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Neuromancer | Edição comemorativa de 25 anos do clássico que inspirou o filme Matrix! (Impressões)

Muitos assistiram ao filme Matrix dos irmãos Andy e Larry Wachowski provavelmente acharam que o filme trata de um tema contemporâneo. Pois, poucos sabem que a própria Matrix foi retirada do universo criado por William Gibson, autor de Neuromancer, um livro escrito em 1983 em uma antiga máquina de escrever. Mais de 25 anos depois de seu lançamento, essa obra, considerada por muitos o ponto inicial do movimento cyberpunk, se tornou uma leitura atemporal e continua influenciando a nossa sociedade.

Logo mais: prepare-se para entrar em um mundo controlado pelas inteligências artificiais, onde tecidos humanos são vendidos em butiques, humanos cirurgicamente modificados caminham entre nós e conheça toda a tranquilidade de uma colônia espacial de rastafáris. A não ser que você tenha um “medo mórbido da morte”, claro.

Antes de tudo, como eu sempre gosto de lembrar, é muito importante que, ao ler/ver/ouvir uma história de ficção, você mantenha a sua mente aberta para alguns conceitos, dessa forma, você irá aproveitar muito mais a história e a chance de gostar da obra será muito maior. Agora, vamos ao livro!

Neuromancer é o volume um da série que ficou conhecida como A Trilogia do Sprawl, que é composta ainda por Count Zero e Mona Lisa Overdriver, respectivamente o segundo e terceiro da coleção. Essa nova edição é foi lançada pela Editora Aleph, com uma nova tradução, prefácio de Willian Gibson e com glossário dos termos que foram mantidos como no original. Nas edições anteriores, esses termos vinham em notas de rodapé, mas são muito recorrentes e importantíssimos para o entendimento da história. É recomendado que você leia o glossário antes de começar o livro, foi o que eu fiz. Gibson ainda é autor de livros como Reconhecimento de Padrões (há séculos eu estou querendo ler) e outros que ainda não foram lançados aqui no Brasil.

Resumo:

Case é um hacker nativo do Sprawl (ou BAMA), uma megalópole que consiste na junção do terreno entre Boston e Atlanta, nos Estados Unidos. Ele trabalhava roubando dados de grandes corporações, e recebia uma boa grana por isso até cometer o maior de sua vida: tentar enganar os seus contratantes. Como punição ele tem o sistema nervoso danificado por uma toxina devastadora. Dessa forma, Case fica incapacitado de acessar a Matrix, um exilado do ciberespaço. Ele vai para o Japão e passa a viver de maneira autodestrutiva, se drogando e se arriscando deliberadamente como um intermediário em transações ilegais. Como se isso tudo fosse pouco, Case ainda sofre uma grande decepção com Linda Lee, sua namorada. Depois, ele é perseguido, encurralado e “recrutado” por Molly. O mandante de Molly é um sujeito misterioso chamado Armitage, que oferece a Case a chance de ser consertado e poder voltar a acessar à Matrix. Mas o que Case tem de fazer em troca? E será que Armitage é realmente o chefão que diz ser? Descubra lendo o livro…

O Sprawl ficava agora a um longo e estranho caminho de distância sobre o Pacífico, e ele não era mais nenhum cara do console, nenhum cowboy de ciberespaço. Apenas mais um marginal na viração.

Editora: Aleph
Autor: William Gibson
Tradução: Fábio Fernandes
Edição:
Ano: 2008
Número de páginas: 312
Acabamento: Brochura
Série/Coleção: Trilogia do Sprawl
Formato: Médio
Onde comprar: Compare os preços aqui ou aqui

Opinião:

Eu precisaria de um deck simstin para poder transmitir a você tudo o que eu senti ao ler essa grande obra de ficção-científica. Os decks, no universo criado pro Gibson, são os aparelhos com o qual os cowboys (como são chamados os hackers) se conectem à Matrix, o ciberespaço (cyberspace foi termo criado por Gibson). O simstin é um dispositivo capaz de transmitir todas as sensações e sentimentos de uma pessoa para outra. Quem já assistiu ao filme “Quero ser John Malkovich” pode ter mais o menos uma ideia do que estou falando. Se você estivesse, agora, conectado à mim por meio de um simstin você seria capaz de sentir TUDO o que eu estou sentindo nesse momento e enxergaria através dos meus olhos.

O futuro imaginado por Gibson é ao mesmo tempo fascinante e assombroso.  Fascina pelo avanço tecnológico, dispositivos eletrônicos avançados, supercomputadores, inteligências artificias e colônias espaciais. Mas nos espanta só de imaginar as megalópoles superlotadas e completamente poluídas (as pessoas usam máscaras, inclusive), governos nas mãos das grandes organizações e drogas extremamente potentes são consumidas livremente pelas pessoas.

O céu tinha aquele tom de cinza sinistro. O ar havia ficado pior; parecia ter dentes essa noite, e metade da multidão usava máscaras com filtro.

Os implantes cirúrgicos e as cirurgias plásticas tornam-se, no universo de Neuromancer, algo tão simples como ir à padaria comprar um pouco de pão, ruas e bares são infestados de humanos modificados, os ciborgues. Molly, por exemplo, é conhecida como razorgirl (por conta das várias lâminas que ela tem implantada sob as unhas), uma samurai das ruas de cabelos pretos rudemente cortados e olhos escondidos atrás de lentes espelhadas sinistras embutidas sobre a face pálida, por conta disse ela tem que desviar os dutos lacrimais e passa a chorar de um jeito diferente (não, não vou dizer como. Leia!). Gibson chega ao ponto de imaginar um futuro em que tecidos humanos são criados em tanques e comercializados como pedaços de carne em açougues. Abaixo uma  representação da arma fletcher utilizada por Molly e algumas FanArts dessa morena fatal, literalmente fatal.

O sorriso do bartender ficou ainda maior. Sua feiúra era legendária. Numa era em que ser bonito saía barato.

Quando viu uma vitrine escurecida, conseguiu fazer uma pausa em frente a ela. O lugar era uma butique cirúrgica, fechada para reforma. Com as mãos nos bolsos de sua jaqueta, olhou pelo vidro um losango achatado de carne cultivada em tanques sobre um pedestal esculpido imitando jade. A cor da pele o lembrou das putas do Zone.

A interação entre homens e máquinas é outro aspecto bastante explorado no livro. Sim, na história há personagens importantíssimos que são dotados de Inteligência Artificial, essas intereções “homem X máquina” são os momentos em que ocorrem os melhores diálogos da trama e as maiores reflexões. É possível até mesmo alcançar a “imortalidade” fazendo uma cópia de sua personalidade em uma memória ROM. Há também os microsoftwares, que são pequenos programas carregados em microchips e inseridos em slots implantados nos cérebros, permitindo que o usuário aprenda novas habilidades rapidamente, o termo microsoftware não tem relação alguma com a empresa do Tio Bill.

O livro possui uma narrativa bastante ágil, o que faz com que fiquemos presos do início ao fim da história. Sem entrar em muitos detalhes, por conta dos spoilers, a primeira missão de Case e Molly a mando de Armitage é roubar um constructo dos cofres de uma grande companhia. Esse foi um dos momentos em que eu mais me empolguei em uma leitura. A narrativa alterna entre as ações de Case e Molly. Enquanto ele se encarrega de quebrar o ICE (firewall) da empresa ela cuida do trabalho braçal, descer a porrada. Esse momento é simplesmente genial, claro que há outros, mas só conferindo o livro para saber.

Outras mídias:

Neuromancer é mais que apenas um livro de ficção-científica, essa obra magnífica é considerada o início do movimento cyberpunk e, desde o seu lançamento, em 1984, vem influenciando diversas histórias em mídias diferentes, como os filmes Matrix (já citado) e Bladerunner, o anime Ghost In the Shell e vários livros ao longo dessas quase três décadas. Quanto a uma adaptação do livro nós ainda não tivemos, contudo muitos sites especulam de que um filme de Neuromancer será filmado em 2011 e terá Liv Tyler, quem interpretou Arwen em O Senhor dos Anéis, no elenco principal. Além disso, em 1988, foi lançado um jogo para DOS, que levou o mesmo nome do livro. Depois disso foram lançadas graphic novels, mas eu nunca vi.

Outra coisa que os irmãos Wachowski copiaram para o filme Matrix foi a cidade de Zion, que é uma referência a cidade bíblica Sião, mas em Neuromancer Zion é uma cidade orbital construída e fundada por rastafáris.

Conclusão:

Apesar de a narrativa ser bem movimentada, como já mencionado, Neuromancer não é uma obra fácil de ser lida. Sinceramente, causa dificuldades de compreensão em alguns momentos, Gibson não é um autor muito descritivo (pelo menos não nesse livro), a obra é muito abstrata, e muito do que acontece na história é deixado a mercê da imaginação do leitor, nem os decks, tão presentes na história são muito descritos. A dificuldade é, muitas vezes, visualizar o que está acontecendo no momento. Outro ponto é a facilidade com que o autor muda de espaço e tempo, que também causa estranheza em um primeiro contato, mas isso é facilmente superado com o decorrer da leitura e, quando nos acostumamos, passamos até a prever o momento em que Gibson irá mudar de cenário.

Já falei isso aqui, mas não custa repetir:  você, que ainda vai ler, evite o excesso de euforia. Não encare esse livro com muita expectativa, nem qualquer outro.  Lembre-se que a impressão que cada um tem sobre uma obra pode ser completamente diferente, mas aprecie a leitura e forme a sua própria opinião. Mantenha a sua mente aberta, sabendo que é uma história de ficção, tenho certeza que assim a chance de você gostar, tanto quanto eu gostei, será absurdamente maior. Essa aqui é mais uma recomendação minha, para todas os amantes de ficção-científica, o maior clássico da literatura cyberpunk.

Dix — disse Case. — Quero dar uma olhada numa IA em Berna. Sabe de alguma razão pra não fazer?
— Não. A não ser um medo mórbido da morte, nenhuma.

Ficou interessado? Você pode ler o primeiro capítulo do livro clicando nesse link disponível no site da editora Aleph. Tenha uma boa leitura!

Atualização (28/11/2010):

Vídeo bem interessante com William Gibson e falando também sobre o movimento cyberpunk. É uma pena a legenda do Youtube seja tão ruim.

[Crédito ao DeadInsane por uma das fanarts da Molly]

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