Conversa de MangáDando Nota!Japão

Knights of Sidonia – Vol. 01 | Terror espacial em tensas páginas de um mangá! (Impressões)

Acredito que muitos tiveram contato com Knights of Sidonia através de sua versão animada, que é exclusiva em diversos territórios fora do Japão por meio da Netflix. Ao menos comigo foi assim. Até então nunca havia sequer ouvido falar do mangá, que no Japão começou em 2009.

E é curioso que até hoje não consegui sequer terminar o animê. Fui dar uma segunda chance e ver mais alguns episódios somente agora, quando coloquei as mãos da versão em mangá da série, que está sendo lançado aqui no Brasil pela Editora JBC. O segundo volume deve estar nas bancas nesse momento da publicação deste review da primeira edição.

Não sei explicar minha repulsa pelo animê. Talvez seja algo pessoal, mas não consigo apreciar totalmente estes novos animês japoneses produzidos em animação CG (3D). A arte 2D dos animês japoneses é tão icônica, tão diferente do padrão americano de desenhos animados, que não imagino porque diabos os japoneses andam querendo fazer as coisas mais parecidas com as animações 3D ocidentais. Parte do charme parece se perder nesse formato, que vem se tornando cada dia mais frequente por lá (Ajin está na mesma dança do 3D).

Enfim, esta matéria não é para falar mal do animê de Knight of Sidonia ou polemizar em torno desse estilo de animação 3D – fica para outro dia isso. O fato é que se você viu Knights of Sidonia na Netflix e não gostou… não presuma que o mesmo vai acontecer com o mangá. Eu não gostei (do animê) e quando peguei esta primeira edição do mangá, uau, que diferença!

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A lógica também pode valer para quem gostou da versão animada. Talvez isso o faça apreciar ainda mais a versão original de Knights of Sidonia, de conhecer o belíssimo traço e a versão do próprio criador desse universo. Sim, porque já notei pequenas diferenças entre animê e mangá ao olhar para este primeiro volume. Não posso dizer a respeito do final, por razões óbvias (não vi e não li, ainda), mas ouvi por aí que também é diferente – Alguém confirma isso?

A humanidade ilhada no frio e solitário espaço sideral

Vou tentar não ficar comparando a série da Netflix com o mangá da JBC, mas acredito que em alguns pontos isso será inevitável. O próprio contexto da série, por exemplo, só fui realmente entender ao ler o mangá. Não que não esteja na animação, mas pra mim ela tem sérios problemas de ritmo e narrativa, e coisas importantes as vezes passa sem que os menos atentos percebam. O que provavelmente foi o meu caso.

Knights of Sidonia se passa mil anos após nosso Sistema Solar ter sido destruído. A humanidade vive atualmente em uma gigantesca nave espacial, vagando a deriva do espaço, encontrando novas formas de se manter viva, ainda que seja questionável a forma como estes remanescentes da humanidade estão vivendo a meu ver.

Os humanos não precisam mais comer diariamente (que horror!). Agora as pessoas fazem fotossíntese, como as plantas! Com tão poucos humanos, o código genético da reprodução da espécie também se tornou um problema e agora há um terceiro sexo, de humanos que não são nem homem e nem mulher! E estes seres assexuados podem engravidar, e criar clones. Assustador, não?

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Claro que são detalhes como estes que tornam o mundo da ficção científica de Sidonia incrível. Realmente é algo genuíno, como se tais detalhes fizessem toda a diferença para a solidificação de um mangá, que em sua essência é mostrar robôs gigantes lutando contra enormes aliens espaciais. E é por isso que é tudo tão bacana. É no recheio, nos detalhes, nas arestas de toda essa estrutura que torna tudo tão rico e complexo. Um mundo crível dentro daquilo que ele se propõem a ser. E olha que isso é tão difícil de ser feito no mundo da ficção científica espacial sem parecer algo copiado de outras bases existentes.

E não que não exista inspirações, seja de outros mangás espaciais, como Neon Genesis Evangelion ou até mesmo semelhanças com famosas séries americanas, como Battlestar Galáctica, mas são elementos que são de comum acordo dentro desse gênero espacial, e não uma cópia de algo que outras séries estabeleceram. Knights of Sidonia consegue ter sua própria linguagem e características únicas e interessantes.

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A humanidade quase foi extinta, o que sobrou quase não se parece mais com a humanidade que nós conhecemos, e a ameaça que destruiu quase toda a raça há mil anos atrás ainda existe no espaço sideral: os Gaunas!

O primeiro volume já cria justamente esse atrito, entre os humanos de Sidonia e um Gauna adormecido em um asteroide em que alguns cadetes espaciais foram para minerar um pouco de recursos. O Gauna despertou, provou o sangue dos humanos e agora segue em direção a Sidonia!

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O humano que ainda é um humano!

O personagem central de Knights of Sidonia é Nagate Tanikaze, alguém que até então não era ninguém! Nagate vivia no subsolo de Sidonia, desconhecido de todo o Governo e cidadãos de Sidonia. Com a morte de seu avô, que também já era dado como morto no sistema de controle de pessoas na nave, Nagate resolve ir e explorar lugares onde jamais foi, e acabou sendo pego enquanto tentava roubar arroz em uma das fábricas da nave.

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Com isso o protagonista da história passa a viver entre os habitantes da nave. Se torna um capitão de um robô gigante, quando uma personagem de alta patente de Sidonia vê potencial no rapaz. Afinal, Nagate passou anos no subsolo sem nada para fazer, a não ser ficar treinando combate em simuladores antigos e já em desuso. Ele ganha inclusive a chance de controlar um velho modelo de robô, já que eventualmente se descobre que ele não se dá muito bem com os mais novos robôs. Nagate é um diamante bruto.

Isso desperta a curiosidade de muitos outros personagens que passam a participar da trama do mangá. Uns com inveja e receosos com o rapaz, até pelo simples fato dele não fazer fotossíntese, e meio que cheirar mal por causa disso (já que come a toda hora e vive meio “sujo”), enquanto outros personagens como a mocinha “assexuada” vê um rapaz perdido em um novo mundo que se abriu para ele, e assim ela passa a ser sua amiga.

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Há que se dizer que Knight of Sidonia é um mangá adulto, de recomendação etária acima de 16 anos. Existe um pouco de teor sexual no mangá, mas é feito de uma forma tão natural, tão sutil, que não parece algo gratuito ou tendencioso daquele jeitinho que os japoneses, adoram, sabe? Gostei do mangá trabalhar essa parte adulta de forma natural e sem necessariamente tirar o leitor o clima do mangá.

Posso também dizer que há uma sensação diferente entre o animê e o mangá no que diz respeito ao Nagate. Por ser em 3D o Nagate do animê não chega a ser tão expressivo quanto Nagate do traço original do Tsutomu Nihei. Me simpatizei muito mais com o Nagate lendo o mangá. O personagem até então me parecia estranho, sem vida no animê, um tanto inexpressivo. Admito que após ler o mangá, até mesmo o animê ficou melhor, pois acabei imaginando o Nagate original ali.

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Enfim, este primeiro volume de Knights of Sidonia trabalha muito nessa introdução da história sobre a perspectiva do Nagate, que acaba servindo de ponte do leitor para o mundo do mangá e as regras desse novo universo. Sua rotina, seus novos amigos e rivais, o quanto ele acaba sendo maltratado pelas pessoas ou como parece não se encaixar nesse mundo de Sidonia. O leitor cria simpatia pelo personagem facilmente. E claro que os leitores já passam a entender que no fim, ele será um grande herói que irá salvar esse resquício da humanidade.

A versão JBC

Este primeiro volume do mangá apresenta grandes momentos de ação, mostrando que o autor trabalha de forma espetacular com páginas com muito preto, representando o espaço sideral. Os robôs são incríveis e toda a ação é perceptível ao leitor, sem causar estranheza de ângulos ou má compreensão de composições de quadros. Diferente do que relatei recentemente com o Blood Blockade Battlefront.

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Outra beleza do mangá são as páginas duplas, todas muito bem feitas, e o mais importante: bem encaixadas na impressão da versão da JBC, o que aliás foi algo que cheguei a reclamar na versão de One-Punch Man da Panini. Ponto positivo para a JBC, pois não me senti incomodado na versão de Knights of Sidonia nesse quesito.

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Por sinal a editora caprichou nesse mangá. O tratamento é de luxo, então o preço também não é o mais econômico da linha, R$ 17,50 por edição. Um preço justo pela qualidade (e pela crise, não tem jeito). O papel é off-set, a impressão da tonalidade do preto é impecável (isso acaba sendo muito importante nesse tipo de mangá) e toda a encadernação é de saltar os olhos. Novamente digo que gramatura e transparências da folha não me incomodaram, ainda haja aqueles que sempre reclamam disso. Também achei muito bacana as páginas coloridas que abrem a edição. E já foi mencionado pela editora que toda edição trará páginas assim. Show!

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Knights of Sidonia tem uma periodicidade mensal. Talvez pese um pouco isso. Felizmente é um mangá relativamente curto, sendo finalizado em 15 volumes. Da minha parte, se você me perguntar, digo que vale a pena colecionar. Achei incrível essa primeira edição. Me ganhou por completo. O que é admirável pensando que o animê nem sequer conseguiu me fazer cócegas. Tire a prova disso lendo ao menos a primeira edição de Knights of Sidonia, e depois venha aqui me dizer se só eu passei por isso.

A primeira edição acaba de forma totalmente tensa, ainda sem a parte do terror que haverá no segundo round contra esse Gauna a caminho de Sidonia. Já sei o que acontece mais adiante por ter visto uns cinco episódios do animê, mas admito que estou com muito mais vontade de ler no mangá tais eventos!

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Alias no animê, essa cena que precede todo o confronto entre os quatro melhores pilotos de Sidonia contra o Gauna é feito de uma forma bem diferente. Gostei muito mais da linha do tempo e da narrativa criada aqui no mangá, enquanto no animê essa passagem de tempo entre o começo da série até seus primeiro eventos é um tanto, ora confusa, ora estranha.

Mas é o que dizer de adaptações, não? Sempre que possível, conheça o material original, pois há sempre boa chance dele ser melhor. Knights of Sidonia é um bom exemplo disso a meu ver.

É isso!

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Universo de ficção científica espacial espetacular!
Mangá que supera (e muito) sua versão em animê
Traço incrível, com ótimo uso da tonalidade de preto
Versão da JBC de alta qualidade (vale o preço)
Em tempos de crise, a periodicidade mensal pode complicar
Sutil nos detalhes e em regras de estrutura narrativas
Ótimo protagonista, já o resto do elenco ainda precisa crescer

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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