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Pateta nº Zero | Discutindo as HQs da edição

Revista lançada em março de 2019, pela Editora Culturama

Durante muito anos, as mensais Disney tinham uma divisão muito injusta entre HQs do núcleo dos Patos de Patópolis e das grandes aventuras com os personagens do núcleo de Mickey Mouse. Afinal, Donald e Patinhas sempre tiveram suas próprias revistas mensais. E estou falando de décadas de publicação. Muito mais espaço para as aventuras com os patos. Donald e Patinhas compartilham aventuras e estão presentes constantemente nas revistas um do outro.

Já a mensal do Mickey, por muito tempo, sempre foi uma mensal solitária, sem uma outra companheira para dividir aventuras. Suas grandes aventuras sempre saíram em sua mensal, e esporadicamente na saudosa Almanaque Disney. Pateta, Horário, Minnie, Chiquinho e Francisquinho,  Clarabela, Indiana Pateta… todo mundo compartilha o espaço da revista do Mickey. Até que surgiu uma mensal apenas para o Pateta.

E isso não foi há pouco tempo não. A primeira tentativa aconteceu em 1982 e durou 56 edições. Depois disso ela retornaria em 2004, e ficou nas bancas por mais 26 edições. Após um pequeno hiato, em 2011 a revista retornaria para sua terceira tentativa, que foi a que teve a maior longevidade: 87 edições. E agora a Editora Culturama traz a revista solo do Pateta de volta. Basicamente a 170º edição da revista, ainda que no expediente no final da edição zero, a contagem só esteja considerando as 87 edições da mensal que estreou em 2011. A edição zero se considera a edição de número 88 na nomenclatura R.P.B. (Revistas Publicadas no Brasil). Matemática estranha, mas tudo bem.

Enfim, como estava dizendo, é legal que haja uma revista do Pateta, afinal é mais espaço para histórias dentro desse núcleo de personagem. O ponto é sempre irei a considerar como um complemento para a revista do Mickey. São mais histórias desse núcleo de personagens, ainda que em Pateta ele sempre tenha um espaço maior para se destacar dentro das tramas. Ou ao menos participar. É a mensal que também não me importaria de ver seu primo, Indiana Pateta, fazendo presença, ainda que a Culturama ainda não tenha revelado quando veremos esse personagem de volta ao Brasil – embora ele se encaixaria muito bem aqui, em Mickey ou até mesmo em Aventuras Disney.

E antes de continuar, é importante recapitular. A Editora Culturama é a nova casa dos Quadrinhos Disney no Brasil. — Sob essa nova proposta, a Culturama veio, neste momento inicial, com cinco títulos mensais: Mickey, Pato Donald, Tio Patinhas, Pateta e Aventuras Disney. Todos com numerações zeradas, com melhorias gráficas, papel mais branquinho e de melhor gramatura, impressão de qualidade que reforça as cores dos quadrinhos e número de páginas padronizado: 64 páginas cada revista. Preço sugerido de 6 reais cada.

Se você perdeu, já consta aqui no site as impressões das mensais do Mickey Zero, Pato Donald Zero e Tio Patinhas Zero. Falta apenas Aventuras Disney, a qual suas impressões deve sair já nos próximos dias e fechar esta rodada das edições zero. Afinal, as edições um já estão sendo distribuidas!

Seleção invertida

Se você pensar na revista da Pateta como um complemento da mensal de Mickey ela funciona. Caso contrário, vai encontrar alguns problemas nessa edição zero. A começa pela HQ que dá o destaque de capa. Essencialmente ela não é uma aventura estrelada pelo Pateta, dono da revista. Aqui ele é apenas um personagem secundário.

Acredito que tenha sido aquele clássico caso de história que tinha uma bonita arte de capa e acabou sendo escolhida como destaque apenas por isso. A segunda história, esta sim protagonizada pelo Pateta, não tinha como ilustrar a sua edição zero porque simplesmente não existe uma arte de capa feita lá fora para a mesma. E a Culturama ainda não está produzindo suas próprias capas.

Na minha opinião isso traz alguns pequenos problemas práticos a edição zero do Pateta. Especialmente pensando em novos leitores. Além de sua edição zero não dar o destaque ao personagem na HQ que abre a edição, a mesma também insere na revista a personagem da Eurasia Tost, a qual também é desconhecida para qualquer um que esteja chegando agora no universo dos Quadrinhos Disney.

A revista não se preocupa em fazer uma apropriada apresentação do Pateta aqui nos quadrinhos. Que apesar de manter muitas características que podem ser encontradas em suas animações, ainda assim não tem os mesmos trejeitos sempre. O Pateta dos quadrinhos tem suas peculiaridades, e é menos “abobalhado” do que alguns de seus desenhos mais clássicos, a qual se abusava muito das piadas físicas. Isso não ocorre nas atuais HQs do personagem (dada raras exceções).

Não sei, a meu ver, se havia essa vontade de uma HQ que envolvesse Mickey, Pateta e um arqueólogo, que se tivesse escolhido uma com o Indiana Pateta, primo do Pateta e que causaria a sensação de “Pateta em Dobro”. Seria mais divertido, a meu ver. E já consideraria o Indiana um personagem regular dessa revista. O que seria algo interessante de se fazer, acredito.

Enfim, a história que melhor posiciona o leitor que está chegando agora ao universo do Pateta, acaba sendo a segunda história da revista. Ela deveria abrir a edição. E talvez uma capa mais genérica, sem referenciar a HQ dentro da revista, tivesse sido mais apropriada para uma edição zero do Pateta. Simples assim.

  • Pateta e Mickey em a Profecia dos Saurotecas
    Roteiro: Vito Stabile e Desenhos: Marco Mazzarello

Voltando então para a primeira HQ, agora sim podendo discutir um pouco mais a seu respeito, temos então a personagem da Eurasia Tost como um dos personagens condutores da trama. Eurasia surgiu em 2010, na HQ A Expedição Perdida, uma ótima HQ, publicada no Brasil no mesmo ano (Mickey 814) e também republicada em 2016 (Disney BIG 37). A jovem é uma criação de Casty, um dos melhores roteiristas da atualidade, que andou reinventando o Mickey ao longo dos últimos anos, com tramas sempre muito inteligentes e grandes aventuras.

Casty parece preferir usar sua própria criação, ao invés do Indiana Pateta (que tem a mesma pegada, mas é criação de outro roteirista – Bruno Sarda o criou em 1988). Entretanto há um porém importante aqui: a HQ dessa edição zero não tem roteiro assinado pelo Casty, é de outro roteirista. Aliás essa é a primeira vez que vejo a Eurasia sendo usada por outro roteirista que não fosse o Casty. Não sei se o resultado disso foi positivo.

Em parte porque a história é uma bagunça estranha. Envolve uma profecia, a qual a HQ brinca com a série Maquina do Tempo, onde Mickey e Pateta viajam para o passado, normalmente em locações e períodos baseados na história real da humanidade, através de uma máquina criada pelos professores Marlin e Zapotec, que dirigem um museu e vivem envoltos em enigmas do passado. Mas aí a máquina quebra e fica a cargo de Mickey e Pateta resolverem o mistério no presente mesmo. O que eu achei um balde de água fria, pois gosto quando eles viajam no tempo. Mas o leitor de primeira viagem não vai sentir esse problema.

Pra mim é nesse ponto que a história se perde um pouco. A profecia em si tem uma solução bem…”boboca”? Ah sei lá, normalmente as histórias da série Máquina do Tempo tem algo a ensinar ao leitor. Alguma curiosidade sobre o passado, alguns referências sobre história. Não há nada aqui. É apenas uma coisa mais nonsense mesmo. E Eurasia não acrescenta em nada a aventura, ainda que participe um pouco da mesma. Casty parece saber a utilizar melhor.

Bafo e Tudinha, que fazem os vilões da HQ, são os que se saem melhor no roteiro. O casal são divertidos como vilões, e criam bons momentos na história. E nessa salada de personagens, o Pateta quase desaparece na história. E no fim, nada é apresentado direito ao novo leitor. Não se fala sobre Eurasia, sobre a Tudinha, sobre a série Máquina do Tempo. Leitores habituais não vão estranhar nada disso, mas considerando que o objetivo aqui é atrair novas pessoas, especialmente crianças, essa é uma HQ que tem elementos demais e é mais caótica do que deveria para abrir a edição.

  • Pateta, Horácio e a Água Fóssil
    Roteiro: Giorgio Salati e Desenhos: Marco Mazzarello

A segunda HQ, que a meu ver deveria abrir a edição, é muito mais simples, e portanto funciona bem melhor ao próposito de uma revista do Pateta. E sendo simples, isso não significa qualquer demérito. Pelo contrário, me diverti muito mais com ela, que convence o leitor por sua simpatia.

Aqui Pateta descobre em seu jardim um estranho ser feito de água, que está passando por um certo problema, ao ter sido retirado de seu habitat natural, por uma milionária inescrupulosa. Pateta, e Horácio, resolvem ajudar a pobre criaturinha a resgatar seus amigos e voltar para sua cidade escondida.

É uma aventura que funciona como uma fábula. É algo que crianças vão se sentir conectadas. E é uma aventura bonitinha. Com boas piadas feitas pelo Pateta e pelo Horácio. Adoro a cena que o Pateta pega um secador de cabelo para secar suas flores, sob o pretexto de que não quer que elas fiquem resfriadas. É um humor muito infantil, mas que casa totalmente com a persona do personagem.

A vilã da HQ também funciona bem, sendo que a mesma parece ter tido alguma inspiração no visual da personagem Edna Moda (da série Pixar Os Incríveis), que por sua vez é baseada em uma famosa estilista chamada Edith Head. A ideia de uma milionária excêntrica que coleciona água funciona no conceito da trama. E justifica seus meios e motivações.

E a aventura é divertida. Seja Pateta e Horácio descobrindo a tal criatura feita de água na casa do Pateta, seja eles decidindo ajudá-la e entrando disfarçado na mansão da milionária. Ambos são atrapalhados quando estão juntos, e causam bons momentos de diversão. Essa HQ é a estrela da edição.

Finalizando

A revista mensal do Pateta é uma daquelas revistas que não vejo como alguém a colecionaria sem colecionar também da revista do Mickey. A meu ver uma complementa a outra. O que talvez seja um pouco diferente do que ocorre em Tio Patinhas e Pato Donald.

Para esta edição zero, erros foram cometidos. A aventura que abre a edição não é de se jogar fora, entretanto não é uma boa HQ de inicialização de leitores. Por mais que a arte de casa dela seja incrível, o que não é de se surpreender já que foi feita pelo Giorgio Cavazzano, a mesma não representa a qualidade da história em si, muito menos o que deveria ser uma revista para o Pateta. Já Água Fóssil, a segunda história, faz isso com tremendo sucesso.

É preciso ter um pouco mais cuidado com isso. Estando no quarto texto sobre as edições zero dos Quadrinhos Disney sob o teto de uma nova editora, o que se percebe é que talvez não estejam se preocupando tanto quanto deveria com a seleção de história e como ela é importante para leitores que querem começar a colecionar a partir de agora. Está faltando contexto, algo diferente do que se estava fazendo na Editora Abril. E não que a fórmula estivesse errada… mas sacudir as coisas não faz mal. Pateta da Culturama me parece totalmente algo que Pateta da Abril estaria entregando em termos de seleção de HQs.

E não que dê para fazer algo diferente. O personagem não tem revista própria lá fora, nos países que produções novas HQs Disney. Assim ficamos restritos a aventuras onde ele nem sempre é o protagonista. A solução disso talvez fosse fazer sua revista ser dividida com outras de suas facetas (séries dele), parentes (Indiana) ou personagens secundários (Horácio, Clarabela, Pluto) do núcleo da turma do Mickey. Parece ser uma revista que poderia deter exclusividade, por exemplo, sobre as aventuras do Superpateta – que este mês está em Aventuras Disney. A aventura do Superpateta que está em Aventuras Zero deveria estar aqui, em Pateta Zero. E essa da Eurasia poderia ter sido alocada em Aventuras – faria mais sentido lá.

Sei que estou sendo chato nestes detalhes, mas acho que estas coisas importam, especialmente quando se pensa em pessoas e crianças que estão pegando estas revistas pela primeira vez. Entende alguns contextos, algumas coisas “bobas” que estas revistas possuem (porque não são quadrinhos de adultos), faz toda a diferente na qualidade do produto em si.

A mensal do Pateta mostrar que ela pode ser tão boa isoladamente quanto a mensal do Mickey. Há material para isso. Entretanto o que eu vejo nesta edição, é apenas a visão dela ser um complemento. Isso pode ser melhorado. Não acha?

Onde encontrar? Bem a Culturama tem cantado em seus canais oficiais e na abertura da revista que ela é uma empresa que se orgulha de ser eclética. Já há um sistema de assinatura e suas revistas também estarão à venda em bancas de jornal, assim como supermercados, lojinhas de conveniências, farmácias e onde mais ela conseguir inserir seus pontos de venda. Na teoria isso é legal, na prática ainda está sendo aplicado. Aqui em Jacareí, interior de São Paulo, ainda não encontrei as edições zero. Eu, como colecionador, me preocupo com isso.

Se você está com problemas para encontrar estes novas revistas posso dar um conselho: pergunte ao seu jornaleiro o contato da distribuidora de revistas da sua cidade. Se ele puder lhe passar, faça contato lá e pergunte se eles estão sabendo do retorno das revistas Disney pela Culturama. Eu fiz isso aqui e descobri que ninguém estava sabendo. Após o meu contato prometeram resolver isso o quanto antes. Outra dica é enviar um e-mail diretamente para a editora, no quadrinhos@culturama.com.br ou sac@culturama.com.br. Informe sua cidade e peça informações sobre pontos de venda, alegando não estar encontrando as revistas. Alguém deve lhe ajudar.

Por fim, posso dizer para que aqueles que nunca leram nada de quadrinhos Disney que deem uma chance nesta nova fase. Vale a pena, especialmente se você tiver uma criança pequena orbitando ao seu redor. Dê essa alegria aos pequenos, pois nesse Brasil da ignorância, faz bem introduzir a criança em bons quadrinhos. sejam eles Disney ou não.

Dando uma nota

Acabamento gráfico primoroso da nova editora - 10
HQ - Pateta e Mickey em a Profecia dos Saurotecas - 6.9
HQ - Pateta, Horácio e a Água Fóssil - 10
Para um edição Zero, a escolha da HQ de capa parece errada - 5

8

IAC

Pateta Zero é uma edição meio a meio. Há duas histórias, uma representa muito bem a mesma, a outra parece perdida em um caos de coisas que novos leitores não são apropriadamente apresentados. Mas o Pateta é um personagem legal, cheio de carisma e que merece uma chance de ter sua própria revista e suas próprias aventuras. A editora só precisa ficar mais atento a seleção de HQs no futuro.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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