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O Meu Obituário Ideal: Morri! E agora? (Reflexão)

11 de Novembro de 2011 – Rio de Janeiro

Fique tranquilo! Esta não é uma carta suicida!

É só que outro dia estava pensando na morte. Não naquela natural, nem naquela abrupta. Na verdade, nenhuma em específico. Só isso assim, morte.

Aí, ontem mesmo fui ao teatro assistir à representação de “Obituário Ideal” na beira da praia de Ipanema, tão delirante e inteligente, excessivo e excêntrico. Entrei da mesma forma que saí: frio e cru, digerindo aqueles diálogos e promovendo em silêncio o espetáculo: “Vai ao Portallos e recomenda para quem puder ler!”

Porém, analisando o roteiro, fiquei inspirado e perdido. Nem planejo criticar a peça, esqueça isso. Tenho um plano melhor: escrever o meu obituário ideal. É esse o meu intuito. Embora morto, com toda sinceridade, esteja desde que nasci, estar vivo é uma outra história, um conto paralelo. Sem finais felizes (lembrando de Once Upon a Time agora). E este texto será um tanto disso, paralelo à minha vida. Pensei que seria um texto diferente por aqui. Grave.

Garanto também preservar o foco do Portallos porque os nerds/gamers/geeks, acredito, têm obituários provavelmente parecidos. Quero fazer a experiência para confirmar essa hipótese. Não prometo instalações. Quer servir de cobaia? Façamos Ciência!

Morri. Game Over. No more coins.

Quando morrer, não quero estar morto, assim como enquanto viver quero estar vivo. Gosto de complicar as coisas, verdade, mas prefiro ter uma morte descomplicada no futuro. Desejo ter uma biblioteca de livros, de games, de HQ’s e de coleções. Desejo ter aproveitado a vida mesmo que não saiba como fazer isso e olha que também comecei a viver sem ter nenhuma noção da roubada bem arranjada. Então é possível. Sem reclamações da minha parte! Quero ter sido aquele gamer que aproveitou os créditos no fim dos jogos para refletir sobre o progresso de todo o game.

O querer nem sempre importa mas para mim é fundamental. O Thiago tinha se questionado sobre o ano em que se tornou um gamer há meses atrás na sequência do perfil dele no Playfire. Achei curioso pensar nesse tipo de coisa. Se começa, termina. Se não termina, nunca começou. Não vejo quando terminará minha dedicação aos videogames, então sabe-se lá quando a mesma haverá começado. O tempo é uma criação humana estranha até porque conheço variantes bizarras. O contador de tempo nos jogos têm acelerações diferentes e o tempo passa diferente quando leio um livro fantástico ou assisto um filme empolgante. Por exemplo, nos jogos do bigodudo da Nintendo, verifica lá, o tempo voa como segundos fazendo skydiving.

Notei que a morte nunca é a principal preocupação (por favor, me chamem de capitão óbvio), até porque morto não se importa, não é mesmo? Sendo ateu, tenho que seguir essa lógica. As dores de cabeça, os desejos impossíveis, as angústias, tudo isso é consequência de estar vivo. Sei disso. E continuo vivendo porque compensa no fim – hoje já sinto saudade, nostalgia maravilhosa, das tardes de SNES: Super Mario World, DKC, DKC2 e DKC3, a longa lista; dos desenhos do Cartoon Network e do Nickelodeon (Tom&Jerry, Bob Esponja, Coragem O Cão Covarde, As Meninas Super Poderosas, etc); dos clássicos da Disney que envolviam conceitos bem menos superficiais do que aqueles que tento evitar na Disney contemporânea. Se for falar de O Rei Leão então, milhares de memórias de noites que ficava assistindo o filme pela milésima vez até adormecer.

Por enquanto dói imaginar aquele jogo que nunca terei, os livros que não li, aquela edição especial que custa mais do que o meu bolso suporta, as pessoas que não conheci fora da internet. Estando morto, já nada disso dói. Dói antes a hipótese de games épicos que nunca experimentarei após o meu enterro. Vai ver a dor é parte da experiência, sabe os dedos doloridos depois de horas de gameplay e os olhos irritados das horas na frente do computador ou o cansaço ocular causado pela leitura impulsiva? Esse tipo de sofrimento. Gratificante. E era suficiente sem os troféus ou achievements que agora tanto adoro.

Isso aqui, viver ou escrever o meu obituário, é um jogo para mim. Ninguém nunca me disse isso, esteve logo evidente. E jogar serve para isso: Zerar. Acabar. Você conhece os objetivos, faz isso com frequência. O verdadeiro gamer aprende com os créditos, refletindo, que havia muitos objetivos fora terminar o singleplayer. Às vezes, o Game Over vinha antes do fim. Dava para continuar, te davam um intervalo para decidir. Entretanto, o fim do jogo em si nunca te ofereceu sequer um intervalo, uma decisão de continuar porque, tenho que admitir, foi ótimo ter se limitado à inovação antes de se tornar banal, repetitivo e enjoado.

Isso parece já discurso de velho! (não se confunda com suicida). Mas não é. Tenho apenas 19 anos. Seja sincero, está ficando enjoado? É que nem lamento o que passou, quero mais. E quem serei quando morrer, o que constará no meu obituário, será uma sombra para o resto, conhecidos e desconhecidos que conseguirem distinguir as letras gravadas. Incontáveis momentos que partilhava com outros serão apenas meus. Não tem problema, sou um pouco egoísta mesmo e por isso ninguém me conhece totalmente – nem eu conheço ninguém inteiramente. Natureza humana. Esses segredos ficam posicionados nas Warp Zones das pessoas… Contudo, para quê encurtar a experiência? Está com pressa? Eu não.

Tudo passa rápido demais, mais rápido quanto melhor for. Ficava perplexo quando era menor ao abrir um livro de 500 páginas porque via um livro em cada folha. Preciso devorar um desses volta e meia. Quero ter sido aquele que leu compulsivamente, aquele que jogou todos os jogos que pôde. A cultura nerd que adquiri ou herdei sempre veio de mim e devia estar lá, no meu obituário. Devia estar também outras pessoas que se importaram comigo pela primeira vez e pela última, que me deram o meu primeiro videogame (Sega Genesis), o meu primeiro livro, o meu primeiro filme, o meu primeiro qualquer coisa, uma paixão. Quero ter compreendido o porquê do “primeiro” de tudo ser tão valorizado.

Perdi uma pessoa importante para mim há meses. Primeira vez que perdi alguém. Incomodou bastante, não era como se tivesse terminado de ler um livro, de ler um HQ, de zerar Assassin’s Creed (algo que tinha feito há duas semanas antes). Não interpretem mal. Era descobrir no que morrer se traduzia para quem fica: créditos sem fim (e o pior é que nem banda sonora tem! Parece o Pottermore). Experiência própria.

Quero ter sido um engenheiro de computação. Quero ter contribuído até o limite com o Portallos. Quero ter escrito todos os textos que dessem para ser escritos por mim para os leitores que os encontrassem. Quero ter sentido a vida passando. Se tem alguma inovação ocorrendo, será bom lembrar de como você contribuiu para ela. Não interessa como os outros irão lembrar da sua atuação porque pouco poderá não ser esquecido. Há um excesso de muita coisa, na internet e no mundo físico. Porém, no obituário pode haver apenas nomes, datas e locais. Injusto ser tão justo que assim o seja! (que exagero nesta exclamação, nem sei se quero ser exagerado).

Não é por acaso que acredito em fantasmas fora aqueles do Luigi’s Mansion e de vários filmes de Hollywood. Eles existem onde há vida. E mortos-vivos somos nós. Pelas paixões, no meu caso através da cultura nerd maioritariamente, procuro manter a sanidade que é qualquer estado de felicidade e satisfação pelo que tenho sido informado, do tipo: “Ultrapassei o high score!”, “Derrotei Zeus!”, “Salvei a princesa!”, “Estou perto da última página!” e “Chegou aquela encomenda daquele lançamento!“.

Quero ter sido honesto, ter dito o que me veio à mente na hora que achei um espaço para a minha liberdade de expressão e ter sido mais do que palavras. Humano. Ando tentando. Provavelmente a realidade será mais seca, olhando de fora fui muitas vezes o viciado no sedentarismo, pouco sociável – quem sabe deva retomar o Tênis, sair mais. Fui isso e nisso fui mais o que poderia ter sido particularmente. Estilos de vida. Anotando, quero isso lá no obituário igualmente.

A vida não se resume ao que escrevi aqui. Seguindo a indecisa lógica (ora boa, ora maldita), não vivi nem 1/3. Está cedo para conclusões, se reparou não tirei nenhuma por esta mesma razão. Extraí planejamentos e desejos, constatei o que já foi e sonhei com o que terá sido após a tinta ter oficializado não a minha morte, pois que esta aconteceu ao nascer, mas a minha vida que acontecerá ao morrer. É, tenho sido persuadido a acreditar que a vida também joga games com um admirável sentido de humor. Irônica ela. Parece que lê livros de trâs para frente. E nós vemos arte não nos acontecimentos mas na forma pela qual se assumem, nas cores e nos gráficos, no modo de controle (gameplay), no sentido da leitura, na caligrafia, nas técnicas de ilustração. Aparência, manipulação e experiência, respectivamente. Mas vai-se lá saber o que se passa na vida sem termos vivido ainda.

Tenho ansiedades. A toda hora, uma nova. Penso em Skyward Sword, Rayman Origins, MW3, Guerra dos Tronos, faculdade, carreira, família (Casarei? Terei filhos? Recuperarei a família da qual me afastei?), essas pequenas coisas, às vezes maiores do que nossas mãos (literalmente) e bate uma ansiedade – Warp Zones? Só em Super Mario Bros. Quando morrer quero ter sido um engenheiro que colaborou com o desenvolvimento de jogos bem sucedidos (e de alguns mal notados), de programas, de algo útil para quem não vai, fica. Não sou muito crente, todavia as pessoas no fundo querem muitas coisas semelhantes, nisso creio. E outras nunca saem da inércia. Querem e pronto.

Quero não esquecer de tudo que vivi, isso é um consolo. Quero ter sempre a minha irmã por perto, jogar com ela multiplayer, conversar. Sentir alguma coisa real. Quero ter nascido nos anos 90 porque de fato nasci. Quero o que já tenho para além do que terei. Queria ter dito algumas coisas, feito outras. Espero ter assistido videos no YouTube, ter twittado vezes infinitas os 140 caractéres, escrito emails, criado confusão em fóruns, preservado Facebook e Google+. Há um cemitério de perfis nas redes sociais, abandonados, com os últimos pensamentos e uma realidade congelada. Esses perfis deviam ser incluídos no testamento do morto. O herdeiro ficaria contente. Morrer é definir a sua vida pois ela se torna estática, com certeza não mais mutável. Quero mudar. Quero ser mais simples e atingir o resumo das composições.

Aceito que o fênomeno do avanço tecnológico muda muito mais do que a qualidade dos jogos, dos livros e dos movimentos. Não vejo as pessoas morrendo mais como costumavam – é, situação triste e feliz para mim. Elas se imortalizam, conservam o espírito com eficiência porque os seus fantasmas continuam no Facebook, no Google+ e no Twitter, sem poder alterar nem o status para “single”. Antes era “Diga as suas últimas palavras”. Agora estamos mais para “Tweet o seus últimos 140 caractéres”. Nem os Egípcios conseguiram tal proeza – a novidade é que você não precisa mais ser um faraó para a conservação espiritual por via virtual.

Preciso fazer um desvio no texto. Desde que comecei a redigir essa reflexão, tenho observado um papel, confesso que amassado, largado no chão, bem na porta. Não sei o que está escrito nele mas foi a minha companhia. Está um calor insuportável e queria jogar Batman Arkham City. Acabei de mastigar a última pastilha Mentos da embalagem. Sendo realista, descrevendo tudo isso para dar contexto ao texto, nunca se sabe a conexão entre o Mentos, o papel, o calor e as palavras que escolhi para os parágrafos. Nem eu sei muito bem. Sei que contexto é tudo. Quando for meu Game Over, ninguém saberia o que acontecia durante esta redação (nem essa redação deverá ser conhecida. E rio disso também). Me sinto fragmentado. E quem leu até aqui, me conhece melhor agora, conhece melhor quem escreve uma pequena parte dos posts do Portallos.

Contou o número de vezes que recorri ao verbo “querer”? Queria ter uma noção. É que queremos muito e pouco disso se realiza. Por outro lado, muito do que acontece depois supera o desejado. Querer é uma angústia, é tentar passar da fase mais difícil, ler detalhes da história de um livro que só existe na sua imaginação e exigir que isso seja incluído em adaptações televisivas ou cinematográficas. Até o desejo tem prazo de validade. Daqui a alguns anos, voltarei a ler isso para ver os meus equívocos. A experiência é que faz a diferença entre vida e morte, entre o antigo e o novo. O erro é a sua medida. Aproveitei hoje, dia 11/11/11, para escrever o meu Obituário Ideal pois este dia seria perfeito para tê-lo, lê-lo.

Bizarro, macabro, diferente. Estava cansado de escrever sobre notícias e fazer uma habitual análise de um espetáculo de teatro. Quis fazer uma experiência. Daí veio a inspiração para escrever algo alternativo, analisar o espetáculo “Óbituário Ideal” partilhando o meu lado pessoal da questão. Parabéns aos diretores Rodrigo Nogueira e Thiare Maia mas este texto não foi sobre a peça deles. Tentei ser grave.

O obituário é somente um anexo do cadáver. Nenhum deles ideal.

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Araphawake

Gamer de nascença, entusiasta do YouTube, cinéfilo e sobrevivente de The Walking Dead. Adoro livros e penso demais nas coisas. Na vida pessoal sou extremamente nostálgico e exagerado. Quem não me compreende ou conhece pode achar que sou antipático.
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