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Crítica | O Corvo (2012)

Um serial killer nos tempos de Edgar Allan Poe!

Quoth the Raven “Nevermore.”
Edgar Allan Poe, The Raven

Tive a oportunidade de assistir recentemente a este filme, que estreou nos cinemas alguns meses atrás e que em breve deve estar chegando em Home Video. A história é ficcional, porém seu protagonista realmente existiu: Edgar Allan Poe (1809~1849), famoso escritor americano. Ela narra os últimos dias da vida de Poe (o filme já abre com tal descrição, ou seja, isto não é um spoiler). O filme tem como base misteriosos assassinatos que são recriados com base nos contos macabros de Poe. Tem-se então uma caçada de gato e rato, com pistas deixadas pelo serial killer, que deseja inspirar Poe a continuar escrevendo seus contos, enquanto mantém a amada de Poe em cativeiro, dizendo que o tempo dela irá acabar a menos que Poe consiga mudar esse desfecho.

O interessante é que o filme mistura elementos que não vejo com freqüência nas produções atuais. Acima de tudo é um filme policial das antigas. Não tem grandes lances de efeitos especiais, aquelas cenas de ação forçadas e improváveis. Não é aquele cinema exagerado na qual as produções atuais estão acostumadas. O fato da história se passar em 1849 ajuda também na trama policial investigativa, já que isenta aqueles lances tipo CSI, onde a ciência criminal consegue prever até se o criminoso tem sujeira no umbigo. Não que eu seja contra a ciência criminal em filmes, mas existam tantas séries de crimes, assim como filmes, onde tudo fica tão fácil e irreal quando entra estes elementos laboratoriais, onde qualquer coisa já leva a próxima pista a ser investigada. Faz parecer tudo tão fácil, tão irreal dentro da nossa realidade. Como se qualquer homicídio usasse destas artimanhas para serem solucionados. Sem mencionar a rapidez na qual estes exames são feitos, tipo o investigador vai ali tomar café e na volta está tudo pronto na mesa dele. Que isso!

Mas voltando a 1849! Nada de ciência. Nada de pistas fáceis, a não ser aquelas na qual o serial killer vai deixando a cada assassinato. Pistas estas que só podem ser percebidas por Edgar Allan Poe, pois a cena criminal é baseada em seus contos, ou seja, cada mínimo detalhe diferente pode levar ao próximo passo da investigação, que pode ser o local onde sua amada está, ou uma armadilha, ou um próximo corpo e assim por diante. Você acaba preso dentro da tensão do filme vendo que o próximo passo não leva a algo seguro e claro. A incerteza dos próximos eventos é um ótimo ponto positivo da trama.

No geral é um filme que vale a pena ver. Ele tem sim suas pequenas falhas, mas o difícil é achar hoje em dia um filme que não tenha falha alguma. As vezes a narrativa pode ser cansativa, a transposição dos assassinatos dos contos de Poe para a realidade da trama poderia ser mais engenhosa (as vezes Poe apenas cita de onde a cena veio, como se qualquer um soubesse todos seus contos de cor e salteado), e apesar do clima sombrio não há muitas cenas de meter medo, onde o serial killer fica a espreita realmente. O filme por si só não é arrastado, mas é longo, tem 1h51m. Deveria ter uma narrativa mais dinâmica, mais ágil, mais sagaz pelo tipo de tensão que a história exige. Há muitos momentos que poderia muito bem ser encurtados, ou momentos que poderiam (deveriam) ser mais bem aproveitados. Um erro grande a meu ver é que muitas vezes o serial killer não dá tempo de Poe e o investigador Fields impedirem o próximo assassinato. O telespectador apenas fica tenso por Emily, a noiva/esposa de Poe, que tenta a todo custo se manter viva.

Um adendo que preciso fazer é a participação de John Cusack no papel do famoso escritor. Eu curto demais os filmes com Cusack, gosto do ator, ainda que ache ele meio fanfarrão como o Nicolas Cage. Ele está sempre meio que parecido em seus papéis, com as mesmas caras e bocas. Mas é um ator que me transmite simpatia e carisma. Claro que é um ator veterano, com mais de 50 filmes, na qual muitos acredito nem ter visto, mas sempre que posso vou tirando esse atraso, ainda mais agora com o advento de serviços como Netflix. E para não ser injusto, o ator Luke Evans que interpreta o inspetor Emmet Fields também está de tirar o chapéu. Ficou muito boa a dinâmica de Cusack e Evans neste filme.

E o filme também não poupa cenas sangrentas, com gargantas abertas, barrigas guilhotinadas, corações humanos e por aí vai. Para quem curte esse apelo mais sanguinário o filme não vai deixar a desejar. Acho que para ver com crianças na sala não é uma boa idéia por conta disso, ainda que a história em si não traga muita coisa explícita (tipo cenas de sexo), exceto pelo assassino psicótico e fanático por Poe, mas visualmente tem esse apelo grande nas cenas de sangue, o que não é uma boa para a turminha mais novinha. É um filme para adultos então.

Curiosamente O Corvo me lembrou um pouco um dos livros do Jô Soares: O Xangô de Baker Street, que tem como cenário o Rio de Janeiro de 1886, onde um serial killer também desafia a polícia e um Sherlock Holmes fanfarrão a capturá-lo. Claro que o livro do Jô Soares tem uma pegada de humor grande, fora a sátira política de personalidades dessa época, além de todo o cenário nacional. O Corvo é mais sério, ainda que de certa forma, ache o serial killer de Xangô bem mais pervertido, malvado e ousado do que o filme de Poe. Por exemplo, um momento épico da história do Xangô é a perseguição noturna na biblioteca, onde Holmes perde o assassino por muito pouco, já em O Corvo tem uma cena similar no teatro, mas ela não tem o brilho e o momento genial que o mesmo elemento narrativo tem no livro do Jô. Mas para quem curte estas histórias de época, de mistérios envolvendo essa figura do “assassino em série” e investigação policial, tanto o Xangô, quanto O Corvo é um prato cheio de diversão.

Fica então a recomendação. Acredito que não é um filme de cinema, onde se procura uma experiência de explodir os olhos. É mais um filme que fica melhor vendo no conforto do sofá. Num domingo à noite ou num sábado à tarde. E o legal é que é uma história em que lhe deixa mais curioso para conhecer sobre esse personagem histórico e seus contos macabros.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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