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Nós | A sociedade aonde não há individualidade! (Indicação & Trechos)

Estive lendo ao longo das últimas semanas um dos novos lançamentos da Editora Aleph de 2017: Nós, uma obra publicada pela primeira vez em 1924, um livro que inspirou outros clássicos ainda mais famosos, como 1984 (de  George Orwell) e Admirável Mundo Novo (de Aldous Huxley), e que chegou ao Brasil em uma tradução inédita, direta do russo – nacionalidade de seu autor, Ievguêni Zamiátin.

Apesar de ter sido escrito na década de 20, estando prestes a completar um centenário desde seu lançamento, o livro continua atemporal, abordando pontos que até hoje podem ser discutidos e repensados sobre o modo na qual nossa sociedade é construida, abordando as noções de coletivo, individualidade do ser, além do poder e autoridade de um Governo ou Estado que comanda a tudo e todos.

O livro escrito na Rússia, mas proibido por lá, teve quer ser publicado primeiro em inglês nos Estados Unidos em 1924. Após isso Nós ganhou versões em russo (1952 e 1967, por exemplo) lançadas ainda em solo norte americano, e oficialmente só foi autorizado um lançamento na Rússia em 1988.

Não tenho a intenção de explicar o contexto histórico para estas proibições, mas achei pertinente comentar porque parte da obra tem uma influência histórica do que acontecia na Rússia na época na qual o livro foi escrito, sobre um Governo autoritário na qual liberdades civis não eram como hoje estamos habituados. Era uma outra Rússia, então é possível sentir essa ânsia do autor ao descrever na obra um Governo Ditatorial, na qual liberdades individuais não são bem vindas e o Estado controla a tudo e todos.

Apesar de ter uma influência histórica, os pontos abordados por Zamiátin são universais. A discussão sobre o poder e controle do Estado sobre a sociedade não é algo restrito apenas a história da Rússia, mas de diversas nações ao longo de toda a história da humanidade, nem mesmo o Brasil fica fora disso. E esse assunto não está nem longe de ser um ponto do passado da sociedade russa.

Até hoje discutimos a divisão do mundo, entre países, regimes de governo, sistemas judiciais, liberdades civis, privacidade e direitos e deveres coletivos em comparação a nossos direitos e deveres individuais. Por isso Nós alçou o mundo, não ficando restrito apenas a uma crítica social ao Governo Russo da década de 20, influenciando depois outras obras famosas sobre distopias e políticas de controle governamental.

A distopia máxima

Uma forma inteligente de abordar uma crítica social que não aponte dedos diretamente a pessoas ou organizações específicas é exagerar na estrutura dela, expandir e entrar com o pé na porta no mundo da ficção científica. Extrapolar a ponto de não ser possível dizer que aquele lugar, aquelas pessoas, aquele mundo reflita necessariamente um lugar real, pessoas de verdade ou governos específicos.

Nós apresenta uma sociedade distópica em um futuro incerto. Um futuro absurdo. Nesse mundo houve uma guerra, a maior guerra mundial jamais imaginada. Não existem países. Não existe um lugar que não seja esse lugar do conto do livro. Existe uma única sociedade e tão somente ela. Existe apenas o Estado Único, suas regras, seu modo de vida. Aceite ou morra… literalmente.

Porém a extrapolação de Nós vai além de um Estado soberano e ditatorial. O modo de vida das pessoas também beira essa extrapolação. As casas são de vidro, para que todos possam ser vigiados o tempo todo. As pessoas possuem funções específicas nessa sociedade, segue rígidos horários, dormem e comem em determinados horários. Tudo é rigorosamente agendado, até mesmo dias e horários certos para se ter relações sexuais, por exemplo.

A história é narrada do ponto de vista de um homem, D-503. Ah! Esqueci de mencionar, em uma sociedade onde não existe a individualidade as pessoas não precisam de um nome, certo? Todas possuem códigos. Assim ninguém é mais especial do que a outra. Nomes são proibidos e criam pensamentos e liberdades que não são mais necessárias nessa sociedade. Imaginação é algo que os humanos em grande parte se esqueceram de usar.

D-503 é um engenheiro que participa de um projeto que envolve a construção de um foguete para enviar instruções dessa sociedade perfeita para a o resto da galáxia. Para isso ele escreve sobre o Estado Unido em forma de memórias destes dias na qual passa participando do projeto.

Cá entre nós? A ideia de um estado ditatorial mandando para o espaço instruções de como construir uma sociedade em perfeita harmonia talvez soe meio assustador, não? Bem, nem tanto se pensar que o programa especial, em particular o projeto Voyager (da década de 70), mandou aquela famosa sonda espacial com discos de ouro contendo informações sobre a Terra e nossa sociedade ao espaço, justamente no espírito de que algum dia alguma forma de vida encontraria tais dados. Impressionante talvez seja apenas o fato de Zamiátin ter imaginado algo assim no início da década de 20, muito antes do período histórico da corrida espacial entre Rússia e Estados Unidos, que aconteceu por volta da década de 50, trinta anos depois de Nós ter sido escrito e publicado.

Voltando à D-503, ele acredita no Estado Único. Vive feliz acreditando que a sociedade como um todo vive o seu auge, que a humanidade atingiu o ápice da vida em sociedade. E que as histórias do passado da humanidade, na forma como a conhecemos hoje (ou na década de 20 para ser mais preciso) eram tempos abomináveis, de selvageria e de seres irracionais. Somos animais em comparação com o ser humano criado no livro.

Ao menos é o que D-503 acredita. Até o dia em que ele conhecerá uma mulher, I-330, que o fará questionar em tudo aquilo em que acredita. Mas são sentimentos que D-503 não entende. Será uma doença? Será que ele contraiu aquilo que as pessoas pensavam existir no passado.. a tal da alma?

Nós conta essa viagem de D-503 por essa estranha estrada de recuperação de sua humanidade. Aquela na qual qualquer leitor da obra acredita ser o que nós chamamos de humanidade. Para D-503 talvez seja a história de como ele perdeu o seu propósito dentro de uma sociedade na qual não existe o indivíduo próprio. É a história de como ele não faz mais parte de uma engrenagem dentro de uma imensa máquina na qual tudo funciona na perfeita sincronia.

Poesia e matemática

D-503 é um engenheiro nessa estranha distopia e assim ele é também um matemático. E todo o livro é narrado sobre a sua perspectiva, não existe um narrador oculto explicando ou contextualizando coisas, é o próprio D-503 o narrador de seu próprio drama e para tal ele emprega muito de sua personalidade a narrativa do livro.

É D-503 quem explica ao leitor o que é o Estado Único, quais suas regras, sobre a sua vida e sobre si mesmo. E ele não é imparcial. Ele adora e defende esse modo de vida. Cabe ao leitor interpretar as coisas nas entrelinhas do que está acontecendo. D-503 é também um amante da matemática, então todo o livro é descrito com analogias e metáforas matemáticas.

Para ele esse mundo funciona como a matemática. Exata e precisa. É absoluta como uma equação, não existe o meio termo para o resultado de uma conta matemática. É uma escolha bem ousada do autor seguir por essa linha de texto, e muito bem sucedida porque mesmo o leitor mais leigo consegue entender boa parte do papo matemático do livro.

E por bem ou por mal, acaba sendo uma analogia perfeita a utilização de termos matemáticos para definir um mundo exato onde tudo só pode gerar um único resultado. Onde tudo precisa funcionar milimetricamente de forma calculada. Onde não há espaço para criatividade ou imaginação. Na matemática tudo precisa de formulas e todas as contas geram um resultado que não pode ser mau interpretado. Assim é a distopia de Nós.

Ao mesmo tempo em que Zamiátin trabalha essa narrativa dos números e das fórmulas pelos olhos de D-503, o mesmo tem a noção de que está escrevendo uma obra que precisa ser interessante o suficiente para que outros, os seres na qual ele acredita que sua história irá chegar, também a acham atrativa de ser lida. Isso significa que existe uma preocupação com a estrutura de texto apresentada.

Existe uma certa estrutura poética dentro de Nós, porém disfarçada de prosa. D-503 escreve dentro de um ritmo, em um ritmo quase que matemático. Há muitos poucos diálogos dentro do livro, a maior parte do tempo o que se tem é seu protagonista descrevendo seus sentimentos, seu dia ou explicando como essa sociedade funciona diretamente ao leitor. E há uma poesia em seu texto, em floreios, metáforas, em formar uma ritmo na qual o leitor consiga visualizar e as vezes interpretar o exagero de seus devaneios.

Todo o livro é divido em curtinhos capítulos. Cada capítulo possui três chamadas, na qual demonstra a estrutura narrativa na qual D-503 irá trabalhar dentro do capítulo. Se há um capítulo chamado “Flor. Chuva. Remorso.” o leitor já sabe que ele vai começar falando sobre algo que trará como foco uma flor, para que os eventos adiantem trabalhem no tema da chuva e por fim o capítulo vai terminar com algo a respeito de remorso. São três pontos, dentro de um capítulo, que conduzem o fluxo narrativo.

D-503 chama isso de resumo do capítulo. Claro que nem sempre é fácil entender o que ele está dizendo. Por exemplo, para escrever essa indicação, tal como faço em todas aqui no site, estacionei no capítulo 20. Ao todo o livro tem 40 capítulos. Faço assim para não entregar nada sobre o final da obra e nem para deixá-la me influenciar sobre seu final (que vou trazer para o site em um momento futuro). Enfim, o capítulo 21 traz como resumo: ” O dever do autor. O gelo se dilata. O amor mais difícil.”

Fácil adivinhar do que se trata esse capítulo? Certamente quem não leu o livro ainda não vai conseguir adivinhar. Mas eu, que li os primeiros 20 capítulos não vou saber também. Me dá pistas, mas somente ao concluir sua leitura é que ficará claro o que D-503 queria destacar nesse capítulo.

É uma forma muito interessante de contar uma história. Ritmo é algo que dá forma a narrativas mais poéticas, mais estruturadas, enquanto a prosa tendem a ser mais caótica. Nós não é um livro rimado, mas é um livro de liberdades poéticas. Com muitas metáforas e momentos na qual o leitor nem sempre tem a exata certeza do que o protagonista está realmente sentido ou dizendo. E em parte também porque nesse instante o próprio personagem está perdido em uma realidade que está se abrindo e ele não compreende totalmente.

Considerações até o momento

Tendo chegado ao meio do livro posso dizer que tem sido um desafio e tanto acompanhar os ideais de Nós, mais especificamente de D-503. O livro começa de uma forma bem tranquila para um leitor novato, isso porque o mundo de D-503 é preto e branco. Tudo é muito exato nos primeiros capítulos.

Mas conforme a história avança a narrativa do livro vai ficando tão complexa e confusa quanto seu protagonista está. Há passagens entre o décimo e o vigésimo capítulo em que precisei ler duas vezes para entender se algumas coisas de fato aconteceram ou se D-503 floreou demais sua narrativa. Há coisas em que estão na sua cabeça e ele passa como fatos concretos. Coisa em que depois ele mesmo se pergunta se foram ou não reais, porém quando ele conta ao leitor isso a sensação é de estava acontecendo algo de verdade.

Acredito que Nós seja um daqueles livros em que o leitor consegue tirar muito mais de suas reflexões ao ler pela segunda ou terceira vez. A primeira viagem pelo livro será confusa e turbulenta em algumas passagens. Sem saber exatamente o que o autor queria dizer em certos momentos.

Não significa que não estou compreendendo o livro ou não entendo a sua história. Não, a trama é deveras interessante. A distopia apresentada por Zamiátin é perturbadora ao mesmo tempo que tão atual quanto uma distopia pode ser. É uma realidade que poderia muito bem sair de um estrutura que filmes como Matrix, que por si só se inspirou em muitas outras referências e certamente outras distopias famosas e clássicas. O que é verdade e o que é mentira na narrativa de D-503? Como a humanidade vive sem um modo de controlar o caos do eu, ser humano. Como o coletivo precisa se sobressair acima do solitário indivíduo. São pontos interessantíssimos abordados na obra.

O fato de até hoje não ter lido outros clássicos como os mencionados lá no começo, 1984 e Admirável Mundo Novo, faz de Nós um livro ainda mais interessante pra mim. Depois dele existe um desejo de conhecer o que veio depois. A nota dos editores da Aleph que abre o livro menciona como até mesmo obras como Divergente (que nunca li o livro, mas conheço os filmes) trabalham com conceitos e pontos que livros como este criaram na literatura mundial.

É um livro que admito que se me fosse dado em sala de aula nos meus tempos de ensino fundamental ou médio ficaria muito puto com o professor. Não é um livro que alguém deva ler por obrigação, porque a leitura vai se tornar mais difícil e complexa do que ela já é. É sim um livro indicado para jovens e adultos, mas deve partir da vontade de cada um conhecê-lo mais a fundo.

Estando na metade, posso dizer que estou adorando não só o fato dele estar sendo um desafio de interpretação nesse miolo do meio, como estou perplexo pela trama em si proposta. O que Zamiátin quer aqui? Mostrar como uma pessoa pode destruir um sistema? Ou D-503 no final das contas não conseguirá nada, a não ser abrir os olhos para uma triste realidade? Não sei. Mas estou doido para descobrir.

E independente das respostas acima serem ou não satisfatórias ao final da obra, sinto que já ganhei o dia conhecendo esse livro e sendo agraciado com certas reflexões sobre controle autoritário de governo, coletividade da sociedade e liberdades individuais. São pontos em que poucas obras discutem de forma inteligente e que dão aquele soco no estômago do leitor. Nós já fez isso em diversos momentos até onde cheguei.

É assustador que tenha sido escrito em 1920 e seja tão realista e chocante quase 100 anos depois. E a edição especial da Editora Aleph é um capricho digno de qualquer estante. Capa dura, projeto visual gráfico de arrepiar os pelinhos do braço, lombada com aquele lance de cores especiais (que faz todo mundo ao seu redor ficar curioso a respeito do livro), como há todo esse trabalho de posição e tamanho de texto que o torna confortável a leitura e com extras editoriais que contextualizam e complementam o valor histórico da obra. As fotos ao longo dessa matéria valem por si só. Vale e muito a recomendação!

Onde encontrar Nós? No momento de publicação desse texto, Nós está disponível à venda na Amazon BR, em uma parceria temporária e exclusiva com a Editora Aleph, e deve ficar assim por mais alguns meses. Em breve o livro também estará disponível em outras livrarias, mas por enquanto só é possível adquiri-lo via Amazon.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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