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Sonic Forces | Menos Sonic, mais o seu personagem original! (Impressões)

Antes mesmo de ser lançado já estava com um pé atrás com Sonic Forces. Isso aconteceu especificamente quando rolaram vídeos que comparavam a Green Hill entre Forces e Mania. Vi os primeiros reviews e suas notas saírem antes de poder colocar o game para rodar no meu console e já criei uma imagem na cabeça de que o game seria terrivelmente ruim. Só que aí o comecei a jogar e tudo isso foi embora.

Veja bem, não estou dizendo que Sonic Forces é um excelente game ou tecnicamente impecável ou a melhor experiência que um Sonic 3D pode oferecer. Não é. Porém é uma experiência tão divertido quanto qualquer outro game do ouriço que segue esse formato tende a ser. Não é irritante, não é frustrante, é só mais um Sonic. E quem gosta de Sonic, seja ele 2D ou 3D, certamente vai gostar (nem que seja minimamente) de Sonic Forces. Ponto.

Talvez o olhar mais crítico em cima de Sonic Forces ocorra justamente porque Sonic Mania, lançado em agosto, tenha um contraste muito forte em termos de tecnicalidade, nostalgia e capricho na qual a equipe que desenvolveu tal obra prima deu aos fãs e que a Sonic Team nem de longe parece ter conseguido transmitir ao nos entregar Sonic Forces.

É de se ponderar se Forces teria essa mesma recepção se tivesse deixado para sair em 2018, se distanciando um pouco mais do sabor que Mania deixou no paladar dos jogadores. Ou se quem sabe tivesse sido lançado até antes. Talvez as percepções fosse diferentes, não há como ter certeza. Enfim, só acho que a altíssima qualidade de Sonic Mania acabou deixando transparecer demais como Sonic Forces deveria ser muito mais do que aquilo que acaba entregando.

Estilos diferentes de gameplay

Tive muitos palpites antes do lançamento a respeito do que iria gostar e do que talvez não fosse gostar. Boa parte destes palpites acabaram se profetizando enquanto estava desfrutando do título. As fases 2D do Sonic gordinho, por exemplo? Pois é, depois de Mania não tinha mesmo como elas serem tão boas quanto. Mas já volto a esse ponto.

Sendo um título de comemoração do aniversário do personagem é até compreensível a quantidade de elementos oriundo de títulos anteriores que são reutilizados em Sonic Forces. Generations, Heroes, Colors, World, Adventure. Há um pouquinho de cada Sonic 3D já lançado. Muito destas combinações voltam a funcionar, mas nenhuma com a mesma genialidade de quando surgiram pela primeira vez.

E aí vem a minha surpresa: o que melhor funciona em Sonic Forces é personagem avatartambém pode-se chamar de herói customizável ou personagem original – que é aquele criado do zero pelo jogador e que no game é apelidado pelos demais personagens como “Rookie” (novato em inglês). Sinceramente não estava esperando que este elemento fosse a melhor coisa do título, porém ele é.

Não apenas porque é deliciosamente divertido criar um personagem dentro do universo do Sonic que vai interagir ao longo do game como todos os personagens famosos da série, até mesmo nas cenas de animação do jogo, mas também porque as fases do Avatar são as melhores fases do game. São estágios com ritmos, que permitem exploração, desafios de plataforma e segmentos de velocidade.

Volto ao começo. As fases do Sonic gordinho, aquelas em 2D, não possuem qualquer elemento realmente novo. O level design delas sequer é interessante, sendo apenas mais do mesmo. Sem reinventar nada, sem dar nada original. Visualmente elas conseguem ser feias, especialmente depois de Mania, e sei que estou me repetindo ao dizer isso, mas não tem como não citar Sonic Mania quando se olha para certas fases de Sonic Forces. Os estágios 2D são os piores estágios do game, e felizmente são poucas.

O que deu errado aqui e que não deu errado em Sonic Generations? Acredito que tenha sido a proposta em si de Generations. Lá a ideia foi pegar o passado do personagem e renovar os conceitos. Pegar antigas Zonas (como os mundos são chamados nos jogos do Sonic) e dar duas versões, uma 2D e outra 3D, mas com modificações e pequenas novidades que traziam um twist interessante em cada uma delas. Havia um apelo nostálgico que não faz sentido existir na trama de Sonic Forces. Nem a vinda desse Sonic das antigas faz sentido dentro da história.

Claro que isso não me faz desistir da ideia de que a Sega deveria dar sinal verde para o desenvolvimento de um Sonic Generations 2, porém seguindo tão somente a proposta do primeiro Generationso. Trazendo novos mundos clássicos para versões 2D e 3D, brincando com clássico e moderno. Porém isso tem que ser feito em um título planejado para ser assim. Depois de Forces fica bem óbvio que essa ideia não funciona se inserida dentro de um jogo do Sonic sem tal planejamento.

Já as fases em 3D com o Sonic Moderno não são de todo mal. Apenas são poucas em relação ao resto do game. E terrivelmente curtas, especialmente quando comparadas com as fases onde o Sonic junta forças com o Avatar em estágios que lembram um pouco Sonic Heroes. Acabam sendo estágios de corredores onde se corre freneticamente até seu fim.

Dá dizer que todo o level design de Sonic Forces é terrível. Deixe isso em mente para que não precise repetir novamente. E é curioso porque quando penso em Sonic Unleashed, apesar de todo mundo ter odiado as fases com o Sonic lobisomem, as fases normais de velocidade até hoje são excelentes. Sonic Forces esquece isso, ainda que visualmente alguns estágios sejam tão incríveis quanto eram alguns de Unleashed. A fase de fuga da prisão, que ocorre no espaço é fenomenal. Dá para dizer que nem sempre a direção de arte do game acerta, mas quando acerta o resultado é de tirar o fôlego.

Bom mesmo, como já dito, são mesmo as fases que envolvem o Rookie, personagem que o jogador cria no começo do game e que o acompanha por toda a aventura. É o estilo que tem em maior quantidade presente no game. É o que tem os melhores controles e que tem os melhores design de fases, ainda que estes também não sejam inesquecíveis.

Alguns podem questionar o usar da arma do Avatar, que é altamente apelona, na qual a inspiração parece ter vindo de Shadow the Hedgehog, um título meio obscuro hoje em dia. Ela massacra totalmente tudo que estiver em volta do Avatar com extrema facilidade, o que a meu ver não é ruim, porque não acho que um game do Sonic seja sobre o quão difícil é eliminar inimigos de suas fases. Até porque nunca foi realmente difícil mata-los. Inimigos sempre funcionaram como bloqueios e obstáculos e é justamente o que eles são aqui. Ter uma arma que elimina facilmente estes obstáculos não me incomoda na mesma proporção que o Sonic tem o boom sônico dele que faz exatamente a mesmíssima coisa.

Ruim mesmo foi a decisão de inserir as habilidades dos pequenos aliens (ou seja lá que eles são, já não me lembro mais) de Sonic Colors atrelado ao tipo de arma que o Avatar carrega. Se fossem poucas habilidade até tudo bem, mas são diversas cores e descobri que é muito fácil me confundir quais são as que preciso ter em algumas fases para chegar em certos locais. Fora que algumas são mais úteis do que outros, como o raio que puxa o personagem por uma trilha de argolas ou um que explode verticalmente no ar, enquanto uma habilidade da cor roxa apenas cria um escudo de força ao redor do personagem e que poderia muito bem ser aqueles escudos de bolhas dos games antigos. A habilidade está atrelado a arma, então se uma arma é boa, como a roxa é, mas a habilidade é ruim, nesse caso inútil, isso me faz não querer utilizá-la. Acabei alternando o game todo com a arma elétrica e a lança chamas. Tem uma de vácuo que é excelente, mas ela só me veio ao finalizar o game, então imagino que seja uma recompensa de fim de jogo mesmo.

Junte-se à força rebelde!

A história do game também é meio mal equilibrada. Dá para sentir que os desenvolvedores se perderam um pouco em determinado ponto do roteiro. O próprio vilão principal, o tal Infinite, é incrivelmente mal desenvolvido. A batalha inicial dele contra o Sonic, que pode ser visto nos trailers oficiais tem um corte muito bizarro como conclusão, e que leva ao Sonic ser preso, torturado e se ausentar do primeiro ato do game.

O jogo mistura um pouco as coisas também. É possível ver os robôs ajudantes de Eggman que saíram da animação Sonic Boom, porém Forces não tem a mesma linha cômica de diálogos que a séria animada, que é inesperadamente boa, têm. O que é uma pena, porque tem piadas que funcionam e algumas apenas passam batido, sem que tenha esboçado sequer um sorriso.

Lamentável também a falta de localização do título para o português. O jogo é localizado em diversos idiomas. Não faria mal estar também em português, especialmente sendo um título voltado ao público infantil. Meu pequeno de 6 anos adorou o game, mas teve dificuldade, obviamente, para se simpatizar com o enredo. E nota-se que a criançada já anda acostumada com jogos em português a ponto de quando pegam um em inglês acabam se dedicando bem menos, porque estão menos envolvidos ali e jogam apenas pelo gameplay.

A ideia geral do game, onde o Dr. Eggman derrota o Sonic e o mantém preso por meses é interessante, especialmente porque dá ao jogo estes ambientem dominados e alterados pelo Império Eggman. Há muito brincadeira com paisagens ao fundo e em juntar mundos antigos do Sonic em um único estágio. Green Hill que parte ainda é verde e se torna um deserto ao fim é um bom exemplo. Há também estágios de floresta que se mesclam com os clássicos estágios de cassino. Esse caos no mundo proporciona essa brincadeira.

Sonic Forces não é um daqueles títulos que se joga por seu enredo. Ele está ali apenas para dar o caldo e engrossar a sopa. Para justificar algumas decisões artísticas e de gameplay. Sem o Sonic presente no ato inicial, dá o tempo para Rookie se tornar a estrela em mãos do jogador. E o Avatar continua assim, mesmo depois que Sonic é solto e passa a ter algumas fases. Como a dominação de Eggman é global, o enredo sabiamente divide os personagens jogáveis em áreas e missões distintas, dando assim a justificativa para cada um estar sempre ocupado com alguma coisa.

Gostei em particular de como o jogo divide as áreas e a forma como elas vem e vão ao longo da campanha. Green Hill abre a aventura, porém ela retorna mais vezes conforme a história avança. Chemical Zone é outra que tem um peso grande e aparece em várias ocasiões. Death Egg que normalmente são fases de fim de jogo se faz presente logo no começo do game. Então é interessante como o game quebra aquele padrão de mundo com dois ou três atos antes de abrir um totalmente novo. Forces mistura tudo.

Curto, porém com apostas no valor de replay

O que me assustou um pouco é em como Sonic Forces é curtinho. Basta 4 ou 5 horas para virar sua campanha principal. Talvez até menos se não se jogar as fases extras e adicionais que são destravadas ao longo da história.

As fases são curtinhas, ente três a quatro minutos no geral, com diversas na qual se jogar correr dá para batê-las em questão de dois minutos. A campanha principal tem cerca de 30 fases, o que parece bastante, mas como são pequenas acabam não conseguindo manter o game por mais do que o tempo descrito.

Existem fases que até mesmo parecem incompletas, como uma onde Rookie desliza por uma área de floresta em meio a uma corrente d’água. Achei que essa fase teria um segmento fora desse trecho molhado, porém a fase terminar ao fim do escorregador. Bizarro! Parecem trechinhos de algo que poderia ser maior ou melhor expandido.

Me vi surpreso com alguns estágios extras, onde parte deles consistem em desafios de plataforma. Nestes estágio há conceitos interessantes e até inéditos que me fizeram questionar porque não foram utilizados nas fases principais. Como alguns que envolvem lasers, bombas e até mesmo blocos que desaparecem do chão. São fases mais curtinhas e que o jogador morre constantemente, mas são elementos originais e que agregam conteúdo ao game.

A aposta dos desenvolvedores obviamente é de que os jogadores iriam continua jogando o game mesmo depois que a campanha fosse concluída. O motivo para se voltar aos estágios é puramente pelo colecionismo. Coletar as moedas vermelhas que realmente podem estar bem escondidas ou inalcançáveis dependendo da habilidade selecionada do Rookie ou em rotas separadas, o que lhe obriga a jogar os estágios mais de uma vez. O que se ganha coletando estas moedas? Se não estou enganado, porque o jogo não deixa isso claro, elas liberam curtinhos estágios secretos e extras.

Após a conclusão da história também é permitido ao jogador criar novos Avatares, utilizando uma nova raça de animal. Essa característica não pode ser alterada ao longo da campanha, apensar de que as roupas e visuais podem ser trocadas à vontade. Cada raça tem uma pequena habilidade natural, como pulo duplo, ímã de argolas, tomar dano e não zerar o contador de moeda e afins. Não é algo que muda o ritmo da jogabilidade, mesmo assim me diverti criando um novo avatar para jogar novamente por alguns estágios.

Ao longo da campanha também existem chamados de SOS espelhados pelo mapa que pedem que o jogador revisite um estágio e em alguns casos usando o avatar criado por um outro jogador da seleção global online do game. Nestas ocasiões pude testar outras classes de animais e armas que ainda não havia destravado no meu save. Inicialmente foi interessante, mas logo estas chamadas ficaram cansativas porque ocorriam massivamente por um mesmo conjunto de estágios. O primeiro estágio do avatar, em Chemical Zone, o jogador facilmente acaba decorando tudo nele. Isso me irritou um pouco e aí decidi parar de fazer estes chamados perto do final da campanha.

Claro que um ponto que vale ser observado é que o game ser curto não é um problema quando se coloca na balança que Sonic Forces também não é um título sendo vendido a preço cheio de um lançamento. Lá fora ele custa 40 dólares, enquanto o preço padrão dos games é 60 dólares. Aqui no Brasil ele não chegou custando 200 ou 250 reais, nosso preço padrão de lançamento, mas chegou ao preço de 150 reais. O preço é justo pelo que o game entrega.

Considerações finais

Sonic Forces não é o melhor game 3D de Sonic de todos os tempos, mas nem de longe é o pior. Meus favoritos nessa categoria ainda são Sonic Unleashed, Sonic Forces, Sonic Heroes e Sonic Adventure 2, não necessariamente nesse ordem. Porém Sonic Forces é exatamente o que os fãs estão acostumados, seja para o bem ou para o mal, de um título 3D do ouriço. O ciclo de problemas enfrentados pela Sonic Team não foi quebrado.

A ideia do Personagem Original é interessante e acredito que toparia fácil fácil um título apenas com esse conceito, sem sequer precisar jogar com o Sonic. E é curioso como a cada game do ouriço há um turbilhão de ideias de desenvolvimento fracas ou ruim, mas há sempre uma grande ideia que parece dar certo. E é meio que isso que me faz retornar para cada novo título. Não sou daqueles que torce para não haver mais jogos do Sonic. Por mim eles podem vir a existir para sempre, sejam eles questionavelmente ruins ou fracos.

Talvez seja algo da idade, da nostalgia e de como fico feliz de ver um personagem da era de ouro dos videogames que ainda persiste e não foi aposentando como tantos outros foram. Só sei que fico feliz só pelo fato de já existirem jogos do Sonic e como ainda há minimamente um esforço para agregar novas ideias a cada novos títulos lançados. Não há exatamente uma estagnação ou um desenvolvimento pelas coxas ou de orçamento muito baixo nestes títulos. Não é nada como fizeram com, por exemplo, Bubsy que saiu da tumba da pior maneira possível. O gameplay e desenvolvimento dos jogos do Sonic acompanham a indústria atual. Menos mal.

Em contra partida também penso que a Sega deve continuar investindo nos bons frutos que Sonic Mania trouxeram à franquia esse ano. Há que se cogitar um Sonic Mania 2 e desta vez talvez colocar a prova de ferro o conceito da franquia deixando seus criadores inserir somente estágios inéditos e aí sim ver como iremos no sentir em relação a isso.

Há espaço para games do Sonic em 2D e em 3D. Só acho que o lançamento deles não precisam ser tão colados como ocorreu com Mania e Forces. Sonic Forces parece que sofreu um pouco por conta disso. Para terminar, só digo que o ouriço ainda não tem porque se aposentar.

Galeria de imagens

Fraco no level design dos estágios
Trama é uma boa ideia, mas mal explorada
Personagem avatar é a coisa mais legal do game
Trilha sonora impecável e contagiante
Tem visuais incríveis, mas a direção de arte é estranha
Curtinho, mas equilibrado com o preço menor de venda
Controles respondem, mas estão longe do ideal

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!

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