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Assassin’s Creed Origins | Reinventando a fórmula! (Impressões)

É difícil colocar em poucas palavras tudo que Assassin’s Creed Origins conseguiu conquistar e que a própria franquia já não estava mais conseguindo almejar em suas últimas edições. E olha que sou um fã da série e não considero seus games necessariamente ruins. Problemáticos e cansativos talvez, mais ruins jamais.

Origins conseguiu ser aquela brisa refrescante de um verão escaldante no deserto, quando um frescor inesperado bate em seu rosto e você persegue que Assassin’s Creed ainda pode lhe surpreender. Mecânicas atualizadas e modernizadas, influência de outros sucessos da geração servindo como inspiração e um roteiro muito bem escrito em uma ambientação histórica emblemática com personagens humanizados que compram a simpatia do jogador. Origins consegue ir além de qualquer outro Assassin’s Creed já foi, e talvez seja o ápice da franquia a ponto de rivalizar toda aquela evolução que Assassin’s Creed II conseguiu em sua época.

Posso dizer que boca cheia: eu adorei o game! E não vou negar que ao iniciá-lo não estava esperando grande coisa. Apenas mais do mesmo. Paguei com a língua. É o maior Assassin’s Creed que joguei e foi o mais divertido. Coloco pra mim como o melhor da franquia até então. Um dos melhores lançamentos do ano e novamente repito: na minha opinião é claro!

Não é um título perfeito, não vou rasgar tanta seda a esse ponto também. O título tem alguns problemas aqui e ali, detalhes pequenos que vou abordar alguns parágrafos mais abaixo. Entretanto são pormenores mesmo. Pontos que não diminuem a qualidade e o impacto que o game passa, seja para aqueles que são fãs da franquia, seja para aqueles que estão interessados em conhecer a série a começar por Origins.

Um novo ponto de partida

Talvez esse seja um dos pontos que mais interessam àqueles que estão de fora da série já a algumas edições. Games que possuem tal longevidade eventualmente acabam encontrando esse problema, quando numerações atrapalham a chegada de novos jogadores, que se sentem desconvidados a continuar jogando um título que possui um 5 ou 6 após seu título sem que tenham jogado todos os anteriores.

Origins sabe respeitar o legado da franquia, mas sem que seja obrigatório se amarrar as histórias e personagens apresentados em games anteriores. Exceto talvez o plot no presente, que envolve uma funcionária da Abstergo fazendo sua pesquisa por conta própria sobre a origem da Irmandade dos Assassinos – revisitando exatamente a história na qual os jogadores assumem o controle – possa parecer meio sem sentido, mas mesmo assim o game tem um apêndice bem grandinho no laptop dessa personagem para aqueles que desejem situar melhor esse cenário e consiga entender o que está acontecendo.

E mesmo assim, pouco importa a história do presente, pois ela é muito pequena e não tem qualquer importância a proposta da trama principal em si. Está ali apenas por estar, como um aspecto que não tem como arrancar do DNA da franquia. Foi a época em que nos importávamos com esse plot moderno, quando suspeitávamos que um dia poderia haver um Assassin’s Creed em tempos modernos. Passou tanto tempo e nada ainda indicou que um dia isso realmente pode acontecer. Eu já desisti.

O que importa aqui é a história do medjay Bayek e sua esposa Aya. Os medjays  são uma espécie de força policial de elite, criada para proteger os faraós no antigo Egito, porém Bayek é o último dos medjays e não mais protege um faraó em específico, agora seu objetivo é proteger o povo do Egito contra a invasão do império romano. Talvez você já deve ter ouvido falar nessa terminologia, especialmente se cresceu no início dos anos 2000 com as reprises do filme A Múmia (1999) com Bendan Frasier. Lembra que havia um medjay no filme? Interpretado pelo ator Ardeth Bay.

O jogo não explica logo de cara quem é Bayek ou porque ele tem para si essa responsabilidade de proteger os oprimidos e injustiçados do Egito. É preciso avançar um pouco para história para entender melhor seu passado e suas motivações, que ora se misturam com senso de justiça, ora com vingança no melhor estilo do Justiceiro da Marvel. Bayek é um personagem complexo, que é gentil e bondoso, porém ao mesmo tempo há um ódio e raiva que lhe consome por algo que lhe fora tirado em seu passado. E é uma melancolia que bate nele e no jogador ao longo de todo o game, um aspecto muito bem detalhado e escrito, que certamente atingirá muito mais um público adulto do que talvez adolescentes, onde estes ficarão satisfeitos com a violência sangrenta na qual Bayek se sacia de alguns de seus alvos.

Em um outro lado da história, os jogadores irão conhecer Aya, esposa de Bayek, que também sofre com uma perda e se apoia agora na crença de que o Egito será melhor quando Cleópatra conseguir ascender ao trono como uma rainha soberana de todo o Egito. Aya e Bayek possuem um objetivo em comum, mas rumam suas próprias jornadas, enquanto que o jogador divide o comando da aventura entre um e outro (mais Bayek do que Aya, porém mesmo assim é divertido  jogar a personagem em momentos chaves da trama).

Origins trabalha na maior parte do tempo nessa trama, entre Egito e o domínio dos romanos e a influência da arquitetura grega sobre muitas localidades históricas famosas desse tempo, como a cidade e a biblioteca de Alexandria. O choque entre dois mundos e como uma cultura pode massacrar e sufocar uma outra, do choque cultural entre Deuses e crenças diferentes e como os egípcios foram sufocados por essa invasão. Eventualmente é esse ponto histórico que irá envolver a criação da famosa irmandade de assassinos do oculto. Do Credo.

Porém essa é só a ponto do iceberg. O grande mérito de Assassin’s Creed Orgins é conseguir contar de forma envolvente uma boa história. De fazer o jogador sentir o peso da tragédia que recaiu sobre Bayek e Aya, da sede de vingança que ambos possuem, enquanto outros personagens ao redor do casal expõem outras lições e situações tão duras quanto ou o contrário, as vezes dando esperanças ao casal. É muito fácil de envolver pelas histórias e personagens que o jogo traz ao jogador.

Os roteiristas estão de parabéns com o texto do game, que é afiado e convincente. Um dos melhores que a série já recebeu ao longo dos últimos anos. E olha que gosto bastante do arco do Ezio de ACII, mas o de Bayek conseguiu ser mais profundo e humano a meu ver. Pontos extras pelo final, que não quero revelar, mas que não acaba clichezão como se esperaria em uma trama que apresenta um casal com um trauma em sua relação.

Aventura nas areais do tempo

Ser bem escrito não é o único mérito de Assassin’s Creed Origins. O game recebeu uma grande reforma estrutural completa em suas mecânicas e jogabilidade. A adição de pontos de RPG, que adicionam níveis de força para os inimigos e para seu personagem em si é um dos grandes méritos para o jogo funcionar com ritmo e não tornar a experiência tediosa. Ainda que este também seja um dos pontos que não é perfeito no game.

A começar que a cada área do grande mapa do game é dividido por níveis de poder, que podem ir até 40. Se o jogador estiver muito abaixo de um inimigo o game sequer irá mostrar o level do mesmo, o sinalizando apenas com uma caveira acima da cabeça do mesmo. É o tipo de inimigo que com um ou dois golpes irá lhe matar, e mesmo que você desvie dos ataques o atacar fará apenas cócegas, tirando uma quantidade ínfima de sua barra de saúde.

Isso restringe o jogador e mantém o foco da aventura. O mundo inteiro está aberto para passear, mas ir para uma área level 40 sendo level 5 não o fará sobreviver caso esteja sendo caçado ou invada um local de área restrita. Apenas é um problema quando o jogador está ansioso por continuar a campanha e perceber que seu nível não é o suficiente. É preciso em alguns momentos parar realizar missões secundárias para poder continuar avançando na campanha. E não é coisa de apenas alguns minutos, mas horas investindo nisso.

Poderia soar como um crítica negativa, mas o ponto é que Origins trabalha muito bem com missões secundárias. No geral todas possuem histórias interessantes dentro do contexto do game. Deuses animais adoecendo, tumbas para serem exploradas, maridos perdidos em ilhas, filhas raptadas, bandidos guardando tesouros em cavernas, animais selvagens invadindo cidades e assim por diante. Há muito diversidade em missões que não seguem o plot principal. E Bayek conhece muito gente interessante nesse vai e vem.

Claro que uma repetição aqui e ali eventualmente irá surgir, muitas vezes nem pela trama, mas pelas mecânicas, como viajar para outras regiões em busca de algo ou alguém, ou invadir fortificações para roubar ou salvar alguém. E mesmo com estes clichês, há sempre um cuidado para que algo diferente esteja presente nestes momentos. É uma atenção realmente impecável dos desenvolvedores em entender que missões secundárias podem ser o desastre dentro de um game de mundo aberto que segura o avanço do jogador por meio de um nível de poder.

Além disso há uma árvore extensa de habilidades, que se ramificam para três direções (arqueiro, combate de espada e ferramentas) que estão constantemente adicionando novas mecânicas de combate e estratégia na forma como Bayek invade áreas restritas e lida com as adversidades apresentadas dentro de sua jornada.

Não dá mais para entrar em uma área e querer combate com quatro ou cinco inimigos simultaneamente. É quase impossível, exceto se o jogador estiver uns 10 níveis acima deles. Isso porque também houve uma mudança no sistema de combate do game, que lembra um pouco o que a própria Ubisoft fez em For Honor.

Agora o jogador utiliza os bumpers e gatilhos para combate. Um defende, outros dois são de ataques fortes e fracos. É possível desviar e contra-atacar acertando timing, o que causa dano extra. O jogador pode travar a mira no inimigo e rotacionar em 360 graus ao seu redor. Lembra muito For Honor, mas de uma forma mais simplificada.

Ficou bom, até melhor que nos games antigos, onde apenas se usada um botão que ficava se apertando em looping até todos os inimigos caírem. Poderia se esperar algo meio Batman Arkham, mas até que fico contente que a Ubisoft não tenha ido para o lado mais óbvio dessa questão. Ficou diferente, ficou divertido assim.

Inspiração não veio apenas de For Honor não. O mapa de Assassin’s Creed Origins é tão grande e bem dividido que lembra o trabalho bem feito que Ghost Recon Wildlands foi no começo do ano. E não é porque o jogo se passa no Egito que significa que boa parte de sua área é apenas deserto e mais deserto. Nada disso. O game possui ambientes riquíssimos em biodiversidade.

Sim, há desertos, e eles podem ser grandes, mas há também oásis, vilarejos, áreas de cadeias de montanhas, floresta e muitos cidades com arquiteturas da cultura egípcia e também cidades construidas pela arquitetura romana da época. É de ficar deslumbrado. Existem grandes rios, áreas submersas, grandes labirintos em tumbas, cavernas e uma fauna que rodeia toda essa geografia.

No aspecto dos animais também é um ponto que pode ter vindo de influência de games como Far Cry, já que o jogador possui um arco e flecha que serve para caçar estes animais e assim aprimorar pontos de sua armadura, garantindo assim mais flechas para o arco, lâminas do assassino que causam mais dano, mais barra de vida e assim por diante. E os animais podem vir a ser assustadores no jogo. Leões, crocodilos e até mesmo hipopótamos podem vir a ser assustadores quando se estão em bando e em nível equiparado ou superior ao jogador. Há até mesmo covil destes animais, onde versões ainda maiores deles podem surgir.

Na questão da arma, uma boa comparação talvez seja com a franquia Destiny, o que parece claro sua influência. O jogador tem uma tela onde pode equipar duas armas de combate, além de dois tipos de arcos, um item de ferramenta (bomba de fumaça, de fogo, dardos envenenados e tranquilizantes), um espaço para sua montaria e outro para diferentes trajes. E todos podem ser comprados com o dinheiro ganho no game mesmo, ainda que exista uma opção de comprar outros itens lendários por meio de microtransações, que felizmente não são invasivas e sequer necessárias, já lhe adianto isso.

Todas estas categorias possuem níveis distintos, tal qual Destiny, onde armas e itens azuis são comuns, roxos raros e dourados lendários. E não se preocupe, pois não é nada difícil conseguir itens lendários no decorrer da aventura. Eles surgem em tesouros ou missões especiais de evento (há uma por dia através de um vendedor especial que fica rotacionando dentro do mapa do game). Ah e se você é um daqueles que não curte ficam andando por longos trajetos, fique tranquilo que o viagem rápida do game é muito útil e rápido, sem grandes ou demorados loadings.

Tantas influências e mesmo assim toda a essência original da série está aqui. Paisagens históricas e icônicas de cair o queixo, a possibilidade e a obrigação em certos momentos de adotar uma abordagem mais estratégica, adentrando locais de forma sorrateira e eliminando inimigos com flechadas na cabeça ou com a lâmina oculta, além de alvos que devem ser encontrados e eliminados.

Alias, já ia me esquecendo, a águia adicionada no game é um recurso de mecânica excepcionalmente genial. É como um drone,  só que muito melhor. Com um comando o jogador coloca uma águia no céu que identifica inimigos, tesouros, alvos etc. E tudo em tempo real, sem carregar telas ou ter que esperando longos segundos, sem amarras de distância de onde Bayek se encontra. Podendo inclusive “pausar” a águia no ar para uma boa visualização da área desejada.

Acessível, boas e reformadas mecânicas e uma jogabilidade com ritmo. Tudo parece acertado nesse aspecto em Origins. Não há muito que tenha me incomodado nestes aspectos, exceto talvez o combate quando há muitos inimigos ao seu redor. Nestas situações o melhor é fugir e recomeçar novamente o contra ataque, pegando um a um sem ser detectado. O que por sinal parece ser a coisa óbvia a se fazer.

Considerações finais

Não sei se há muito mais a se elogiar ou explicar em torno dos motivos pelo qual Assassin’s Creed Origins é um jogo tão bom. Quase não há pelo que se criticar também, no sentido de algo que poderia ser melhor ou atrapalhar o desempenho atual do game.

Há quem diga que o jogo perdeu um pouquinho de sua essência original e não acho que dê para afirmar que perdeu. Se fosse para sentir falta de algo, posso dizer que senti falta de ser ocultado em meio a multidões e de sentar em bancos para não se detectado. Porém não acho que realmente são recursos que fazem falta aqui. Gosto de como a mata alta faz exatamente essa coisa de ficar oculto dos inimigos.

Um retorno que me agradou muito foi a tela de execução, que ocorre quando o jogador mata o alvo e uma animação entra na tela permitindo que Bayek e seu executado tenham uma última conversa, em meio a uma ambiente cheio de metáforas do pós-morte, quando a pessoa está para finalmente ir embora de seu corpo. São momentos de muito impacto para a trama e é algo que os primeiros games da série possuíam e que os mais recentes haviam esquecido desse recurso.

Existem muitas cenas de conversas e diálogos ao longo do gameplay? Sim, mas elas podem ser puladas caso o jogador não curta os diálogos, ainda que eu tenha me interessado por quase todas histórias apresentadas no game, mesmo as secundárias, que também adicionam camadas a personalidade à Bayek.

Há a questão de dublagem em português, que me incomodou muito nas primeiras horas do jogo, no sentido que muitas vezes o tom da voz aparenta não casar com o aspecto físico dos personagens, como mulheres idosas que soam como jovens ou personagens masculinos magrelos que possuem um timbre de voz muito grossa. Mas sinceramente, depois de horas e horas nesse universo, esqueci completamente de que a dublagem estava me incomodando. Bayek e Aya por sinal possuem vozes que condizem com suas personalidades. E para ser honesto, coloquei o game em inglês no começo e notei que as mesmas vozes que me incomodaram em português também soavam estranhas em inglês. É algo que assusta sim inicialmente, mas depois de imerso no universo do jogo acaba passando despercebido.

O mais legal é que a campanha me custou 40 horas, mas ainda assim ficou muita coisa secundária para trás. Desafios de corridas em bigas no coliseu, ou desafios de arenas de combate até a morte, regiões ainda não exploradas e dezenas de missões secundárias não realizadas. Depois de terminar a história o jogador ainda está livre para fazer tudo isso e gastar provavelmente mais 40 horas em todo esse material extra. Até mesmo as primeiras missões da irmandade vão surgir depois de terminado o game. A história de Bayek e Aya chega a uma conclusão, mas é só o começo da Irmandade dos Assassinos.

Assassin’s Creed Origins é um daqueles títulos que valem o investimento. Prioriza a experiência single player em uma geração que está tentada a investir pesado apenas em multiplayer online baseado em microtransações. É um jogo que rendem dezenas e mais dezenas de horas aos jogadores, até mesmo após a conclusão de sua campanha principal. E a Ubisoft ainda tem adicionado eventos e novos desafios por meio de atualizações gratuitas, enquanto também há conteúdos pagos que estão sendo desenvolvidos para sair nos próximos meses. É um game que toma seu tempo e rende. Para aqueles que não podem comprar muitos games com muito frequência, é um jogo que vale a pena ter sem dúvida alguma. Recomendadíssimo!

Galeria de imagens

Sólida história com plot e protagonistas carismáticos
Incrível ambientação histórica, visual fantástico
Manda muito bem na reformulação da jogabilidade
Sistema de level segura um pouco o avanço do jogador
Alta longevidade para um single player
Dublagem começa estranha, mas a sensação passa
Ótima diversidade de missões principais e secundárias

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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