriders se mostra altamente competente em entregar exatamente aquilo que está prometendo: velocidade e estratégia de movimentação e posição de batalha, ação desenfreada e controles bem prazerosos. Sendo justo, essa é uma das qualidade da People Can Fly.

Acho louvável a decisão do estúdio em fazer um título de ação em terceira pessoa, em meio a uma indústria que muitas vezes privilegia demais jogos em primeira pessoa. E o estúdio até podia ir para esse lado, dado que Bulletstorm segue essa tendência, porém o estilo em primeira pessoas muitas vezes limita certos aspectos do jogos de tiroteio, como um sistema de cobertura mais imersivo. E aqui, Outriders brinca um pouco com as mecânicas que fãs de Gears of War vão reconhecer, e a qual o estúdio também trabalhou quando desenvolveu o Gears of War: Judgment. Estamos diante novamente da mecânica de colar em coberturas e analisar o cessar de fogo para decidir quando sair.

Gosto que desta vez os desenvolvedores optaram por um sistema em que o jogador pode apontar para outras coberturas pelo cenário, a qual um pointer vai lhe indicar que será possível ir até essa nova cobertura de forma automatizada, apenas segurando um botão do controle. Bem dinâmico. E sair de uma cobertura, pulando um indo para trás, é bem simples, basta um toque de botão.

Entretanto se você está pensando que o combate de Outriders é semelhante a Gears of War, está redondamente enganado. Isso porque o jogo assume um ritmo em que pede que o jogador seja ofensivamente agressivo para se manter vivo. Veja bem, seu personagem não regenera vida tão rapidamente quanto outros jogos do gênero, e qualquer dano que ele tomar no momento em que estiver se regenerando pausa imediatamente esse evento. Não há itens de cura também. Como se regenera vida de forma eficiente então? Eliminando outros inimigos.

Em Gears of War, o jogador é incentivado a ficar em cobertura enquanto sua vida retorna ao normal. Aqui é exatamente o contrário. A cobertura é uma forma segura de avançar até os inimigos, mas ficar por tempo demais parado na mesma nunca é uma boa ideia. Isso ocorre dado a grande quantidade de inimigos que estão presentes em cada uma das arenas de confronto. A saraivada de balas é constando e você está sempre tomando dano. Os inimigos são persistentemente inteligentes, pois sabem flanquear, se posicionam em diferentes posições e não ficam parados, sempre tanto avançar para lhe restringir ainda mais. É preciso avançar para fazê-los também recuar.

Para combate de forma agressiva se faz necessário entender muito bem a importância dos poderes paranormais que você ganha logo no começo da aventura. Seja qualquer uma das quatro classes de poderes que o jogador escolher (Tecnomante, Piromante, Trapaceiro ou Devastador), todas tem habilidades que possibilitam exatamente que o jogador respire um pouco da ação do combate, enquanto servem para causar dano e recuperar sua vida.

Duas das classes que mais tive contato dentro do jogo foram a de Piromante, a qual escolhi ser, e a do Trapaceiro, a qual muita gente online parece ter escolhido. O Trapaceiro é uma habilidade de curto alcance, a qual o jogador se teletransporte para atrás da linha dos inimigos, assim como possui ataques de amplo escopo, causando dano em múltiplos inimigos. Vi também um pouco do que acredito ser o Devastador, que causa abalos sísmicos e aguenta bastante dano – mas o jogador que vi jogando com o mesmo não me parecia saber usá-lo adequadamente, pois não conseguia causar dano e recuperar a vida na mesma velocidade a qual os inimigos lhe cercavam e mandavam bala em cima dele.

Já o Piromante foi uma classe que parece ter casado perfeitamente com meu estilo mais recuado de combate. Não lido bem com combate próximo, sempre me perdendo um pouco quando muitos inimigos me cercam. O Piromante é um combatente de alcance médio, podendo ficar em coberturas, mas conseguindo acertar suas habilidades com uma distância justa. Há duas habilidades muito boas nele: uma em que posso implantar uma bomba dentro do inimigo, que se ativará se eu tirar toda sua vida logo após o mesmo receber a habilidade, e isso o faz detonar todos os inimigos próximos a ele, enquanto a outra é uma em que puxo vida do inimigo, sem precisar eliminá-lo, causando dano e o deixando imóvel por alguns segundos, o que é perfeito para inimigos tanques, que chegam perto demais do jogador.

O jogador pode ter até três habilidades ativas para cada classe, porém conforme se progride na aventura e sobe de nível, novas habilidades vão sendo destravadas e serem substituídas pelas habilidades iniciais. Isso lhe incentiva a usar novos poderes, evitando que o estilo de combate fique repetitivo por tempo demais. Além disso, o jogador possui uma árvore de habilidades com três ramificações finais, que tornam as suas habilidades cada vez mais poderosas.

Bom também que o sistema de habilidade é ágil, o que significa que uma vez utilizada, basta aguardar poucos segundos para ela novamente poder ser reutilizada novamente. E conforme seu nível e as habilidades da sua árvore, eventualmente até mesmo se pode usar certas habilidades de forma consecutiva, até que essa recarga (cooldown) se faça necessário.

Vestimentas e arsenal para intensos combates

Outra grande porção da jogabilidade que envolve Outriders está relacionado a construção dos elementos que envolvem os equipamentos (armaduras e vestuário) e suas armas. Dentro deste aspecto do jogo, as semelhanças com Destiny são bem óbvias, e certamente a influência vem deste sistema que tal franquia impõe dentro deste gênero de shooter looter.

No que diz respeito as vestimentas, que mudam visualmente seu personagem a cada peça equipada, elas se dividem em cinco categorias: capacete, peitoral, calças, luvas e botas. Cada peça separadamente possui um nível próprio de poder, que fazem somatória ao poder total do seu personagem. Cada uma possui as classes de raridades, que vão desde a comum à lendária. E tais classes vão surgindo em melhores níveis conforme se sobe de nível, se progride na aventura e determina qual o grau de mundo você está.

Grau de Mundo é a forma como Outriders define o nível de dificuldade do jogo, e é uma maneira até deveras inteligente. Funciona assim, ao iniciar sua campanha, você está no grau 1, obviamente. Conforme vai avançando, realizando batalhas, uma barra superior que define um novo nível de mundo vai ganhando pontuação e aumentando, com isso um novo nível de grau de mundo eventualmente é desbloqueada. Quando maior o nível, melhor serão as recompensas deixada por inimigos e encontradas em baús do mundo do jogo.

Há, entretanto um pormenor: essa barra de novo nível de mundo não cresce de forma crescente. Significa que ela vai crescer até o ponto em que o jogador se sente confortável com as batalhas e segue vencendo elas sem ser derrotado. Porém vai chegar um momento em que o nível de dificuldade irá se ajustar a suas habilidades e destrezas de combate, e aí algumas derrotas irão chegar. Quando o jogador perde batalhas, essa barra de novo nível passa a perder seu progresso de evolução. Aí é o jogo dizendo que você precisa de mais nível de personagem, armas melhores, equipamentos mais fortes, até se sentir confortável novamente para ganhar batalhas consecutivamente até destravar um novo nível. É uma ideia genial, admita. E quantos graus de mundo existem em Outriders? Quinze!

E trocar equipamentos e armas faz parte desse processo de estar sempre sentido que o jogo está mudando conforme o próprio jogador vai se aperfeiçoando diante de novos desafios. Os equipamentos são mais uma questão visual e de poder bruto, mas as armas, estas são muito do gosto e do conforto do jogador para as categorias a qual melhor se está habituado. Dentro desse esquema, o jogador tem sempre a disposição na hora do combate duas armas principais e uma secundária, esta última uma pistola com munição infinita.

Dentre as armas principais estão as categorias que normalmente se fazem presente em jogos de tiros. Há fuzis de assalto, metralhadoras e submetralhadoras, assim como escopetas e rifles de sniper. O setup fica ao gosto do freguês, ainda que a classe de seu personagem possa influenciar um pouco essa escolha. Por exemplo, personagens que jogam como Trapaceiro estão sempre colando pelas costas dos inimigos, ter uma escopeta sempre equipada parece ser uma ótima escolha. No meu caso, como Piromante, como não gosto de ficar muito cara a cara com o inimigo, uma metralhadoras ou fuzil de assalto com um rifle de sniper de curta distância soa uma ótima combinação.

O controle de mira, assim da sensação de atirar são bem precisos, nunca frustrando o jogador por não conseguir mirar e atirar naquilo que deseja. Talvez as habilidades não sejam assim tão precisar. Isso ocorre com algumas habilidades que atacam a distância. Nem sempre é fácil definir, por exemplo, qual inimigo gostaria de implantar a bomba térmica ou qual gostaria de puxar vida. A automatização destas habilidades e a ausência de uma mira para elas a deixam um pouco imprecisas quando há inimigos em grande quantidade próximos um dos outros.

Ainda quanto a questão das armas, existe um outro elemento que também é bem interessante e na qual o time de desenvolvimento pensou um pouco a frente do que existe dentro dessa fórmula presente em jogos de shooter looter: o sistema de mod (modificadores). Tanto as armas quanto os equipamentos possuem slots para mods, que adicionam atributos ativos ou passivos dentro do leque de atribuições e armas que o jogador pode possuir. Uma arma, por exemplo, pode causar dano de fogo com um mod de chama, ou qualquer outro dano elementos por assim dizer. Há armas que podem causar choque elétrico e até mesmo congelarem os inimigos. Isso é feito por meio dos mods. estes também podem beneficiar não só as armas como também as habilidades de classe, como dar mais poder ou menor cooldown para sua utilização.

Porém a grande sacada que Outriders e nem todos os outros jogos do gênero fazem é o destrave de mods afim de que permite que o jogador possa utilizar seus mods favoritos como bem entender. Para ter um mod permanente a sua disposição, basta quebrar (desmanchar) a arma a qual você obteve e veio com esse mod. Isso o desbloqueará em uma galeria e o permitirá atribuir em qualquer outro equipamento ou arma, quantas vezes quiser, contanto é claro que você tenha o material necessário para fazer essa modificação na sua arma.

Então sim, Outriders também se utiliza de um sistema de coleta de recursos e materiais necessários para não só usar os mods, mas também subir o nível de armas, inclusive sua raridade, o que permitirá que tal arma possa até mesmo ter dois slots de mods. Os recursos não são tantos assim, e apesar de não estarem em plena abundância no mundo, muitos não são tão impossíveis assim de se obter. Ao longo da progressão do jogo vai se coletando os mesmos. A única crítica em torno desse sistema é que só é possível personalizar e customizar seu equipamento, melhorando o nível e seus mods diretamente no acampamento base de cada região. Não se pode mexer nisso quando se está em missão. Soa uma burocracia meio chata e desnecessária, mas nada a qual não seja possível se acostumar.

Mundo linear

Outro elemento que se faz importante esclarecer nesta análise diz respeito a exploração do mundo de Outriders por meio de sua campanha narrativa. Quando se fala de jogos como Destiny ou Mass Effect, talvez se pense em uma exploração mais de um mundo aberto, entretanto isso não ocorre em Outriders. Aqui a experiência do avançar das missões e de sua campanha em si é bem mais linear e fechada, tal qual ocorre em títulos como Gears of War.

Há muitos corredores dentro de seu formato de gameplay, para ir de um ponto a outro de cada uma das missões principais da história. Estes corredores até podem se dividir em outros caminhos, mas normalmente quando isso ocorre em boa parte das vezes o jogador irá encontrar becos sem saídas. Estas becos significam caminhos que eventualmente irão se abrir para missões secundárias do jogo, são rotas para estas missões. Então não tem muito o que explorar estas rotas até que as mesmas estejam expressamente indicadas nos mapas.

Alias, o jogo tem um ótimo ritmo no que diz respeito a missões principais e missões secundárias. Estas missões opcionais normalmente oferecem mais um grau de contexto na narrativa e construção do mundo, enquanto oferecem três opções de recompensas que serão mais fortes de qualquer coisa que estiver no inventário do jogador no momento em que são concluídas. Então vale a pena intercalar missões principais com missões secundárias em cada área destravada na campanha.

Dentro destas áreas de exploração e divisão de missões existem diversos pontos de viagem rápida que são destravados quando se atinge cada uma destes pontos de bifurcação entre missões. Isso faz com que o jogador facilmente possa retornar a pontos mais próximos para cumprir uma missão opcional que tenha deixado para trás. Também me agrada ao fato de que áreas de combate previamente vencidas não voltam a repetir os combates. Uma vez derrotado os inimigos em sua área, estes não voltam mais a aparecer. Ou seja, nada de grinding sob o pretexto de apenas subir de nível.

Aliás, já mencionando as arenas de combates, estar também merecem seus elogios, pois possuem um layout muito bem estruturado, ofertando batalhas sempre diferentes graças a terrenos de elevações distintas, coberturas que podem ser destruídas e inimigos com uma ótima inteligência artificial.

Encontrei muitas áreas de combate em que precisava me adaptar ao ambiente e mudar minhas táticas de combate diante de diferentes cenários. Em alguns, inimigos de sniper ficam a distancia impedindo sua mobilidade, me fazendo ataca-los primeiro, em outros inimigos tinham uma ampla visão vertical do jogador e me impediam de ficar em pequenas coberturas. Há também as arenas em que poderosos inimigos, denominados capitães não me deixam avançar, me fazendo ter que lidar com eles enquanto inimigos menores nunca cessavam a saraivada de balas. A tensão em batalhas é sempre constante.

Isso para não falar dos mutantes, que mesmo não usando armas de fogo, sempre representam um perigo real graças a grande quantidades deles em cada área. Além disso existem diferentes mutantes, destes os pequenos e velozes que partem pra cima de você, quando maiores que pulam em sua direção com ataques verticais, quando os que atiram bolas de veneno e causam intoxicação em seu personagem. Além disso, o jogador irá encontrar outras criaturas selvagem em Enoch, grandes aves e uma aranha gigantesca são apenas dois exemplos do que irá encontrar na parte inicial da aventura.

Dito tudo isso, mesmo em um sistema de progressão bem linear, Outriders oferece um gameplay razoavelmente longo. A margem é de vinte a trinta horas, a depender de quanto o jogador vai se dedicar a fazer tudo que o jogo tem a oferecer, desde a missões opcionais, caçar colecionáveis, ler diversos documentos que contam mais da história desse mundo e das três décadas em que seu personagem ficou congelado, assim como buscar melhores armas e equipamentos.

E mesmo quando terminado a campanha, Outriders ainda irá oferecer um endgame chamado Expedições. São novas áreas e que novos combates serão realizados. E não estamos falando de estágios reciclados não. O estúdio preparou realmente novos caminhos, novos ambientes e uma dificuldade agressivamente elevada para aqueles que querem continuar lutando contra hordas de inimigos, em busca dos melhores equipamentos que o jogo tem a oferecer. Um conteúdo que me soa adequado a proposta do título.

Considerações finais

Com tudo que foi apresentado, é possível concluir que Outriders é um belo título para quem é fã de jogos de tiro em terceira pessoa e curte essa narrativa sci-fi que sempre está disposta a discutir o futuro da humanidade, inclusive em como somos mesquinho quando não há recursos para sustentar um mundo, seja ele velho ou até mesmo novo. É um tema que sempre acho instigante, sempre oportuno por sinal.

Também é um belo exemplo de que temos aqui a People Can Fly fazendo o que faz de melhor: entregar uma jogabilidade viciante e prazerosa, com controles que responde muito bem, mediante um combate que dá satisfação ao jogador, adaptada aos elementos modernos que fazer os jogos de tiro tão recompensadores na atual indústria dos games.

Pode ser que Outriders não esteja reinventando a roda, porém ainda assim o título consegue bons resultados quando repensa diversos aspectos naquilo que certamente o serviu como inspiração. O sistema de habilidades, os modificadores das armas, um combate que pode ser realizado com diferentes estratégias, mas sempre motivando o jogador a não ficar parado por tempo demais. Elogios também a forma como o mundo se adapta ao estilo do jogador, oferecendo-o novos níveis balanceados de dificuldade, recompensando-o por tentar forçar seus limites. Há clichês, sim há, mas em nenhum momento os achei enfadonhos ou ruins.

Também me agrada a ideia de um jogo híbrido, que pode ser desfrutado cooperativamente com três jogadores online, seja por meio de convite a amigos ou com um sistema de matchmaking. Este fator, por sinal, passou por alguns problemas no lançamento, entretanto já parece ter sido sanado. Fiz algumas sessões online, deixando o meu jogo aberto a qualquer um que estivesse procurando partidas, e ainda que demore um tempo, sempre alguém surgiu para jogar durante a minha progressão.

Esse sistema de pessoas se juntando ao seu jogo funciona? Sim, mas tem algumas coisas que me desagradaram. Certas missões, certas áreas, é preciso que todos os membro da equipe aceitem, e não apenas aquele a qual é o dono da sessão/progressão da campanha. Também fico meio desconfortável quando a missão acaba e as vezes me vi querendo retornar ao acampamento para fazer algumas coisas. As pessoas online tendem a ficar inquietas, querendo partir logo para o combate. Podia ser um sistema mais semelhante a Destiny, que só conecta a ação de certas missões e uma vez finalizadas a sessão é encerrada.

Outro detalhe: em multiplayer, o loading em alguns momentos tendem a demorar mais do que se leva em single player. Porém isso certamente ocorre em jogadores de diferentes plataformas. Outriders no Xbox Series S tem loadings imediatos, que mal levam 10 segundos para carregar. Em multiplayer com outras pessoas, a depender de suas plataformas, o loading deixa de ser instantâneo nesse caso.

Também acho importante comentar que não tive nenhum crash, bug ou problemas com desconexões durante as horas que passei nestas últimas duas semanas com Outriders. Relatos assim estavam acontecendo em sua semana de lançamento, porém acredito que tenham sido sanadas. Talvez nos consoles da geração passada, Xbox One e PS4, o título possa sofrer um pouco mais rodar, mas aqui no Xbox Series, o jogo roda liso, sem qualquer engasgo.

Alias, falando em nova geração, graficamente é um título bonito, mas nada espetacular. Tem esse charme de jogo de transição entre gerações. Impressiona, mas pelo contexto sci-fi. Tem bons elementos de calor, sombra, luz e afins. Porém não me deixou de queixo caído, como por exemplo, Destiny 2 me deixou no passado, enquanto um título da geração passada.

Outra informação bacana é dizer que Outriders não é um jogo que está sendo vendido como uma proposta de live service, ou seja, cuja sua construção não está completa. A experiência criada pela People Can Fly está completa aqui. Não há nada como Passe de Temporada sazonal ou sequer microtransações. O título de fato tem um início e fim aqui. Trata-se de um jogo completo em sua totalidade.

Com isso, encerro esta análise dizendo que Outriders é uma obra bem interessante. Talvez uma das melhores produções da People Can Fly, que soube adaptar muito bem inspirações de diversas franquias de sucesso da atualidade, assim como incluir suas próprias ideias e dar um charme original a obra. Para um título assim, jogabilidade tem um peso gigantesco, e nisso o estúdio acertou em cheio. Além disso é bacana ver o trabalho do estúdio em desenvolver uma história mais adulta e série, em contraste com a galhofa nonsense de, por exemplo, Bulletstorm. Talvez dê para dizer que Outriders não é exatamente um título que represente uma nova geração de jogos, mas se você não está exigente a esse ponto, certamente vai se divertir muito com um jogo que faz bem tudo que ele promete fazer. Não é uma experiência de outro mundo, mas é exatamente aquela experiência que você sempre espera quando deseja que um jogo seja bom. Pra mim é o suficiente.

Galeria

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Dando uma nota

Narrativa sci-fi com alguns clichês, mas ainda assim com diversos elementos cativantes - 8
Coop online com três pessoas ou em single player, funciona bem nos dois formatos - 8.5
Quatro opções de classes de habilidades, cada uma com peculiaridades em suas mecânicas - 9
Jogabilidade shooter looter bem planejada, funciona manter e evoluir suas armas favoritas - 8.9
Combate repleto de ação, com sistema de cobertura, porém que incentiva a constante movimentação - 9.5
Mundo linear pode desagradar um pouco aqueles que preferem exploração mais aberta - 7.5
Totalmente dublado em português, com menus e textos também localizados - 9

8.6

Ótimo

Outriders é uma surpresa em termos de jogos de tiro em terceira pessoa, a qual tem como influência alguns sucessos da atual indústria dos games. Faz bem toda sua proposta de joagabilidade, ainda que não reinvente seu gênero. Aperfeiçoa bem algumas ideias e mostra que a People Can Fly segue amadurecendo suas obras a cada novo jogo desenvolvido. Narrativamente tem alguns clichês habituais do mundo sci-fi, porém nada que desmereça a ideia. Sistema de classes e suas respectivas habilidades é uma excelente proposta, e combina muito bem com a ação acelerada das batalhas de tiroteio. Os controles são ótimos, oferecendo um desafio bem balanceado. É recompensador progredir por sua campanha.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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