Análise | Garfield – Escape from Monday
Disponível para PlayStation, Xbox, Nintendo Switch & PC

Garfield – Escape from Monday é uma obra descompromissada, que abraça sua simplicidade e leveza enquanto escapa da mediocridade graças a uma estrutura bem-feita, inspirada em bons exemplos do gênero de aventura e plataforma 3D. Um título que entende o universo de seu personagem e fortalece a experiência por meio de uma abordagem que honra esse legado. Divertido, engraçado e perfeito para esquecer que, toda semana, uma segunda-feira espreita em sua rotina.
Lançado em 24 de setembro, o título foi desenvolvido pela Osome Studios, estúdio francês que mantém uma parceria estável com a Microids, publisher responsável por diversos jogos de personagens licenciados. Tanto que atualmente, as duas empresas trabalharam em conjunto em títulos dos universos de Os Smurfs e Asterix & Obelix.
Curiosamente, acompanho a Osome desde seus primórdios, quando White Night (2016) entrou em meu radar e entregou uma experiência que rendeu uma análise aqui no site. É bacana ver que o estúdio independente segue no mercado, desenvolvendo novas obras e mantendo sua atuação ao longo dos anos.

Garfield – Escape from Monday é o quarto jogo recente do personagem desenvolvido sob a tutela da Microids, com licença da Nickelodeon, atual detentora dos direitos de mídia de Garfield. É também o primeiro dessa parceria a apostar exclusivamente em uma aventura single-player. Os anteriores foram dois jogos de uma série de corrida, intitulada Garfield Kart (2019 e 2025), e uma coletânea de minigames chamada Garfield: Lasagna Party (2022).
Talvez seja interessante pensar na história de Garfield nos games. O personagem sempre esteve presente nessa mídia, mas encontrar aventuras solo realmente memoráveis protagonizadas pelo gato é uma tarefa mais difícil. Ao longo das décadas, ele teve sua cota de jogos de esportes, educacionais, e minigames, claro, mas uma grande aventura de plataforma? Nem tanto.

Pessoalmente, tenho boas lembranças do que considero um clássico: Garfield: Caught in the Act, de 1995, desenvolvido pela Sega para o Mega Drive. É um título de uma época em que jogos baseados em mascotes recebiam certo cuidado e atenção especial, buscando construir uma identidade visual própria e mecânicas que os diferenciassem de outras adaptações licenciadas.
E apontar isso tem pertinência porque Garfield – Escape from Monday também demonstra esse cuidado em se tornar uma obra marcante para seus fãs. Respeita o universo do personagem, seus elementos mais característicos, e encontra na própria jogabilidade uma maneira de traduzir essa identidade para uma aventura de plataforma, com uma execução que faz jus à proposta de entretenimento.
Ao mercado brasileiro, apesar de o título chegar sem dublagem em português, algo que seria ideal para um personagem de alcance também junto ao público infantil, ao menos temos uma localização completa, com todos os menus, tutoriais e diálogos devidamente legendados em português.

Ficha Técnica
- Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch e PC
- Desenvolvedor: Osome Studio
- Publisher: Microids
- Gênero: Aventura e Plataforma 3D
- Lançamento: 24 de Setembro de 2026
- Versão analisada: Xbox Series S
Hipérbole Felina / Mundo e Narrativa
Para contextualizar de forma apropriada o universo deste novo título, sinto que preciso mencionar um pouco mais sobre Garfield: Caught in the Act, principalmente pela maneira como o mundo do clássico dos anos 90 é construído.
Na saudosa aventura do Mega Drive, toda a estrutura da jogabilidade parte de uma premissa que permite ao universo de Garfield funcionar em uma mídia diferente das tiras de jornal: o personagem é sugado para dentro da televisão, e a aventura se divide em mundos que representam diferentes programas de TV. Isso permite até mesmo que o preguiçoso felino ganhe diferentes visuais, com habilidades únicas. Uma ideia simples, porém genial.

Isso porque Garfield é tradicionalmente um personagem que habita um universo pautado pelo cotidiano mundano. Não vive em reinos com princesas, bruxas ou vilões fantásticos. O humor de seu mundo vem da normalidade do dia a dia, de um dono atrapalhado de quem pode tirar sarro, de sua preguiça, de sua obsessão por comida e de uma certa rusga social com os outros animais que orbitam sua rotina doméstica. Como transformar tudo isso em um jogo de videogame?
Ao longo de sua história nos games, houve títulos em que Garfield anda pela própria casa, desvia de ratos, sobe em móveis, coleta comida e interage com outros elementos de seu cotidiano. São propostas que nem sempre conseguiram se destacar. Por isso, acho tão apropriado comparar Garfield – Escape from Monday com Caught in the Act.
Tal qual o icônico jogo de 1995, Escape from Monday resgata uma abordagem que funciona tanto para o universo do personagem quanto para o formato de um videogame: uma aventura de fantasia imaginativa. Em vez de entrar no mundo da TV, Garfield está dentro de sua própria mente, vivenciando um pesadelo!

Essa premissa permite criar hipérboles que brincam com a mitologia do personagem e, ao mesmo tempo, conversam com a estrutura de um jogo de plataforma 3D. Há mundos de almofadas e bolas de lã, de legumes e vegetais gigantes, piratas na praia, velho oeste e assim por diante. Situações que pouco combinariam com uma narrativa realista sobre o cotidiano doméstico de um gato, mas que encontram sua justificativa quando apresentadas como parte de um sonho.
A narrativa é bastante simples: Garfield cochila enquanto Jon assiste a um programa culinário, e o Chef dessa atração surge em seu sonho, impedindo que ele acorde e passando a atormentá-lo. Nisso, o Chef transforma guloseimas em comidas saudáveis e recruta conhecidos de Garfield, como Nermal e Odie, para impedir que ele encontre a saída desse pesadelo indigesto.
A ideia funciona tão bem que, em certo momento, Garfield passa a tratar o próprio sonho como um videogame, comparando as situações absurdas que encontra com as mecânicas de um jogo, como pular entre latas de sardinha ou chutar vegetais que ganham vida. Para um personagem preguiçoso, estar num sonho também não o deixa cansado ou indisposto para a aventura, o que também funciona estruturalmente.

E o DNA do personagem está presente nas situações e nos diálogos com o Chef ao longo das fases, em suas observações satíricas e debochadas sobre o que está acontecendo e nas interações com os conhecidos que surgem para atrapalhá-lo. Isso vale até mesmo para Jon, que aparece para tentar ajudar, dizendo que fará de tudo para despertá-lo, como se estivesse falando diretamente do mundo real, do outro lado desse pesadelo. A escrita dos diálogos preserva muito bem o humor característico das tiras, um elemento primordial para dar vida a um personagem como Garfield.
Garfield – Escape from Monday consegue entender como usar um personagem e seus traços mais característicos para dar vida a uma aventura imaginativa que funciona dentro da linguagem dos videogames. É um cuidado que confere identidade ao mundo e à narrativa, transformando o que seria apenas um pesadelo passageiro em uma divertida aventura com a cara do preguiçoso felino.

Mobilidade Felina / Jogabilidade
Para construir um bom jogo de plataforma 3D, são necessários três pilares bem alinhados: um bom design de fases, uma mobilidade competente para o personagem e uma câmera que não estrague tudo isso. E, com esses pontos em mente, é tranquilo dizer que Garfield – Escape from Monday consegue se sair muito bem nos três.
A começar pela construção dos mundos, que dispensa a necessidade de uma realidade coerente, afinal, a aventura é um delírio do inconsciente de um gato que só pensa em comida. Isso dá liberdade para que a direção de arte construa plataformas que não precisam estar ligadas a nenhum espaço físico, assim como ambientes compostos por objetos de proporções absurdas. É uma liberdade que favorece a imaginação no design das fases, o que é muito bom.

Surfar em canudos de extensões quilométricas sobre um mar de calda de chocolate; laçar, domar e cavalgar uma berinjela selvagem; atravessar imensas ratoeiras elétricas; lidar com alimentos do tamanho de casas, de plataformas feitas de presuntos e biscoitos até colinas compostas por diferentes vegetais e legumes. São apenas alguns exemplos que demonstram essa liberdade criativa na construção dos cenários, que se dividem entre ambientes surreais e abstratos ou outros que fazem sentido dentro do universo de Garfield, como uma fazenda que faz referência aonde vive a família de Jon ou uma fábrica de processamento de alimentos.
Já na parte da jogabilidade, a mobilidade realmente desempenha um papel fundamental para que o jogo seja divertido e funcional. Garfield é um personagem surpreendentemente ágil. Nada de pulo duplo, mas ele pode saltar e se impulsionar para a frente, garantindo versatilidade no ar. Também pode sair rolando pelo estágio, como um tatu-bola, o que o deixa bem veloz em terra firme. São comandos simples em um primeiro momento, mas suficientes para oferecer uma movimentação variada e funcional ao jogador.
Não só isso, mas é um sistema de mobilidade construído para ser amigável acima de tudo. Ao se aproximar da beirada de uma plataforma, por exemplo, o personagem pode se agarrar à borda e subir. E, quando está prestes a cair, há uma animação que indica o desequilíbrio, acompanhada de um reflexo de recuperação. Caso realmente caia, Garfield pode se agarrar novamente à plataforma e subir de volta. Esses pequenos recursos de movimentação nas beiradas dão elegância ao sistema, evitando aquele tipo de queda seca e truncada que também pode acontecer neste gênero.

E há ainda mais nesse repertório de movimentos. É possível dar um chute para lidar com os inimigos, embora também seja possível simplesmente pular em cima deles. Em paredes próximas, Garfield pode escalar saltando de um lado para o outro até chegar ao topo. Há também a clássica bundada, quando o personagem se impulsiona para baixo ainda no ar, mas aqui o felino desce com a barriga, ou seja, é uma “barrigada“, que é funcional para ativar botões no chão.
Quanto aos trajes de habilidades, cada um dos três mundos que compõem a aventura apresenta uma fantasia especial. No primeiro, uma roupa de peru permite voar por um período limitado. Depois, um traje havaiano possibilita surfar em superfícies aquáticas e percorrer determinados trilhos. Já no último mundo, uma roupa de cowboy permite usar um laço em situações que exigem puxar ou ser puxado por algum elemento dos estágios. Não são tantos trajes, e seu uso fica limitado aos respectivos mundos, sem a possibilidade de levá-los automaticamente para as fases seguintes. Ainda assim, é um cuidado adicional que agrega variedade às situações e aos desafios da aventura.

Por fim, eis o pilar que considero tão importante quanto os anteriores em jogos de plataforma 3D: a câmera. E devo admitir que fiquei surpreso com o quanto ela é dinâmica e adaptativa. Em certos momentos das fases, pode se tornar fixa, impedindo que o jogador a movimente livremente. Isso acontece em trechos nos quais os desafios assumem, propositalmente, uma perspectiva mais próxima do 2.5D, como ao escapar de uma prensa ou subir por um longo paredão. São situações em que faz sentido limitar o controle da câmera para favorecer a leitura do desafio.
Já nos demais momentos, em que o jogador pode movimentá-la livremente, admito que não senti desconforto durante minha experiência. Há sempre um posicionamento confortável para realizar os saltos em 3D, e não encontrei situações em que a câmera ficasse presa ou escondida atrás de algum objeto do cenário. É fácil ajustá-la, e ela também não se reposiciona de maneira incômoda quando decide fazê-lo.
No mais, a jogabilidade de Garfield – Escape from Monday segue um fluxo agradável. Há estágios longos e curtos, nos quais o objetivo é seguir pelo caminho construído, saltando, atacando inimigos e coletando muitos doces pelo percurso. Eles funcionam como as tradicionais moedas do gênero, sem uma utilidade especial durante a aventura, servindo principalmente para preencher um indicador de coleta ao final de cada fase.

Todo estágio também tem uma quantidade variável de lasanhas, normalmente escondidas, mas razoavelmente tranquilas de encontrar. Houve, no entanto, três ou quatro fases em que, mesmo chegando ao final, deixei uma ou duas para trás, o que me obrigou a retornar com mais atenção para procurar suas localizações.
Coletá-las preenche um espaço virtual customizável que representa a casa de Jon, permitindo mobiliá-la com diversas opções de móveis. Não é nada demais, mas ainda assim é um detalhe que demonstra o cuidado dos desenvolvedores em oferecer uma recompensa adicional e justificar a maratona de coleta de itens ao longo das fases.

Altos e Baixos
— O que funciona bem:
- Construção de mundo coerente com o imaginário do personagem;
- Mobilidade que garante um fluxo satisfatório à jogabilidade;
- Aventura de plataforma 3D casual e divertida;
- Diálogos e comentários que preservam o humor característico das tiras.

— O que poderia ser melhor:
- Maior variedade de trajes e mundos;
- Combate impreciso e pouco refinado.

Considerações finais
Garfield – Escape from Monday é um jogo que pode ser qualificado como casual, simples e modesto. E tudo bem, contanto que sua apresentação e sua estrutura de jogabilidade resultem em elementos de qualidade e diversão. O que, de fato, acontece aqui.
Claro que não é um jogo isento de críticas. Há pontos fracos.
Estruturalmente, o combate não apresenta nada digno de elogios. Há pouca variedade de inimigos, todos com uma inteligência bastante limitada. São do tipo que correm em direção ao jogador até caírem das plataformas. Não oferecem qualquer risco. E não apenas isso: o chute que Garfield possui é bastante impreciso e fácil de errar. Não é o foco do jogo e, portanto, trata-se de um detalhe menor, ainda que seja claramente um ponto fraco.
Os inimigos funcionam apenas como obstáculos móveis que exigem alguma atenção do jogador. A mobilidade pelos estágios é o trunfo da jogabilidade e, quando os adversários estão integrados ao conceito das fases, cumprem seu papel. De forma isolada, quem espera combates com combos, desafios ou inimigos que exijam destreza acaba se decepcionando. E sendo bem direto: o jogo não é sobre isso.

O mesmo pode ser dito das batalhas contra chefes, que são poucas ao longo da aventura. São disputas de tempo, desviando de ataques e aguardando o momento certo para ativar um golpe automático. Não são ruins, mas estão longe de serem memoráveis. Ainda assim, admito que em certo momento, um comentário de Garfield ao encontrar um chefe reciclado me fez rir.
Outro ponto que pode valer uma crítica (ou talvez não) são os gráficos. Em termos de apresentação e construção de mundo, fiz meus elogios e deixei claro que gostei do que vi. Contudo, quando olho para a parte técnica, há um trabalho bastante mediano. Não espere efeitos de partículas elaborados, líquidos com acabamento sofisticado ou qualquer outro recurso visual nesse sentido.
A cenografia é simples, e as texturas são coerentes com os ambientes, mas não há grandes efeitos de reflexo ou sombra. Garfield é muito bem animado, isso não tenho do que reclamar, mas talvez seja o ponto alto da apresentação técnica. O visual ganha alguns pontos, por outro lado, pela possibilidade de enxergar boa parte do cenário ao longe, o que dá uma dimensão interessante aos mundos e ajuda a perceber a extensão dos estágios.

Mas, como disse, talvez nem seja justo criticar tanto os gráficos aqui. Afinal, estamos falando de uma obra casual, claramente voltada também a um público mais jovem. Exigir uma qualidade visual de ponta, como a de um grande lançamento AAA, pode soar como exagero. Na contrapartida, mesmo com essa simplicidade técnica, é louvável que todos os personagens tenham diálogos dublados em inglês. É um cuidado que nem todo jogo casual inclui em seu orçamento, ainda que o trabalho de voz faça muita diferença na experiência dos games atuais.
Feitos esses apontamentos, acredito que Garfield – Escape from Monday funcione muito bem dentro de sua proposta de ser algo leve e modesto. Sinceramente, é um jogo que me surpreendeu pela jogabilidade agradável e pelo fluxo divertido das fases. Saltar, rolar, correr, coletar itens, chutar (mesmo errando) os inimigos, pular de novo e seguir adiante.

Não só isso, mas o título faz uma boa leitura do universo sob a ótica de Garfield. Como fã das tiras de jornal, me diverti muito com o humor do jogo, com os comentários debochados e com a forma como o protagonista trata os demais personagens. Há também observações sobre a própria modéstia do jogo, quase como se estivesse quebrando a quarta parede. Quem conhece o personagem sabe que seu humor, seus relacionamentos e seu universo estão muito bem representados aqui. Isso os desenvolvedores captaram de forma certeira.
Garfield – Escape from Monday não é um jogo de plataforma feito para oferecer uma sequência de desafios de agilidade e destreza, nem pretende reinventar o gênero, como buscam fazer obras como Astro Bot e Rayman Legends. Talvez o caso aqui seja justamente o contrário: uma direção mais voltada ao modelo tradicional, mais simples, em que a diversão está apenas em curtir a aventura, desestressar e se permitir… curtir o momento. Querendo ou não, é isso que muitos jogos casuais buscam.
Galeria
Dando nota
A premissa do sonho permite explorar a mitologia do personagem sem comprometer a linguagem dos videogames - 9
Mobilidade é o grande trunfo da jogabilidade: Garfield se move com agilidade e bastante versatilidade - 9
Com legendas em português, diálogos preservam o DNA humorístico das tiras de jornal - 9
Para um jogo de plataforma 3D, a câmera se comporta como esperado, sem atrapalhar a experiência - 8.5
Inimigos sem inteligência e um combate pouco expressivo - 6.5
O design das fases tem mais peso do que a ausência de gráficos refinados - 8.2
Apenas três mundos e três trajes: fica a vontade de que a aventura durasse um pouco mais - 7.5
8.2
Nhac!
Garfield – Escape from Monday é uma experiência divertida, construída sobre premissas simples: uma boa apresentação do universo de seu personagem, com o humor característico de seu sarcasmo, somada a uma jogabilidade que oferece a mobilidade necessária para uma aventura de plataforma 3D. Não é uma reinvenção do gênero, nem pretende ser. Tem pontos fracos inerentes à sua simplicidade, mas que não comprometem o resultado. Um título para relaxar e jogar de forma descompromissada.

