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FreezeMe | Lembranças dos tempos de N64 e dos antigos plataformas 3D! (Impressões)

FreezeMe é um indie game que andei testando semana passada e me causou uma série de sentimentos nostálgicos e conflituosos. É um título que realmente mexe com a memória de quem vivenciou a era do Nintendo 64 e de games de plataforma 3D, como o inesquecível Super Mario 64.

E ao mesmo tempo em que FreezeMe conseguiu me levar de volta a essa era que deixou saudades, o game ainda conseguiu inserir um pouco da modernidade que Super Mario Galaxy trouxe há alguns anos atrás, quando renovou tal gênero. Parece loucura tudo isso, não?

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O game é o trabalho de um pequeno estúdio indie localizado em Barcelona, na Espanha, fundado em 2012, chamado Rainy Night Creations, ou simplesmente RNC. Sendo que FreezeMe é o primeiro projeto do estúdio. Para um primeiro game os desenvolvedores mandaram muito bem, ainda que haja muito que aprender com o título. Mas calma que vou chegar aos pormenores do título.

Um gênero hoje perdido no tempo

Ia dizer que o plataforma 3D é um gênero extinto na modernidade atual dos games. Mas isso seria mentira. De fato a Nintendo nunca abandonou esse gênero, com pelo menos um Super Mario 3D por geração. Sonic é outro mascote de uma era diferente dos consoles que ainda continua tentando um modelo de plataforma 3D que agrade os fãs.

Até mesmo Ratchet & Clank no PlayStation tem uma forte inspiração nesse gênero clássico, ainda que tenho pra mim que a franquia hoje se adequa bem mais ao formato de shooter em terceira pessoa, com pequenos elementos de exploração e plataforma 3D. E não se pode esquecer, é claro, que tem Yooka-Laylee vindo aí em 2017, pela Playtonic Games, formada por ex-funcionários da Rare dos tempos de Banjo-Kazzoie, para mostrar que ainda há espaço para esse gênero no mercado atual de game.

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Ou seja, o plataforma 3D não morreu, apenas se perdeu no tempo, conforme foi perdendo sua força e relevância em um mercado de games em primeira pessoa, shooters e multiplayer online. Nada dura para sempre certo? Felizmente ainda existem desenvolvedores nostálgicos e que se sentem inspirados a homenagear ou adaptar tal formato a um modelo de mercado que possa ser possível o retorno de games com esse espírito. E o cenário Indie Game, com jogos que custam menos, feito por pequenas equipes, e que não precisam da pretensão de vendas e lucros de um título AAA permitem esse tipo de resgate saudosista. E é aí que FreezeMe entra.

Simples, meio bugadinho, mas também nostálgico.

Descobri FreezeMe no começo deste mês, quando o mesmo chegou ao Xbox One. Atualmente o game também se encontra disponível para Steam e Nintendo Wii U. Seu trailer oficial – veja no final da matéria – já deixa bem claro que o game tem forte inspirações em Super Mario 64 e Super Mario Galaxy e não tem como não deixar jogadores das antigas curiosos a respeito. E cá estou, me divertindo com ele nestes últimos dias, a ponto de ser totalmente válido conversar a respeito do título aqui no site.

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Um detalhe interessante é o quanto o título despertou a curiosidade do meu filho, com 4 anos. Ele realmente adorou o game. No começo ele achou bem estranho. Cadê o Mario? Cadê os Goombas? Cadê toda aquela roupagem que ele vê no meu Nintendo 3DS ou no You Tube – é incrível como os vídeos do Mario fazem sucesso com a criança, ainda que estas não tenham um console da Nintendo. Mas passado a primeira hora inicial, lá estava ele, na pilha, subindo em cima de mim, querendo jogar FreezeMe ou me xingando porque estava errando demais os pulos no game. Ter estes momentos com ele já fizeram valer a pena pegar o título para escrever a respeito aqui no site.

Porém não quero enganar ninguém. Essa vibe toda de Super Mario 3D não faz FreezeMe ter uma qualidade e refinamento que um Super Mario, feito pela Nintendo, obviamente tem. Trata-se de um indie game, feito por um estúdio novo e pequeno, com um preço totalmente acessível e, portanto, é de se esperar que ele tenha problemas, sendo que alguns até eram típicos desse gênero na Era N64.

Por exemplo, cito a precisão dos pulos e aquelas artimanhas que estes games tinham no passado que permitiam o jogador as vezes “quebrar” o game. Normalmente são casos em que você precisa subir em uma plataforma específica e há um caminho, porém você resolve ir por outro lado. Subindo em algum lugar mais alto ou até mesmo sendo atirado por um canhão até esse espaço. Os games de plataforma 3D dessa época era sempre assim, tinham um jeitinho ou um bug aqui e ali que permitiam que o jogador desse seu jeito de chegar a um lugar à sua maneira.

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Dentro de todo esse contexto, orçamento indie e bugs que eram tradições do gênero, acabam sendo pequenos detalhes que normalmente os jogadores conseguem aceitar. Porém também encontrei situações de bugs mais feios, como inimigos congelados dentro do game ou itens na qual a gravidade não os levou para o chão. Até mesmo nas situações em que o game simula o esquema de Super Mario Galaxy, onde um pulo meio forte ou alto demais me jogou para fora do estágio, sendo que a gravidade do planeta deveria ter me mandado de volta ao mesmo. É um tipo de bug ruim, que não poderia ocorrer, mas que ocorre.

Logo fica claro que a jogabilidade do game é também complicada. Lembra o quão tortuosa a câmera 3D destes jogos poderia ser? Bem, eu me lembrei. As vezes ela não se comporta como se espera. Se aproximando demais, enganando com ângulos estranhos, ou não se posicionando onde você quer que ela fique. Dá raiva, outro sentimento comum no passado com games assim. E em FreezeMe a câmera te tortura mesmo.

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A jogabilidade também pode deixar a desejar. E não é como se o game também estivesse propositalmente emulando os feitos que os games desse gênero tinham no passado. Talvez por se tratar de um título muito ambicioso para um estúdio pequeno, com recursos limitados. E tudo bem, isso não o torna intragável. É como disse, apesar de todos os problemas, passei deliciosas horas xingando o jogo, mas me divertindo com meu filho, naquela caldo de nostalgia pelo gênero em si. Chega um momento em que os elementos ruins param de incomodar.

Pular com a pequena protagonista, por exemplo, nos primeiros 30 minutos foram um verdadeiro terror. Estava errando tudo. A personagem cola de um jeito estranho nas paredes, o pulo que reverte a direção é impreciso, e até mesmo a barrigada de frente, como o Mario faz em SM64 é um tanto desordenada. Mas bizarramente com o tempo me acostumei melhor a tudo isso. Não é uma personagem que tem a flexibilidade do Mario, mas mesmo assim tenta imitar muito bem.

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Ao fim, fica claro que não é um game que qualquer um deve jogar esperando uma qualidade técnica e refinamento impecável. O jogo tem falhas, que até são condizentes com o gênero e com a capacidade do estúdio. Não é um jogo de se jogar fora, mas é um título que você precisa estar ciente de suas limitações. Passando por isso, sua experiência é válida, caso contrário, nem me daria o trabalho de indicá-lo aqui, pode ter certeza.

O mundo de FreezeMe

FreezeMe tem todos estes elementos inspirados dos antigos games do Super Mario 3D, mas seus mundos não são cópias de nada que existiram nestes antigos games do encanador. Ao todo o título possui quatro mundos, com várias missões de cubos dourados a serem recolhidos.

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E o esquema é o mesmo do que antigos games do Mario, ou seja, há um Hub geral, que conecta todos os mundos. Entrou no portal desse mundo, o jogador tem acesso as missões em cada um. Selecione uma ainda não concluída, o mundo antes de iniciar vai dar uma dica do caminho até o cubo selecionado.

Porém, tal qual, o game permite que ao entrar no mundo principal, o jogador tenha a liberdade de ir para onde quiser. A missão escolhida fica no topo de uma montanha, mas você quer pegar aquele outro cubo que fica na parte de água do cenário? Pode ir lá, que o game vai te deixar pegar o cubo dourado dali. Há essa liberdade de exploração e de cumprir as missões da forma como o jogador bem quiser. Isso é muito bacana.

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E o jogo tem metas mais ambiciosas além dos cubos dourados. Tal como no SM64, há em cada mundo a missão de coletar 150 moedas vermelhas. Além delas, todos os mundos possuem pequenas lagartixas que devem ser fotografadas, só não me pergunte porque. São apenas colecionáveis. Fora isso, há porquinhos, espalhados por toda a parte. Eles concedem pequenas missões extras, que ao serem concluídas rendem moedas verdes, que também podem ser trocadas após acumular um tanto delas por cubos dourados em certas estátuas ao longo de todo o game.

Isso é legal porque agrega conteúdo as tarefas do jogador. Não basta coletar os cubos espalhados pelos cenários. Há um momento em que as moedas vermelhas precisam ser recolhias. Fora que as verdes também rendem missões secundárias bem divertidas, e normalmente são curtinhas, então não atrasam demais o jogador.

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Ao todo, o game apresenta quatro mundos. Parece pouco, mas são mundos realmente grandes e cheios de segredos. É um título que pode ser fechado facilmente em torno de 4 ou 5 horas, ainda que não com 100% dos itens coletados. Ao menos não em uma primeira jogada do mesmo. Afinal, após fechar o game, tal qual o Mario ganhava a habilidade de voar em SM64, a protagonista do título também ganha algo assim. E é bacana, pois isso permite ao jogador explorar áreas que inicialmente não eram possíveis.

Mesmo com a jogabilidade truncada, alguns bugs mais sérios, e todos os problemas técnicos que os games desse gênero normalmente tinham no passado, FreezeMe apresenta um formato interessante de level design. O que significa que os quatro mundos do jogo são criativos e originais. São grandes e cheio de áreas e segredos para explorar. Gostei em particular do terceiro mundo, que é composto por pequenos planetas com diversos ecossistemas diferentes em cada um.

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Congele e manipule o mundo ao seu redor

Chega a ser meio estranho como o game lhe conquista com estes mundos e visuais que ficam remetendo ao passado do gênero. Nada é novo, porém tudo é único. É um jogo inspirado em um grande clássico, mas não soa como um plágio sem carinho em seu desenvolvimento. E mesmo com tudo isso, fica claro que os desenvolvedores quiseram inserir um elemento original e diferente em tudo isso, a habilidade de congelar o ambiente ao redor do jogador.

A pequena protagonista do game tem uma máquina fotográfica. Nesse mundo em que ela se encontra, para salvar seu amigo canino de um gato malvado e gordo, ela descobre que a sua máquina fotográfica tem o poder de congelar plataformas e inimigos. E essa mecânica faz parte da estrutura de progresso do game.

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Cabe ao jogador, por exemplo, decidir congelar o tempo de movimento de uma plataforma, enquanto outra não chega mais próximo. Há inimigos que precisam ser congelados e arremessados contra um chefe de mundo (que são fáceis, porém divertidos), ou que viram plataformas ao se fazer isso. Além de mecanismos onde há um pequeno puzzle a ser solucionado que envolve congelar as coisas. O título do jogo (Freeze = Congelar) vem especificamente desse ponto original da jogabilidade. E é um recurso que funciona de uma forma bem mais assertiva do que achei que inicialmente seria. Acabei sendo surpreendido quando a esse aspecto do game.

É um recurso legal porque não é utilizado somente em casos específicos de certas missões. É uma habilidade que pode e deve ser utilizada a qualquer momento. Seja para acessar uma área em que o jogador não alcança e acaba utilizando o congelamento para subir me cima do que foi congelado e alçar maiores alturas, ou simplesmente para evitar ser atingido por algo que esteja sempre se movimentando pelo mundo. Não é algo inserido em sua mecânicas para usar apenas algumas poucas vezes.

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Vale ou não vale?

Sendo bem honesto, acho que FreezeMe não é um título para qualquer jogador. Muita gente pode chegar até o título e achá-lo tremendamente ruim. E não posso discordar de alguém com tal opinião. O jogo tem sim sérios problemas de falta de refinamento técnico.

Acaba sendo um título que pede a atenção por um público de nicho muito, mas muito específico. Eu tenho certeza absoluta que só me diverti horrores com ele nestes últimos dias porque tenho esse sentimento de nostalgia, pelos tempos que não voltam mais, de sábados inteiros jogando Super Mario 64.

Pra mim, FreezeMe serviu para matar uma saudade. Por outro lado, é difícil de explicar como meu filho de 4 anos se encantou pelo game, atento ao me ver jogá-lo e interessado em jogar também. Há um certo charme nessa fórmula, no colorido e na liberdade que se tem com títulos assim. Isso provavelmente o encantou.

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Claro que alguém que não se interessa por esse resgate, que é um jogador mais hardcore, que só joga games como Call of Duty ou Assassin’s Creed vai achar um verdadeiro absurdo estar aqui comentando que adorei o game, com todos seus defeitos. E okey, não acho mesmo que é um título para essa classe de jogadores.

O que me deixa contente é saber que é um game baratinho. Custa 27 reais na Steam, enquanto no Xbox One – infelizmente no momento em que publico estas impressões, ele ainda não foi disponibilizado na Xbox Store BR – está custando lá fora apenas 10 dólares. No Nintendo Wii U, não tenho certeza, mas até onde consegui pesquisar, o game custa apenas 14 dólares. Vale o preço, vai. Pela nostalgia, pela saudade, até pela raridade na qual games assim são desenvolvidos hoje em dia.

Talvez, para aqueles que possuem um Nintendo Wii U e podem jogar os games do Mario, FreezeMe não seja tão interessante assim, ainda que o game use o Gamepad para sua jogabilidade, algo que muitos outros games nem se dão o trabalho de se preocupar na referida plataforma. Isso é algo que merece elogios, sem dúvida. Mas se eu tivesse um console da Nintendo, provavelmente não me importaria muito com o título. O cenário muda, entretanto, quando vejo o games nas demais plataformas que são carentes desse gênero.

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Também acaba sendo importante dizer que o game está em português, mas aquele de Portugal. Melhor do que se estivesse apenas em inglês, certamente. Dá para entender, ainda que seja estranho para nós a forma como os verbos são julgados no português de Portugal. Mas dá para entender de boa as falas presentes no game, pelos porquinhos que lhe dá as missões secundárias.

FreezeMe é um indie game inesperado. Isso posso afirmar. Porém fiquei bem feliz de tê-lo conhecido. Bugado, cheio de problemas, mas também comprometido em entregar uma experiência nostálgica que sei que ainda sinto falta.

Mais imagens!

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Forte apelo a uma fórmula hoje perdida no tempo (boa nostalgia)
Cheio de bugs, alguns bons, outros ruins
Câmera do game é um pesadelo para se controlar
Congelar inimigos e plataformas é uma ótima ideia de jogabilidade
Localização em Português de Portugal (melhor do que apenas em inglês)
Apenas quatro mundos, ainda que sejam bem grandes
Não há muitos inimigos e o Hub principal é meio vazio

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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