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Entrevista: Saulo Camarotti, da Behold Studios

Desenvolvedor brasileiro em pauta!

behold

O mercado brasileiro de games vem passando por um ótimo momento. E um dos maiores expoentes desse cenário é a Behold Studios, desenvolvedora indie de Brasília responsável pelo sucesso Knights of Pen & Paper. Bati um papo com Saulo Camarotti, diretor executivo da empresa, sobre games indies (claro), reconhecimento, início de carreira, futuro dos games e muito mais. O resultado você confere a seguir!

1) Conheço muita gente, amigos próximos inclusive, que sonham em ser criadores de jogos mas deixam a ideia em segundo plano com justificativas como “games não dão dinheiro no Brasil”. Para você, em que momento a ideia de trabalhar com jogos deixou de ser sonho pra se tornar algo concreto?

Quando entrei no curso de Ciência da Computação, já tinha ideia que queria trabalhar com games. Na universidade me aproximei das pessoas que também gostavam dessa ideia, e assim iniciamos alguns projetos entre amigos. Em pouco tempo tínhamos professores, laboratório, projetos e disciplina toda voltada para jogos. Quando ganhamos dois prêmios no ano de 2008, no Campus Party e no SBGames, percebemos que era possível continuar profissionalmente com isso.

2) Como foram os primeiros meses de startup? Soube que até em livraria vocês tiveram que trabalhar!

Os primeiros meses na verdade foram em uma incubadora. Tínhamos consultoria de negócio, e fizemos diversos cursos, alguns inclusive no SEBRAE. Iniciamos nosso trabalho fazendo jogos sob encomenda e jogos sérios. Depois com um tempo fomos nos adentrando aos jogos de iPhone, Android, Facebook, e finalmente, decidimos mergulhar na produção independente. Foi quando veio Save My Telly e Knights of Pen & Paper. A livraria Cultura foi uma forma de baratear nossa empresa, quando passamos por um momento de dificuldade. Lá tínhamos mesas, cadeiras, ar condicionado, internet e energia. Tudo o que precisávamos para fazer nossos jogos em nossos próprios notebooks. Foi uma ótima época (risos).

3) No Brasil, ainda há uma certa estranheza quando alguém diz que trabalha fazendo filmes ou escrevendo livros. Como as pessoas reagem quando você diz que trabalha com games?

A maior estranheza é com relação aos games violentos. Infelizmente o mercado consumidor compra e fala muito de jogos de tiro e violentos, e isso nos deixou com fama ruim. Como se os jogos se reduzissem a este escopo. Então, sempre sinto dificuldade de dizer minha profissão, quando são pessoas distantes deste universo. Agora com as geração mais novas é o contrário, eles costumam adorar.

4) Knights of Pen & Paper foi o jogo que colocou a Behold na cena indie internacional, certo? Como foi a sensação de, de repente, ter um produto de vocês sendo tão baixado e tão avaliado? O que isso trouxe de positivo para a Behold?

Exato. Knights chegou a lugares inimagináveis para uma produtora indie brasileira. Como dizem por aí, ele Zerou a internet (risos). Conseguimos posts em Kotaku, IGN, touchArcade, EuroGamer, e não somente pequenas notas, e sim, grandes e positivas avaliações. Ganhamos muitos prêmios também com este jogo, inclusive o IGF 2013 – Student Showcase, que é considerado quase um oscar dos games independentes. Knights hoje abre portas pra gente, pois publicamos no Steam, chegamos ao top charts, publicamos com uma produtora com bom nome, e isso tudo é experiência pra nossa bagagem.

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5) Ainda sobre KoPP, de onde surgiu a ideia de unir RPG com gerenciamento? Quais foram as etapas de produção?

Nós pensávamos em criar um jogo de RPG que voltasse a sua raíz. Começamos a pensar em algo mais tradicional, e fizemos o HeartQuest no Global Game Jam, até que lembramos da experiência de jogar um RPG de mesa e como seria legal gerenciar essa dinâmica. Depois desse dia, não conseguimos parar de pensar no jogo. Ficamos ansiosos para terminar alguns outros projetos, para que pudéssemos iniciar nosso trabalho no Knights. Fizemos várias conceitos, rabiscos, desenhos das telas, e quando comecei a programação, o jogo em pouco tempo já tinha seu esqueleto básico de combate. Já ficou divertido mesmo sem ter arte.

6) Vocês já estiveram em grandes eventos internacionais, como GDC e E3. Para o desenvolvedor independente, como é a experiência de estar em eventos desse porte?

É impressionante. Não tínhamos ideia de que tanta gente conhecia nosso jogo, e era fã da gente. Por exemplo, nós nos inspiramos bastante no Pixel People, e a galera que desenvolveu esse jogo, nos visitou e disse que era fã do nosso trabalho. Isso é muito engraçado, como tudo se conecta. Expor em eventos como este traz uma outra perspectiva. É fundamental que quem queira trabalhar com jogos visite eventos assim, SBGames no Brasil, GDC, IndieCade, etc.

7) O Ouya, console baseado em Android e financiado via Kickstarter, vendo sendo o protagonista de notícias sobre poucas vendas, que indicam que apenas 27% dos donos de Ouya de fato compram jogos. O que você está achando do Ouya nesse momento pós-lançamento? Há previsão de lançar algum jogo da Behold para ele?

Nós gostaríamos de lançar sim. O Chroma Squad tem previsão para sair no OUYA em 2014, mas ainda não está totalmente confirmada. Não nos preocupamos muito com as vendas pequenas no OUYA, pois acho que isso é reflexo dos péssimos jogos e ports que tem por lá. Mas jogos bem feitos como o Tower Fall estão vendendo bem.

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8) Chroma Squad é o primeiro grande jogo de vocês após Knights e já conseguiu o financiamento completo no Kickstarter (parabéns!). Como surgiu a ideia de apostar no crowdfunding? Havia risco de o jogo não ser concluído caso não conseguisse o financiamento?

O Kickstarter é uma ótima maneira de construir comunidade. Se a gente não conseguisse essa ajuda, ainda sim faríamos o jogo, mas provavelmente bem menor, sem multiplayer, e sem várias outras coisas. Incluir a comunidade nesta etapa foi ótimo para recebermos ideias, feeedback, e fazer um jogo ainda melhor. Mas só conseguimos isso pois a comunidade Tokusatsu é muito dedicada, e a fama do Knights ajudou muito na divulgação pelos sites importantes.

9) O que você acha das políticas da Sony, Nintendo e Microsoft para o lançamento de jogos indie em suas plataformas de nova geração?

Estamos torcendo muito que eles liberem pro Brasil! A Nintendo não liberou pra brasileiros, então, vamos ver se isso muda com o tempo. Adoraríamos fazer jogos pra consoles.

10) Para finalizar, que recado você daria os jovens desenvolvedores brasileiros que sonham em ganhar a vida criando jogos?

Não existe caminho fácil. As pessoas tendem a acreditar que só porque entendem mentalmente o desafio já conseguem superá-lo. Dando um exemplo, já tiveram aquela imagem na cabeça e quando tenta desenhar sai tudo diferente, e muito pior do que você tinha imaginado? No momento de transferir ou plasmar uma ideia no mundo real, diversas distorções acontecem, e assim, mesmo com uma grande ideia de um excelente jogo, não existe possibilidade de se fazer o jogo como está na nossa mente. Então, nosso conselho sempre é o mesmo: Faça jogos. A prática nos torna mais capazes. Dizem que nossos 10 primeiros jogos serão ruins, coincidência ou não, Knights of Pen & Paper foi nosso 11º (risos).

[Foto de abertura via AndroidPIT]

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Pedro Ivo Maximino

Jornalista em formação. Sou gamer desde os tempos em que passava horas jogando Sonic no velho Master System de um primo. Também sempre gostei de cinema desde aquela época, embora só recentemente tenha me interessado o bastante pelo assunto a ponto de me considerar um cinéfilo. Tomei gosto pela leitura por "culpa" de Harry Potter e hoje leio de tudo. Além do Portallos, escrevo ocasionalmente em meu blog pessoal, o OverLine.
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