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Análise | What the Golf?

Disponível para Nintendo Switch, Apple Arcade & PC

What the Golf? é uma destas produções que não se vê todo dia. Que sabe hilariamente lhe surpreender, enquanto está lhe entretendo de uma forma magicamente simples. O título foi desenvolvido, e distribuído, pela Triband, um pequeno estúdio, com um tino bem afinado para comédia, localizado lá na Dinamarca. Seu lançamento ocorreu no segundo semestre do ano passado, primeiramente para Apple Arcade e depois na Epic Games Store. Já o Nintendo Switch recebeu o espirituoso jogo em maio desse ano, estando inclusive disponível na eshop brasileira.

Quanto a descrever o que é What the Golf?… bem… é um jogo altamente inspirado em golfe, que não reflete nada o dito esporte. Os desenvolvedores ainda brincam na descrição oficial do jogo que ele foi criado por pessoas que não sabem nada sobre golfe. Com isso em mente, a melhor forma de descrever o game seria dizer que trata-se de um jogo de comédia, que faz piada a todo momento (e algumas são excelentes), enquanto entrega uma jogabilidade estilo arcade, com desafios rápidos de levar alguma coisa do ponto A ou ponto B, sob certas condições malucas e improváveis.

Quer exemplos? Começo bem simples, são relatos das primeiras fases. Na primeira, você leva uma bola de golfe ao buraco da bandeira. Simples, certo? Então na segunda fase você impulsiona a bola, a bandeira faz um efeito sonoro de risada e muda o buraco de lugar. Na terceira fase, o jogador se prepara para impulsionar a bola com o taco… e o que sai voando é o próprio taco – que também precisa chegar ao buraco de bandeira. Aí a zoeira não encontra obstáculos. Em outro momento é o próprio boneco golfista que sai voando com a tacada, e depois é a bendita seta que você usa para mirar (!!) que sai voando. Okey, a piada não tem limites aqui e o jogo segue assim por centenas de fases espalhadas em 10 mundos, sempre renovando os temas e piadas.

Nem tudo é sobre golf, ainda que seja

Tudo bem, os exemplos mencionados acima estão relacionados ao ato de simular uma tacada de golfe. Então todos os ambientes do jogo se passam em um campo de golfe? Nem em sonhos. A coisa pira em um nível absurdo de imprevisibilidade. Que tal um cavalo em cima de um trem? Tem. Golf em gravidade zero? Tem. Rebater uma casa até a bandeira do buraco? Tem. A tocha olímpica? Tem. Portais? Tem. Acertar um ovo em uma frigideira? Tem. Uma tartaruga com jatos de foguetes no lugar dos pés que precisa ganhar de uma ovelha? Pode acreditar que tem. E estes são pequenos exemplos da loucura do título.

O que existe em comum em todos estes cenários é a mecânica base do jogo, que é bem simples de se jogar, ainda que existam diversas situações em que a prática leva ao sucesso. Com um analógico se cria a tensão que irá impulsionar a bola de golfe, ou seja lá o que o jogo queira que você impulsione, e com um apertar de botão esse impulso acontece. O analógico pode controlar a força desse impulso, enquanto o botão dá a ação para a dita tacada acontecer. E só. Não há mais botões a serem utilizados aqui.

São controles super simples, que se modificam em poucas exceções dentro do jogo. Há alguns cenários em que você precisa segurar o botão da ação, como um em que uma bicicleta saia andando pelo cenários, ao invés de ser arremessada (ainda que isso você também possa fazer), ou quando um barril explosivo precisa voar com o botão sendo pressionado (e neste caso não dá para realizar a tacada de arremesso). E tem um segmento, em particular, que envolve usar os sensores e o giroscópio (na versão de Nintendo Switch) que é inacreditável. Imagino que sendo um título, originalmente desenvolvido para mobile, a simplicidade dos controles tenham vindo desse fator. E funciona muito bem. Casualmente é um título fácil de se entender como se joga.

Mundo e metas

A estrutura base do jogo o divide em mundos com diversas fases, sendo que cada fase se divide em três situações de metas de conclusão. O primeiro cenário da meta é bem simples: basta acertar a bandeira. Isso é suficiente para dar um contexto ao tema da fase. Vencendo, abre-se mais dois cenários de situação: um em que normalmente se precisa vencer o estágio com um certo número de tacadas, ou alguma maluquice que precisa ser feita com um certo tempo ou limitação, e um outro que envolve fazer exatamente o que se pede, a qual nem sempre envolve em levar o item ao buraco da bandeira. Ao realizar as três metas da fase, o jogador ganha um indicador de coroa para tal estágio. Indicando que não há mais nada a fazer ali, e de que deve seguir adiante.

What the Golf? tem um modo campanha com 10 mundos ao todo, sendo que esses mundos são interconectados, ou seja, o jogador pode andar por um imenso local que representa os mais diversos temas que serão representados nas fases do jogo. Nesse hub world, o jogador é uma pequena bola de golfe – na maior parte do tempo. A representação desse mundo vem por meio de um imenso laboratório, a qual um grande computador barra o acesso a novos níveis. Enquanto o jogador vai liberando terminais de acesso que estão travados por meio de portas que só são liberadas vencendo suas fases.

Nessa área dos mundos, o jogador pode passear por diversos ambientes, enquanto além das fases, pode-se encontrar estranhos personagens que também irão fazer algum tipo de comentário engraçado, ou mencionar algo que aconteceu no cômodo da área. Há também baús que liberam alguns troféus em uma galeria, assim como alguns computadores que lhe dão dicas nada úteis sobre golfe (na maior parte do tempo). É divertido explorar, ainda que não seja algo que o jogador vá ficar passeando repetidas vezes.

Como esse hub world é imenso, a cada novo mundo, o jogo libera um portal que permite uma viagem rápida para áreas já vencidas, o que permite um acesso rápido as fases já concluídas.

Desafios, multiplayer e suas modalidades

Além de uma campanha principal, que é mais duradoura do que se pode imaginar, levando-se aproximadamente em torno de seis horas para ser concluída, What the Golf? entrega alguns outros modos bem interessantes de jogo, oferecendo assim um desafio àqueles que querem testar suas habilidades de pontaria.

Há duas modalidades de desafios para quem curte ver seu nome em placar de líderes: o desafio diário e o desafio impossível. O diário, como o nome sugere, muda todos os dias, trazendo uma seleção de fases da campanha para serem concluídas em sequência, enquanto o modo impossível tem alguns dos estágios mais difíceis do jogo, oferecidos sempre na mesma sequência.

Nestas duas modalidades de desafios, cada tacada conta com um movimento, sendo o objetivo do jogador terminar a sequência de estágios com a menor quantidade possível de tacadas. No modo impossível, a primeira vez que terminei, foram aproximadamente mil tacadas para conseguir concluir toda a rodada de estágios. Fiquei na posição 2080 do ranking. Longe de atingir os melhores desse placar.

Além desse desafio, What the Golf? apresenta uma opção no menu principal em que você pode apresentar o jogo a seus amigos. Ao selecionar esse modo, o título inicia uma seleção de fases absurdas e engraçadas em sequência, para que seu amigo jogue e entenda aonde ele está se metendo. É um bom test drive para sentir a vibe do jogo.

Exclusivo ao Nintendo Switch, What the Golf? oferece uma interessante e divertida modalidade multiplayer local para dois jogadores. Nessa modalidade os jogadores competem para chegar a bandeira em primeiro lugar, em diversos estágios, alguns baseados nos existentes na campanha principal e outros inéditos, criados para essa modalidade. Em algumas fases a tela é única e fixa, enquanto em outras se divide para que cada jogador possa se movimentar mais livremente.

O multiplayer se desenrola em um pequeno mapa em que os personagens andam automaticamente, até chegarem a um coliseu, aonde ocorre um evento especial de duelo. Ao longo das fases do mapa, os jogadores ganham pontos de vitória e ao chegar no coliseu, estes pontos se tornam uma barra de vida. No coliseu as provas são de mata mata, como uma modalidade de queimada ou então uma em que um jogador empurra o outro, enquanto pedras vão caindo no cenário para esmagar quem não ficar ligeiro. Vence o jogador que conseguir retirar todos os pontos do adversário.

É uma modalidade bem rapidinha, de 10 minutos no máximo. A cada reinício, as fases mudam, o mapa muda, os personagens de cada jogador podem mudar e o desafio do coliseu muda. É bacana porque isso incentiva a tentar essa modalidade diversas vezes afim de ver as diferentes fases selecionadas.

Além de todo esse pacote opcional a sua modalidade principal, os desenvolvedores também estão trabalhando em conteúdos adicionais que serão lançados futuramente. O primeiro destes conteúdos, recebeu o nome de Sports Sports Update (com cerca de 30 novas fases), porém nesse momento essa atualização está somente disponível na Apple Arcade. A Triband já se posicionou no Twitter a intenção de lança-lo nas demais plataformas, entretanto como são um estúdio pequeno, ainda não possuem uma data para isso acontecer. Resta aguardar.

Considerações finais

What the Golf? é um divertido jogo independente, que faz uma brincadeira extrovertida dentro da temática do mundo do golfe e seus simuladores, desconstruindo tal gênero, revertendo-o em um belo título arcade e de comédia, com uma jogabilidade ágil e super acessível. O título extrapola suas ideias e vai além do que se pode esperar. O elemento surpresa acaba sendo um dos maiores trunfos do jogo.

A física do jogo funciona muito bem, com os mais diversos itens que precisam ser impulsionados por meio do conceito de potência de tacada. Cada objeto tem um peso e uma reação diferente, seja arremessando uma simples bola de golfe, ou um satélite no espaço ou até mesmo um cavalo em uma pista de obstáculos. Tudo responde muito bem, mesmo quando a precisão não simule uma física realista, porque neste caso isso faz parte da piada em certos cenários.

Os gráficos também funcionam muito bem ao conjunto da obra. Visualmente é um título que tem um conceito quase minimalista, muitas vezes bem simples, mas que combina com o tom do humor do título. Um destaque maior fica para o trabalho com os efeitos sonoros. Há algumas faixas musicais em certos cenários, mas o melhor fica por conta do som do jogo, de como a tacada é satisfatória, das piadas sonoras e até mesmo do canto em a capela em certos momentos. Combina perfeitamente com a proposta do título. Eu perdi a conta das vezes em que o jogo conseguiu me arrancar uma risada por conta de uma piada inesperadamente boboca. Tem muito daquele humor 5ª série que tanto adoramos rir (quando bem feito, claro).

Vale também apontar que What the Golf? não é um jogo com uma longa duração. Não é um um título que vai entreter o jogador por dezenas de horas. Obviamente que após ter feitos todas as fases, e ter rido das piadas pela primeira vez, o valor de replay da obra fica na diversão do absurdo de alguns destes estágios, além dos modos desafios que colocam uma certa disputa entre jogadores no placar global das tacadas utilizadas. Mesmo com tudo isso, não acho que seja um ponto negativo do jogo. Acho que dura até mais do que inicialmente achei que duraria. O título me impressionou por inúmeras vezes com o quanto seu conceito se desdobrou em novas ideias ao longo de seu modo principal.

É um título que não vejo pontos negativos. Não houve nada nele que me desagradou. A única ressalva que pode ser feita, é na discrepância de preços que o jogo é vendido aqui no Brasil: enquanto na Epic Games Store qualquer um pode adquiri-lo por 38 reais, na eshop brasileira o mesmo jogo custa 105 reais. Não soa nada justo com aqueles que querem tê-lo no console da Nintendo. E há jogos indies na loja digital brasileira do Switch com valores mais modestos, o que torna uma pena que o dólar esteja fazendo isso com alguns jogos que estão chegando aqui no Brasil nesse formato oficial. Fora isso, a versão do Switch é mais maneira, pois oferece um modo multiplayer e as fases que se utilizam do giroscópio do console são muito divertidas (ainda que sejam bem poucas).

No fim, What the Golf? oferece uma hilariante experiência em formato de jogo eletrônico. É muito bacana que haja espaço e apoio dos jogadores para títulos assim na esfera indie. Ano passado fomos agraciados com Untitled Goose Game, que também segue a mesma ideia de um jogo com um conceito simples, mas bem humorado. What the Golf? segue exatamente essa ideia, e cumpre muito bem sua proposta. Espero que mais jogos como estes continuem saindo sempre que houver espaço para se contar uma boa piada, com bom humor. Rir, em tempos tão complicados, faz um bem danado. Todos nós precisamos de mais jogos assim.

Galeria

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Dando uma nota

Acerta muito bem na supresa e no excelente tom de humor - 10
Com uma ótima adaptação em sua localização em português - 9
Visual minimalista, mas com personalidade e charme próprio - 8.8
Jogabilidade que se reinventa com novas piadas e cenários de forma constante - 8.8
Multiplayer local para dois jogadores é bem divertido - 8.5
Faz um ótimo trabalho na parte sonora, com efeitos que casam com a imersão proposta - 9
Simples, não tão longo, e verdadeiramente divertido - 9

9

Hilário

What the Golf? é um apanhado de mini games, baseados no simples conceito de arremessar algo em um ponto fixo, como o golfe, mas de uma forma divertida. Seu maior trunfo são suas ideias de como brincar e remexer no tema ao longo de centenas de desafios rápidos. Tem bom humor, e é fácil de se divertir. A jogabilidade é super simples, mas ainda assim dinâmica e que entretém o jogador. Em tempos problemáticos como o que estamos passando em 2020, ter algo para dar risadas, é uma boa indicação.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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