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Crítica | Jogador Nº 1 (Ready Player One) – Ernest Clive

Quando a paixão pela cultura pop se torna maior que a criação de algo original.

Este texto foi enviado a nós pelo leitor Rafael Mattos (http://www.facebook.com/rafmattos) e é o primeiro a ser publicado dentro do projeto P2. Caso ainda não saibam que projeto é esse, e como ele funciona, sugiro a leitura desse post.

Pois bem, apreciem a seguir o texto encaminhado por ele. 

Jogador Nº 1 Livro Ready Player One Ernest Clive

Apesar de não ter lido muitos livros na vida, eu adoro leitura. Sou do tipo de pessoa que não gosta de lê-los pela internet e, quando sobra dinheiro, acabo comprando algum. Como o dinheiro é pouco, eu sou bem seletivo ao que vou comprar. Passo vários minutos em livrarias lendo sinopses e “analisando” qual me tirou mais interesse, até eleger um que, com certeza, irei adquirir. Foi dessa forma que me deparei com “Jogador Número 1” (Ready Player One de Ernest Cline).

Antes de falar do livro, uma pequena nota sobre o autor: Ernest Cline é uma figura que ficou conhecida no mundo nerd após roteirizar o filme Fanboys (2009) que conta a história de alguns fãs de Star Wars que vão até o Rancho Skywalker para assistir Star Wars: Episódio 1 – A Ameaça Fantasma. Eu nunca assisti o filme (até porque nunca vi Star Wars – Eu sei. Mó vergonha da minha parte).

Então, em 2011, foi lançado o livro Jogador Número 1.

Ernest Cline junto de uma réplica do DeLorean do De Volta Para o Futuro.

A história se passa entre 2044 e 2045 e, como a maioria das histórias de ficção científica, o futuro é um péssimo lugar para se viver, onde a falta de comida, moradia e trabalho atingem grande parte da população. A crise de energia e as mudanças climáticas se tornaram cada vez mais comuns. Nesse futuro desanimador, muitos passaram a fugir da realidade com o video game OASIS, uma utopia virtual e multifacetada onde você pode ser e fazer o que quiser dentro do jogo.

Quando James Halliday, o ricaço que criou o jogo, morre, ele deixa um testamento em forma de vídeo, fazendo uma competição aos jogadores do OASIS dividida em várias partes, onde, quem vencer, terá toda sua fortuna e também a administração do jogo (Quem mais lembrou One Piece? xD). Ao passar dos anos, diversos jogadores tentaram completar os enigmas impostos no desafio de Halliday, que tinham como base a cultura pop da época que ele adorava – os anos oitenta -, mas ninguém obteve sucesso em resolvê-los.

Após um bom tempo, Wade Watts (Que possui o login de “Parzival” dentro do OASIS), nosso protagonista, consegue resolver o primeiro enigma e todo mundo passa a acompanhar seus passos. É aí que o livro tem início. Wade descobre que muitos outros jogadores – e até mesmo uma empresa – farão de tudo para impedi-lo de receber a herança de Halliday. Correndo risco de vida, o garoto percebe que o único jeito de sobreviver é, realmente, vencer a competição.

Com essa sinopse, os direitos do livro foram logo comprados pela Warner Bros, a fim de transformá-lo num filme. E essa informação se encontra exatamente no “Agradecimentos” de Jogador Número 1, ou seja, o estúdio comprou os direitos antes do lançamento do livro.  Pois é, a Warner foi ligeira.

 Uma parte da sinopse que se encontra na contracapa do livro é:

“Agora, a única maneira de Wade sobreviver e proteger tudo que ele conhece é vencer. Mas, para isso, talvez tenha que deixar para trás sua perfeita existência virtual e encarar a vida – e o amor – no mundo real do qual ele sempre fugiu desesperadamente.”

Na minha cabeça, o pensamento era esse: “Um nerd antissocial que fica somente dentro de um jogo e que, de repente, para vencer uma competição, necessita enfrentar o mundo real? Isso vai ser incrível!” O problema é que isso não acontece. Apesar de sabermos que o futuro retratado no livro é terrível e com falta de recursos, 2/3 da trama se passam inteiramente no OASIS. E o pouco tempo que temos no mundo real não consegue expressar tão bem o quão fodido o mundo está em 2044. Um aspecto muito mal aproveitado.

Dessa forma, o livro se foca na competição de Halliday, com a narração em primeira pessoa feita pelo próprio Wade. O desafio consiste em encontrar uma chave; abrir o portão com ela; encontrar uma segunda chave; abrir o segundo portão; encontrar uma terceira chave e abrir o terceiro portão. Ao vencer o desafio do terceiro portão, pimba! Você é o ganhador. Seguindo essa temática o livro é dividido em três partes. A primeira parte segue Wade para o encontro da primeira chave e do primeiro portão e assim vai…

Enquanto a competição vai rolando e Wade vai encontrando mais pistas (Com ou sem a ajuda de seus amigos), o autor aproveita para gastar páginas e páginas explicando sobre a diversidade que o OASIS pode apresentar.

O OASIS é o destaque, a deusa-mor do universo que Ernest Cline criou. OASIS é uma puta utopia cheia de setores e, desses setores, estão diversos planetas. Cada planeta com uma temática diferente e com coisas diferentes para se fazer. Se o desemprego é algo comum na vida real, no OASIS você pode trabalhar sem sair de casa. Em vez de ir para sua escola, você pode ter aulas virtuais. Você pode ainda assistir um filmes, jogar um jogo ou acessar bibliotecas, tudo dentro do jogo. Você também pode visitar os planetas com carros voadores ou pode criar seus próprios canais de televisão. Sem contar que, se na vida real, você é um cara gordo que vive no porão da casa da sua mãe e se chama Chuck, no OASIS você pode ser uma guerreira gostosa com um sabre de luz.

Wade Watts logado no OASIS usando um visor e luvas virtuais para mexer com o jogo.

Toda a forma que Cline detalha sua criação é muito boa e é incrível a quantidade de coisas que Wade e os outros jogadores conseguem fazer no OASIS ao longo do livro, porém, de certa forma isso se torna um problema, pois, quando a história está ficando boa e o leitor está louco pra saber o que vai acontecer, a trama dá um tempo, e Wade (nosso narrador) explica algo que o OASIS possui e que, de algum jeito, terá importância mais pra frente no enredo.

Acredito que o motivo de tantos detalhes – muito deles, visuais – é o fato da Warner ter comprado os direitos dos estúdios. Por ser um roteirista, Ernest narrou o livro de forma simples, criando diálogos e cenas de lutas já pensando no filme.

Por todas essas explicações, com certeza Cline facilitou para os profissionais em efeitos especiais que não vão precisar quebrar tanto a cabeça para criar o OASIS no cinema.

Uma das capas da versão americana de Ready Player One mostra o protagonista, Wade Watts, subindo uma escada para ter acesso ao seu trailer.

Wade Watts, o protagonista e também narrador da história, é um garoto nerd, gordo e antissocial que é obrigado a morar com sua tia e o namorado dela, já que seus pais estão mortos. Eles vivem num trailer numa pilha dos mesmos. A pilha de trailer é uma das formas que a população pobre arrumou de conseguir viver em algum lugar, já que pagar uma casa própria tornou-se algo extremamente difícil em 2044.

Wade crescera num mundo onde o OASIS já havia se tornando um estouro entre as pessoas (algo parecido com o que conseguiram Orkut, Facebook e o YouTube, entretanto numa escala muito maior)  e desde a morte de Halliday, com o início da competição, o garoto se tornou um grande discípulo do Almanaque de Anorak.

Anorak era o login de Halliday no OASIS e ele criou um Almanaque citando tudo o que gostava na sua infância. Como os enigmas da competição tinha como base a cultura pop dos anos oitenta, Wade passou boa parte dos últimos anos assistindo filmes, séries, jogando games, ouvindo músicas e lendo livros que remetiam àquela época, e que também eram citados no Almanaque.

Wade é um personagem bastante fácil de se identificar (ainda mais se você for um nerd com problemas sociais) já que entendemos o modo como ele pensa. Por ser pobre, ele não possui créditos para gastar dentro do OASIS, mas por ser extremamente inteligente e focado, acaba descobrindo onde fica a primeira chave antes de todo mundo.

Os outros personagens são os clichês básicos que já vimos em diversas histórias de aventura. A única diferença nesses seus amigos é que Wade não sabe seus nomes verdadeiros e nunca os encontrou na vida real, só dentro do jogo. Para não entregar muitos spoilers (revelação do enredo), citarei apenas dois mais importantes. São eles:

Aech – Seu melhor amigo. Seu nível de conhecimento em cultura pop oitentista é tão grande quanto de Wade/Parzival, e ele também quer ganhar a competição. Sempre acabam tendo alguma discussão sobre qual filme é o melhor ou qual deles conseguem uma pontuação mais alta em determinado jogo.

Art3mis – Uma jogadora que possui um blog onde comenta sobre a competição e o OASIS em si. Ela acaba mantendo contato com Wade que se apaixona por ela. Quer ganhar a competição para poder ajudar o mundo com o dinheiro que receber.

Os personagens são apenas o que são. Wade é o nerd antissocial que quer ganhar a competição para melhorar sua vida financeira e ter o amor de Art3mis; Aech é o seu grande amigo, que está atrás do mesmo prêmio; Art3mis é uma garota decidida que fará tudo para vencer. Enfim, quase nada muda em relação aos personagens do começo ao final. Não há uma grande evolução, exceto por parte de Art3mis, mas ainda sim é muito imprevisível.

Para finalizar, é importante ressaltar que maior do que o destaque recebido pelo OASIS, são as referências culturais que saem da cabeça de Ernest Cline por intermédio de seu alter-ego Halliday. Ambos nasceram nos anos setenta e tiveram sua infância e adolescência nos anos oitenta. Por causa disso, Ernest se viciou na cultura pop da sua adolescência e Jogador Número 1, apesar de toda a história sobre um futuro tenebroso e a competição numa utopia virtual, é uma carta de amor que o autor fez para aquela época que ele tanto adorou. Citações a jogos antigos como Pac Man, Super Mario Bros Adventure (o primeiro jogo que possuía um Easter Egg); filmes como De Volta Para o Futuro, Os Caça-Fantasma e do diretor teen John Hughes; tokusatsus (filmes ou séries live-action sobre heróis japoneses) como Godzilla, Ultraman; e até alguns cantores e bandas que nunca ouvi falar (xD) são usados para compor as histórias.

As referências são tantas que causa até um certo exagero para quem lê. Dá pra ver que Cline se esforça muito para abranger tanto o público alvo (Os nerds oitentistas) quanto o público leigo nesse assunto. Isso acaba causando estranheza, pois há partes em que o leitor é sobrecarregado muitas informações, já em outra parece apenas uma festa de referências sem nenhuma nota do rodapé explicando o porquê delas serem importantes e estarem sendo citadas.

Jogador Número 1 foi criado tanto para ser um filme como para ser um clássico nerd. Apesar do livro ainda não ter ganhado muito destaque aqui no Brasil, nos EUA a recepção foi grande, criando diversos fãs que o adoraram. Muito desses fãs criaram artes, fanfics (histórias feitas por fãs sobre determinado universo já criado) e até cogitam quais atores deveriam interpretar tal personagem do livro.

Na minha visão, Jogador Número 1 é apenas mediano. Apresenta uma boa aventura aliada a uma leitura que flui rapidamente e com uma trama que se passa inteiramente num jogo complexo, porém muito bem explicado. Entretanto, as explicações são didáticas e extensas até demais, sendo muitas as referências. Esse livro é feito para os verdadeiros nerds saudosistas dos anos oitenta ou os nerds atuais que preferem Doc. Brown de “De Volta Para o Futuro” do que Sheldon de “The Big Bang Theory”. Ele também deve agradar aqueles que gostam de vídeo games. Eu mesmo acabei aprendendo bastante coisa através do livro.

Agora, se você apenas quer ler uma aventura num futuro fodido onde um nerd antissocial tem que enfrentar a vida real para sobreviver, não crie expectativas como eu criei. Nem sempre a sinopse de um livro te entrega o que você realmente que verá na história.

Livro: Jogador Número 1 (Ready Player One)
Autor: Ernest Cline
País: EUA
Páginas: 464
Editora: LeYa

Os créditos das 3º e 4º imagens vão, respectivamente, à Vishnu-Prasad (deviantart) e Bill Mudron (flickr)

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Mailson SHiN

Adorador de muitas coisas que nem sempre possuem relação. O que me ocupa nas horas vagas? De forma simples e compacta? Lá vai: Cinema (Filmes), Games, Animes, Mangás, Música (Engenheiros do Hawaii / Pouca Vogal), Tecnologia, Computadores. O que me ocupa nas horas "não-vagas"? Contabilidade e Legislação Tributária. Uma coisa leva à outra... ou talvez não.
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