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Análise | Tell Me Why – Capítulo 1

Disponível para Xbox One & PC

Tell Me Why coloca os jogadores mais uma vez em um novo universo instigante e repleto personagens e situações reais que sempre impressionam. Sempre com aquela camada de sobrenatural a qual sua desenvolvedora, a Dontnod Entertainment, insere para reforçar elementos narrativos que tornam a experiência bem intensa ao jogador, enquanto que também se encaixa naturalmente ao trama proposto. É uma daquelas obras que você precisa se deixar levar pela narrativa, para se emocionar e se envolver com seus personagens, seus medos e superações.

O primeiro capítulo chegou ao Xbox One e PC (Windows 10 & Steam) nesta última sexta-feira, dia 28 de agosto. Assinantes do Xbox Game Pass (Console & PC) também já possuem acesso direto ao jogo, sem a necessidade de comprá-lo, com o demais capítulos também já confirmados que estarão no catálogo do serviço no dia em que foram lançados. E, por sinal, Tell Me Why será constituído de três capítulos, com um intervalo de uma semana entre eles. Ou seja, o capítulo 2 será lançado dia 4 de setembro, e o capítulo 3 finaliza a história em 11 de setembro. Um calendário bem ágil de lançamento, o que é bom para quem não curte esperar muito por novos episódios em jogos serializados.

Tell Me Why é um jogo com o DNA dos atuais jogos narrativos da Dontnod. Simular ao aclamado Life is Strange, a qual o jogador segue uma trama a qual precisa explorar ambientes em busca de expandir detalhes narrativos, conversar com diversos NPCs e em situações chaves precisa tomar decisões que ditam os rumos dos eventos posteriores e até mesmo te leva a diferentes finais.

Confrontando memórias

Aqui acompanhamos a história dos gêmeos, Alyson e Tyler Ronan, que foram separados por 10 anos após um incidente envolvendo a morte de sua mãe. Agora já adultos (jovens adultos, vai), Alyson e Tyler voltam a se encontrar com o objetivo de retornarem a casa a qual cresceram para vendê-la, enquanto lidam com todas as memórias que o lugar representam. O ponto central é que talvez as memórias do fatídico evento envolvendo a perda da mãe não seja exatamente aquilo a qual eles se recordam.

Outro ponto importante para a construção desta história envolve o personagem Tyler, que é um homem transgênero (ele nasceu com o gênero feminino, porém possui uma identidade de gênero masculina). Para a construção do personagem, a equipe de desenvolvimento trabalhou de perto com entidades e pessoas transgêneros afim de tornar o personagem real, evitando estereótipos errôneos ou situações e diálogos inverossímeis ao que ocorrem com pessoas como Tyler. Existe um valioso FAQ no site do jogo abordando o assunto da representatividade e quão cuidadosos os desenvolvedores foram ao criar o personagem. O dublador (da versão em inglês) de Tyler, August Black, é um homem transgênero e também prestou uma grande colaboração nos diversos diálogos do personagem ao longo da construção narrativa da obra.

Tell Me Why abre sua trama, e isso não chega então a ser um spoiler, com Tyler, ainda criança, assumindo perante o delegado da cidade ter matado a mãe em legítima defesa, pois caso o contrário teria sido morto por ela. Esse é um momento chave da história e que será expandido no desenrolar do game. O que realmente aconteceu, quais as motivações da mãe, Mary-Ann, e qual a relação dos gêmeos com a mãe nas semanas que antecederam a tragédia.

O fato de Tyler ser um homem transgênero importa a esse contexto narrativo? Sim, porém não quero explicar demais sob o risco de contar demais sobre a construção narrativa que vem após os eventos iniciais comentados acima. O jogo vai trabalhar com esse elemento, tanto na transição do personagem quando ainda criança, assim como o reencontro dele com diversas outras pessoas de sua cidade natal, 10 anos depois de tudo que aconteceu. E basta dizer que a sutileza a qual Tell Me Why apresenta tudo isso, é realmente com muito respeito, apresentando os valores corretos de como abordar o assunto.

Mas não só isso, o jogo brinca um pouco com essa coisa de irmãos gêmeos estarem sempre conectados um ao outro. E é nessa abordagem que surge o elemento sobrenatural, com Alyson e Tyler podendo se comunicar telepaticamente, enquanto também descobrem uma incomum maneira de reviver lembranças guardadas a sete chaves em suas mentes.

Super gêmeos, ativar!

É nesse elemento, dos gêmeos com poderes sobrenaturais, que o título traduz boa parte de suas mecânicas envolvendo a jogabilidade. Lembrando que sendo um jogo narrativo, não espere por grandes momentos de ação com controle. Você vai andar por ambientes e conversar com pessoas, é a fórmula do gênero e não espere mais do que isso, ao menos nesse primeiro capítulo.

O jogador assume o papel de ambos os irmãos, há segmentos em que se controla Alyson e em outros assumimos o controle de Tyler. Não é possível escolher quem você quer seguir, isso é uma escolha do jogo. Mas neste primeiro eles estão sempre juntos, então os diálogos iriam acontecer, independente de quem escolhesse. Inclusive existe um recurso de responder perguntas que um faz ao outro, ainda que estejam meio distantes no ambiente, cada um fazendo algo. Basta selecionar o gatilho do controle e escolher uma resposta dentre algumas opções.

Na parte das memórias, o jogo também cria um interessante efeito brilhante que diz que ali há uma memória a ser revelada, com o controle também vibrando para avisar do local. Esse aspecto me incomodou o fato de não aparentar existir memórias secretas, do tipo em que o jogador pode encontrar sem que o jogo lhe avise que há uma memória ali. Andei por muitos dos ambientes do jogo apenas segurando o gatilho que força essas memórias e ele nunca foi mais eficiente do que a vibração do controle, indicando que ali havia uma memória. Seria interessante se os desenvolvedores tivessem escondidos algumas extras, a qual só tentando ativar é que as revelaria.

Em outra situação, achei interessante os personagens conversarem telepaticamente, enquanto estava tendo um diálogo com um terceiro personagem presente no local. Isso cria uma camada extra de potenciais respostas dentro da dinâmica de decisões em diálogos que aumenta um pouco o básico desse tipo de situação. Mas aqui, no capítulo um, só há um momento assim, que pena.

Outra situação singular também ocorre quando ambos os personagens lembram de uma mesma situação de maneiras diferentes. Quem nunca passou por isso com um amigo ou membro da família? Só que aqui, o jogador não pode ficar com ambas as memórias, sendo obrigado a escolher uma e seguir com a narrativa a partir dali. Engenhoso e que dá o tempero certo ao fato de ser uma narrativa de escolhas e consequências.

Por sinal, já neste primeiro capítulo, o título já pede ao jogador algumas escolhas a qual considerei difíceis de se fazer, e que nunca fica muito claro qual seria a melhor resposta ou o que poderia ser chamada de “resposta correta”. Acho que tomei algumas decisões ruins, e não pude voltar atrás.

Puzzles também se fazer presentes, mais especificamente dois deles. Um envolve abrir uma porta lendo dicas em uma fábula infantil e a outra indica que o jogador deve arrancar uma confissão de uma personagem obtendo pistas pelo cenário. Há um outro puzzle, que pede para se hackear um computador descobrindo a senha de uma pessoa, que apesar de ter feito, não achei que houve qualquer impacto na história, parecendo apenas algo para lhe dar uma conquista dentro do sistema do jogo, o que me decepcionou um pouco. No geral não são puzzles muito complicados, mas pedem certa paciência do jogador.

Em termos de jogabilidade, não existiu nenhum momento em que o jogo de fato me surpreendeu. A fórmula dos jogos da Dontnod é muito familiar a quem já conheceu seus jogos anteriores. O que não chega a ser um fato negativo, mas que também acaba não enaltecendo o que já se é esperado. Certamente o grande trunfo aqui é sua forte e envolvente história, além da bela construção de personagens que se mostram interessantes nesse capítulo inicial.

Considerações… por enquanto

Sendo um primeiro capítulo de uma série de três capítulos, acho que não convém me esticar demais nesta análise inicial. Quero voltar a falar de Tell Me Why daqui duas semanas, quando o terceiro capítulo concluir a trama. Para agora, o que vale mesmo é sua indicação, pois é um título realmente interessante e com um sólido ato inicial de uma história que parece mais do que inicialmente se apresenta.

Gostei muito do elemento do diário de fábulas que se apresenta em certo momento do jogo, com inúmeras histórias envolvendo personagens de fantasia, como goblins e bruxas. Isso não está inserido no jogo de forma gratuita. Existe um contexto sendo construido nessa mitologia, inclusive que pode vir a ser algo maior na trama. Fora a metáfora que esses personagens dos contos muitas vezes parecem transparecer nos personagens e suas lembranças, como os gêmeos serem os irmãos goblins e a vilã destas fábulas muitas vezes indicarem a figura materna ali. Há um contraste que desejo muito que se expanda nos próximos capítulos.

Estes jogos narrativos da Dontnod também são, normalmente, elogiados por sua trilha sonora. Porém aqui não encontrei estes momentos tão singulares a qual a música me envolvesse dentro daquele universo. Tive esse sentimento musical nos dois Life is Strange, mas não aqui. Ao menos por enquanto. O aspecto sonoro, entretanto, mantém a qualidade excepcional do estúdio. Há uma viagem de balsa em um momento do jogo em que o silêncio é muito característico do local isolado a qual estão os personagens. O jogo passa, por sinal, em uma cidade pequena dentro da região do Alaska. Há muita neve, e uma paisagem contemplativa que é esplendorosa.

Também é importante apontar que Tell me Why encontra-se, nesse momento, totalmente localizado em português, por meio de legendas. Originalmente o título receberia dublagem em português, mas devido ao estado da pandemia que se espalhou por todo o ano de 2020, o estúdio precisou atrasar um pouco a dublagem de diversos idiomas. E por isso o jogo saiu apenas com a dublagem em inglês. Futuramente haverá uma atualização que atualizará e trará as dublagens em diversos idiomas, incluindo o nosso, mas isso infelizmente não tem uma data certa para acontecer. Mas na boa? Sente um título bem adulto, não acho que a falta de dublagem seja um problema. As legendas são mais do que suficiente e as vozes originais, juntamente com a atuação, estão impecáveis.

Ao terminar o capítulo um, fiquei sensibilizado pela história dos irmãos. Claramente há algo ali que eles não estão vendo e que o jogador parece conseguir entender um pouquinho mais do que ambos. Só que pode ser apenas uma pista falsa dos roteiristas. Entretanto gostei muito da cena final do capítulo. Soltei um sonoro “eu sabia” em certo momento.

Tell Me Why é visualmente lindo nas tomadas externas, e soube criar um ambiente envolvente, hora acolhedor, hora claustrofóbico. Está trabalhando com um tema muito delicado, porém com a sensibilidade que me soa muito correta. Em um mundo polarizado, e na qual este ano mesmo as pessoas estão brigando e lutando pela representatividade e igualdade de todos, me soa muito oportuno fazer esse tipo de abordagem. Mesmo que a jogabilidade não esteja tentando fazer algo novo, sua conhecida fórmula ainda funciona por conta da narrativa bem desenvolvida. E toque sobrenatural, acredito que seja necessário e que é criado para ser algo contextualizado com os personagens, a situação e o mundo apresentado. Gostei, me envolvi e fico muito contente que daqui uma semana (menos até, considerando o dia de publicação deste texto), poderei continuar sua trama.

Galeria

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Dando uma nota

Apresenta uma intrigante história, com personagens muito bem construídos - 9
Mantém a conhecida fórmula do estúdio, sem surpresas na jogabilidade - 7.5
Elemento sobrenatural casa com o contexto narrativo, funciona a sua proposta - 8
Interessantes puzzles, assim como as decisões que precisam ser tomadas - 8
Trabalha com grande cuidado e respeito a temas sensíveis sobre identidade transgênero - 10
Próximos capítulos serão lançados em uma janela semanal entre si, isso é bem rápido - 9
Trilha sonora não desperta a atenção na proporções de outras obras do estúdio - 7.5

8.4

Ótimo

O primeiro capítulo de Tell Me Why coloca o jogador em uma instigante trama, a qual você anseia por querer saber mais do passado dos gêmeos, em particular o que estava acontecendo com a mãe da dupla. Mecanicamente o título não apresenta nada novo à fórmula, porém a executa com a maestria já conhecida. O toque sobrenatural continua fazendo parte do DNA desse estilo de jogo, e segue conversando muito bem com os demais elementos presentes na trama. Há decisões interessantes, bons puzzles e um universo em que você se sente contagiado em querer explorar e descobrir mais. Há muito respeito também aos temas sensíveis aqui proposto. Se a jornada até o fim valerá a pena, descobriremos em duas semanas. Entretanto este ponto inicial cumpre seu papel!

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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