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Mr. Robot | Perturbada, pontual e repleta de críticas! (Opinião)

Texto sem spoilers das revelações da primeira temporada. Pode ler tranquilamente.

Terminei a primeira temporada de Mr. Robot neste final de semana e é fácil entender porque essa é uma das séries de sucesso deste ano. A linguagem dela é diferente, a narrativa é tem seu próprio jeito e a trama para uma temporada de apenas 10 episódios amarra bem todos os pontos em que ela abre no começo e terminar com novos ganchos para um segundo ano já confirmada antes mesmo da primeira começar a ser exibida oficialmente lá fora.

Aqui no Brasil Mr. Robot também terminou recentemente de ser exibida no canal de TV por assinatura Space e agora resta apenas aguardar 2016 quando a mesma retorna e algumas perguntas deixadas pelo último episódio serão respondidas.

Pra quem está chegando agora e nunca ouvi nada sobre a série, Mr. Robot apresenta uma visão peculiar, com um protagonista perturbado, que tem como objetivo derrubar uma das maiores corporações do mundo, por ele chamado de Evil Corp, e assim trazer justiça a uma sociedade corroída pela elite. Só que é uma série de camadas. Além de pontual.

A ideia de usar a linguagem dos hackers é ótima, e tem suas semelhanças com real grupo Anonymous, um grupo de hackers que estão por aí hoje em dia, sabe-se lá fazendo o que. Em alguns momentos essa linguagem talvez soe um pouco forçada, ou até mesmo irreal, mas há que se dar certas liberdades narrativas para que isso seja bem amarrado. Porém a linguagem de hackers e tecnologia é apenas a ponta do icerberg de Mr. Robot.

É o protagonista da história que tem seu peso, Elliot Alderson, que inicialmente é apresentado como um cara com um distúrbio de não se dar bem socialmente com outras pessoas. Ele trabalha em uma empresa de segurança de internet, justamente usando suas habilidades hackers, e nas horas vagas hackeia todas as pessoas a sua volta, descobrindo seus pobres e tentando a sua maneira, consertar pequenas e mundanas coisas erradas na sociedade.

Até que um cara chega a Elliot, se apresentando como Mr. Robot, dizendo que há uma grupo de hackers que pretende derrubar tudo o sistema financeiro do mundo e que Elliot é a chave para isso acontecer. E bem, você fica 10 episódios preso nessa trama, vendo como Elliot e seus distúrbios trabalham com uma trama complexa para quebrar a Evil Corp, enquanto outros personagens tão interessantes quanto, trabalham pelas bordas fazendo a trama escalonar para momentos na qual, ao menos eu, não pude prever.

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A grande sacada de Mr. Robot é a forma como a história é contada. Com Elliot conversando com a audiência, como se quem estivesse assistindo fosse uma espécie de amigo imaginário. Não é direto como House of Cards, e é sutil a ponto de você comprar esse devaneio do problemático personagem. O filtro visual da série também é incrível, sem enaltecer cores, deixando esse sentimento cinza ao longo de toda a primeira temporada, como se o mundo através dos olhos de Elliot não tivesse brilho, vida, como se tudo estivesse poluído demais, até mesmo nos poucos momentos em que Elliot acha que encontrou algo que vá deixá-lo feliz.

É fácil se identificar com o sentimento que a série passa, como se as pessoas normais tivessem que pastar e apanhar em um mundo de cão, enquanto grande e megalomaníacos empresários estivesse em suas grandes castelos intocáveis. Como meras formigas podem atacar estes gigantes? Eu gosto desse ar revolucionário e provocativo de Mr. Robot, e a forma como se coloca os elementos hacker na história quase que condiz exatamente como um meio realista para esta distopia apresentada.

Claro que em alguns momentos Mr. Robot tem lá seus problemas. Lá pelo meio da temporada, quando uma pessoa importante para a trama morre, a história parece que se perde um pouco. Leva uns dois episódios para voltar aos trilhos e mesmo assim volta sem tanto esforço quando havia em seu princípio na parte hacker, que vai se esvanecendo até o que importar mesmo ser o que se passa na cabeça de Elliot. Vira um meio para o fim.

Isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque aí a série começa a trabalhar em outros aspectos do show e ruim porque parte da linguagem inicial era justamente esse excesso de linguagem hacker e isso é importante para você conseguir comprar o desfecho final, já que derrubar o sistema financeiro do mundo não é exatamente como desligar um interruptor. Alias não acredito que isso seja possível, como se grandes empresas e estes sistemas não possuíssem sistemas e meios de backup offline, aonde hacker no mundo poderia alcançar exceto de explodissem datacenters e botassem fogo em tudo. Mas isso é só um plot para um fim, lembra? A discussão da série não é saber se é possível que hackers destruam o sistema financeiro do mundo, mas talvez o que aconteceria se isso de fato acontecesse. Enquanto, claro, ficamos perplexos pela complexidade da mente de Elliot.

Também demorei para perceber a importância de alguns personagens secundários. A personagem Angela Moss, por exemplo, amiga de Elliot, fica boa parte da temporada com uma trama própria, sem aparentemente ligar com os eventos principais, até que no fim você entendo aonde a série queria chegar com ela. E funciona e isso me deixou surpreso. Tyrell Wellick também é outro personagem que começa meio estranho e quando se dá conta, fica achando que ele saiu direto do universo de Game of Thrones, te tão escroto e maléfico o cada é.

No fim, Mr. Robot tem uma proposta interessante e peculiar. Fugindo de fórmulas batidas, tentando ter sua própria linguagem e com uma reviravolta que apesar de ter lido algumas críticas e estas dizerem que viram isso chegando, eu juro que não vi. E não acho que esse recurso seja apenas uma cópia de um filme de sucesso na qual não vou citar para não dar a dica do spoiler. Eu já disse isso por aqui mais de uma vez, mas repito, quase não existem mais recursos de linguagem em tramas e filmes que já não tenham sido usadas no passado e que elas retornem e as pessoas digam que é cópia de algo. Mr. Robot faz do seu jeito, brinca a sua maneira com isso e não tenta esconder suas inspirações, mas é apenas isso, uma inspiração. Nada se cria do zero hoje em dia. E está tudo bem ser assim.

Abaixo, pequenos comentários com spoilers do final da temporada. Se você ainda não assistiu Mr. Robot até o fim, eu recomendo fortemente que não continue lendo.

A série deixa meio no ar, mas parece que Elliot importunava as pessoas que hackeava antes do plot principal da série. Eu achei importante o cara lá do primeiro episódio, na qual Elliot tomou o cachorrinho retornar e dizer que a polícia está caçando ele. Me pareceu sensato esse tipo de situação e que isso haja consequências. Os anti-heróis as vezes são pegos nestes pequenos detalhes, não? O cara pode destruir o sistema financeiro do mundo, mas vai preso por hackear e tomar um animal de estimação de um cara escroto.

Por sinal, o mundo em colapso, com dívidas perdoadas e ninguém com dinheiro em contas bancárias me parece meio… calmo demais, não? Eu acho que se todo mundo acordasse um dia sabendo que todas as suas economias, todo o dinheiro virtual do mundo sumisse, as pessoas estariam tacando fogo em tudo, saqueando lojas e tal. No máximo ao final de Mr. Robot as pessoas se juntaram a fsociety e estão nas ruas fazendo panelaço. Muito bizarro! Talvez a ficha não tenha caído, talvez a série não quis retratar a barbárie que seria se todo o dinheiro do mundo sumisse. Eu imaginaria um caos ainda maior.

E você pode alegar que quem não tem dinheiro isso não faz diferença. Se não devo nada, não preciso de dinheiro, certo? Mas e o amanhã? E quando você precisar ir aos supermercado? Comprar remédios? E quando todos perceberem que com isso o mundo está desempregado porque não há como sustentar salários e grana? OK, talvez a ideia da série tenha sido quebrar apenas a Evil Corp, talvez o fluxo de dinheiro ainda existe, os sistemas ainda funcionem. A série não deixa isso muito claro. Mas ainda assim uma queda desse tamanho desencadeia o efeito dominó no mundo todo, não? Cai todo mundo. Enfim, eu só achei que o final da temporada amenizou muito os atos que o grupo de Elliot causou.

Dito isso, genial a cena pós-crédito no final do último episódio. Mostrando que quem está no topo da cadeia alimentar, verdadeiramente, não se apela com migalhas. E é verdade, como se estes ricaços e grandes empresários não tivessem bens, investimentos e montanhas de dinheiro guardados fora do sistema na qual Elliot & cia atacaram. É quase como uma organização secreta que domina o mundo. Eles não são abalados com isso e a menção de Nero tacando fogo em Roma é pertinente. Queime tudo e nós recomeçaremos tudo de novo, ao nosso bel prazer. É de dar medo, além da óbvia indignação. E tenha pro mim que é a Angela que na segunda temporada vai bater de frente com esse Olimpo estabelecido neste final de temporada.

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Que fim levou Tyrell Wellick? Estou vendo muitas discussões por aí alegando que ele seria a terceira personalidade de Elliot. Quão incrível isso seria, não? E o final da temporada flerta muito com isso, quando Tyrel só aparecendo no apartamento do Elliot quando ele estava sozinho, quando Elliot acorda no carro do cara e até mesmo a conversa do Elliot com a esposa dele pareceu estranha e aberta a essa interpretação. O que abre a possibilidade que mais personagens sejam outras personas de Elliot.

Quanto a influência de Clube da Luta, o produtor da série deixou bem claro que isso existiu e que não é para ser uma cópia. Foi um elemento que trouxe um evento inesperado. Eu me surpreendi quando isso aconteceu. E mostra o quão pirado Elliot ficou. E é ainda mais bizarro ver ele criança. Como uma pessoa chega a isso? Eu espero que a série trabalhe mais esse elemento do personagem. E depois que esse elemento é revelado, a série ainda consegue tornar essa premissa interessante, especialmente na briga do Elliot e seu pai na lanchonete, mostrando que uma personalidade pode dominar a outra e até mesmo deixar Elliot desacordado (o que é outro indício para ele ser o Tyrell e não ter qualquer memória durante o crash da Evil Corp).

Diferente de Clube da Luta, Mr. Robot tem potencial e tempo para explorar ainda mais esse elemento das personalidades. Ele pode ir além de suas influências e isso é muito animador.

Ah! E eu não tenho qualquer palpite quem estava na porta do Elliot em sua última cena da temporada…

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Grande interpretação de todo o elenco da série
Linguagem peculiar e diferente ao abordar o tema Hacker
10 episódios e sem encheção de linguiça. Perfeito!
Provocativa e polêmica em diversos momentos
A revolução proposta pelo plot principal é meio amenizada em seu final
Pontual ao apresentar temas reais e críticas ao sistema atual

Mr. Robot, com uma proposta peculiar, consegue ser uma série incrível! Provocativa e interessante!

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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