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Scribblenauts Showdown | Criatividade nas palavras! (Impressões)

O recém-lançado Scribblenauts Showdown é um divisor de águas para a série. É o primeiro game da franquia que não passa pelas mãos do estúdio 5th Cell, responsável por todos os games anteriores — o último foi Scribblenauts Unmasked: A DC Comics Adventure (Wii U, 3DS, PC) em 2013.

É importante pontuar isso – sem dramatizar demais também – porque houve algum problema com a 5th Cell, que sofreu um baque quando um título da série (Scribblenauts: Fighting Words) que sairia para iOS foi cancelado em 2016, causando a demissão de alguns empregados do estúdio.  Mas a 5th Cell ainda existe, e parece estar trabalhando em algo para 2018 segundo uma imagem presente ao abrir seu site oficial.

Em todo caso a responsabilidade de trazer de volta a franquia Scribblenauts acabou sendo transferido à uma nova casa (sem motivos divulgados a respeito dessa troca) ficando então nas mãos de um estúdio chamado Shiver Entertainment, localizado em Miami e na qual não tenho muitas informações sobre seu passado, e seu site oficial também não diz tanto quanto gostaria que dissesse a respeito do estúdio ou seus trabalhos anteriores.

E… assim temos Scribblenauts Showdown, o primeiro Party Game da franquia e também a primeira vez que a série aparece em consoles da Sony e Microsoft. Até então os games anteriores foram desenvolvidos para aparecer nos portáteis da Nintendo (DS e 3DS) – tendo surgido pela primeira vez no Nintendo DS – passando por versões e adaptações para mobile e fazendo duas aparições no Wii U e uma para PC. Esta é realmente uma nova investida, abandonando as antigas plataformas e se focando em consoles domésticos. Nesse momento o mais recente game está disponível apenas para Xbox One, PlayStation 4 e Nintendo Switch. Não que eventualmente o título não possa ser lançado em outras plataformas, como PC e Mobile. Trata-se de um game que não me parece que teria problemas para funcionar em celulares, por sinal.

São pontos curiosos para se entender de onde surgiu e como a franquia chegou até aqui, depois de um hiato de mais de 4 anos sem nenhum novo título. Trocaram o estúdio, mudaram parcialmente a fórmula e investiram em novas plataformas, deixando de lado as que já conheciam a franquia. Caramba. E será que deu tudo certo? Vem comigo.

Poder das palavras (e criatividade)

Scribblenauts é uma  IP famosa por dar liberdade criativa ao jogador. Sempre foi sobre puzzles onde o jogador precisava escrever palavras para avançar por seus desafios. Há esse simpático garoto protagonista, chamado Maxwell, que se encontrava em cenários estranhos e precisava sempre cumprir objetivos para avançar, seja descobrindo como atravessar obstáculos ou ajudar personagens com coisas que eles desejam.

Um exemplo clássico era o de chegar a um local onde não era possível escalar. O jogador abre um menu de texto, escreve algo como “escada” e puff, uma escada se materializaria no cenário. Aí há essa liberdade para colocá-la onde quisesse para subir e alçar o topo do local. Mas não precisava ser uma escada. Para subir em uma encosta? Que tal pular em uma cama elástica? Ou voar com um helicóptero? Ou subir nas costas de um dragão? Bastava escrever e se existisse no dicionário do game (que sempre teve um vocabulário bem vasto) o jogador conseguiria conjurar tais objetivos para cumprir os objetivos.

Isso sempre foi… e ainda é Scribblenauts. O diferencial em Showdown é que ele tende a dar um passo além. O modo criativo, aqui chamado de Caixa de Areia existe, porém o game divide espaço com outra modalidade que se assemelha muito aos games da franquia Mario Party: andar por um tabuleiro e jogar mini games para conseguir avançar até a linha de chegada.

A festa de mini games

Até é possível jogar apenas os mini games, isso no Modo Versus,  que elimina o elemento do tabuleiro. Só que, cá entre nós? O tabuleiro é parte da graça destes jogos baseado em mini games. Minha opinião é claro.

No tabuleiro, também chamado Modo Embate, não há dados a serem jogados onde seus números irão definir quantas casas os jogadores irão pular, e sim cartas que cada jogador pode utilizar na sua vez. Estas cartas podem indicar avançar casas ou fazer os jogadores adversários retornarem. Há também cartas especiais que possuem efeitos como trocar as cartas dos jogadores ou trocar itens em puzzles onde estes são definidos pelos jogadores.

Cartas usadas acionam mini games. Avançar 3 casas? É preciso usar tal carta e ganhar em seu mini game. Fazer os adversários voltar casas? Idem, use a carta e vença o mini game. Tais cartas já possuem o mini game definido. Ele não acontecer de forma aleatória. Isso é legal porque você sabe se é um desafio em que domine ou não. Não fica totalmente à sorte de sair um que lhe dê vantagem ou desvantagem.

Só que há também cartas especiais, que dizem que aquele que invocou a carta precisa ganhar duas vezes em três mini games. Nestes casos os mini game são aleatórios. Não se sabe quais serão. Fica mais arriscado utilizar estas cartas.

É uma modalidade interessante. Eu gostei da ideia das cartas, muito mais do que o sistema de jogar dados de Mario Party. Em contra partida – ainda nessa comparação com Mario Party – o tabuleiro de Scribblenauts Showdown é muito precário. Não há eventos, casas especiais, caminhos alternativos ou sequer diferentes tabuleiros. É só um e o caminho é sempre o mesmo. O game peca bastante nesse aspecto de não dar dinamismo e emoção em tabuleiros que apresentem coisas diferentes. Aqui não há nada disso. A ideia das cartas é muito boa, mas executadas em um tabuleiro bem pobrezinho.

Aqueles que não curtirem a modalidade com tabuleiro podem ficar apenas no versus, onde só há mini games. Aqui o jogador tem em mãos duas opções:  usar palavras antes de iniciar alguns mini games ou apenas jogá-los sem esse elemento. O que particularmente acho bem chato podar um dos elementos mais atrativo do game, que é escrever coisas que serão usadas nos mini games.

Ao escolher as palavras, o objeto escolhido às vezes impacta o gameplay do mini game. Posso exemplificar: existe um mini game em que os jogadores ficam sentados em um tapete voador e precisam empilhar os itens que vão caindo do céu. Na modalidade de palavras, cada jogador escolhe o objeto de acordo com uma roda que irá definir a letra ou um gênero de palavras. Empilhar objetos quadrados como livros são bem mais simples do que empilhar bolas de futebol. Ou pode o jogador pode encontrar problemas em relação ao tamanho físico do objeto escolhido, como cenouras serem menores do que melancias.  Em disputas assim conhecer um pouco o vocabulário e as opções dão pequenas vantagens.

Há diversos outros mini games que possuem esse efeito. Como um em que você come aquilo que escreve (e os tamanhos podem variar) e o objetivo é ser o primeiro a terminar de comer – cuidado, pode ocorrer vômitos se comer muito rápido. Em outro momento, o jogador escolher algo com pernas para subir de cavalinho e disputar uma corrida de alguns metros em obstáculos. Este é particularmente engraçado em certas ocasiões, onde já vi um leiteiro disputar corrida com a Morte (sim, ela em pessoa).

E um reforço um pouco óbvio: os mini games de Scribblenauts Showdown são bem simples, e alguns meio bobinhos. Não vejo graça em mini game em que os jogadores apenas ficam apertando um botão para ver quem corta o tronco de uma árvore primeiro, por exemplo. Porém há alguns bem bolados, como um de movimentos de dança, foguetes coletando itens no espaço, um de frisbee , corridas e disputas que envolvem a criatividade ao se criar os objetivos da peça central da disputa. Há um bem legal de arena, onde o jogador escolhe um objeto e precisa matar o outro jogador. Já vi disputas de arma laser contra um pato de borracha – e o pato era mais útil nesse caso. Há momentos engraçados em certos mini games, porém já outros podem apenas cansar rapidamente os jogadores.

Também senti que alguns mini games repetem mais do que outros em alguns modos. No embate há cartas que ficavam em rodízio sempre com os mesmos mini games, e houve mini games que só descobri jogando eles no modo versus. E olha que nem há tantos mini games assim, são apenas 27 mini games somado ambos os modos versus e embate. Pouco, não?

Como um party game, Scribblenauts Showdown é fraco, ainda que não necessariamente ruim. Parece uma empreitada onde os desenvolvedores não puderam desenvolver muita coisa. Está para um teste para ver como os fãs reagiriam. Pode ser divertido, mas com tão poucas opções, não aparenta um título que rende muitas horas jogando nessa fórmula, mesmo entre amigos.

E o jogo suporta até quatro jogadores localmento. Não há modalidades online. E olha que seria interessante se o modo de tabuleiro pudesse tem uma modalidade online. Ainda que também entenda que o público aqui é de uma faixa etária mais nova e por isso talvez não seja muito recomendando essa interação online.

Caixa de areia

Resta então a modalidade da Caixa de Areia, que consiste em pequenas fases de puzzles em que o jogador resolve pequenos enigmas construindo objetos e interagindo com o cenário ao seu redor. Pessoas, itens e animais. Quase tudo é possível e improvável nesse modo.

Essa é a modalidade que mais se assemelha aos games anteriores da série, porém é uma modalidade um pouco mais enxuta do que me recordo dos antigos games – não tendo jogado todos infelizmente. Aqui há uma lista de objetivos que dão pistas, porém não entregam as repostas dos puzzles (exceto se você pagar com estrelas – starites – obtidas jogando o game em todos seus modos).

De longe, possivelmente pela minha faixa etária, é a modalidade mais divertida do game. Os cenários são bem diferentes e possuem desafios entre fáceis e complicados de se adivinhar. Em um deles precisava fazer um casal se apaixonar e pensei em escrever cupido, e isso resultou em uma confusão sem tamanho pelo cenário. O Cupido saiu flechando todo mundo, o que os deixaram com raiva ao invés de apaixonados (o amor dói, essa é a moral?). A solução era outra (que não revelarei). As vezes apenas é divertido ver como algumas coisas desencadeiam eventos imprevistos.

Pena que haja apenas 17 destes cenários na modalidade Caixa de Areia. Cada um deles possuem determinados números de puzzles (e não apenas um), mas ainda assim a sensação é de que não é grande o suficiente. É algo de 20 minutos ou menos para zerar um cenário, dependendo do quão sagaz o jogador for para criar os objetos que resolvam os desafios. Porém é normal colapsar o cenário (caos tomar conta) e precisar reiniciá-lo da mesma maneira. Puzzles já resolvidos podem ser resolvidos de novo (de outras formas também), mas eles sempre ficarão já marcados na lista como resolvidos.

Perfeito para crianças em processo de alfabetização

Acho que nesse ponto do texto já ficou bem claro que Scribblenauts Showdown não é um game hardcore, indicado para jogadores de títulos como Battlefield ou Assassin’s Creed. Não mesmo. É um título mais família, para uma faixa etária infantil, para jogar em família com irmãozinhos, sobrinhos ou filhos pequenos. É importante perceber isso para não se decepcionar com o foco de público planejado para o título.

E faço elogios específicos a sua proposta, que casa muito bem com crianças em processo de alfabetização. Expandir o vocabulário, conhecer novas palavras ou até mesmo no meu caso, em que tenho um filho de 5 anos que está começando a aprender a formar palavras e sílabas pelo atual método de assimilação de sons e visual ao conhecer novas palavras esse é um game perfeito para brincar com ele.

Claro que nesse caso a supervisão de um adulto é de grande importância. Especialmente no modo Caixa de Areia (nos mini games nem tanto). Ajudar a criança a formar palavras e pensar em solução criativas é o que Scribblenauts tem de melhor a oferecer.

É bacana como a roda de texto também completa as palavras. A criança começa a escrever, por meio da associação do som e visual e logo abaixo na tela, palavras são sugeridas. Torna-se interessante mostrar ao pequeno como muitas palavras começam iguais, mas que a menor mudança de letras faz criar algo diferente.

E se ela não estiver perto de um adulto, sendo maiorzinha, a criança ainda pode se sentir encorajada a testar palavras, começando a escrever algo e escolhendo palavras sugeridas para ver o que se forma na tela. Mesmo que ela não saiba ler, ao escolher uma palavra e vê-la se materializar logo em seguida, isso a ajuda a assimilar objeto ao símbolo das letras. É genial.

Em contraponto a formação de palavras para objetos há também a opção de criar adjetivos aos objetos. Escrevo bola e o resultado é uma bola normal. Mas e seu quisesse uma bola gigante? Basta abrir o menu de adjetivos e escrever “gigante”. Dentre as opções estão tamanho físico, cores e até mesmo o sentimento. Criou um leão? Escreva “amoroso” para ele não sair atacando todo mundo.

É mais uma lição que a criança passa a pensar. Há palavras que criam coisas e palavras que indicam como essa coisa precisa ser. Pinguim Rosa, Onça Doente, Bicicleta Gigante, Coelho Raivoso e assim por diante. É muito fácil se perder no leque de opções que ambas as opções de criação dão ao jogador. Ou jogadores, já que o modo Caixa de Areia suporta cooperativo para dois jogadores, enquanto nos mini games e tabuleiro são até quatro jogadores.

Considerações finais

Certamente Scribblenauts Showdown não é o melhor título da franquia. Também não joguei todas as versões para poder afirmar que ele é o pior. Mas não dá a sensação de ser de todo mal. É um game com problemas, aparentando ser meio bobinho dependendo da faixa etária dos jogadores. Por outro lado, é muito legal e funciona muito bem com crianças justamente por ser bem simples.

Acho que a ideia de criar um Party Game é interessante e poderia ser melhor desenvolvido em futuras sequências. Não sei se o atual estúdio vai continuar a cargo da franquia – não me parece que tenham errado muito – tendo faltado apenas pensar um pouco mais fora da caixa, inovado mais. O orçamento talvez tenha sido menor, o prazo de desenvolvimento curto e o resultado não atingiu seu pleno potencial. Mesmo assim não me soa como um desperdício.

Há que se elogiar muito o fato da WB Games ter localizado completamente o game para nosso português do Brasil, com um vocabulário de aproximadamente 30 mil palavras (é muita coisa). Eu me lembro de jogar Scribblenauts no DS em inglês, o que me limitava muito quando queria dizer coisas mais complexas, especialmente na opção de adjetivos. Ter o game em português faz total diferença ao público pequeno. E foi até o principal motivo de querer testá-lo para escrever aqui no site.

Dá para concluir assim: se você é um destes jogadores que tem família e crianças por perto, total vale a pena ter Scribblenauts Showdown por perto. Sei que seu preço oficial está além do que normalmente deveria – lá fora custa 40 dólares, aqui 200 reais – a WB Games errou a mão nestes valores – porém vale ficar de olho em uma promoção futura caso sua condição na permita pagar por esse valor de lançamento.

Scribblenauts Showdown ainda está longe de desbancar a qualidade e massivo conteúdo que um Mario Party tem a oferecer nos consoles da Nintendo, porém em contrapartida, não há tantos jogos assim em consoles como Xbox One e PlayStation 4. Gosto muito da premissa de criar coisas escrevendo seus nomes. Funciona de uma forma que você não acredita ser possível em um primeiro momento e acaba se impressionando quando tudo que você consegue imaginar de fato foi programado para existir dentro do game. É incrível mesmo.

Para próxima investida fica apenas as seguintes sugestões: mais mini games diferentes (menos estes de ficar apenas apertando um botão), mais tabuleiros com novas cartas e um modo criativo de caixa de areia umas quatro ou cinco vezes maior. Não é preciso mudar a fórmula, mas o próximo passo é massificar o conteúdo e refinar as ideias. E, claro, disponibilizar o game em mais plataformas. É fato: Scribblenauts não merece ser aposentado tão cedo!

Galeria

Retorno de um longo hiato para Scribblenauts
Fórmula do party game funciona com a série
Carente de conteúdo (mini games, cenários puzzle)
Excelente estar localização em português
Ótimo para crianças em processo de alfabetização
Público mais adulto pode achá-lo "bobinho"

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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