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Análise | Scarlet Nexus

Disponível para PlayStation 4 e 5, Xbox One e Series & PC

Scarlet Nexus é um JRPG que te leva para se aventurar na intrigante malha cerebral de um futuro distópico repleto de conspirações e dualidade narrativa. O título chegou as plataformas do PlayStation, Xbox e PC no último dia 25 de junho, tendo sido desenvolvido em parceria da Bandai Namco Studios e da japonesa Tose Co. Ltda. A distribuição global do jogo ficou a cargo da própria Bandai Namco Entertainment.

Importante mencionar que parte da equipe que trabalhou em Scarlet Nexus também esteve envolvida em Code Vein, outro JRPG que a Bandai Namco tentou emplacar em 2019 e que obteve pontos positivos e críticas pontuais. Trata-se de uma nova iniciativa da empresa de não ficar presa apenas no modelo e no universo da franquia Tales of…, a qual teve um cansaço eventual alguns anos atrás, porém é um fenômeno cíclico, especialmente com as altas expectativas que muitos fãs andam tendo para Tales of Arise, que deve sair no segundo semestre deste ano.

Mas assim, Scarlet Nexus difere muito da abordagem que o estúdio deu a Code Vein, a qual tinha uma clara inspiração nos jogos da franquia Dark Souls, a chamada fórmula Souls-like. O bacana de criar novas IPs é poder justamente explorar novas ideias e formatos, sem ficar preso a fórmulas previamente estabelecidas. Neste caso, Scarlet Nexus é um Action-JRPG, podendo ser comparado (positivamente) com jogos hack & slash tipo Devil May Cry e o combate sempre frenético dos jogos da Platinum Games, a qual Bayonetta já era claramente inspirado na famosa franquia da Capcom. Mas calma que esta nova aposta da Bandai Namco não é apenas ação e combates frenéticos. Há outras camadas que precisam (e serão) abordadas ao longo desta análise.

Plug cerebral

A atmosfera e ambientação de qualquer RPG é tão importante quanto os demais aspectos deste gênero, e no caso de Scarlet Nexus, o que temos aqui é um mundo de ficção científica em um futuro alternativo a qual atingimos o ápice do desbravamento dos poderes psíquicos do cérebro humano. Só não dá para apontar a trama como uma história cyberpunk porque um pedaço significativo de sua trama envolve muito mais um aspecto de invasão de criaturas de um outro mundo, e que é algo bem típico de contos e obras orientais.

A trama apresenta então esse futuro a qual nosso planeta está envolto em uma cinturão dimensional a qual somos frequentemente invadidos por bizarras criaturas que ora lembram animais, mas meio que compostos por objetos inorgânicos, a qual uma espécie de lâmpada em seus corpos se faz como um ponto vital para que elas permaneçam vivas. Bizarro, eu sei, mas é um design de personagem fantástico, de se impressionar. Não pode deixar de pensar que esse character design lembra muito a vibe das criaturas de Bayonetta. É muito legal mesmo.

Isso cria uma gama de criaturas únicas e diferentonas, como um grande bicho com uma válvula d’água na cara, uma espécie de jacaré que tem uma enorme lâmpada na boca e que pode mergulhar em superfícies duras, ou então serem humanoides que possuem pernas e com o tronco de buquê de rosas, ou aquelas cabideiros de pendurar casacos, uns inclusive com velas em chamas no lugar das cabeças. É surreal mesmo.

É louvável essa direção de arte. E antes que você me pergunte a explicação para isso dentro do contexto da trama, isso é algo que é preciso progredir na aventura para entender melhor as origens de tais criaturas, do cinturão e de tudo que está rolando nesse mundo. Descobrir seus mistérios faz parte da progressão e não caberia aqui lhe entregar o ouro.

O jogador assume o papel de um de dois possíveis protagonistas, ambos iniciam o jogo entrando na FSC, sigla para Força de Supressão de Criaturas. Uma organização de humanos com poderes psiônicos, graças ao forte vínculo cerebral que possuem com a tecnologia desse futuro, e que decidem usar tais habilidades para proteger a sociedade dos ataques destas criaturas.

Sua conexão cerebral é de suma importância para a contextualização de diversos aspectos do jogo. Tanto de trama, quando de jogabilidade. O jogo vai brincar muito com esse elemento, enquanto as tais criaturas vão se opor no caminho dos protagonistas, colocando problemas e mais problemas a qual vão se conectar com suas próprias angustias.

Dois lados de uma única história

Um dos aspectos mais legais de Scarlet Nexus é a composição de sua campanha principal que, tal como mencionei acima, precisa ser jogado sob a ótima de dois protagonistas: Yuito Sumeragi e Kasane Randall. Para escrever esta análise devo dizer que joguei a aventura sob a ótima da protagonista Kasane, enquanto o Paulo –  que também escreve análises aqui – optou por jogar com Yuito. Com isso pudermos trocar, em tempo real, enquanto jogávamos, o que estava acontecendo ponto a ponto na trama de ambos os personagens. Foi uma experiência bem divertida desta forma, devo relatar.

O ponto é que a trama não cria realidades narrativas alternativas dependendo de quem você decidir jogar. Pelo contrário, é preciso que se jogar ambos os lados da trama afim de entender tudo o quê de fato está acontecendo no mundo do jogo, enquanto cada campanha vai trabalhar individualmente os conflitos e problemas de cada um dos protagonistas.

Posso dar um exemplo de como essa interação é bacana, sem que ela seja necessariamente um spoiler. Existe em certo ponto da história o advento de um assassinato. Do lado da minha campanha, meu personagem presenciou todo esse evento. Isso me dá um contexto de parte do que está acontecendo nesse ponto da trama. Eu sei a verdade, por assim dizer. Entretanto, quando o Paulo presenciou esse mesmo ponto da campanha, ele só acompanhou o assassinato após o mesmo já ter ocorrido. O que lhe dá uma interpretação errada dos fatos. Se você, jogador, está deste lado da história, vai acabar tirando conclusões erradas sobre o que aconteceu. Mas da minha perspectiva, isso está resolvido, ainda que eu não entenda exatamente outras coisas que a minha campanha não está mostrando. Percebe como é muito maneiro essa dualidade narrativa? É uma mesma moeda, mas só podemos ver um lado de cada vez.

Scarlet Nexus pede que o jogador faça ambas as campanhas para ter acesso a toda a trama ofertada. E se você está se perguntando se vai ficar repetindo as mesmas fases por conta disso quando for jogar a segunda campanha, digo que será assim em sua plenitude. Isso porque Kasane e Yuito estão em locais diferentes em diversos momentos da trama, então a jogabilidade não se repete completamente. Inclusive há ambientes que presenciei, mas o Paulo não, enquanto ambos enfrentamos chefes a qual somente ele ou eu tivemos acesso. O sistema do jogo é bem competente impedir essa sensação de repetição (mesmo que exista, especialmente quando a trama de Kasane e Yuito se cruzam de tempos em tempos na história).

Alias, ao encerrar uma campanha, independente de qual personagem você escolher começar, o jogo vai lhe dar uma opção de New Game Plus, a qual o progresso irá seguir nesta nova campanha, enquanto nivela a dificuldade justamente para essa segunda campanha. Ou seja, isso impede aquela impressão de ter que recomeçar tudo do zero em termos de níveis de poderes, habilidades e outras vantagens de uma progressão dentro de um RPG.

Quanto a sua decisão de começar o jogo pela primeira vez com Kasane ou com Yuito… hum… acho que vai de cada um, mas posso tentar ajudar. A campanha de Yuito tem como plot inicial sua entrada na FSC, juntamente com um amigo, em meio a uma trama em que ele não se recorda de alguns eventos de seu passado, em meio a recorrentes apagões. Algo está ocorrendo com ele, e o jogador não sabe bem o quê. O que se sabe é que uma imagem semelhante a Kasane pode ser o segredo para estas respostas.

Já a trama de Kasane não vai se desenvolver logo de cara, mas sim após um evento impactante lá pelo segundo ou terceiro capítulo do jogo. É um ponto de ruptura para a personagem e que muda tudo o que vinha acontecendo até então. Aí o que o jogador encontrará é uma trama de pontos de reviravoltas, conspirações e segredos compartilhadas com poucos. Ela precisa salvar alguém, enquanto lida com poderes a qual ela jamais imaginou ter. Particularmente gostei demais de ter iniciado a minha campanha por ela, pois achei mais maduro a trama, e sem tantos clichês do protagonista desmemoriado a qual rola na trama do Yuito.

Porrada psicocinética

Seguindo adiante no texto, mas sem perder o foco de que há dois protagonistas, Kasane e Yuito também diferem quando se é colocado o aspecto do combate entre suas campanhas. Yuito utiliza uma espada para atacar seus inimigos, exigindo assim uma certo proximidade de seus oponentes, já Kasane usa múltiplas lâminas que órbita ao seu redor, graças a sua capacidade psicocinética, o que lhe permite atacar de uma distância mais segura do que Yuito.

Ambas as técnicas de combates dos protagonistas tem suas vantagens e desvantagens. Yuito tem uma arranjo mais longo de combos e seus ataques são bem mais devastadores, o que obviamente balanceia o fato de que o jogador fica sempre à risca dos ataques inimigos. Kasane é mais equilibrada nesse sentido, pois seus ataques são de uma distância mais segura, mas em uma menor velocidade e com menos impacto, na contra partida de que isso a permite ficar a salvo de alguns ataques mais a curta distância dos inimigos. De uma forma geral, a luta de espadas do Yuito é bem básico na fórmula dos games, enquanto Kasane oferece certo diferencial.

Independente do protagonista que o jogador escolher, o sistema de combate de Scarlet Nexus segue algumas premissas básicas. Primeiro que a ação ocorre em tempo real, diretamente no cenário do jogo, nada de ter que se aproximar do inimigo para ir para uma tela de batalha ou combates por turno. Definitivamente não. As batalhas ocorrem como muitos jogos de ação hack & slash atuais, os inimigos andam por um certo pedaço do cenário, e com a aproximação do jogador o detectam e partem para o ataque. Se afastar demais interrompe a batalha.

Dentre os comandos de batalha, o jogador tem o botão que desfere os ataques, e se utilizados em sequência, fazem uma sequência diferente de golpes, como um combo. Outro botão o permite pular, o que também permite realizar ataques no ar. Uma combinação do botão de ataque e pulo faz com que o jogador mande o inimigo para o alto, afim de realizar um ataque aéreo. Outro botão é o de esquiva, e a esquiva perfeita o permite realizar um contra ataque. Há também um segundo botão de ataque, mas está é uma opção interessante, pois é uma espécie de ataque cauteloso, a qual seu personagem ataca, mas também recua alguns passos, saindo do raio do ataque do inimigo. Estão são os comandos básicos.

Na esfera dos especiais, aqui o jogador tem uma espécie de barra de energia cerebral, psíquica por assim dizer. Ataques simples enchem essa barra, então não é como barras de magia em outros jogos de JRPG, a qual ao utilizar é preciso beber um item para encher novamente. Apesar de que aqui também já um item que lhe permite encher automaticamente essa barra (a qual sinceramente nunca achei necessário utilizar). Essa habilidade telecinética permite, tanto Yuito quanto Kasane, de levitar um objeto do cenário e arremessar com violência contra seu oponente. Isso vai desde um pequeno bloco de concreto para até mesmo um carro. O golpe tende a ser devastador, e deve ser usado e intercalado com os ataques normais, deixando assim a barra cerebral sempre se energizando.

Esse ritmo de batalha a qual o jogador bate no inimigo com ataques normais e também com seus poderes paranormais é essencial para quebrar um barra de supressão a qual quase todos os inimigos possuem. Se essa barra quebrar antes da barra de saúde dos inimigos, o jogador pode realizar um especial que instantaneamente mata o oponente em uma rápida cena a qual o personagem quebra o ponto fraco (a lâmpada) do inimigo. Considerando que em batalhas a qual múltiplos inimigos lhe atacam de forma simultânea, quebrar sua barra de supressão faz parte da estratégica para eliminar a vantagem numérica que eles podem criar. Alias, é possível causar dano a múltiplos inimigos, seja com o ataque regular, seja com os poderes especiais, contando que eles estejam dentro do raio de ataques do jogador.

Voltando um pouquinho no aspecto dos poderes telecinéticos em que o jogador pode levitar objetos do cenário, interessante dizer que existem certos objetos que são especiais e ativam uma interação rápida do jogador quando o mesmo for usar esse objeto contra os inimigos. É quase uma espécie de quick time event, a qual deve se executar alguns comandos com os direcionais do controle, causando um dano ainda mais massivo em batalha, muitos até eliminando o inimigo com um único ataque, enquanto outros podem atribuir efeitos negativos aos mesmos. São objetos a qual você quer usar, ainda que estes gastem um pouco mais da sua barra de poder paranormal.

Ao longo da progressão da campanha, o jogador vai ganhando experiência e subir de nível, além de melhorar seus status gerais, você também ganha pontos para serem gastos em uma árvore de habilidade. Essa árvore lhe concede coisas bem legais para maximizar a boa dinâmica dos combates, como novos golpes, aumento da barra de poderes psicocinéticos, melhor mobilidade, como pulo duplo e esquiva no ar, além de novos slots para equipar melhorias, tipo perks, que aumentam ainda mais certos atributos do personagem, como causar mais dano, melhor defesa ou ganhar mais experiência a cada batalha.

Também não seria um combate do gênero RPG se o jogador não tivesse de companheiros em sua jornada. Scarlet Nexus também oferece esse aspecto, porém eles funcionam um pouco diferente do habitual do gênero. Primeiro que o jogador não pode controlar seus companheiros, ainda que possa, depois de um certo ponto do jogo, definir táticas de combate para cada um deles. É possível ter até quatro companheiros junto de você, mas em boa parte da aventura você normalmente terá dois ou três.

Estes companheiros não são tão eficientes assim em termos de ficarem atacando os inimigos e eliminando-os para o jogador. Bem, eles vão atacar, mas o dano causado sempre será bem pequeno mesmo, apenas para dizer que estão fazendo alguma coisa. O diferencial desse sistema é que todo companheiro em sua equipe tem um poder especial que pode ser compartilhado com o jogador, a qual pode (e deve) ser ativado na hora da batalha. Por exemplo, pirotecnia, poder de inflamar seus ataques com chamas, poder para ativar invisibilidade, para desacelerar o tempo, massivos e super eficientes ataques elétricos ou até teleportar para diversas direções entre a linha inimiga enquanto vai desferindo ataques. Há muitas opções e elas funcionam em boa parte como as boas e velhas magias dos jogos de RPG.

Estes poderes são ativados com um simples apertar de botão no controle e tem uma durabilidade de bons segundos, possuindo um generoso sistema de cooldown (ou seja, basta esperar alguns segundos para poderem serem reativadas). No começo só é possível usar uma destas habilidades pode ver, mas conforme sua árvore de habilidade aumenta, logo você encontra um item lá para ativar mais de uma habilidade ao mesmo tempo. Esse sistema, a qual o jogo o denomina habilidades SAS, também é essencial para quebrar a supressão de alguns inimigos, já que estes podem ser mais fracos a alguns destes poderes.

Quer mais? Lhe dou mais então. Em um ponto mais avançado do jogo, os protagonistas ganham um poder ainda maior. Uma barra de foco vai aumentar automaticamente, e quando estiver cheio, seu personagem ficará mais poderoso, como uma espécie de modo fúria. E não só isso, utilizando o comando de dois botões no controle, é possível ativar uma espécie de modo especial, a qual você joga seu inimigo para um espaço dimensional, a qual tudo ao seu redor pode ser controlado e você usa poderes super fortes. O revés desse golpe? Passar muito tempo nesse lugar pode lhe matar, então é preciso ficar alerta aos sintomas de esforço hiper cerebral quando ativar isso. Show, eu sei.

No geral, Scarlet Nexus entrega um excelente sistema de combate, especialmente para um JRPG, um gênero que as vezes sofre de um ciclo de combates muito repetitivos. Nesse sentido o jogo se esforça muito para evitar que isso aconteça. Você está sempre com companheiros diferentes, ou seja, com poderes diferentes, estas mecânicas vão sempre sendo reveladas aos poucos durante toda a campanha, enquanto a árvore de habilidades vai abrindo novos golpes, combos e possibilidades. Os inimigos apesar de se repetirem em alguns momentos, começam a ser misturados com outros tipos, enquanto sua variedade é curiosa e seus tipos e formas de atacar também. Outra coisa: Kasane e Yuito tem companheiros diferentes, e assim poderes diferentes entre campanhas, assim como os inimigos também diferem em diversos momentos, incluindo os chefes. Ou seja, é um esforço louvável para que as campanhas não entreguem experiências semelhantes.

Vamos conversar?

Gostou da atmosfera punk cerebral sci-fi de Scarlet Nexus? Achou interessante a proposta de duas campanhas que contam histórias distintas, mas em paralelo em cima de uma outra história ainda maior? Curtiu o sistema de combate recheado de ação, mas sem perder a essência e os elementos do que se espera de um JRPG? Ótimo, contudo é meu dever como autor dessa análise informar mais um aspecto desse jogo e que pode ser uma barreira ou desconforto para alguns jogadores: a quantidade de textos e diálogos entre os momentos de ação.

Claro que isso é de se esperar de um RPG, que por natureza tem muitas linhas de diálogos entre seus personagens. O ponto, e não necessariamente um problema, é que Scarlet Nexus tem uma condução narrativa nada contida. O jogo pode passar em telas de diálogos entre 15 a 20 minutos facilmente, antes de lhe devolver os controles e a ação. Isso porque de fato ele trabalha eventos e personagens. Não estou dizendo que os diálogos são inúteis ou chatos. Pelo contrário, a trama é interessante, como já relatei. O ritmo de cenas de história é quase que proporcional ao tempo em que o jogo lhe solta para realizar ações. Pois é.

E assim, as cenas de diálogos são realizadas nos tradicionais quadros estáticos, a qual apenas os rostos dos personagens se mexem, enquanto novos quadros vão surgindo e outros saindo. Há um efeito de Graphic Novel até. Não é mal feito não, isso posso garantir. Porém são realmente poucas cenas de ação animadas, as cutscenes.

Isso tem um lado positivo, quando penso que os novos consoles da atual geração nem sempre são generosos nos espaços internos de seus drives de SSD. Scarlet Nexus ocupa somente 16GB de espaço. Certamente ele precisaria de muito mais espaço de toda sua narrativa fosse apresentada em cutscenes. Alias, o jogo não tem CGI, tudo é feito com animação in-game, o que também não é ruim não, pois visualmente o estilo 3D animê do jogo é muito impressionante, com os personagens apresentando ótimas expressões e reações. Ouso dizer que ficou mais bonito do que o animê a qual está sendo lançado esse mês de julho (e pode ser conferido na Funimation).

Certamente um outro aspecto que acentua um pouco esse incomum fenômeno de muitos diálogos na proporção da ação talvez se dê pelo fato de que o jogo entrega um ambiente bem linear em relação a outros JRPGs. Por exemplo, ainda que a cidade central do jogo seja um ambiente aberto, não é como se ela fosse uma tradicional vila, com lojas e pessoas para interação e histórias adicionais. Não é assim que ela funciona. É só um espaço bonito que costura o ir e vir da trama.

Até mesmo na hora do gameplay, dentre os muitos ambientes e cenários, a linearidade está sempre presenta. Não existem rotas alternativas, e sim becos sem saídas no mapa, que apenas levam a coleta de alguns itens extras para uso. Até mesmo a viajem dentro do mundo é feito pro um menu no mapa a qual você seleciona seu destino. Não tem aquele mapinha em que você, jogador, sai andando e matando o que estiver pelo caminho. Portanto, também não há grinding (ato de ficar rodando um lugar apenas para repetir batalhas e subir de nível). Nesse sentido o jogo é bem direto.

Outro aspecto que auxilia ainda mais esse sentido é a forma como ocorrem missões secundárias no jogo. Elas são ativadas conversando com alguns NPCs em alguns pontos do jogo, mas estas missões se comportam apenas como tarefas extras, como eliminar certos inimigos usando determinados golpes. E após cumprido a tarefa, o jogador nem volta a falar com o NPC, apenas acessa um menu ao pausar e pega a recompensa, um item, pela missão realizada. Dado o senso de urgência da trama, para não quebrar a história, até entendo os motivos para esse sistema, mas não nego ter estranhado um pouco.

Na esfera de histórias alternativas, o que Scarlet Nexus apresenta é um sistema de vínculo de amizade com seus companheiros, a qual histórias secundárias são ativadas quando você está numa base do grupo, a qual o jogo denomina como um interlúdio entre os capítulos de história. Dentro da base é possível dar presentes aos companheiros, a qual você os compra trocando itens coletados pelos cenários de combate, e também ativar novos diálogos de histórias. Em alguns casos, estas histórias podem levar o jogador a missões extras, a qual será possível combater inimigos. Porém em grande parte, estas missões de amizade com histórias, o levará a uma bar para que os personagens fiquem conversando e conhecendo mais a si mesmo e refletindo os eventos a qual estão passando. Esse aspecto da conversa de bar achei meio relaxado, meio “faz assim mesmo e tá bom“.

A boa notícia nesse aspecto do jogo é que o título está totalmente localizado em português (legendas). O que é um tremendo alívio, pois um jogo com tanto diálogo e tempo de tela com sua narrativa, afastaria uma parte considerável do público interessado caso não estivesse em nosso idioma. O áudio, por sinal, pode ser selecionado entre inglês e japonês. Para o Brasil, a qual gostamos de animês em áudio original, ter a opção das vozes japoneses, enquanto as legendas e todos os menus estão em português, certamente será apreciado por muitos.

Considerações finais

Scarlet Nexus é um lançamento incrível vindo da equipe de Code Vein. Posso dizer que é mais assertivo do que este mencionado, que apesar de bacana, ainda parecia demais o título a qual serviu de inspiração. Aqui a construção de mundo é original e especialmente instigante, enquanto a ação é própria e divertida, entregando uma obra que não necessariamente se pareça demais com qualquer coisa já lançada, mesmo que tenha uma clara inspiração na fórmula de combate de jogos como Devil May Cry/Bayonetta.

A ideia de duas campanhas, que trabalham uma mesma trama, ocorrendo em perspectivas distintas também é uma tremenda sacada, pois é bastante incomum em termos de JRPG. E melhor do que isso, o jogo genuinamente consegue lhe instigar a jogar ambas as aventuras, tento em vista o quão carismáticos são os personagens, e não digo apenas os protagonistas não. O elenco de apoio também é muito bem cuidado e todos ali são interessantes e possuem momentos bem legais no decorrer da trama, sendo que esta tem bons lances de mistérios e intrigas.

O cenário ficção científica em um futuro distópico também parece combinar muito com sua proposta, especialmente nesse momento em estamos curiosos com os avanços científicos e para onde o futuro pode nos levar. RPGs medievais ou de fantasia estão cheios por aí, mas uma trama futurista em JRPGs não estão exatamente aos montes por aí. E o jogo consegue combinar muito bem essa coisa do futuro e do terror de monstros e elementos paranormais. Você compra muito fácil sua ambientação.

Elogios também precisam ser feito aos gráficos de Scarlet Nexus. Que jogo bonito em tantos aspectos. O cenário ao fundo é riquíssimo em detalhes, com estes fios vermelhos são parte importante da construção narrativa e direção de arte do jogo. Os modelos 3D dos personagens também estão incríveis e não deixam em um pouco a desejar. Soa de fato como uma bela animação. Na hora do combate, os efeitos técnicos, como sombras, faíscas, efeitos de movimentação… tudo é perfeitamente bem apresentado. Ao menos a versão otimizada para os novos consoles, pensando que o testei no Xbox Series S. Nesse caso, telas de carregamento não levam nem 5 segundos para darem sequência ao progresso do jogo.

Assim, Scarlet Nexus me parece um excelente acerto da Bandai Namco em sua busca por novas IPs e iniciativas em JRPGs que não sejam baseadas em consagradas franquias dos mangás e animês, ou no universo de fantasia de Tales of. O título acerta em quase tudo a qual se propõem, exagerando apenas (a meu ver) no exceções de telas de diálogos e em poucas cutscenes para justamente uma melhor dinâmica da narrativa. A áreas de ação podem ser bem lineares, mas o que importa nesse momento é realmente a ação providenciada por um combate realmente incrível e altamente satisfatório. Apesar de ser um título que roda tanto nos consoles da geração que está quase se aposentando, Scarlet Nexus tem toda uma pinta de jogo de nova geração de games. E esse é um momento em que tem muitos procurando justamente jogos que estejam pisando em novas ideias, novas iniciativas e aprimorando ainda mais visuais e a experiência que se pode tirar dos novíssimos consoles. Scarlet Nexus consegue balancear muito bem esse sentimento, sem esquecer de uma base grande de jogadores que ainda estão preparando para este salto. Então plug sua conexão cerebral e sobreviva a invasão destas bizarras criaturas.

Galeria

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Dando uma nota

Louvável direção de arte e character design, entrega uma incrível atmosfera - 9.2
Combate frenético, intenso e com boas opções de ataques e especiais - 9
Duas campanhas com diferentes perspectivas, inimigos e jogabilidade distintas entre seus protagonistas - 8.5
Ótima progressão, sempre apresentando novas opções de habilidades e macânicas ao jogador - 8
Ambientes lineares e fraco sistema de tarefas secundárias são dois pontos fracos do jogo - 6.9
Ótima trama, ainda que construida em cima de muito tempo de diálogos entre a jogabilidade - 7.5
Possuindo muito texto, acaba sendo excelente que tenha recebido localização em português - 9

8.3

Ótimo

Scarlet Nexus é uma excelente nova iniciativa de IP da Bandai Namco, entregando um mundo distópico interessante, com personagens realmente bem trabalhados para um JRPG. Duas campanhas, duas perspectivas, dois protagonistas com jogabilidade própria. Combate recheado de ação, com bons controles e um design de inimigos pra lá de curioso. Peca em alguns momentos por possuir uma grande exposição de diálogos e pelo layout do mundo ser linear, sem espaço para o jogador se sentir livre. Contudo, ainda assim a aventura move o jogador a seguir em frente, afoito por saber mais da trama, empolgado com os combates que ainda estão por vir. Apesar de estar nos consoles da geração anterior, o título tem bastante personalidade de jogo de nova geração.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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