O Enigma de Andrômeda | Risco biológico! (Leitura concluída)

Lançado originalmente em 1969, O Enigma de Andrômeda é uma obra impressionante. Seus argumentos são intrigantes e provocativos. A visão do autor, de uma medicina moderna potencializada por todo o dinheiro que os Estados Unidos poderia comprar na época chega a ser uma visão do futuro atual em vários pontos. E a ameaça a qual o livro se propõem a discutir é assustadoramente convincente. A ponto de nos fazer imaginar se algo assim já não aconteceu e a gente simplesmente nunca ouviu falar?

O Enigma de Andrômeda é um dos primeiros sucessos de Michael Crichton, um autor que talvez muito conheçam por uma de suas obras mais famosas, Jurassic Park. Um livro que foi publicado enquanto Crichton ainda estudava medicina em Harvard, e por isso o tema central da obra está correlacionado, o que é ainda melhor, pois há muita pesquisa e sustentação para deixar facilmente com que o leitor compre seu argumento, e rapidamente seja convencido de que tudo ali tem um pé aterrorizante de realidade.

O livro já havia sido lançado no Brasil em algum momento do passado, mas retornou às livrarias agora no último mês de maio, quando a Editora Aleph o publicou em uma linda edição, seguindo os padrões que a mesma já havia criado com as obras Jurassic Park e O Mundo Perdido. A edição física tem uma capa chamativa, com cores vibrantes, nesse caso o verde, além dessa pintura nas laterais do livro que o faz parecer ter páginas pretas (mas não tem, é só para aparentar mesmo).

Isso, aliás, dá um toque meio assustador à obra, somando a bela arte de capa em contraste com tal acabamento. Verde com preto possue mesmo cara de algo que poderia lhe infectar e te deixar doente. Ficou animal toda a estética e arte do livro nesta versão da Aleph.

O primeiro contato extraterrestre

A premissa de O Enigma de Andrômeda é bem simples. Crichton brinca com o argumento de que o primeiro contato da humanidade com uma vida extraterrestre pode muito bem vir a ser com organismos simples, como bactérias ou vírus. O espaço sideral é infinito e as chances de que a vida não exista apenas aqui no planeta Terra são altos, certo? Porém de acordo com a nossa ciência, que pode vir a ser realmente limitada, porém ainda assim pensativa, viajar pelo espaço não é tão simples quanto os filmes de ficção científica fazem parecer que é.

Na teoria do livro, aqui já não mais sob a perspectiva de Crichton, mas de uma grupo de cientistas que vão conduzir a trama, viajar por grande distâncias no espaço, sendo organismos complexos, requer muito mais tecnologia do que possuímos. O espaço é cheio de perigos, de energias e radiações que sequer compreendemos. Viajar de forma infinita, em algum tipo de veículo espacial é ainda mais complicado, pensando que qualquer aparato que pudesse viajar necessitaria de combustível. Nada vive no vácuo do espaço sem alguma proteção, exceto vírus e bactérias. Meteoritos já foram encontrados contendo tais organismos. Micro organismos vivem em condições extremas do planeta. Nas gélidas extremidades das calotas polares até as incríveis pressões marítimas do fundo dos oceanos. Viajar pelo espaço parece fichinha para estes organismos.

Portanto o primeiro contato alienígena com a Terra pode muito bem vir a ser microscópio. Quem sabe se isso já não aconteceu? A forma como surgiu a vida por aqui, por si só, já levanta algumas incertezas dentro da comunidade científica. E esse mesmo esse grupo de cientistas no livro vai além: e se nós estamos mandando vírus e bactérias para o espaço ao lançarmos satélites, que sofrem banhos de radiação espacial, e ao retornarem posteriormente à nossa atmosfera trazem estes organismos com mutações quando os mesmos caem de volta ao planeta? Isso parece bem crível, não?

O Enigma de Andrômeda é esse tipo de livro. Um ensaio sobre essa ótica. Crichton faz aqui uma brincadeira interessante, aonde o livro abre com uma chamada alertando o leitor de que tudo aqui é verdade, como se fosse um documentário falso da TV, dizendo que o relato que virá a seguir em seus capítulos eram pesquisas e documentos secretos do Governo Norte-americano, a qual agora podem ser revelados. Em determinado momento até mesmo eu cheguei a pensar de que tudo aquilo estava assustadoramente real demais. E é por causa dessa narrativa que o livro ganha uma trama que convence e intriga o leitor.

Medicina em 1969

Outro ponto de O Enigma de Andrômeda que me impressionou bastante foi a respeito da visão do autor de como poderia ser a medicina de ponta que os pesquisadores do livro teriam para desvendar um caso de um vírus alienígena que chegou ao nosso planeta. Para onde a ficção científica proposta pelo livro diz que a medicina consegue ir com alta tecnologia?

Crichton imaginou, em 1969, uma medicina que se parece muito com a atual medicina. Veja bem, não sou um especialista na área, mas consigo imaginar que na época em que o livro foi escrito não havia muitas coisas que temos nos consultórios médicos ou na prática da medicina moderna.

Coisas como resultados de exames complexos que ficam pronto em questão de minutos ou algumas horas, tablets que fazem a interação com o sistema automatizado de um laboratório e informam tudo que o médico precisa saber. Braços mecânicos que fazem microcirurgias ou sistemas automatizados com inteligência artificial simples que auxiliam os médicos. Entre outros aparelhos que sequer vou saber citá-los, mas que certamente haviam suas limitações ao final da década de 60. Hoje tudo isso parece mundano, comum, mas imaginá-los há quase 50 anos atrás? É um pouco incrível, admita.

Quando a atual ficção científica moderna imagina a medicina do futuro, hoje estamos pensando em corpos modificados geneticamente, transferência de consciência, mentes em ambientes virtuais, clones, aumento do tempo e vida e cultivo de órgãos e outras partes do corpo, ou até mesmo substituição cibernética. É a medicina do futuro, além de aonde podemos alcançar atualmente. O que Crichton faz em O Enigma de Andrômeda é bem mais sensato, pé no chão, porém eu me peguei perguntando o quanto isso não seria incrível no ano em que o livro foi publicado.

Acrescente aí a imaginação de Crichton ao construir uma doença que mata em questão de segundos ao entrar em contato com as vias respiratórias de qualquer ser humano. Isso, aliás, é o primeiro cenário do livro, quando um satélite cai em uma pequena cidade do Arizona e toda ela é exterminada de uma forma peculiar a qual não relatarei aqui para evitar spoilers. O ponto aqui é que apesar de uma doença assim não existir, isso foi escrito muito antes, por exemplo, do Ebola que assustou o mundo quando surgiu de uma forma agressiva na África, e que matava uma pessoa em questão de dias, sem tempo para qualquer tipo de tratamento. O Enigma de Andrômeda extrapola tal doença, a ponto de não ser sobre como salvar os infectados, e sim de como impedir que a doença se espalhe para todo o país e mate a todos.

O que achei? (sem spoilers)

Acho que já deu para perceber que O Enigma de Andrômeda me impressionou, certo? Eu realmente adorei o livro, que levou menos de duas semanas para ser devorado. Foi uma leitura muito rápida, sem tempo para sentir cansaço em sua narrativa. Gostei como a trama é conduzida, como o tema provoca curiosidade. Ciência é sempre interessante pra mim, mesmo quando colocada nesse formato em que namora muito com a ficção científica. O fato é que o autor usa muita pesquisa e dados científicos reais para montar sua ficção, tonando-a muito realista.

No que diz respeito aos personagens, esse grupo de quatro cientistas que se isolam do mundo em um super laboratório secreto para estudar esse organismo alienígena, o autor não faz muita questão de trabalhar o lado humano de todos. Não que sejam personagens desinteressantes, porém não são o foco da trama. O trabalho com eles é mais de dar um contexto a pontos de suas personalidades, como a liderança do Dr. Jeremy Stone ou os pontos em torno do Dr. Mark Hall, que é chamado em cima da hora e não tinha conhecimento de nada do que é este projeto montado por Stone e outros cientistas.

Aliás o livro também levanta uma hipótese de que um homem solteiro, sem família, pode tomar certas decisões que outros homens, casados, não poderiam. É estranho, mas tem uma narrativa muito bem construida. Não quero explicá-la em detalhes aqui porque faz parte de uma das surpresas do livro. O fato é que esse foi o elemento encontrado pelo autor para dar o momento de tensão que o final da obra vai precisar. Eu previ isso logo no começo, mas não estragou seu final.

Acho que vale apontar que O Enigma de Andrômeda não é um livro técnico, ainda que passe boa parte de suas quase 300 páginas, falando sobre medicina, procedimentos médicos, vírus e bactérias e doenças. Tudo é conduzido de uma forma bem natural e fácil do leitor compreender o que está acontecendo. Gosto como o autor se dedica a explicar como funcionaria um super laboratório secreto de diversos níveis para evitar riscos biológicos afim de evitar contaminação de todo o complexo.

O final da trama não é exatamente aquilo que achei que viria a ser. Admito que a solução encontrada pelo autor foi bem conveniente, mas ainda assim não é falha. Porém acredito que O Enigma de Andrômeda é mais sobre uma teoria e de cmo a conduzi-la do que sobre os resultados que a encerrariam.

Chega a ser interessante como a trama conduz o leitor, já o alertando previamente de coisas que seus personagens estão fazendo errados e apontando que isso terá reflexo mais a frente. E quando ocorrem você fica impressionado como fez sentido esse alerta.

É um livro sobre um cenário hipotético muito convincente. Narrado de uma forma que em vários pontos fica parecendo um documentário, o que ainda dá mais realidade a sua história. Um livro que me surpreendeu e se provou um dos mais divertidos que li ao longo desse ano.

Talvez peque um pouco em não trabalhar com alguns aspectos mais humanos ou por não extrapolar sua hipótese para algo mais louco próximo ao final da trama, mas  sendo um livro relativamente curto e muito prazeroso de ler não acredito que sejam grandes problemas para a obra. O ideia aqui é realmente algo mais direto, mais concreto. E o resultado faz jus a sua proposta. Vale muito à pena conhecer a obra.

Quem ficou interessado consegue encontrar o livro por um ótimo preço na Amazon. Fica aqui a indicação.

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10 Ficção assustadoramente realista
9 Gostoso de ler, sem cansar o leitor
9.5 Medicina imagina pelo autor em 1969 é impressionante
8.5 O caso é o protagonista do livro, não os personagens
9 Narrativa quase de um documentário/relato
9.5 Lindo acabamento da edição física pela Editora Aleph
9 Trama intrigante e intimidadora
9.2
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