Análise | MOUSE: P.I. For Hire

Disponível para PlayStation, Switch, Xbox & PC

Mouse: P.I. For Hire está disponível para investigá-lo! Desenvolvido pela Fumi Games e publicado pela PlaySide Studios, o jogo nos mostra um curioso mundo em estilo desenho animado bem retrô, que remete visualmente aos desenhos animados pioneiros da Disney.

Lembra-se de Cuphead? É bem essa vibe, mas ainda mais retrô, em preto e branco, e inesperadamente, é um tiro em primeira pessoa. Pois é, isso por si só já deveria fazer você jogar ele, mas há muito mais em jogo aqui.

Há jogos que impressionam pela tecnologia. Outros pelo tamanho do mundo. E existem aqueles raros títulos que conquistam pela personalidade. Mouse: P.I. For Hire pertence claramente à terceira categoria. O FPS da Playside não reinventa a roda, nem tenta revolucionar o gênero, mas faz algo que muitos lançamentos milionários parecem ter esquecido: cria uma identidade própria.

Inspirado pelos desenhos animados dos anos 1930, pelo cinema noir e por clássicos dos jogos de tiro da era Xbox 360 e PlayStation 3, Mouse: P.I. For Hire mistura estilos que, no papel, poderiam parecer incompatíveis. Na prática, o resultado é surpreendentemente coeso e extremamente carismático.

Uma cidade cheia de charme e mistério

A aventura coloca o jogador na pele de Jack Pepper, um detetive particular envolvido na investigação do desaparecimento de uma atriz e de um famoso mágico. Inicialmente, pouco se sabe sobre o protagonista, e o jogo faz questão de manter esse mistério por bastante tempo.

A narrativa segue uma estrutura investigativa clássica. Durante as missões, o jogador encontra pistas que são levadas para um painel de investigação, onde conexões são estabelecidas para liberar novos casos e avançar na história principal. É uma fórmula simples, mas que funciona muito bem graças ao excelente ritmo da campanha.

O mais interessante é que o universo da cidade de Mouseberg vai muito além da aparência cartunesca. Conforme a história avança, o jogador descobre conflitos antigos, guerras, tensões sociais e relacionamentos complexos entre os personagens. O que começa como uma investigação aparentemente tradicional acaba evoluindo para algo muito mais pessoal e emocional.

O roteiro também surpreende pela forma como equilibra humor e drama. Em um momento, Jack está fazendo comentários sarcásticos e referências absurdas; no outro, personagens discutem temas pesados e dilemas genuinamente humanos. Essa alternância poderia soar estranha, mas acaba reforçando a personalidade única do jogo.

Um estilo visual que vai além da estética

A primeira coisa que chama atenção é, sem dúvida, a direção artística. Todo o visual remete aos desenhos clássicos em preto e branco das décadas de 1920 e 1930. Porém, o jogo não usa essa estética apenas como uma camada superficial. Cada personagem possui animações próprias, visual distinto e grande atenção aos detalhes. As cenas de transição entre missões são particularmente impressionantes. Mesmo sendo uma produção independente, existe um cuidado enorme com a apresentação. Nada parece reaproveitado ou feito às pressas.

Outro destaque está na forma como a violência contrasta com a aparência inocente do mundo. Apesar da estética inspirada em cartoons, o jogo não tem medo de mostrar situações sombrias. Há assassinatos, torturas, corrupção e momentos bastante pesados que criam um contraste constante entre o visual amigável e a realidade brutal daquele universo. Essa dualidade acaba sendo um dos maiores trunfos da experiência.

Jogabilidade familiar, mas extremamente competente

Quem já jogou Doom, BioShock ou outros FPS mais tradicionais vai se sentir em casa rapidamente. A estrutura das fases é predominantemente linear. O jogador avança por cenários relativamente fechados, explora áreas secretas, coleta itens e enfrenta arenas de combate repletas de inimigos.

As movimentações incluem salto duplo, corrida pelas paredes e outras habilidades que deixam a ação bastante dinâmica. O combate é rápido, responsivo e divertido do início ao fim. O arsenal é surpreendentemente amplo. Conforme a campanha avança, novas armas são desbloqueadas e podem ser aprimoradas através de projetos encontrados durante a exploração.

Os upgrades vão além de simples aumentos numéricos. Muitas armas recebem novos modos de disparo e até mudanças visuais visíveis em tempo real. A pistola pode ganhar rajadas de três tiros, a escopeta recebe ataques carregados e diversas outras melhorias tornam cada equipamento mais interessante conforme o jogador investe recursos nele. O resultado é um sistema de progressão satisfatório e constantemente recompensador.

Exploração que vale a pena

Embora o combate seja o foco principal, a exploração desempenha um papel importante. As fases estão lotadas de segredos, colecionáveis, jornais, quadrinhos, cartas e projetos de armas. Muitos desses itens expandem significativamente a construção do mundo.

Os jornais são especialmente interessantes porque ajudam a explicar eventos históricos, conflitos e detalhes que a campanha principal apenas menciona superficialmente. Quem dedica tempo à exploração acaba recebendo uma compreensão muito mais profunda do universo.

Há também áreas secretas espalhadas praticamente por toda parte. Algumas escondem recursos valiosos, enquanto outras servem apenas para recompensar a curiosidade do jogador.

Minijogos que adicionam personalidade

Uma das maiores surpresas é a presença de atividades paralelas. O principal destaque fica para o minijogo baseado em cartas de beisebol. Conforme novas cartas são encontradas, o jogador pode participar de partidas simplificadas que misturam estratégia e sorte.

A mecânica é extremamente acessível, mas divertida o suficiente para funcionar como uma excelente distração entre uma missão e outra. Outro momento curioso é o sistema de arrombamento de fechaduras, que utiliza a cauda do protagonista para atravessar pequenas armadilhas dentro do mecanismo da fechadura. É uma ideia simples, criativa e muito divertida.

Nem tudo funciona perfeitamente

Apesar das inúmeras qualidades, Mouse: P.I. For Hire não está livre de problemas.

O principal deles está relacionado aos bugs. Durante a campanha, podem ocorrer missões que travam, baús que não abrem corretamente, conquistas que falham em desbloquear e pequenos problemas de progressão. Felizmente, nada parece comprometer seriamente a experiência, mas são falhas que ainda precisam de atenção.

Outro ponto discutível está no design dos combates. Embora as armas sejam excelentes, os inimigos poderiam exigir estratégias mais variadas. Na maior parte do tempo, o jogador escolhe sua arma favorita e segue utilizando-a durante quase todo o jogo. Alguns inimigos específicos apresentam mecânicas interessantes, como escudos que precisam ser quebrados ou criaturas mais resistentes que exigem abordagens diferentes, mas isso não acontece com frequência suficiente. O sistema teria se beneficiado de fraquezas específicas para determinados tipos de inimigos, incentivando um uso mais constante de todo o arsenal.

Além disso, o aspecto investigativo poderia ser mais profundo. O painel de pistas serve principalmente como ferramenta de progressão narrativa, quando poderia ter sido transformado em uma mecânica real de dedução e resolução de casos.

Por fim, o jogo às vezes entrega demais o que vai acontecer. Em diversas ocasiões, a simples presença de munição, armaduras e kits médicos espalhados pelo cenário denuncia que um grande combate está prestes a acontecer, reduzindo o impacto de algumas surpresas narrativas.

Veredito

Mouse: P.I. For Hire é um daqueles jogos que lembram por que tantas pessoas se apaixonaram pelos videogames. Não depende de mundos gigantescos, centenas de horas de conteúdo ou gráficos ultrarrealistas para prender a atenção. Ele aposta em atmosfera, personalidade, direção artística marcante, personagens carismáticos e uma campanha extremamente divertida.

A combinação entre filme noir, humor, investigação e ação frenética cria uma experiência única no mercado atual. Mesmo com alguns bugs e oportunidades perdidas em suas mecânicas investigativas e de combate, o saldo final é extremamente positivo.

Para quem sente falta dos FPS mais focados da geração Xbox 360 e PS3, ou simplesmente procura um jogo com identidade própria em meio a tantos lançamentos genéricos, Mouse: P.I. For Hire surge como uma das grandes surpresas do ano.

A key do jogo foi cedida via #keymailer.

Galeria

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Dando nota

Direção artística espetacular - 10
Ótimo trabalho de voz e trilha sonora - 9
Mundo rico em lore e colecionáveis - 9
Sistema investigativo pouco explorado - 7.5
Inimigos poderiam exigir mais estratégia - 6.5

8.4

Um acerto nostálgico

Mouse: P.I. For Hire não é apenas um FPS estiloso. É um jogo com alma — e isso vale mais do que qualquer efeito gráfico de última geração.

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