AssistindoCinemaPapo PipocaReflexões & Opiniões

A Árvore da Vida/The Tree of Life – Eu Fui! [Cinema][Análise Crítica][2011]

A Árvore da Vida merece ser assistido e digerido. Terrence Malick fez uma direção alternativa, livre (literalmente) e criou uma experiência introspectiva extremamente artística e sensível. Entre o forte e o sublime, somos caos. Tudo é caos.

Prologue: [on screen, unspoken] “Where were you when I laid the foundations of the Earth, when the morning stars sang together, and all the sons of God shouted for joy?” Job 38:4,7

Não mentirei, não houve um momento sequer em que considerei ir ao cinema absorver a produção de Malick. O trailer e a divulgação não marcaram espaço próprio para o filme nos meus planos. Porém, a maioria do que acontece na vida não segue as regras ou os roteiros esboçados. Recebi um convite, tive a oportunidade de ir. Fui.

Distribuído pela Fox Searchlight Pictures com um gasto de $39,148,570 perante o orçamento de $32 milhões, The Tree of Life teve quatro nominações, duas no Cannes Film Festival e o restante no Golden Trailer Awards, dos quais ganhou o Palm d’Or e o Best Independent. Enfim, chega de informações e vamos ao que interessa. O filme vale o ingresso?

Um filme diferente…

Esse foi o primeiro filme que assisti no Rio de Janeiro desde que voltei para cá (há cinco dias, por aí). Está disposto a ver um filme calmo e puramente filosófico do início ao fim?  Se for ao cinema assistir A Árvore da Vida, tente esquecer a maior parte dos outros filmes que foram exibidos recentemente nos cinemas.

Malick optou por explorar um estilo cinematográfico filosófico, reflexivo ao extremo. A ação, a ordem cronológica evidente, a trabalhada descrição das personagens, a existência do lado do bem e do lado do mal; nada disso se aplica a esse filme.

Não há vilão. Não há vitória. Nem derrota ou felicidade plena ou dor desacompanhada. É basicamente a biografia de Jack O’Brien, um personagem importante que recuso a nomear protagonista porque Malick não fez protagonistas, secundários e figurantes. Também não se limitou a dar vida apenas às personagens. Ele recriou memórias latentes naquilo que para ele os personagens já eram e depois partilhou por analepse.

Nos holofotes do palco estiveram seres humanos tão humanos que tornam um drama real, muito real, uma natureza caótica e surpreendente que mistura, num conflito constante e antigo, a brutalidade e a suavidade. A Natureza e o Universo estreiam as memórias evocadas por Jack à volta da morte do seu irmão aos 19 anos.

“[voice over] Where were You? You let a boy die. You let anything happen. Why should I be good ? When You aren’t. ” – Young Jack.

Assim começa o filme, com uma tragédia. Os pais recebem a notícia da morte do filho. Em consequência, o irmão reflete sobre a ausência do irmão anos mais tarde e ao observar uma árvore, ele revive toda a sua vida. A sua árvore da vida. Ali eles concretizam a metáfora. Adorei a forma como encadearam os acontecimentos e as sequências.

Aliás, The Tree of Life é repleto de metáforas. Todas solidas que aperfeiçoam a reflexão principal. É genial o regresso ao Big Bang, à origem da vida, a formação rochosa e a agressividade da natureza com os seus toques de sutileza. O dinossauro dominando o outro. O caos fluindo ordenadamente.

Estando atento, pode perceber diversas semelhanças entre o curso natural da vida e do Universo e os membros da família O’Brien. Acredito que todo esse paralelismo exige uma dose de genialidade. E na parte artística e técnica, reuniram cenas perfeitas, monótonas mas sinceras. Elas atingem o espectador. Você se sente descoberto intimamente, psicologicamente. Alguma coisa significante ocorre ali, diante de você, mesmo que seja apenas um filme.

As memórias ocorrem nos anos 50’s. Assistimos à criação da família O’Brien, o nascimento dos filhos. Jack, criança, sofre uma educação rígida e seca, junto ao seu irmão, por parte do seu pai (Brad Pitt). Pouco afeto, muita disciplina. É uma típica família comandada pelo homem, no caso militar reformado. E a brutalidade usada pelo pai representa uma face da natureza e da vida que apesar de violenta, revela iniciativa criativa por meio da destruição dos obstáculos intervenientes.

Mrs. O’Brien: “[voice over] The nuns taught us there were two ways through life – the way of nature and the way of grace. You have to choose which one you’ll follow.”

O lado do pai não perdoa, não poupa a ingenuidade. Ele luta pelo que quer e acredita. Ele usa a força quando acha necessário. É uma parte mais ativa. E o lado da mãe aceita esse outro lado da vida, lida com o domínio e tenta fazer dele uma ferramenta positiva. É a face sublime, calma e consciente que perdoa e alivia. Esse balanço é não só o núcleo da família O’Brien, como o núcleo do equilíbrio do Universo, da Natureza, da química da vida.

Os filhos que são presos entre esses lados, tentam administrar a própria via de existência. Eles se revoltam, mudam, tentam compreender, experimentam alternativas, fogem do meio familiar. Procuram definir eles próprios. E a mensagem que o filme acaba por transmitir mostra que mesmo que não acreditemos numa força criadora, ela está em todas as coisas, na nossa vida, presente em todos os momentos. Essa é a conclusão que tiramos do amadurecimento. Ela, assim como a realidade, não depende de nós para existir. Não interessa negarmos hoje, amanhã a podemos descobrir pois descobrí-la é compreender a vida.

Um extremo abriga o domínio e a manipulação humana e o outro os limites que o Universo impõe. Nós lutamos, manipulamos, conseguimos aquilo que queremos – nunca tudo. Mas somos ativos e aceitamos os limites que aprendemos que devem ser respeitados. Quando isso não acontece, a Natureza retoma o equilíbrio.

É um filme muito filosófico, requer muita concentração. É indispensável se dispor à interpretação pessoal e crítica. Cada um encontrará respostas específicas pela visão que adotar. Não é um filme de verdades absolutas, nem um filme religioso como pode parecer inicialmente. É um filme que tenta captar a realidade crua e nua.

A nostalgia desperta igualmente um sentimento marcante em A Árvore da Vida. Na cena final, temos o reencontro dos personagens da memória de Jack, um reencontro de aceitação, quando ele se reconcilia com o seu passado. Ele materializa o seu irmão morto e a alegria que a sua presença causa – não nele, mas naqueles que foram importantes para ele, mesmo que ele não soubesse na época: mãe, pai, entre outros.

Mrs. O’Brien: “[voice over] The only way to be happy is to love. Unless you love, your life will flash by.” [silence]

Por aí, Malick afirma que por pior e mais desagradável que o seu passado possa ter sido, no futuro a sua projeção mostra o quão perfeito fora. Cada momento. Os ruins e os bons. A lembrança transforma as impressões porque estamos prontos a compreender e aceitar a natureza brusca e perceber a beleza dela. Não é cliché, caso esteja pensando isso. É um filme valioso, mas diferente de qualquer outro filme recente. Ele tem uma atmosfera artística que combina a calma com o imperativo. Diria ser a recriação da Natureza pura e da relação entre ela e os seres humanos nas suas vidas.

E houve alguma semelhança entre a face do pai e a face da mãe? Sempre. É normal haver um elo entre os extremos. Afinal, sem algo entre eles, no meio mesmo, o contato é inexistente. Tanto o pai quanto a mãe, por vias diferentes, tinham a mesma e única verdadeira motivação: amor pelos filhos. Cada um fez o que achava melhor para os filhos e reconheceram os erros, aceitaram e seguiram em frente. É normal. Todos nascem. Todos morrem. Todos vivem. Entenda hoje ou daqui a quatro décadas, um dia entenderá. Não há fuga para isso.

A Árvore da Vida/The Tree of Life mereceu os prémios que recebeu. Foi um filme diferente, incrivelmente americano (porque o estilo parece mais europeu) e que dividiu muito a recepção pública. Tem sido um filme bem polêmico, na verdade.

Mrs. O’Brien: “[voice over] Do good to them. Wonder. Hope.

Aqueles que não gostaram e até aqueles que odiaram, penso que tenham ficado assim por não estarem acostumados a um filme que provoca, mistura, explica a vida do ser humano voltando até a criação do Universo – ou então não foram preparados para isso, não estavam esperando algo assim. A própia desconexão da apresentação do filme consegue se conectar a quem assiste atentamente.

Caso não tenha assistido ainda, a responsabilidade é sua. Não recomendarei porque esse filme tem uma direção que causa impressões muito distintas. Você adora ou odeia. Eu adorei. Se estiver apto a aceitar o desafio, compre um ingresso, vá ao cinema. Veja o que você acha independentemente da crítica alheia. Esse é um filme íntimo – e isso é que o destaca.

Etiquetas
Isso também pode lhe interessar

Araphawake

Gamer de nascença, entusiasta do YouTube, cinéfilo e sobrevivente de The Walking Dead. Adoro livros e penso demais nas coisas. Na vida pessoal sou extremamente nostálgico e exagerado. Quem não me compreende ou conhece pode achar que sou antipático.
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar

Adblock detectado

Dê uma ajuda ao site simplesmente desabilitando seu Adblock para nosso endereço.