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Obesidade Reflexiva: Tormentos e Ideias sobre a Vida [Reflexão] [Distrações #2]

17 de Novembro de 2011 – Rio de Janeiro

Tenho ido muito ao teatro nos últimos dias. Estou tirando vantagem da qualidade do teatro brasileiro já que nem lembrava o significado de espetáculo após estes 6 anos que estive morando em Portugal.

Ontem, recebi mais um convite. Na semana passada assisti “Os Beatles Num Céu de Diamantes” (no Shopping da Gávea), dessa vez dei uma oportunidade para “O Filho Eterno”. Pouco estou arrependido, a atuação ultrapassou de longe o esperado. O ator fez mais de uma hora de interpretação sozinho. Foi inesquecível.

Escrevi dias antes o meu obituário, tentando fazê-lo ideal. Deve lembrar, não sei. Aqui no Portallos mesmo. Aí, depois do teatro de ontem, fiquei pensativo de novo. Revestido naquela bolha, só minha, dúctil e com essa espécie de fome por reflexão. Investigo a mim mesmo e costumo suspeitar que sofro de obesidade reflexiva. Sim, sou obeso, só que não de gordura, não pela doença contemporânea já que de comum não tem nada. É que queremos ser práticos. Somente isso, pragmáticos.

Serei sincero. Reflexão à mais se torna tormento e tormento é sinal de que alguma coisa não está parada, morta. Prefiro o esforço. Se não precisasse dessa angústia, pensaria menos nas coisas. Não faço muito porque adoro pensar, e pensei em alguns tormentos ao sair da peça. Preciso também escrever sobre esses pequenos tormentos. E o Portallos é o melhor meio de que disponho. Será que serve?

Amontoado de trapos. Não os meus ou os seus. São palavras desmembradas aos montes, na rua, em casa, e naquilo que há entre eles. Esse é o espaço iluminado por holofotes, o meio entre os destinos. Tenho muitos meios dessa natureza, como ter que ir do ponto A ao ponto B em jogos de plataforma ou ir da página 1 à página final, e sempre que se trata de escrever, o Portallos é o caminho. Eis esta nova distração.

19 de Novembro de 2011 – Rio de Janeiro

Há meses fui à GAME, uma loja de games no shopping da pequena cidade onde morava (Viana do Castelo, Portugal). Era a melhor loja que conhecia (até agora ainda não conheço melhor). Se não me engano, isso foi em Junho deste ano. Perguntei sobre Twilight Princess (Wii) e o vendedor parou e me encarou como quem se interessava no assunto. Assim que me dei conta, ele estava comentando sobre o jogo.

Lembro desta compra pois nunca poderia esquecer o perfeito atendimento (que fora no meu aniversário, por acaso) – afinal fui tratado como um gamer e não como um consumidor. Imagina que absurdo! Quase ninguém faz isso hoje em dia. Isso é algo que me incomoda, a frieza da indústria e do mercado.

De muito o que mudou ao longo do crescimento exponencial da indústria de games, a principal alteração é evidente. Os games não são mais obras de valor artístico. Agora representam valores de troca, no sistema do capitalismo. É básico, transformamos todos os jogos numa só partida que nutre a economia. Não que seja negativo por obrigatoriedade, embora obriguemos que assim o seja muitas vezes.

Regressemos à loja. O atendente fez um comentário que me deixou intrigado quanto aos walkthroughs e a nova geração de gamers. Falamos muito de gerações de consoles, pouquíssimo de quem as modela. E não quero nem saber de guerrinhas ridículas, deixa isso para a competição financeira das grandes empresas que também está obesa. Permita-me confessar que já fiquei fazendo apostas sozinho sobre uma lipospiração. Acontece que não funciona assim, essas coisas. O problema é a dieta. Não adianta emagrecer a indústria. Também não seria tão saudável. Competição é bom na medida certa.

É que perdeu aquela graça de enfrentar os puzzles para quem esqueceu de como se joga video games. As pessoas preferem jogos básicos – atirar para matar. Repare. Ele disse que estava bloqueado no Twilight Princess enquanto registrava a venda, sabe-se lá onde pararia aquele dinheiro, talvez parte dele no salário dele e posteriormente no próximo game que comprasse. E disse que não ousaria pesquisar a solução do puzzle ou assistir walkthroughs. Claro que não, o propósito de qualquer jogo é encontrar as soluções de modo independente! Se jogasse via walkthroughs, estaria cansado de passar pelos jogos. Quereria jogá-los.

O desafio e a honra gamer é uma tradição. Os gamers de anos atrás não tinham muitos recursos que simplificassem os puzzles. Eles ficavam travados e persistiam até descobrir como lidar com os obstáculos. Podia levar semanas. Hoje não pode consumir nem umas horas. Ansiosos, sim. Qual a satisfação de jogar assim? As gerações de gamers mais novas não têm paciência (raras exceções). Elas não conquistam, pegam emprestado. Sabe como é, fast food – rápidas e gordas. Sei lá, posso estar errado. Talvez não deva preferir tanto esforço. Faz calos demais nos dedos e no cérebro.

Não estou ofendendo ninguém. Esta é uma opinião que argumento por distração com um espetáculo que assisti no teatro, “O Filho Eterno”. Havia uma criança com Síndrome de Down, um pai desesperado e muitas retas paralelas. A única reta perpendicular da peça passava pelas dificuldades. A maioria não ocorre como antecipamos, nem nos games, nem na vida. Por experiência própria, a recompensa é superior quando seguimos sem facilitismos. Inspirado agora em MW3 (que tenho jogado todos os dias), a vida é bastante parecida com a guerra. Primeiro, consiste no medo disfarçado de coragem. Segundo, somente os mortos conhecem o fim da guerra.

Fui surpreendido vezes sem conta. Costumava acreditar que viveria no Brasil para sempre. Contudo, fui conduzido à morar em Portugal por quase 7 anos e, no futuro, desejo morar e estudar no Reino Unido (a minha dupla-nacionalidade ajuda nisso mas esforço é exigido). Costumava desconsiderar o fim das coisas, eram muito boas para cogitar o fim delas. Entretanto, hoje terminaram. Não todas, a maioria. “Amadurecer não é largar a infância”, li uma vez. Mas, por favor, bem sabemos que ela vai se diluindo. Aceitamos.

Costumava achar loucura que alguém pudesse cansar da vida. Porém, após anos você deve esquecer o que significa não viver, tudo fica mais sem sabor. É bom ter algo ou alguém a quem se segurar. Se acostumar acaba sendo um mal negócio. Então, recorro às alternativas, procuro me desacostumar mesmo que seja uma pessoa cheia de hábitos e no entanto formo um novo hábito mental que nunca abandona essa esfera para adentrar na prática. E sabemos que passamos mais tempo mortos do que vivos. Dor e sofrimento são características da vida que não quero deixar passar. Quero jogá-la.

Aos treze anos, tiveram a consideração de me avisar que não moraria no Brasil toda a vida. À princípio, adorei. Parei num avião. Saí na Europa (Portugal). Por aí que tudo mudou drasticamente. Ganhei com a experiência. Gosto de pensar assim, mesmo que reconheça que fui assassinado. Morri e nasci diferente. O único mistério foi não ter tido noção se fora assassinado ou abortado como voluntário. Abortar a mim mesmo foi uma escolha. Não aborto um game, descubro outra estratégia de jogo. Na vida prática, abortar significa isso. Abandono o meio inútil, não o destino e este muda se for necessário. Dessa espécie de suicídio conheço mas creio que não domine apesar do treinamento intensivo.

Voltar ao Brasil tem sido uma tentativa de aborto. Outro. Até o momento sem sucesso, essas coisas levam tempo quando se tem aparelhos de suporte de vida e gordura reflexiva transbordando. Para os obesos é mais difícil passar fome de certas particularidades. Quanto tempo você acha que o atendente da loja demorou para passar do puzzle naquela dieta tradicional? Imagino. Talvez tenha passado naquele mesmo dia, encontrado o seu erro. Temos erros que são nossos para serem detectados. Esse é o sentido da vida segundo Darwin: melhorar, corrigir falhas, evoluir.

Não sou estranho. Sou edição limitada. Aprendi isso com o twitter, eu acho. Irônico, não é? Digo que um pássaro azul me ensinou. Estranha distração, notei que essa ideia ficou na minha cabeça. Sirvo ao lado negro, sou primitivo. Ninguém conhece tanto de mim então vão pensar mil hipóteses. Não sou bom, nem mal. Nem religioso (ateu). Nem livre. Qualquer liberdade promovida é a menos livre de todas porque o seu princípio é a limitação. No meu partido primitivo, não existem limites. Por isso não vivo por ele ininterruptamente. A sociedade não tem lugar para essas liberdades. Os games, os livros e as HQ’s têm.

Amanhã subirei a Serra, rumo à Itaipava. A última vez que estive por lá, tinha menos de quatorze anos. Desconheço então. Essa é outra situação imprevista. Devo levar o livro “A Guerra dos Tronos”? Estou indeciso. Aliás tenho estado indeciso sobre muitas coisas ultimamente. Indeciso se sigo Engenharia da Computação ou Ciência da Computação. Indeciso se compro Assassin’s Creed Revelations antes do Natal. Da lista curta de games que gostaria de adquirir, provavelmente ficarei sem um. Indeciso de qual abrir mão. Batman: Arkham City, Sonic Generations ou Assassin’s Creed Revelations? Para certas questões não existem walkthroughs ainda.

Planejo escrever as impressões que tive de mais um Call of Duty (MW3) mas não arranjo tempo. Estou passando da campanha no modo Veteran – melhora o jogo todo. Sinto, portanto, que estou preso num modo Veteran até não ter mais modo nenhum. Espero um modo silencioso. O silêncio nunca diz nada, grita. Por isso também incomoda. Prefiro fazer esforço e fazer silêncio. Silêncio. Captain Prince diz que a verdade é a primeira perda na guerra. Digo que é a mesma na sociedade, porém.

Eu minto. Não nesse texto, mas fora daqui é natural. As pessoas estão acostumadas. É comum. Nem notam. Ou mentem que não notam. Tudo resulta sem diferença na mentira. Então dane-se. E amanhã termino de escrever. Tenho que descansar ou visitar o Zora’s Temple. Pensando bem, ambos.

22 de Novembro de 2011 – Rio de Janeiro

Itaipava foi nostálgico. Lembrei de um só lugar de lá onde andava de cavalo. Adorava. E devo ter feito isso não mais de uma vez. Procurei a Epona, não encontrei. É que estava muito high naquele momento. Fato. Faz tempo suficiente para que seja um alvo de fácil manipulação da minha mente. Vai ver é por isso que chamamos esse lado psicológico de mente – ele mente e deturpa os fatos com uma frequência absurda.

Calor! Não estou acostumado com esta temperatura. Sei que ficará ainda pior. Este é o meu consolo por agora. Daqui há umas semanas o único consolo que aceito é um ar condicionado. Palavras definitivas. Quem está obeso sente um alívio às vezes, é raro mas acontece. É norma, todavia, o sufoco. Necessidade de consumo inflacionada e recursos limitados para a saciar.

Hoje, às 21h, tenho outro espetáculo para ir. Aqui por perto, ao lado do Shopping Leblon. Tive a sorte, caso acredite nela, de conseguir um dos últimos ingressos para Tim Maia (interpretação feita pelo neto do Silvio Santos). Imagino o quão bom poderá ser isso. Haverá distração. Duvido que haja reflexão. É possível refletir sobre a ausência de reflexão, nem obesa, nem magra?

Parágrafos atrás de parágrafos e não tenho certeza sobre o que foi este texto. Parece uma distração qualquer. Parece que misturei assuntos. Costumo raciocinar assim, fragmentos soltos, um levando ao outro e se perdendo do restante. Parece que construí uma Dieta Gamer Tradicional, critiquei a moderna e fiquei na mesma, parado através do esforço. Se a força aplicada serve, depende do atrito esses movimentos a partir de estados inerciais.

O espetáculo “O Filho Eterno” terminou com um desfecho aberto. Hilária a coincidência, caso também acredite nela, porque tudo acaba meio que sem fim. Somente momentos finais. Aquilo que encontra seu estado inercial, morre, conhece o significado verdadeiro de desfecho. Quem observa continua, sabe-se lá para onde. Já assisti muitos livros morrerem, games falecerem e momentos escaparem. A morte das coisas, não só de gente, deve ser a liberdade que nunca alcançamos em vida. Não na plenitude.

Opinião pessoal, concordo com o pai de Felipe (personagem da peça), é ótimo não ter a mínima noção de como isso vai terminar. Ser livre talvez.

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Araphawake

Gamer de nascença, entusiasta do YouTube, cinéfilo e sobrevivente de The Walking Dead. Adoro livros e penso demais nas coisas. Na vida pessoal sou extremamente nostálgico e exagerado. Quem não me compreende ou conhece pode achar que sou antipático.
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