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Análise | Mighty Goose

Disponível para PlayStation 4 e 5, Xbox One e Series, Nintendo Switch & PC

Mighty Goose é uma aventura espacial trazendo um ganso armado com um senhor trabuco, pronto para explodir um império do mal intergalático em poucos grasnados. O título foi desenvolvido por dois estúdios, a holandesa Blastmode, em parceira com a dinamarquês MP2 Games, especializada em portar jogos para diversas plataformas. Enquanto isso, a publisher japonesa PLAYISM ficou a cargo de distribuir globalmente essa explosiva aventura. Seu lançamento ocorreu no último dia 5 de junho, em todos os atuais consoles e PC.

Quanto ao gênero, Mighty Goose é um run & gun, ou seja, também chamado de “jogo de correr e sair atirando para todo lado”. Olhando para os icônicos clássicos, é possível dizer que Mighty Goose tem uma forte inspiração em jogos do passado como Contra e Metal Slug, mais especificamente este último, a qual sua pixelart e a própria direção de arte parece impactar diretamente não só o visual quanto mecânicas dentro do jogo.

O projeto surgiu como um projeto do sistema de metas dentro de um Patreon da Blastmode. Fez tanto sucesso que acabou ganhando um escopo maior, encontrando assim parceiros comerciais que permitiram o estúdio a criar, e concluir, um jogo inteiro baseado em uma simples ideia de um ganso irado saindo atirando em inimigos espaciais na melhor fórmula de Metal Slug. Sorte a nossa!

Muitos tiros e… HONK!

Mighty Goose é um jogo sem firulas e rodeios. É direto ao que se propõe: saia atirando, eliminando tudo que se mexer na tela, colete moedas, desvie de tudo que atirarem em você e acima de tudo, sobreviva até o final da fase. O estilo de jogo é o clássico 2D side scrolling, ou seja, você avança da esquerda para a direita da tela. Não espere por muitos desafios de plataforma, até há alguns momentos, mas em boa parte o jogador irá avançar por terrenos irregulares com pulos pontuais para serem realizados.

Apesar da clara inspiração em Metal Slug, Mighty Goose tem muitas ideias adicionais a clássica fórmula. Por exemplo, com as moedas coletadas ao eliminar inimigos, Goose pode acionar a tela do seu celular e encomendar armas e até mesmo um veículo(!), que é entregue imediatamente no ponto solicitado. Conforme o jogo progride, também é possível ativar pequenas habilidades, antes de iniciar a fase, que dão certos facilitadores, como correr mais rápido, ter mais munição em armas especiais e até mesmo um pulo duplo, veja só!

Se nos clássicos jogos de guerra desse gênero o jogador normalmente tinha em mãos uma granada para quando as coisas apertassem, aqui Goose tem um arsenal de opções, dentre bombas, invocar lesmas espaciais, congelar a tela por alguns segundos, um laser gigantesco ou simplesmente ficar grasnando. Este arsenal não é gerenciado como um item que precisa ser coletado em fase, mas como uma habilidade que precisa de alguns segundos para ser recarregada e aí utilizada novamente. Uma mudança justa a meu ver.

Sabe outra coisa que torna o jogo mais justo, ainda que por consequência mais fácil? Uma barra de saúde. Isso mesmo. Pensando em Contra ou Metal Slug, o jogador morria instantaneamente quando era atingido por qualquer projétil inimigo. Aqui Goose precisa tomar quatro tiros para virar ganso assado. Isso certamente torna o jogo bem mais fácil do que os mesmos jogos das antigas. Além disso o jogo é muito generoso em checkpoints e kids médicos para quando a vida estiver por um fio. Você ainda vai morrer algumas vezes, mas não como morriam nos já mencionados clássicos. Menos frustração, mas as custas de um desafio mais tranquilo de se vencer.

Quer mais? Dentre as mecânicas do jogo ainda há uma esquiva, a qual o personagem sai rolando e assim evita qualquer dano enquanto estiver executando tal ação. E você pode saltar e rolar no ar! Além disso o jogador vai destravando companheiros ao longo da aventura, e escolher um para estar sempre ao seu lado lhe auxiliando. Claro que esse parceiro CPU será bem mais fraquinho que você, mas é legal o conceito dele. Lembra um pouco aquelas ideias de naves auxiliares em jogos de shooter espacial (shmup) como R-Type.

Quanto ao arsenal de armas, estas ficam nas opções mais básicas, e portanto mais eficientes. Há a submetralhadoras que atiram um milhão de balas por segundo, a shotgun que elimina quase tudo com um tiro, e se não eliminar com um, dois ou três bastam, logo depois vem uma arma de raio que se conecta a tudo que estiver na tela, eletrocutando a todos e tudo, e por fim, com uma frequência menor, tem uma arma que solta pequenos foguetes teleguiados (um clássico do gênero, há de concordar). Estas duas últimas mencionadas não aparecem com a frequência da submetralhadora e a shotgun, sendo melhor posicionadas em fases específicas, quando se tornam mais úteis ao layout da fase.

Falando em layout, os estágios são planejados, o que significa que não tem elementos procedurais. Os inimigos vão aparecer sempre nos mesmos pontos e locais. Não tem aquela loucura que alguns jogos do gênero possuem com inimigos renascendo de forma infinita. Essa questão pode parecer como um ponto ruim para o estilo de jogo, mas gosto da ideia de fases minimamente planejadas. O jogador aprende com seu erro e sabe o que fazer quando perder em certo segmento do estágio.

Ganso vs. Império Galáctico

Mighty Goose, ou apenas Goose, é um ganso que usa uma armadura tech, com um braço transformado em uma arma meio similar a buster de Mega Man. A aventura começa quando Void King entre no meio do caminho de Goose, que assume a missão de resgatar alguns prisioneiros do império. Se tornando uma pedra no sapato do imperador, Goose agora vai de planeta em planeta tocando o terror em seus acampamentos e bases, eliminando todo seu exército e libertando os oprimidos.

Apesar de não ter uma história muito elaborada em termos de narrativa, existe aqui um trabalho bacana de dar um contexto as missões, com Goose sempre conversando com um companheiro por meio de um intercomunicador, que vai lhe dando instruções e falando a respeito dos eventos da batalha. E o mais bacana é que o jogo está totalmente localizado em português, tornando bem acessível acompanhar estes diálogos.

Agora quanto a dinâmica das fases, posso dizer que gostei da variedade apresentada. Veja só, Mighty Gosse não é um jogo muito longo. Dá para finalizar sua campanha em um pouco mais de duas horas de jogatina. É um título que se fosse lançado lá nos anos 90, seria um sucesso na locadora, como um daqueles jogos que se vira em um final de semana de locação. Dito isso, ser curto não é um problema, já que existe um valor de replay aqui após o final do jogo, quando um modo New Game Plus é liberado, oferecendo um maior desafio para as fases já vencidas, e toda sua progressão da primeira campanha é mantida.

Contudo, mesmo com esse recurso, ainda gostaria que houvessem algum opção de desligar os checkpoints nas fases e também a barra de saúde, para uma experiência mais classuda, daqueles em que se precisava vencer o estágio de uma só vez, sem perder todas as suas vidas e morrendo sempre que tomasse um único dano. Entretanto admito que não me dedicaria a algo assim, mas sei que muitos jogadores das antigas prezariam algo nesse sentido.

Falando em opções, Mighty Goose apresenta algumas em seu menu de configurações. Por exemplo, o disparo automático da arma, para que a mesma atire apenas segurando o botão é uma destas configurações que precisa ser acionadas nesse menu. O que pra mim é o ideal, afim de poupar o próprio botão do controle de ter que ficar amassando-o para que Goose permaneça atirando. Mas outras duas opções curiosas é o de desligar os tremores de tela e o efeito de luzes piscando. Isso porque durante a ação, há alguns momentos, em que a tela fica tão caótica de explosões, tiros, inimigos que o jogo reage a isso colocando um efeito em câmera lenta, a tela treme toda, um efeito de contornos gráficos piscam e até mesmo o ganso surge no primeiro plano, de maneira a ocupar boa parte da tela, só para dar uma grasnada. É um efeito legal, mas imagino que pode sim incomodar alguns jogadores.

Voltando a falar um pouco mais sobre as fases do game, quero destacar alguns momentos da aventura, que é composta por 9 estágios. Há, em particular, duas fases que me chamou bastante atenção: uma que basicamente consiste em uma arena de batalha, a qual o jogador precisa sobreviver por ondas e mais ondas de inimigo, em uma tela fixa, sem poder avançar. É uma estrutura simples? É, mas é ação pura. Na real? Fiquei torcendo para ter mais alguma fase nessa direção próximo ao final do jogo… uma pena que não há.

Já a segunda fase que me encantou é uma de um trem em movimento, a qual o jogador vai avançando no teto dos vagões, enquanto o estágio ao fundo segue em grande velocidade e o jogador não pode cair fora do veículo em movimento. É uma fase meio clássica desse gênero e sempre me amarro com esse efeito de perigo e velocidade. Fiquei bastante encantado com o capricho no layout desse estágio, a qual até mesmo o chefe é uma máquina que está em constante velocidade e o jogador não pode cair de cima do mesmo.

Além disso, nos demais estágios, Mighty Goose sempre encontra segmentos em que permite o jogador a utilizar diversos tipos de veículos, como tanques, uma motoca irada e até mesmo um avião. Este último é uma pena que não é tanto aproveitado quanto poderia. Os segmentos de avião são bem curtinhos mesmo. Já o tanque é o veículo mais apelão do jogo, podendo sair atropelando os inimigos, atirando sem parar e até mesmo um potente canhão secundário que explode quase tudo que o mesmo acertar. A motoquinha de uma rota é mais simplória, mas tem seu charme, vale ser usada em diversos momentos, incluindo comprá-la no celular de Goose quando sentir que precisa de mais poder de fogo.

Até destes, há ainda uma espécie de mecha, no melhor estilo daquele robozão lá do primeiro Mega Man X, a qual o jogador saía socando os inimigos. O mecha de Goose não soca, mas usa uma espécie de espada de energia, que inclusive pode ser usada na direção superior (pra cima) e inferior (ao pular e colocar para baixo). Aliás, esse elemento de pular e atirar para baixo é interessante quando se está usando à pé usando as armas normais, pois elas dão um coice para cima, deixando Goose no ar por mais tempo.

Outro ponto interessante: Goose só pode atirar em quatro direções (esquerda, direita, cima e baixo). Estando a pé, não é possível atirar na diagonal, o que soa meio estranho admito. Essa premissa muda quando se está em um veículo com rodas, pois aí o jogar pode atirar em qualquer direção a 360 graus (e é meio difícil de controlar, mas é questão de pegar o jeito). E tem mais uma coisa: estando em um veículo não se pode usar a habilidade especial do botão Y (aquele que seria da granada). Ao apertar tal botão, Goose acaba saindo do veículo. Isso gera um incômodo apenas na fase do trem, pois tem um seguimento em alta velocidade com a motinha, e por diversas vezes me confundi e querendo acionar uma granada, esquecia que não podia usar e acabava saindo do mesmo.

Considerações finais

Mighty Goose acabou sendo uma inesperada surpresa. Um jogo digno do gênero run & gun e uma genuína homenagem ao clássico Metal Slug. Entrega tudo que promete: ação frenética e desenfreada, somada a uma bela arte gráfica em pixel, com ótimos controles e mobilidade, ofertando boas ideias em uma adaptação mais moderna ao colocar elementos extras que modificam o personagem controlado pelo jogador, aumentando seu arsenal com novas habilidades, melhorias de status e até mesmo companheiros NPCs.

E para aqueles que estão pensando em multiplayer, o título ainda oferece sim um multiplayer cooperativo local para 2 jogadores. Afinal, os clássicos do gênero aqui abordado sempre ofereceram tal modalidade. Fica ainda mais caótico com dois jogadores, se bem que tive a impressão de que isso deixa o jogar ainda mais fácil do que ele já é. De toda forma, a opção está aí e acho importante que exista, pois já penso no caso de poder jogar com meu filho pequeno, apresentando-o a um gênero que não se faz tão presente no atual mercado de games.

Nos aspectos gerais, também só posso elogiar Mighty Goose, pois realmente me admito com sua bela direção de arte. Os cenários são muito bem detalhados, com efeitos de sombra, texturas, até mesmo a ambientação ao fim. Há fases com efeitos de calor, que causam aquela distorção no chão, o que prova mais uma vez o cuidado aos detalhes. Os efeitos visuais são também outro atrativo, com as cápsulas das armas saindo da arma do jogador, inimigos explodindo, moedas voando para todo lado. É um trabalho minucioso de detalhamento gráfico, e tudo em uma bela pixel arte.

Agora um ponto que não cumpriu as expectativas que tinha quando comecei  jogar, diz respeito as batalhas de chefes. Não que eles não sejam legais, afinal todos são grandes e espalhafatosos. Mas o ponto é que como o jogo não é muito difícil, estes chefes seguem essa tendência de que não é preciso suar demais para serem derrotados. Acabei não mencionando, mas o caso é que Goose tem um medidor de dano que ao se encher o jogador pode ativar um modo fúria, a qual ele fica invencível e sua arma causa ainda mais dano. Nos chefes, dá para ativar esse modo de duas a três vezes, e isso causa muito dano neles, além de tornar o ganso invulnerável. Não sei, acho que nesse aspecto, há um desbalanceamento que poderia ser aprimorado. Acho que não deveria encher tão rápido e não causar tanto dano. Uma atualização poderia resolver isso.

Por fim, acho válido discutir o valor do jogo, seja quantitativo, quanto de replay. Mighty Goose é um indie game de 19 dólares, o que aqui no Brasil se traduz entre 40 a 75 reais, dependendo da plataforma em que você quiser jogá-lo. 40 reais acho justo, valor este encontrado na Steam, por exemplo. Afinal, por mais que o jogo seja divertido, e faça tudo que promete, ainda é uma aventura que em 2 horas se encerra em sua premissa principal. Há, como relatei, o New Games Plus, a qual o jogador pode sim jogar novamente as fases e em uma maior dificuldade, mas ainda assim são as mesmas fases. É fácil, nesse sentido, terminar o game e ficar com aquele gostinho de que gostaria que a aventura durasse mais um pouquinho. Fica claramente a vontade de uma sequência maior.

Mighty Goose é um excelente indie game. Em sua execução, faz uma justa homenagem, é bem humorado ao trazer um ganso mercenário, que fica grasnando a todo tempo, em meio a combates frenéticos e com uma campanha que lhe compele a continuar. Não frustra, ainda que fica sim o desejo de que poderia ser mais desafiador. O ponto é que fãs de Metal Slug vão se sentir em casa aqui, ainda que vão terminar a aventura e certamente irão desejar que houvesse mais. Que esta não seja a primeira aventura (e única) desse ganso!

27 minutos de gameplay

Galeria

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Dando uma nota

Visual pixel art, com excelente trabalho gráfico em ambientes, personagens e efeitos - 8.9
Fortemente inspirado na franquia Metal Slug, e com muito êxito em seguir sua fórmula - 9
Gameplay frenético, ótimos controles e botões respondem bem aos comandos do jogador - 8.8
Não existe uma escalada em sua dificuldade, é fácil demais em diversos momentos - 5.5
Ótimo sistema de perks, itens, companheiros e com um arsenal de armas preciso e funcional - 8.5
Mesmo com um New Game Plus mais intenso, é muito curtinho, deixa o jogador querendo mais - 6.5
Segmentos com veículos criam uma boa dinâmica somado ao momentos à pé - 8

7.9

Show!

Mighty Goose é uma experiência incrível para aqueles que são fãs dos clássicos jogos da série Metal Slug, sabendo reproduzir com fidelidade tal fórmula run & gun, enquanto também adiciona suas próprias ideias, com bom humor, ao mix de mecânicas encontradas pelo jogador. Oferece um gameplay de alta qualidade, em meio a lindos gráficos em pixel art. Seu maior tropeço ocorre em ser muito fácil, sem oferecer grande escalada em sua dificuldade. Ser curto não chega a ser um demérito, afinal estamos diante de um indie game, que é um segmento que as vezes precisa ser mais modesto em alguns aspectos. É um título que diverte muito, porém que te deixa com vontade de querer mais.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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