Portallos Entrevista: Hélio Ziskind – "o cara" por trás da trilha sonora da TV Infantil dos anos 90!

Com certeza você já assistiu algum desses programas mencionados na imagem acima! E com certeza também conhece suas trilhas sonoras: X-Tudo, Castelo Rá-Tim-Bum, Glub-Glub, o bom e velho Ratinho animado em stop motion (Banho é Bom – do Castelo Rá-Tim-Bum), Cocoricó e muuuuitas outras coisas!

Mas, mesmo conhecendo as músicas, tê-las cantado junto e curtido a infância “light” dos anos 90, você talvez não conheça a figura por trás daquilo tudo! Então, apresento aqui: “Hélio Zaskind, esse é o Portallos! E, Portallos, esse é Hélio Zaskind!”

Agora, quando disse “muuuitas”, é porque são muitas mesmo! Hélio Ziskind é compositor, arranjador e intérprete de uma parcela grande da infância dos anos 90, principalmente no que se refere a TV Cultura, além de manter uma carreira de apresentações por todo o país e muitos prêmios ao longo de cerca de 40 anos de carreira musical!

Vocês aqui do Portallos sabem que sou amante de música – não import a vertente, desde que seja bm feita e, mais importante: feita com sentimento verdadeiro. E não tem como marcar época sem ser “real”. Procurei o Hélio que, mesmo super atarefado, arranjou um tempinho para responder às minhas famosas “10 perguntas” do Portallos. Na entrevista, falamos do “bum” de artistas que estão fazendo música infantil, sobre a música “de criança” e somente “música”, sobre as estrelas dos programas infantis (apresentadoras) e até previsões para o futuro: o que ficará como “na minha época era melhor”, do que é produzido agora. Confiram após o Continue Lendo! Ah! Aproveite e veja se você reconhece as músicas citadas durante o texto!

cocori muuuu
cocori Hiiiiii
cocó rupaco paco paco paco
co co co co co co co co
Tá na hora do cocoricó
Ta na hora da turma do Júlio
O Júlio na gaita
e a bicharada no vocal:
fazendo rock rural

P.E- Hoje em dia podemos observar muitos artistas “se aproveitando” dessa brecha do mercado musical infantil, como Ivete Sangalo, Pato Fu, Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes, enfim, grandes nomes da música brincando de fazer música infantil também. Como você enxerga esse novo movimento por parte de artistas que tinham trajetória totalmente diferente desse mercado e a qualidade desse conteúdo?

H.Z- Fazer música pra criança tem sido uma área que diversos artistas acabam visitando. Acho bonito isso. Não vejo, como você descreve na sua pergunta, como uma invasão de área alheia. Visitar esporadicamente o mundo da música para crianças é bem interessante, porque os músicos experimentam uma outra perspectiva da sua própria relação com a música. Não acho que seja um movimento novo. Acho que acontece de maneira constante por toda a história da música popular. Braguinha, Vínicius de Moraes, Radamés Gnatali, Chico Buarque, muita gente grande da música popuar fez coisas pra criança.

P.E- Por que você escolheu fazer músicas para crianças? Afinal, você é um dos nomes mais relevantes de uma era de ouro da programçaõ infantil, profissional que fez a abertura de Castelo Ra Tim Bum, Glub Glub, Cocoricó, diversos clássicos (sim, são clássicos!) do famoso Ratinho do Castelo Ra Tim Bum e muitos outros! O que quer dizer que não são músicas efêmras, aproveitando um mercado ou algo do tipo… Me parece uma opção mesmo, acima de outras coisas…

P.Z- Não escolhi. Fui tendo sucesso nessas criações para Tv Cultura e fui crescendo. Bateu sol nessa parte da montanha. Imagine, fiz mais de cem canções pra TV. As canções que fiz me levaram a um lugar inesperado. Estou seguindo pela trilha aberta por essas canções. Mas sinto falta ainda de me conectar mais à música popular como um todo. Meu sonho é chegar onde chegou Braguinha: compôs “pela estrada afora eu vou tão sozinha” cantada pela chapeuzinho vermelho e compôs também Carinhoso. Ai vai ser bom.

P.E- Você acha que criança gosta de música feita para criança? Quero dizer, a gente ouve músicas bem “infantilóides” e não somente infantis, aparentemente menosprezando e aplicando um certo “colorido” acima de tudo… Você concorda que crianças precisam disso mesmo? Ou depende da faixa etária, enfim?

P.Z- Isso que você me pergunta eu não sei. Me guio por outra sensação. Eu imagino a minha música como um elo entre duas gerações. Uma música que eu, com a minha idade acho legal, e acho que uma criança poderia gostar também. Vejo que as crianças podem gostar de música de adulto e de música para crianças. Não é uma questão de gênero. Se a música em questão conseguir criar um transporte que faça o ouvinte se deslocar para um estado de alegria pelo contato com a música, ela pode funcionar. Lembro de uma época em que fiz uma temporada no antigo teatro Crowne Plaza em São Paulo. Na platéia, crianças segurando mamadeiras. Alguns pais tirando aquela sonequinha de sábado à tarde. Eu nunca imaginaria que as crianças daquela idade poderiam se interessar pelas letras que eu havia escrito. Um amigo filmou a platéia com aquela câmera que filma no escuro. Algumas crianças estavam contagiadas pelo ritmo e tentavam pescar algumas sílabas da letra. Ou seja, eu não sei porque as crianças gostam ou não.

Tchau preguiça
Tchau sujeira
Adeus cheirinho de suor
Oh…
Lava lava lava
Lava lava lava
Uma orelha uma orelha
Outra orelha outra orelha
Lava lava lava lava
Lava a testa, a bochecha,
Lava o queixo
Lava a coxa
E lava até…
Meu pé
Meu querido pé
Que me agüenta o dia inteiro

P.E- Artistas nacionais, como Xuxa, Mara Maravilha, Angélica, Eliana etc sempre interpretaram músicas para crianças com refrões repetitivos e voltados para dança:”para cima, para baixo”, “pule para um lado, agora pule para o outro”. Você acha que esse é um caminho mais fácil, ruim ou simplesmente não faz o seu estilo?

P.Z- No fundo, isso é um falso problema. Jorge Benjor, por exemplo. A canção W/Brasil pro exemplo. É lindo, a língua se encaixa na pulsação do funk com a familiaridade de um velho amigo. As apresentadoras, de um modo geral, não exloraram outros estados de espírito. Pensavam na criança sempre agitada e dançando em clima de festa total. Isso deixa as músicas meio presas, como num filme sem coadjuvantes. Fica sem pé direito, sem profundidade. Mas não podemos perder de vista que quando uma música sincera consegue se expressar com motivos repetitivos e apelo dançante estamos diante de um sucesso.

P.E- Como você enxerga a criançada de hoje em dia? Alguns falam sempre assim? “no meu temp, era diferente. Hoje tem essa liberdade sexual toda, internet, as crianças não são mais crianças”. Você concorda com isso?

P.Z- A frase “no meu tempo era diferente” se aplica a todas as gerações. Não é uma novidade de uma geração específica. Crianças serão sempre crianças, mesmo as que seguram metralhadoras. Crianças vão brincar com o que estiver à sua volta. As crianças se viram pra achar os seus espaços de brincadeiras.

P.E- Você imaginou que as suas composições iriam marcar toda uma geração como marcaram? Claro que todo artista tem sua vaidade e quer ter público. Alguns buscam sucesso, fama, dinheiro etc. Mas, poucos realmente marcam uma geração…

P.Z- Não imaginei que iriam marcar a imaginação dos outros. Mas querer marcar não é vaidade. Um atacante não faz gol por vaidade. Um artista se realiza quando o objeto proposto por ele brilha mais que o próprio artista. Conseguir criar uma canção que as pessoas gostem de cantar tem a alegria de um gol.

Bum Bum Bum
castelo
Bum Bum Bum
Um…cas…tééé…
Bumbumbumbumbumbumbum

P.E- Você já sentiu, digamos assim, triste, por não ver o seu nome veiculado sempre a essas canções? Me refiro à fama que falei, não só o reconhecimento de crítica, por exemplo…

P.Z- Há momentos em que meu nome não foi evidenciado, mas há momentos contrários. Criar música para a TV Cultura e em especial para o Cocoricó levou meu nome a lugares que eu não chegaria sozinho. Mesmo nos momentos em que não fui evidenciado, o volume de clipes que obtiveram sucesso acabou atraindo atenção para o meu nome. Hoje em dia trabalho para a afirmação do meu nome, busco isso. Não atravéz de uma postura, digamos, de marketing. Mas procuro me colocar como artista e não como prestador de serviços. Exagerando nas palavras: o prestador de serviços atende um pedido de outro. O artista atende a um pedido próprio. Estou com 55 anos. Vamos ver onde é possível chegar.

P.E- Quais outros artistas você admira no ramo infantil ou no geral mesmo? Quem você colocaria para seus filhos escutarem e quem você escuta em casa?

P.Z- No mundo dos CDs, os que tenho mais contato e admiro: os cds da Palavra Cantada, Dois a Dois, Adriana Partimpim, Pequeno Cidadão, Música de Brinquedo. Gosto de ouvir os cds da Escola da Teca. Admiro também os cds da coleção Disquinho criados pelo João de Barro (Braguinha). Gosto muito do Luis Pescetti, do grupo Musiqueros, da coleção Musique et Infance. Não sei o que colocaria para os meus filhos se eles fossem pequenos hoje em dia. Meus filhos já passaram dos 25 anos, e minhas enteadas tem 12 e 14. Eles sempre escutaram os discos que eu escuto (com excessão dos minimalistas que só eu gosto). Mas todos gostam de Beatles, Tom Jobim, Vinícius, Chico Gil e Caetano, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, enfim, tenho a felicidade deles gostarem dos artistas que eu gosto. Mas no geral escuto de tudo: Massive Attack, Sade, João Gilberto, Jorge Drexler, Paulo Moura, Zé da Velha e Silvério Pontes, Jack Johnson… escuto ipod direto.

glub, glub, glub, glub…
Glub Glub!!
Blug Glub!!

P.E- Em que você está trabalhando atualmente? Essas novas mídias e possibilidades de gravação, divulgação etc. mudaram muita a sua forma de trabalhar?

P.Z- Mudaram e continuam mudando. A Internet modificou o panorama de criação, divulgação e distribuição. Estou terminando um CD que insiste em não terminar, tenho feito trabalhos para Museus (audio-guia para cegos para a Pinacoteca do Estado, para o Museu do Futebol), tenho projetos de trilha para animação e trilha para um musical em andamento. Vamos fazer show para lançar o cd novo em Maio, colocar o site com meu arquivo completo no ar, enfim, várias coisas ao mesmo tempo.

P.E- E por último: o que você consegue prever, baseado em experiência de palco, das composições, da programação, enfim, da longa carreira junto à crianças, para o futuro adulto? Do quevocê acha que a atual criança vai sentir saudade no futuro? Digo isso porque tive a sorte de nascer na geração da informátiva, mas, ainda aproveitar com os amigos, jogar bola, querbrar o braço, assistir a programas legais, cantar junto, coisas do tipo.

P.Z- O que é bom fica ou volta. Não sinto que haja algo que hoje esteja se perdendo e que no futuro as crianças crescidas terão saudades. O bom da vida é viver a sua vida. Crianças são bichos altamente adaptativos. Tirando as crianças que foram impedidas de ter uma vida de criança, as outras acham o caminho das brincadeiras. E a infância não é um período tão feliz assim que justifique tanta saudade. Há muita ansiedade, muitos temores na infância. Hoje, eu me sinto mais feliz e mais perto de mim do que quando eu era criança. Tenho saudades do tempo que não precisava de óculos (rsrs), mas não tenho saudade de ser criança. A música me trouxe essa permanência da brincadeira.Sou otimista. Acho que o mundo está mudando pra melhor, apesar de ainda haver terror e barbárie na nossa porta.

Muito obrigado mesmo por aceitar falar conosco! Deve ter ficado claro em minhas perguntas que admiro muito o seu trabalho e que ele foi marcante mesmo em toda a minhageração de amigos. Embora somente em pesquisas recentes eu tenha ligado o seu nome às grandes coisas que curti quando criança, gostaria de deixar claro que sua obra teve um alcance maravilhoso e ajudou a formar muitas pessoas, com pequenas lições e histórias que nunca subestimaram a inteligência nem a capacidade de aprender da riançada!
Parabéns e obrigado, de coração!
Pedro Duarte.

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Pedro Duarte

Jornalista apaixonado por todas as coisas que existem. Deve ser isso! Não há nada de novo que não demonstre interesse imediato em conhecer: ler, assistir, escutar, experimentar. Tentando viver um pouquinho de tudo por dia e passar a experiência aos nossos leitores!
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