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Arakawa Under the Bridge Vol. 01 | A vida debaixo da ponte é cheia de surpresas! (Impressões)


Guarde essa palavra: neossensorialista. Uma palavra complicada, de lembrar e de explicar. Faz diferença saber um pouco sobre literatura neossensorialista ou até mesmo saber que Arakawa Under the Bridge segue uma certa influência dessa escola literária? Mais ou menos. Na verdade eu já gosto dessa série desde 2010, quando um animê baseado no mangá foi lançado na TV japonesa e meio que toda a internet mundial assistiu e adorou. E até então eu nunca tinha ouvido falar de “neossensorialista”.

Para mim se tratava mais um daqueles títulos japoneses de humor sem noção, tosco, ou simplesmente maluco e bizarro. Porém de uma forma positiva de ser. A obra conta a história desse jovem (naquela ideia de “não sou mais um adolescente, porém ainda não sou um adulto completo“) chamado Kou Ichinomiya, que vem de uma família poderosíssima no Japão e que tem como mantra de vida, que deve ser seguida totalmente à risca, o conceito de “nunca dever nada a ninguém“. Sei pai lhe ensinou isso desde criança, quase como uma lavagem cerebral, e hoje esse jovem acredita 100% que essa é a sua verdade absoluta para honrar sua própria existência e herdar todos os frutos que seu poderoso pai lhe deixará.

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Não vou dar detalhes específicos, mas o caso é que Kou um dia, como outro qualquer, cai de uma ponte e meio que em uma situação na qual ele acaba preso debaixo d’água, uma jovem o salva. Essa jovem se chama Nino (apenas isso) e mora embaixo da ponte. Kou, se sentido mal por ter sido salvo, e portanto deve sua vida a Nino, deve – diante de uma série de situações surreais e anormais – morar embaixo da ponte com a jovem, que lhe pede em troca por ter salvo a sua vida o desejo de que ele lhe mostre o que significa “o amor”. Kou se torna o namorado de Nino, seja lá o que isso quer dizer na cabeça dela.

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O bom da comédia do absurdo

Até aí… tudo normal? Bem não exatamente, claro. Arakawa Under the Bridge trabalha com um humor surreal, que beira o absurdo de tal maneira que ele dá voltas até fazer sentido a aquele universo. Nino diz que é de Vênus, ou pelo menos acha que é, diz que se Kou for um dia sequer para longe da ponte, ela nunca mais irá se lembrar dele, o que justifica que ele passe a morar com ela embaixo da ponte (mas não juntos, pois o mangá não tem qualquer apelo sexual).

E aí as coisas vão ficando cada vez mais bizarro e surreal, exponencialmente a loucura fantástica da autora do mangá, Hiraku Nakamura. Debaixo da ponte há um prefeito, que é um homem vestido de kappa (um ser meio sapo do foclore japonês) que se diz ser um kappa de verdade, ainda que claramente seja um homem vestindo uma fantasia. Há um cara que sai por aí fazendo linhas brancas, pois ele só pode andar por cima delas (e por isso não pode voltar para sua família), há pessoas usando máscaras, como se estas fossem de fato seus rostos, ou então a “sister” uma freira, que é um homem, que claramente se parece com um mercenário, sempre carregando debaixo do braço uma metralhadora.

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É nesse ambiente alucinógeno que Kou Ichinomiya se vê preso, em um acordo com o que parece ser a única garota que parece normal nesse lugar, com uma enorme aspas no normal. E aliás, as pessoas que vivem debaixo da ponte precisam de um novo nome, dado pelo prefeito. Assim Kou passa a se chamar Recruta, ou apenas Ric.

Arakawa Under the Bridge é claramente um mangá de humor, mas não apenas humor pastelão ou boboca. Há metáforas, camadas de filosofias, ironias em boa parte da obra, das mensagens e reflexões propostas por essa comunidade muito louca. Pense em como o Chaves – sim, estou usando Chaves como comparação – tinha um quê disso, de provocação, do garoto pobre, do caloteiro, da mulher que era feia e por isso todos diziam que ela era uma bruxa, do garoto mimado e da viúva e assim por diante. Os estereótipos não estavam ali apenas para serem engraçados, havia uma crítica social em Chaves, metáforas e reflexões além do humor pastelão. Arakawa Under the Bridge não fosse muito desse brilhantismo.

Todos os personagens ali existem por uma razão, por uma reflexão, para uma provocação aos leitores. Enquanto, é claro, faz seu humor nonsense, característico da cultura dos mangás. Aí é que eu volto ao começo do texto, da literatura Neossensorialista, que nada mais é do que uma espécie de literatura do sentimento, das sensações, de percepções e da subjetividade. Colocando esse formato literário de uma forma bem resumida, é claro.

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Leitura obrigatória!

Trata-se de um mangá mexe com o leitor, que o provoca a ter reações, sejam elas positivas ou negativas. E este é só o primeiro volume. Aliás não sei o quanto o animê de 2010 segue fielmente o mangá. Tudo que vi neste primeiro volume foi fiel a minha experiência com a animação, então por isso posso dizer que hoje o mangá faz muito mais sentido após esse descobrimento sobre a sua proposta literária. Se a primeira edição ainda soar boba para alguns, e eu não acho que soe, pode ter certeza que a complexidade e a profundidade destes personagens e das situações que própria autora trará ao título conforme a história avançar estarão mais presentes na próxima edição. Ao menos pelo que me lembro tendo assistido a versão animada anos atrás.

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Trata-se de um mangá de apenas 15 volumes. Eu espero muito que a Panini se interesse em me deixar mostrá-lo por aqui mais vezes e com mais edições, pois eu gostaria muito de continuar frequentemente voltando a recomendá-lo por aqui, comentando mais e mais sobre a sua história. Para um primeiro volume acabou se fazendo necessário todas estas explicações, então o tempo do texto está quase acabando. Mesmo que não consiga as edições em tempo para escrever sobre cada uma, pretendo colecionar o título, comprando-o em pacotões a cada X meses, até porque, como disse, são apenas 15 volumes.

E mesmo tendo visto o animê, ele não cobre todo o mangá, que foi finalizado somente ano passado, bem depois da segunda temporada da série ter terminado (também em 2010). Aliás eu não gosto muito do final da segunda temporada de Arakawa, acho-a bem fraquinha, e provavelmente era porque talvez se tratava de um filler (rolou um final na época), tendo em vista que o mangá ainda continuou por muitos mais anos.

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Acho incrível que a Panini esteja apostando aqui no Brasil em um título como este. Já disse por aqui que acho bacana que os mangás para o público feminino estejam atualmente crescendo no país, os shoujos, porém acho ainda mais legal essa aposta no humor inteligente, nos mangás surreais, ainda que Arakawa Under the Bridge tenha um pouco de comédia romântica, ele não é necessariamente um título apenas para garotas. O mangá funciona muito bem com o público masculino, graças aos bom humor, ao bizarro e surreal dentro de tudo isso.

Que este seja o pontapé inicial para outros títulos com essa pegada. O lançamento do primeiro volume de Arakawa Under the Bridge se deu no final de junho, acredito que ainda seja possível encontrá-lo nas bancas, com a segundo edição chegando em breve, ainda em agosto no esquema de distribuição nacional. É sério, se você achou interessante a proposta, vá e corra atrás desse mangá, pois vale muito a pena. E não sei, mas eu ouço um burburinho em grupos de comunidades de fãs de mangás que o sucesso de Arakawa pode ser as portas para que mangás maiores, como Gintama, ganhem chance de virem para o Brasil, pois de uma certa forma, esse é um título que está a sua maneira, dentro deste formato de humor mais surreal.

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Por fim, a Panini lança aqui no Brasil Arakawa Under the Bridge em um formato mais tradicional, naquela faixa mais econômica. Papel jornal, precinho camarada de 13 reais, freetalk e capas e contra capas todas coloridas e esta primeira edição até traz duas páginas coloridas ao final da edição. Tudo belezinha e condizente com a proposta. Se for sucesso mesmo, e eu espero que seja, esse é um título que daqui muito tempo, adoraria ver em uma versão mais luxuosa. Porém, para hoje, o agora, acho que o formato escolhido foi o mais plausível diante do cenário e do mercado atual.

Enfim, provavelmente os fãs de mangás e animês já conhecem Arakawa Under the Bridge, por parte do animê de 2010, mas assim, vale a pena ler ele também, e ter algo tão diferente e incomum em sua coleção, caso colecione, claro. Fica a recomendação, a indicação e aquele empurrãozinho que talvez alguns precisassem para darem uma chance a obra.

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Personagens apaixonantes (e bizarríssimos)
Atmosfera da vida embaixo da ponte é incrível
Humor sagaz, cheio de metáforas e interpretações pessoais
Traço da Hiraku Nakamura é impecável para a obra
Formato da Panini é o basicão, papel jornal e preço baixo
Um gênero de mangá que precisa ganhar força no Brasil

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!

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