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Análise | The Dark Crystal: Age of Resistance Tactics

Disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC

The Dark Crystal: Age of Resistance Tactics é – como título em si sugere – um jogo de batalhas táticas por turno baseado na série exclusiva da Netflix lançada em agosto do ano passado, que tem como base um clássico filme de 1982 de mesmo nome (porém sem o subtítulo). Aqui no Brasil o seriado recebeu um título localizado: O Cristal Encantado: A Era da Resistência. Quanto ao jogo, apesar de ter recebido uma localização em português, é mais fácil encontrá-lo nas lojas digitais (nas plataformas a qual foi lançado) pesquisando seu título original em inglês.

O game foi desenvolvido pelo estúdio norte americano BonusXP, que também foi responsável pela produção de outros jogos baseado em um produto original Netflix, Stranger Things 3: The Game. A distribuição global do jogo ficou a carga da En Masse Entertainment. Curioso também apontar que o título chegou aos consoles e PC somente agora no último dia 4 de fevereiro, quase seis meses após o lançamento da primeira temporada na Netflix – que segue até o momento sem uma oficialização de que haverá uma segunda temporada.

The Dark Crystal: Age of Resistance Tactics segue os exatos eventos da série na Netflix, o que significa que é altamente recomendando que se assista primeiro o show e depois se jogue o game. Afinal, em termos de trama e roteiro, a série explora muito mais esse universo e seus personagens; deixando o game apenas a linha narrativa mais direta e objetiva para que justifique a parte mecânica dos combates, sem se aprofundar demais no que é possível assistir no seriado.

Então fica o alerta: jogar sem ter assistido o show lhe dará spoilers caso queira posteriormente ver a produção da Netflix. Além disso, jogar sem conhecer estes personagens não lhe dará a mesma empatia que àqueles que viram o show possuem ao jogar o título. É um produto que requer uma ação combinada para funcionar em sua plenitude. O jogo até funciona sozinho, sem que você precisa ver o seriado, entretanto perde muito de sua força dessa forma.

Rebele-se (taticamente) para salvar Thra

A história de O Cristal Encantado se passa em um mundo de fantasia, um planeta chamado Thra, na qual vivem as criaturas conhecidas como Skeksis, que estão no topo da hierarquia dentre todas as raças, e também há os Gelflings, uma raça em maior número, porém fraca e segmentada em diversos clãs. Na trama, os Skeksis são os guardiões de um Cristal que controla toda a vida do planeta, e descobrem que podem usar a energia desse cristal para obter poder e vida eterna, mas as custas da absorção da essência vital de outras criaturas a qual eles julgam serem inferiores, como os Gelflings.

A trama segue com pequeno núcleos narrativos de diferentes Gelflings descobrindo o nefasto plano dos Skeksis de sugarem a vida de diversos Gelflings afim de terem poções o suficiente para todos ganharem vida eterna, já que o processo dessa poção e do Cristal ainda precisam ser aperfeiçoados. Uma rebelião precisa se impor, a verdade precisa ser revelada e o Cristal que guarda todo o planeta também precisa ser salvo, pois os Skeksis não estão muito preocupados com o fato de que suas pesquisas estejam causando rachaduras no Cristal.

A série da Netflix explora muito bem as diversas nuances destes núcleos narrativos. Diferente do jogo, aqui essa divisão entre diversos clãs de Gelflings servem mais para ir apresentando classes de combate distintas, enquanto que as regras de combate vão sendo explicadas em um ritmo bem cadenciado. Ao todo o título possui 14 personagens jogáveis, dentre Gelflings e outras criaturas, que vão sendo destravadas ao longo da progressão de sua campanha principal.

O interessante é que The Dark Crystal: Age of Resistance Tactics é um jogo de batalhas táticas bem básico, perfeito para aqueles não habituados com o gênero. Jogadores veteranos podem sentir que o título não aproveita de todo seu potencial e nem eleva sua dificuldade a níveis a quais poderia se desejar, o que pode incomodar um pouco àqueles que procuram algo mais impactante. O ideal seria o jogo balancear um pouco essa sensação, mas a impressão que tive é que ele fica mais no lado de um Tactics mais amigável para quem não está habituado ao gênero. Acaba sendo um bom jogo de introdução à fórmula.

Outro ponto é que as batalhas não tendem a se tornar tão complexas quanto esse gênero pode vir a ser. Foram raras as ocasiões em que não consegui vencer os combates em uma primeira tentativa, sendo que as batalhas mais complicadas foram situações em que Skeksis estava em jogo, pois é um personagem que tem basicamente o triplo de HP em relação a todas as outras criaturas, levando muito tempo para ser nocauteado, além de ter resistência a muitas condições de dano, e poder usar magias que atordoam, confundem ou até mesmo toma pra si personagens que compõe a equipe do jogador. É o inimigo que mais exige estratégia para ser combatido.

Nos demais casos, o jogador confronta criaturas do mundo de Thra, como vespas ou aranhas, enquanto também confronta muitas classes e raças de Gelflings que ainda não conhecem a verdade por trás dos planos dos Skeksis, considerando assim o seu grupo como traidores. Estes personagens não tendem a dar muito trabalho, mesmo que em maior número. Isso claro, na dificuldade normal. É possível ajustar o nível para mais difícil, caso estes confrontos não estejam lhe desafiando o suficiente.

A ideia geral é que o jogador vai viajar por toda Thra em busca de aliados (novos personagens para jogar), enquanto os núcleos da série vão se encontrando e ficando disponível para o combate. Com isso se tem diversos cenários e ambientes diferentes, que criam efeitos distintos nas batalhas, como lagos de veneno ou fortes ventos que tiram todos os personagens de posições. As arenas também possuem verticalidade, a qual terrenos elevados concedem bônus de dano para ataques em relação a oponentes em terrenos abaixo.

Classes e técnicas na criação de uma estratégia

Os combates de The Dark Crystal: Age of Resistance Tactics seguem em equipes de quatro a cinco personagens. Alguns são obrigatórios dependendo do momento da trama em si, enquanto os demais podem ser escolhidos pelos jogadores (ainda que eles não estivessem ali no enredo original). Essa regra se faz mais presente nas horas iniciais do jogo, ficando mais flexível depois do segundo ato do enredo, quando os clãs já estão quase todos reunidos. Acaba sendo importante para se conhecer melhor os personagens, antes de se decidir por uma equipe mais… permanente.

Inicialmente cada personagem detém uma classe (profissão é o termo usado no jogo), como soldado, batedor, paladino, suporte e curandeiro. Cada uma destas profissões tem habilidades específicas. Soldados possuem ataques de curta distância, potencializando os ataques físicos diretos, enquanto Batedores detém melhores ataques a distância, arremessando boleadeiras e pedras em inimigos mais distantes. Nesse primeiro momento, as classes são bem básicas e óbvias.

A coisa ficam mais interessante quando as profissões começam a evoluir em uma árvore de habilidade que destrincha ainda mais o potencial de cada uma. Um curandeiro, por exemplo, pode virar um mago, o que permite o jogador curar aliados e atacar inimigos a longa distância. O Batedor que até então atacava melhor a distância, passa a ter uma técnica que o permite atacar múltiplos inimigos que estejam em casas próximas. Técnicas mais complexas surgem, seja para empurrar inimigos, causa efeitos como atordoamento, envenenamento ou confusão. O Paladino, por exemplo, passa a ter uma habilidade invocar uma criatura para compor o time do jogador, dando total controle de um novo aliado na equipe.

E o mais legal disso tudo é que todo personagem pode mudar de classe. Um soldado pode se tornar um batedor ou um curandeiro ou qualquer outra profissão. Essa mudança o altera até mesmo visualmente no jogo, o que é um detalhe realmente legal para se considerar. E cada personagem pode ter até duas profissões, uma principal e uma secundária. Porém a secundária não sobe de nível como a principal, não destravando assim outras técnicas que ela possa ter. Para isso é preciso colocá-la como principal e fazer alguns combates em sua classe. Ao todo o jogador pode vir a ter cinco técnicas de classes, três da principal e duas da secundária.

Há ainda um terceiro nível de classes que são destravadas mais próximas ao final do jogo, dependendo da vontade de jogador de continuar investindo na árvore de classes, o que lhe obriga a jogar com classes secundárias como principal, para que elas liberem este terceiro nível de opções. Nessa parte o jogo faz seu dever certinho, incentivando o jogador a testar e criar personagens com um set de técnicas bem únicas e diferentes entre si. Só lamento que isso aconteça em um estágio bem mais avançado da campanha, quando o jogador já tem um nível bem algo para as classes iniciais e se sente bem desmotivado a mudar um personagem já habituado a ser o que você escolheu que ele seja.

Também pesa nessa decisão de não precisar de tantas mudanças entre as profissões mais avançadas para os personagens o fato de que muitas técnicas especiais sejam eficientes ao longo de todos os confrontos, como ataques que tornam os adversários mais lentos, a magias de cura iniciais ou torrar uma rodada de um personagem apenas para fortalecer seu ataque. O que o jogador vai encontrar em técnicas mais avançadas estão coisas extras, como envenenar ou recuperar um aliado que esteja confuso (isso impede que o Skeksis o domine e o faça mudar de equipe).

Também gosto de personagens como o Podling (Hup) e Fizzgig (Boggi), ambos possuem sets únicos de técnicas e profissões. Hup é muito bom para lidar com inimigos distantes, porém não se dá mal caso eles cheguem muito perto, possuindo ataques que melhoram sua defesa ou cegam inimigos. Boggi, uma espécie de cachorro nesse mundo, é um personagem de suporte, acelerando membros da equipe, curando e também restaurando mana de personagens curandeiros, que aliás no jogo são de uma classe chamada reparadora.

Como se tudo isso não fosse suficiente, o jogo ainda oferece um amigável sistema de customização de armas, armaduras e acessórios para cada um dos personagens. Funciona com o dinheiro que se ganha a cada vitória de combates, por uma loja no meu principal do mapa, que fica habilitado no intervalo entre as batalhas. Equipando novas armas ou armaduras, certos status dos personagens são aprimorados. Outros itens, como acessórios, concedem certos bônus, como restaurar mana por algumas rodadas, se manter imune a certas condições de status, como envenenamento ou atordoamento, entre outras vantagens interessantes. Porém todos estes equipamentos tendem a custar uma certa grana, então não é algo que dá para se comprar tudo a qualquer momento. O jogo sabe que se fosse fácil a aquisição destes materiais, tudo ficaria ainda mais fácil.

Porém, mesmo assim, o título encontra formas de permitir que o jogador faça grinding de nível e de dinheiro, pois os estágios podem ser rejogados a qualquer momento, assim como há muitas missões secundárias no mapa cujo o único objetivo é justamente oferecer mais experiência e mais dinheiro a quem precise. Estas missões secundárias não acrescentam nada a trama principal, sendo apenas desafios extras.

Considerações finais

The Dark Crystal: Age of Resistance Tactics é um título que me manteve entretido nestas últimas semanas, sempre jogando-o no Nintendo Switch, a qual achei confortável suas rápidas partidas para serem jogadas na praticidade do sistema portátil do console. É um jogo perfeito para pequenas rodadas de jogatina, antes da hora de dormir, antes de sair para o trabalhou ou entre uma ou outra tarefa doméstica.

O título tem uma ótima apresentação geral, mantendo-se simples em seus menus, seu mapa geral entre os estágios e gráficos que possuem um certo modelo “cartunesco realista”, tal qual o utilizado na série da Netflix. Os personagens possuem um belo trabalho artístico, possuindo identidades próprias, com pequenos detalhes em todo seus contornos. Assim como a ambientação, rica em textura e profundidade. O trabalho da BonusXP aqui vai muito além da pixelart entregue em Stranger Things 3: The Game. É uma direção de arte digna de elogios.

A parte sonora também não deixa muito a desejar, ainda que tenha um impacto menor. A trilha temática da série surge aqui, assim como pequenos efeitos de áudio, como os gritinhos dos Gelflings ou os Skeksis falando de si mesmos. Porém é mais contido porque os diálogos se apresentam apenas em textos, sem uma dublagem em si. O que é uma pena. De toda forma, há peso no som dos ataques e das realizações de magias entre outras táticas dentre os momentos da ação. Nesse aspecto do som e seus efeitos, o jogo cumpre seu papel.

Dentre as coisas que vale a pena se lamentar, coloca a decisão de reprisar a trama principal da série, sem sequer expandir seu universo e a riqueza de tais personagens. O jogo poderia ir além, mostrar coisas que talvez não tivesse dado tempo de trabalha na série, mas infelizmente ele se limita praticamente a seguir o roteiro já conhecido. Faltou ousadia e criatividade nesse departamento.

Outro ponto que também poderia ter sido implementado é alguma espécie de modalidade multiplayer cooperativa. O jogo é exclusivamente single player, e me parece que se perde uma oportunidade de criar uma modalidade cooperativa, ainda que você possa combinar com um amigo e cada um assumir o controle de algum personagem, apenas trocando o controle de mão. Fora que não descarto que talvez fosse interessante até mesmo uma modalidade competitiva, dada a quantidade de personagens e classes que é possível ao se criar um equipe. É um tipo de extra que talvez agregasse ainda mais valor a produção.

Indo adiante, o que me deixa dividido é sua progressão, mesclando missões principais de história e missões secundárias, que não acrescentam nada a trama. Gosto da ideia de combates extras que alongam o valor de replay do jogo, entretanto estas missões sempre acontecem em cenários onde já aconteceram missões principais, mudando então apenas a disposição e tipos de inimigos. Poderia também ser uma questão que merecia um tempero maior. Gosto que haja esse valor de replay, incluindo a opção de níveis de dificuldades na qual o jogo pode ser configurado, mas ainda assim fica com a impressão de que o jogo fica apenas no que é seguro, sem inventar além de seu potencial.

Fora que também questiono seu lançamento tardio. Seis meses após a série principal me parece muito tempo. Este é um título que talvez tivesse criado uma relevância ou interesse maior se tivesse saído ainda em 2019, talvez em dezembro. Eu me imagino mais empolgado com a série alguns meses atrás. Sair agora só me parece fora de escopo, sem um anúncio de uma segunda temporada, enquanto a indústria se prepara para os grandes lançamentos esperados para 2020. Fica uma janela de lançamento estranha, quase que inoportuna.

Entretanto, The Dark Crystal: Age of Resistance Tactics é um bom jogo de combate tático por turno. Não é surpreendente ou inovador, mas tem um ótimo padrão de qualidade para o gênero a qual detém sua proposta. É divertido, sem soa ameaçador ou complexo demais para quem não está habituado com o estilo. Funciona tanto para um público mais novo, quanto mais adulto. Veteranos no gênero porém não vão se sentir verdadeiramente desafiados aqui. Porém há que se enaltecer sua localização em português, dando ao título uma enorme acessibilidade ao público brasileiro, independente da plataforma que escolher jogá-lo. É um ótimo game, que tem uma janela de lançamento que não o deixa tão marcante quanto talvez pudesse ter sido há alguns meses.

Dando uma nota

Boa apresentação, mas é recomendado ver a série da Netflix antes - 8.5
Combate tático por turnos é divertido e bem estruturado - 8.8
Boa quantidade de personagens, classes e técnicas - 9
Super acessível por estar totalmente localizado em português - 9
Longa cauda inicial antes de abrir mais opções de classes - 7.5
Não é muito desafiador, tirando algumas exceções - 8
Repete o mesmo plot da série, tirando parte da motivação do jogador - 6.5

8.2

Bacana

The Dark Crystal: Age of Resistance Tactics tem uma excelente apresentação, porém condicionada aos jogadores terem ou não visto a série da Netflix previamente. O combate tático por turno é muito bem feito, dentro do padrão do gênero, com ótimas aberturas de classes e técnicas (ainda que tenha uma calda inicial meio arrastado). É um bom jogo tático para quem não está habituado ao gênero, faltando talvez um sabor adicional para veteranos e jogadores hardcore ao estilo de jogo.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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