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Life is Strange | Manipulando a vida! (Impressões)

Em janeiro Life is Strange completou 3 anos desde o lançamento de seu primeiro episódio. Não parece tanto tempo assim, mas talvez seja. A série chegou até mesmo a ser lançada em duas gerações de consoles, a atual e a geração anterior (Xbox 360 e PlayStation 3).

Existe expectativas para que este seja o ano em que o estúdio responsável pela IP, a Dontnod Entertainment, finalmente revele mais detalhes de Life is Strange 2, na qual já se sabe que está oficialmente em desenvolvimento pela mesma equipe do primeiro game.

Nesse ínterim, no segundo semestre de 2017, um spin-off foi produzido e lançado: Life is Strange – Before the Strange. É possível encontrar as impressões primeiro episódio de Before the Storm neste link aqui do site, com mais detalhes sobre quem o produziu (Deck Nine Games) e sobre sua história, que acontece antes do primeiro Life is Strange.

Por que fazer essa introdução sobre o universo da série, passado, presente e possível futuro? Porque em dezembro de 2015 escrevi aqui no site o quanto fiquei impressionado com esse game, tendo jogado apenas seu primeiro episódio e aí infelizmente a vida adulta, e a falta de tempo, me impediram de jogar o restante dos outros quatro episódios de tal temporada.

Entretanto, situações inesperadas acontecem e quando resolvi jogar o primeiro episódio de Before the Storm  sem ter concluído o game que lhe deu origem senti que estava fazendo algo errado. Não estragou a experiência para tal começo, mas senti que estragaria se continuasse jogando os próximos dois episódios — que no ponto em que escrevo este texto já foram até mesmo lançados.

Diante dessa situação não me restou alternativa: resolvi fazer uma maratona do primeiro Life is Strange, jogando os quatro últimos episódios restantes durante algumas semanas do mês passado. E finalmente agora, após a publicação destas impressões, me sinto livre para terminar os outros dois episódios de Before the Storm. Ufa!

Ainda vale a pena jogar Life is Strange? (SEM SPOILERS)

Com certeza sim! É possível que nesse ponto você, que está lendo isto, já tenha se deparado com spoilers em torno do final do game, no meu caso não foi assim, mas mesmo que tivesse não dá para dizer que toda a experiência estaria arruinada.

IMPORTANTE: para saber sobre a trama, mais especificamente sobre sua premissa de Life is Strange, recomendo o meu texto de 2015 em que falo sobre justamente isso ao dar as impressões acerca do primeiro episódio.

Continuando. O legal de Life is Strange é como o jogador conduz decisões e atitudes ao longo de sua temporada. Pequenas decisões, diga-se de passagem, pois a trama principal, os pontos chaves dela, não mudam drasticamente independente das decisões tomadas pelo jogador.

Claro que é nos detalhes que o universo do game lhe fisga. Ajudar as pessoas, suas história, ver as consequências de seus atos de forma menor aqui e ali pelos episódios é interessante. A própria mecânica de rebobinar, ver os dois lados de uma resposta ou de uma decisão principal é algo que conta a favor da genialidade colocada em seu desenvolvimento, e mesmo assim é impressionante o quanto isso não tira o impacto de ter que escolher, ter que decidir como a história irá continuar a partir de tal ponto.

Sem contar que, mesmo que o jogador veja o que ocorre em dois cenários em que precisa tomar uma única decisão, graças à habilidade de rebobinar o tempo, nem sempre a consequência de tal ato fica claro logo após tomar uma decisão. Eu me arrependi em muitas coisas que escolhi fazer nos dois primeiros capítulos em relação a dois personagens em si. As consequências surgiram depois na trama. Ou seja, o poder de manipular o tempo não é uma solução segura de fazer o jogador sempre pensar que tomou a decisão exata.

Life is Strange é bom então nos pequenos momentos, e mesmo que haja um ou dois grandes mistérios em que o jogador só irá descobrir as respostas nos dois últimos episódios, e mesmo que você já os saiba porque já tomou spoiler pela internet, a experiência do game como um todo continua sendo incrível. Minha opinião, claro.

Indo adiante, também é importante dizer como o jogo se mantém visualmente soberbo. A direção de arte do game responsável pelo jogo ter esse aspecto de telas de um storyboard (e os produtores do game falam exatamente isso no documentário que existe dentro dos extras do menu principal do game) faz com que o game não tenha perdido o charme e identidade de quando foi originalmente lançado. Mesmo nesta atual geração, com jogos graficamente estonteantes, Life is Strange continua sendo um game muito bonito.

Dentro do gênero de jogos narrativos, que contam uma história pontuada por decisões do jogador, Life is Strange continua apresentando mecânicas bem mais modernas e atuais do que outros games que concorrem dentro de seu gênero. Eu mesmo já pontuei diversas vezes aqui no site o quanto as séries da Telltale Games deveriam olhar para o que a Dontnod fez aqui. Continua sendo um jogo onde a jogabilidade é magistralmente bem arquitetada.

Isso para não dizer da excelente e imbatível trilha sonora. Você talvez possa não gostar do game, mas há boas chances de gostar de suas faixas musicais licenciadas em playslists em serviços como Spotify. A música dá a energia do jogo. Há muito sentimento em como estas canções transmitem e humanizam estes personagens poligonais.

Um último ponto, ainda dentro da questão de jogar ou não jogar Life is Strange após tanto tempo depois do lançamento é sobre os temas abordados pela história, que continuam dentro do aspecto moderno do que se discute entre os jovens de hoje em dia. Bullying, drogas, pais em novos relacionamentos, sexualidade, valor das amizades, confiança, insegurança e a sensação de falta de liberdade para se expressar são temas recorrentes da história, trabalhados em momentos aqui e ali e que não vão sair de moda tão cedo assim. São temas que tocam a todos, jovens e adultos. É fácil se solidarizar com alguns personagens e sua história.

Por estas e outras, Life is Strange ainda é um game que quem não jogou ainda está em tempo de jogar. Hoje em dia é mais fácil encontrá-lo em promoção, fora que o primeiro episódio em qualquer plataforma digital não é mais cobrado qualquer valor para ser jogado. É uma boa maneira de se preparar tanto para Before the Storm quanto para Life is Strange 2. Não há dúvidas quanto a isso.

O game tem problemas? Tem alguns aqui e ali. Muitos não gostam do final, os últimos 4 minutos finais basicamente, porém isso é algo que vou discutir mais abaixo, na área de spoilers. Porém em uma avaliação geral, todos os cinco episódios possuem momentos incríveis e geniais. Daqueles em que você sente que não vai esquecer tão cedo. Alguns clichês podem surgir, mas o incômodo é tão pequeno, tão insignificante perto de todos os outros pontos positivos que não acho que seja uma barreira para desfrutar do game. A verdade é que no geral o game continua sendo uma experiência surpreendente, original e única.

E tem uma vantagem boa agora em relação ao lançamento original dos episódios, além de não ter que esperar meses por novos episódios para continuar a história, que é o fato de que em janeiro de 2016 o game ter recebido legendas em português para todos seus episódios em virtude do lançamento em mídia física na ocasião. Eu joguei todo o primeiro episódio em inglês em 2015, e apesar de me virar bem com o idioma, é sempre muito mais legal vê-lo localizado, sem me preocupar com termos e gírias que posso desconhecer ou não lembrar no calor do jogo. Ter legendas em nosso idioma derruba uma barreira comum a muitos jogadores aqui do Brasil. Especialmente dentro desse gênero de game narrativo.

Pronto. Disse o que precisava dizer sobre Life is Strange sem dar nenhum grande spoiler. Resta agora separar um pequeno momento, logo abaixo, para discutir pontos da trama que preciso dizer o que achei e para isso é impossível não dar tais spoilers, incluindo o final que parece ser tão polêmico e que divide opiniões pela internet. Então a partir daqui eu recomendo que você só continue lendo se realmente jogou Life is Strange.

Área de Spoilers —
Decisões egoístas e consequências do ego?

Acho que a primeira coisa que me chocou em termos de trama foi justamente no segundo episódio, que aliás pra mim tem o segmento mais inesperado e surpreendente de todo o restante dos episódios do jogo: a tentativa de suicídio da personagem Kate.

Quer dizer, naquele momento o jogo ainda estava apresentando os poderes de manipular o tempo de Max e nesse ponto não achei que eles poderiam simplesmente congelar tudo e logo em seguida desaparecer por completo. A ideia de ter que agir sem poderes, sem dar respostas erradas, logo no segundo capítulo da série me surpreendeu muito. Não achei que passaria por algo assim tão cedo na trama.

Foi justamente nesse ponto que Life is Strange me ganhou. E também meio que é o meu momento favorito de toda a história. A ideia de que uma conversa que o jogador pode ter ou não com a personagem no começo, e na forma como trato ela durante todo o episódio, ditar a trama se Kate irá ou não se suicidar é fantástico.  E é chocante a quantidade de pessoas (pelas estatísticas do game) que não conseguiram salvar Kate. — Pobre Kate.

Felizmente fui bem sucedido na empreitada, o que me deixou orgulho da “minha” Max. A cena que acontece episódios à frente, em que Max a visita no hospital, e que foi um momento que os produtores colocaram no game depois de ver a reação da comunidade para com esse ponto da história, é exatamente o tipo de recompensa que o jogador poderia esperar desse tipo de situação. Independente do final em si da trama que… já chego lá.

Porque é exatamente sobre recompensas que Life is Strange desanda quando vai chegando perto do fim. E não que isso fosse exatamente uma surpresa. Max vê o furacão no primeiro episódio, então a chance de que seja lá o que ela fizesse não conseguisse impedi-lo sempre existiu na minha cabeça. Estou sendo bom, estou ajudando as pessoas, mas eventualmente todo mundo pode acabar morto. Pra mim essa possibilidade sempre foi muito real.

Tanto é que uma das decisões que também me orgulhei de ter tomado diz a respeito da mendiga atrás da lanchonete. Eu disse a ela sobre o furacão e ela acreditou no meu alerta. Tanto que último episódio, quando o segmento da devastação aconteceu (e que momento incrível), fica bem claro que ela fugiu e se salvou. Pra mim é um ponto na cartilha de boas ações. Tudo que depois o game vai lhe dar um tapa na cara, mas… eu chego lá.

Antes disso preciso comentar sobre Rachel Amber. Em nenhum momento, desde o primeiro episódio, acreditei que Rachel poderia estar viva. E não porque joguei o primeiro episódio de Before the Storm nesse ínterim (porque não há dicas lá sobre isso, ainda bem). Pra mim Rachel sempre esteve morta. Ela não teria fugido da forma que o game quer que o jogador leve a crer (bem… aí talvez seja porque a conheci em Before the Storm… ouch!). Em todo caso a revelação do que aconteceu com ela no final do episódio quatro é realmente de cortar o coração. O impacto é grande, apesar de que não me derramei em lágrimas como parece que muitos fizeram ao jogar tal episódio quando lançado em 2015. Meio que já estava preparado quando aconteceu, e a forma como isso destrói Chloe não teve um impacto tão grande assim pra mim.

Na verdade Chloe não é uma personagem na qual me identifico. Certamente nesse universo de Life is Strange eu seria como Max, a nerd certinha que não conversaria muito com as pessoas. E tudo bem pra mim. Entretanto me simpatizo com o drama de Chloe, pela tragédia vivida. E o jogo constrói muito bem a faceta de seu padrasto, o David, a ponto de realmente conseguir me enganar a achá-lo uma má pessoa. E ele realmente não é. Fiquei pensando se não deveria ter identificado isso mais cedo na trama, especialmente por já ser um adulto cheio de responsabilidades e que também se preocupa com o filho. Fiquei me sentido estranho quando ele saiu da casa da Chloe, mesmo ainda achando que tinha tomado à decisão certa em mandar Max interferir na discussão.

Seguindo adiante, antes de discutir o final em si, há que se falar sobre a reviravolta pré-final, no que diz respeito ao vilão verdadeiro da história: Mark Jefferson. Isso eu também não esperava, e é louvável que o game tenha conseguido acobertar isso até o fim. Porém agora sei que tiveram muitas críticas pela internet e comunidade a respeito dele como vilão.

Sim, há muito clichê do gênero vilanesco no episódio 5, do tipo do vilão contando seu plano malvado, do herói dizendo que ele não vai escapar e das ameaças em vão. Entretanto acho que dado o tom dos episódios anteriores não caberia dentro da proposta do jogo algo muito violento, seja brutal ou até mesmo sexual, especialmente personagens tão jovens. Tanto que o jogo não mostra explicitamente mortes como a de Nathan ou da Victoria. Existe o impacto da situação ou do perigo, mas não há sadismo nelas. E por isso o vilão mais suave, voltado ao clichê do gênero. De qualquer forma funciona, pois o jogador fica aflito para ver Max escapar dali.

Sem mencionar que o plot do Mark é só uma pequena parte de um todo. Ele fecha o ciclo de eventos envolvendo Rachel, enquanto também trabalha na extensão e repercussão dos poderes de Max. Pra mim o maior perigo no episódio 5 ainda era o furacão. Em nenhum momento temi o Jefferson. O furacão pra mim sempre foi a maior ameaça para o final de Life is Strange, ainda que agora perceba o quanto Max e Chloe ignoram bastante isso ao longo da história.

Chegando perto do fim, gostei bastante da dinâmica do episódio 5, ainda que esse ponto também tenha sido duramente criticado por aí. Gosto do pesadelo, de rever momentos da trama, de fugir dos medos e em particular da conversa que Max tem com ela mesma na lanchonete, onde uma Max acusa a outra de só fazer o bem por puro ego e egoísmo. Eu fiz o que fiz só para me sentir bem e não ter que lidar com os problemas dos outros? Faz sentido! Novamente o game me estapeou na cara!

E aí vem o final de tudo, a hora de encerrar essa jornada: salvar a cidade Arcadia Bay ou salvar Chloe. Como dizem por aí, o final certo e o final errado. Sério que um final precisa ser errado? Eu discordo completamente. Sim, Max passou uma semana interferindo na vida dos outros, resolveu o mistério de Rachel Amber e os envolvidos tiveram o que mereciam, ela ajudou pessoas e agora tenho que decidir que nada disso foi em vão? E será que foi mesmo? De qualquer forma não acho que coubesse a ela decidir que Chloe deveria morrer, não importa o quanto o próprio tempo continuasse tentando matá-la. Se fosse assim Max não deveria sequer ter estes poderes. Ela protegeu Chloe até aqui, fosse o que fosse! Eu optei por continuar assim, custe o que custar!

Sim, no meu final Arcadia Bay foi destruída. Pessoas morreram (assim dá a entender) e Max e Chloe foram embora sem sequer verificar se alguém sobreviveu, o que pra mim é a única coisa errada nesse final. O produtor do game comentou em entrevistas – quando o game encerrou sua história e as pessoas começaram a questionar isso –  que esse é aquele final onde não importa se alguém viveu ou morreu, o que importa é que o jogador decidiu que Chloe sobreviveria e somente isso.

Entendo a visão dos criadores e roteiristas, mas não acho que as coisas precisavam ser assim, preto ou branco. Ou então que a cena final não tivesse justamente elas passando no meio da cidade sem sequer parar para verificar o que aconteceu com as pessoas. Foi mal construído, em minha opinião. O outro final tem mais detalhes, tem um momento de luto. É maior e mais completo em sua proposta. Porém mesmo assim fiquei com a decisão de salvar Chloe e ponto final.

E acho que concordo com o que a Max do pesadelo me disse. Eu ali, tomando estas decisões, certamente teria mesmo um pouco de egoísmo envolvido. Meus poderes, minhas decisões. Assim é a vida e assim são os seres humanos. Max Caulfield não é, afinal das contas, uma super heroína. E não acho que deveria ser. Salvar Chloe é só uma decisão ruim em um mundo de situações ruins. Ou algo assim.

Não é o melhor dos finais, mas é um dos finais possíveis. Certamente era de se esperar que o fim do jogo tivesse mais sequelas em relação a tudo que o jogador decidiu ao longo da aventura, e na verdade não tem muito disso. As decisões mexem com a trama, mas em uma escala muito menor do que o todo. É um pouco decepcionante? Talvez, mas não me incomodou tanto assim quando a história enfim terminou. Life is Strange talvez seja mais sobre sua jornada do que sobre seu final e isso não é uma coisa ruim a meu ver. Que bom.

Galeria

Ótimos e intensos momentos em todos os episódios

 

Universo e história que conquista o jogador
Olhar efeitos das decisões não faz ser mais fácil decidir
Mecânicas e gameplay, único e criativo
Aborda temas sérios com maturidade
Fantástica trilha sonora
Ótimos e intensos momentos em todos os episódios
Escolha final não consegue agradar todo mundo

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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