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Análise | Journey to the Savage Planet

Disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC

Journey to the Savage Planet aterrissou no em AR-Y 26 no último dia 28 de janeiro, prometendo uma aventura de exploração espacial bem humorada e divertida. O título foi desenvolvido pela Typhoon Studios, que surgiu em 2017, criada em união por ex-empregados de grandes estúdios como Ubisoft, EA e WB Games Montreal, sendo este o primeiro projeto da equipe.

Em dezembro do ano passado, a Typhoon foi adquirida pelo Google, para dar suporte a line-up futura de jogos para o Google Stadia. Felizmente isso não prejudicou Savage Planet, que se manteve como um título multiplataforma, graças a parceria com a 505 Games, que atua aqui como publisher do jogo a nível global.

Enfim, seguindo adiante, Journey to the Savage Planet chega oferecendo uma experiência bem singular, inspirado em como os jogos de mundo aberto tem evoluído nestes últimos anos, dando certa liberdade ao jogador, enquanto consegue balancear de forma muito positiva sua progressão e a sensação de recompensa. Oferece uma experiência de gameplay em perspectiva em primeira pessoa, mas não se configura exatamente como um shooter, ainda que haja uma arma e criaturas que precisam ser baleadas. O título tem como foco a exploração, enquanto se analisa e escaneia a fauna e flora, coleta elementos para criar novos equipamentos dentro de um sistema de árvore de habilidades e oferece pequenos puzzles que permitem o avanço para novas áreas. Tem de tudo um pouco, o que lhe confere uma jogabilidade com diversidade, ainda que isso lhe custe alguns tropeços em certos elementos.

Explorador com poucos recursos

Dentre os elementos que mais se destacam em Journey to the Savage Planet, sua narrativa bem humorada figura entre a que melhor confere imersão para se sentir dentro da aventura. O jogador começa sua aventura acordando em sua nave, já estabelecida em um distante planeta em algum canto da galáxia. Sua missão? Explorar a fauna e flora afim de verificar a viabilidade de colonização da raça humana no mesmo.

O ponto é que logo de cara o jogador descobre uma imensa torre, claramente construida por vida inteligente, sendo que não havia qualquer indício de que outra raça inteligente poderia estar instalada no planeta. Cabe então a você descobrir mais sobre a torre, se há alguém vivendo lá ou o que tudo isso pode significar aos planos originais da missão.

Aí vem os pormenores. Primeiro que a companhia a qual seu personagem trabalha é somente a 4ª melhor, o que significa que algumas coisas ela vai lhe deixar na mão. Por exemplo, você foi enviado ao espaço sem qualquer equipamento ou ferramenta, sequer uma arma para se defender! E claro, sem combustível para voltar para a casa, na torcida para que haja algo nesse planeta que sirva para substituir o precioso composto de ignição. Entretanto não se preocupe, pois dentro da nave, que perdeu alguns pedaços na aterrissagem, e isso é algo que você deve se preocupar eventualmente, há uma incrível impressora 3D que pode lhe oferecer o que for necessário para sua jornada, ao custo de materiais que precisam ser coletados durante a exploração do planeta.

Isso não quer dizer que o título tenha um forte sistema de crafting (construção de diversas coisas) como um Minecraft ou No Man Sky. É um elemento bem simplificado, composto por quatro tipo de recursos que vão ser encontrados pelos planeta: carbono, silício, alumínio e uma espécie de liga alienígena. São elementos necessários para criar novos itens dentro de uma árvore de habilidades baseadas em ferramentas. É bem simples e nada cansativo como jogos de crafting tendem a ser.

Voltando a narrativa, toda essa história é explicada ao jogador por meio de dois personagens, o presidente dessa quarta melhor companhia de exploração espacial, que fica lhe mandando vídeos pelo computador da nave, e que o jogo apresenta como pequenos curtas live action, filmados de forma propositalmente tosca, para o efeito cômico. Funciona muitíssimo bem. E ao longo da aventura o jogador também conta com os comentários e explicações da simpática inteligência artificial da nave, que é meio sarcástica e irônica, com um toque de deboche cheio de positividade, mas que talvez ela sequer saiba que está sendo isso. Há excelentes tiradas e piadas vindas da I.A. em relação a coisas e situações na qual o jogador irá se meter ao explorar o planeta AR-Y 26.

Some ao elemento humor do jogo outros pequenos extras, como e-mails no computador na nave que revelam um pouco de como está o mundo na Terra ou outros dados de todos que foram enviados ao espaço em busca de novos planetas habitáveis, sempre em textos bem humorados, enquanto o jogador também recebe vídeos, também em live action, promocionais dos mais bizarros comerciais que você poderia encontrar em um jogo assim, como um eletrodoméstico na qual você pode criar um amigo artificial usando em carnes velhas e vencidas que estão no lixo de sua casa. Isso mesmo!

Journey to the Savage Planet manda muito bem em sua apresentação, entregando um plot nada complexo, porém com carisma para colocar um sorriso no rosto do jogador. Isso vai posteriormente também representar a direção de arte por todo o jogo, do ambiente colorido as mais estranhas espécies de criaturas. É um título que não se leva a sério e tem muita consciência disso, se aproveitando exatamente disso.

Mais aventura, menos perigo

Quando se passa para a parte da jogabilidade, Journey to the Savage Planet oferece um estilo mais descontraído, focando na aventura do que em dificuldade e perigos que possam interromper a experiência planeta afora. Não é um título exatamente focado em matar o jogador e oferecer um ciclo de repetição por meio do aprendizado ou fortalecimento.

Não significa que o jogador não irá morrer. Eu mesmo morri algumas vezes, muito mais no início do que nas horas posteriores, e na maior parte das vezes por desatenção minha mesmo, e não porque o jogo estava dificultando demais as coisas. Isso porque em AR-Y 26 há uma espécie de planta que lhe revigora sua saúde, basta dar um tapa na planta, fazendo-a cuspir suas frutas, e também há uma gosma laranja gelatinosa que o protagonista resolve comer – mesmo não parecendo saborosa – que aumenta sua barra de saúde.

Há perigos no planeta. Sua geografia, por exemplo, oferece diversas áreas em que se pode cair de grandes alturas. A interferência da tal torre misteriosa criou ilhas flutuantes ao redor da mesma, a qual o jogador deve explorar afim de descobrir novos recursos e habilidades que vão lhe ajudar a para novas áreas pelas redondezas. Cair de grandes alturas não é uma boa ideia, especialmente porque em muitos cenários a morte é quase certa, enquanto em outras um pequeno robô auxiliar da sua nave por lhe pegar, porém ao custo de uma parte da sua barra de saúde.

Quanto a flora e fauna, embora grande parte dela seja inofensiva – o lagarto de três (ou duas) cabeças que sai gritando, em um som muito estridente, chega a ser hilário – há algumas em que podem lhe oferecer risco. Existe uma planta cascuda que fica cuspindo espinhos, enquanto uma outra solta uma nuvem alucinógena que distorce totalmente seu campo de visão por alguns segundos. Nos animais, há uma espécie de molusco voador que pode cuspir tinta ou ácido na sua cara, porém o mais ameaçador provavelmente é uma espécie de lagarto gigante, do porte de um tigre talvez, que lhe persegue rodopiando na terra, tal qual o Sonic faz em seus jogos.

São pequenos perigos, a qual jogadores atentos conseguem lidar sem grandes problemas. São elementos que impedem que a aventura perca um tempero necessário para tal tipo de proposta. Para não deixar tudo fácil ou simplório demais. E os mencionados não são os únicos exemplos, há mosquitos linguarudos e girassóis olhudos que também vão lhe enfrentar, dentre outras coisas.

Parte do desafio maior de Savage Planet é descobrir como seguir adiante, descobrindo novos recursos que vai lhe levar para novas áreas. Investigar, escanear, coletar faz parte da brincadeira, enquanto o planeta lhe envolve em um sistema que lhe recompensa frequentemente por fazer isso. E o ponto é que o jogo não complica demais isso, optando por uma abordagem mais simplista, que melhora muito seu ritmo e dinâmica frente a outras jogos similares que possuem proposta semelhante de exploração e imersão.

Missões secundárias também estarão presentes ao longo da aventura. Missões que vão desde conseguir amostras de DNA de certas criaturas, a explorar meio de matá-las de formas bem específicas. E ao fazer isso o jogador é recompensado com novas habilidades ou melhores de habilidades que certamente vão lhe fazer curtir ainda mais sua missão de explorar este mundo.

Outro elemento que é muito positivo dentro de sua jogabilidade diz respeito aos elementos de plataforma e verticalidade na exploração. O título é muito aberto nesse sentido, levemento inspiradoro no que jogos de mundo aberto como The Legend of Zelda: Breath of the Wild e Super Mario Odyssey fizeram recentemente ao gênero em si. O jogador desde o início tem uma liberdade grande para explorar certas áreas, ainda que haja um único caminho para destravar a próxima habilidade. Há muitos cantos e segredos espalhados pelo jogo para àqueles não interessados em seguir a lógica trilha de migalhas.

E veja bem, não estou comparando Savage Planet com a maestria na qual os dois títulos mencionados acima executam suas propostas. É injusto comparar uma obra de produção independente com tais títulos da Nintendo, que possuem equipes enormes para o desenvolvimento, além do orçamento gigantesco. O ponto é que o jogo pensa, em seu próprio jeito contido, com as ideias apresentados em tais jogos. Você não pode ir para o final do jogo logo de cara, como poderia ir em Breath of the Wild (só para tomar uma surra), mas tem uma visão geral do mundo, e as áreas, quando abertas, são livres para uma exploração por caminhos que não necessariamente vão lhe levar a algum lugar. Você as explora por prazer, muito semelhante a forma como Mario Odyssey opera. Dá para cortar caminho entre áreas, simplesmente pulando de um altura enorme e acionando seu impulso na hora exata, antes de se esborrachar no chão. Também para escalar em locais que claramente não seria o melhor caminho a se seguir.

Enfim, há liberdades que normalmente não se espera em jogos assim. É um jogo que, por exemplo, não me frustrou com paredes invisíveis. Em nenhum momento me frustrei por não conseguir escalar um local ou tentar passar por um espaço que claramente poderia passar se forçasse a passagem pelo mesmo. Isso dá um grande senso de exploração e imersão. Incentiva o jogador a testar e experimentar, tirando-lhe do caminho óbvio, alongando as horas de gameplay do jogo, sem que isso soe negativo a experiência em si.

Talvez o único ponto que possa ser criticado diz respeito ao combate com a pistola na perspectiva em primeira pessoa. Aqui poderia dizer que há um pezinho de inspiração em Halo, mas não muito bem executado. O som da arma e a forma como a mesma recarrega sua munição até são elementos legais, mas a sensação de mirar e atirar do título é bem fraca. A impressão é que faltou uma assistência melhor de mira, algo muito comum nos jogos de tiro para console, na qual o jogador não tem como usar a eficiência de um mouse de PC. É comum se frustrar tentando atirar em inimigos e não acertar seus pontos fracos. Não é a pior coisa do mundo, que fique bem claro, porém está longe de ser ideal.

A boa é que Savage Planet não é sobre combates. Ao menos em grande parte. Há alguns momentos que simulam batalhas de chefes, e são situações boas dentre a narrativa proposta, mas no geral são confrontos mais focados pela diversão da quebra da experiência da jogabilidade, do que memoráveis confrontos super complexos e desafiadores. É pra ser divertido e bacana, e nada mais além disso.

Indo adiante, Journey to the Savage Planet executa muito bem a acessibilidade de seu mundo aberto sem apresentar nenhum tipo de longos carregamentos de tela. O jogo sequer obriga o ir e voltar por áreas já exploradas, possuindo um excelente e muito bem bolado sistema de teletransporte em áreas chaves. É tudo muito bem conectado, afim de até mesmo quando o teletransporte é utilizado, entregando um tempo de loading muito rápido. Ao menos esta é a experiência que tive com o título no Xbox One, plataforma a qual utilizei para jogar o título.

Além de tudo disso, o jogo também oferece uma experiência de aventura em multiplayer online para dois jogadores. Infelizmente não há suporte para multiplayer local para dois jogadores, com tela dividida. O modo cooperativo funciona apenas com suporte online, dois jogadores em seus respectivos consoles, com suas próprias cópia do jogo. E nada de cross-plataform, o que acredito que seja algo ainda esperado para esse tipo de jogo (algo que espero mudanças na próxima geração, segundo tendências). Entretanto é uma opção interessante e até mesmo oportuna para esse tipo de jogo. Não tive a oportunidade de testar, mas imagino que explorar online com um amigo seja tão divertido quanto a experiência solo oferecida.

Considerações finais

Journey to the Savage Planet foi uma surpresa pra mim. Admito que depois de tantos jogos de exploração espacial nesta geração, situados em planetas inventados, com diferentes propostas, e pertencentes a diferentes gêneros,  este é um título que chegou sem grandes aspirações que ainda assim conseguiu entregar o que qualquer jogo precisa justamente entregar: diversão.

É um jogo de experiência leve, sem uma grande dificuldade, mas com bom ritmo, que recompensa quem realmente gosta de explorar o ambiente em jogos. É tão divertido que até mesmo o meu pequeno, de 7 anos, ficou interessado em jogar. Ele adorou o mundo colorido do jogo, suas estranhas criaturas e o fato da jogabilidade não ser nem um pouco punitiva. O jogo é intuitivo, funcionando para qualquer tipo de jogador, do mais jovem ao mais velho.

Seria bem diferente se o jogo resolvesse assumir uma gama maior de elementos. Por exemplo, foi febre em certo momento dessa geração de consoles jogos espaciais baseados em sobrevivência. Se Savage Planet tivesse elementos como fome, sede e cansaço, teria achado um porre e igualmente semelhante a muitos outros jogos já existentes. É uma maravilha que não tenha nada disso no jogo! O protagonista apenas tem uma barra de saúde e um de vigor (para não correr de forma infinita, o que é justo).

Sua direção de arte é outro acerto. O jogo é ridiculamente original em sua arte, sabendo brincar muito bem com tons vívidos de cores, dando um ar amigável, sem soar realista ou infantil demais, ainda que parece ser bem agradável ao público mais novo, como pude perceber pelo deslumbre do meu filho pequeno. A fisionomia da fauna alienígena segue um quê de absurdo com uma pitada de feiura cômica, o que combina com toda a estética do jogo e garante algumas genuínas risadas. E é exatamente o que você gostaria de ver em uma mundo alien, quanto mais estranho, mais sentido faz, convenhamos.

A única queixa técnica na parte visual que posso mencionar, ainda que não tenha me incomodando muito, diz respeito sobre como as criaturas aparecem em grandes distâncias no ambiente. Quando estas estão muito longe, elas apresentam uma taxa de quadro baixíssimo, se movimentando como se fosse robôs. É estranho, e isso deve ser para que elas não sumam no horizonte e para não sobrecarregar o tanto de elementos que estão presentes próximos ao jogador. Não sei, entendo que talvez tenha rolado uma gambiarra técnica para não prejudicar o framerate do jogo, mas é uma solução não lá muito elegante.

Na parte da jogabilidade não tenho que reclamar além do que pontuei lá para cima do texto em relação a sensação de atirar no jogo. No mais, pra mim foi só diversão. Pular é bacana, assim como escalar e explorar o jogo, que faz muito bem o acerto de não colocar muros invisíveis onde normalmente poderia se colocar. Não comentei acima, mas achei divertido o sistema de consumíveis secundários a qual o jogador carrega em sua mão esquerda por toda a aventura. São itens que vão desde cocôs rosas para grudar os inimigos a bolotas de ranho que se transformam em trampolins para pular em algumas plataformas. São boas ideias e que somam as habilidades a qual o jogador vai desbloqueando ao longo da aventura.

Journey to the Savage Planet tem um excelente ritmo, oferecendo uma quantidade decente de horas de jogo, de 20 a 30 horas, dependendo do quanto você decidir explorar seu mundo e seus segredos. Há colecionáveis, há missões secundárias, há diversos segredos escondidos no mundo do jogo que contam um pouco do mistério da torre não construida por humanos. As batalhas de chefes são inesperadas e o humor do jogo está sempre presente, oferecendo algo descontraído e que em nenhum momento vai lhe estressar. Sendo o primeiro projeto da Typhoon Studios, claramente com um orçamento condizente com um jogo mais independente, o título entrega exatamente o que promete, fazendo muitos acertos e apresentando pouquíssimos tropeços. É uma equipe que claramente vale a pena acompanhar seus próximos projetos, ainda que agora sob a tutela do Google Stadia.

Galeria

Dando uma nota

Cativante e bem humorado em toda sua apresentação - 9
Não complica sua jogabilidade, apostando em mecânicas mais simples - 8
Bem localizado em português (legendas), garantido acessibilidade ao humor de seu texto - 9
Gostoso de explorar, com bom ritmo em progressão - 8.5
Combate usando a pistola é um tanto fraco, mesmo não sendo esse seu escopo - 7
Oferece multiplayer online (sem local) para dois jogadores - 7.5
Árvore de habilidades e itens consumíveis oferecem bons recursos ao gameplay - 8

8.1

Bacana

Journey to the Savage Planet é uma deliciosa aventura espacial de exploração, que aposta na simplicidade para entregar uma experiência divertida e bem humorada, sem frustração ou repetição desnecessária. O título solta o jogador em um cativante planeta altamente colorido e cheio de feiosas criaturas. Há um ótimo sendo de progressão e descoberta muito bem amarrado a sua proposta.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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