Análise | The Blood of Dawnwalker

Disponível para PlayStation, Xbox & PC

The Blood of Dawnwalker é um RPG onde cada escolha pesa — e o tempo é seu maior inimigo. Com uma ambientação sombria, combate direcional e um sistema de escolhas amarrado ao avanço do tempo, The Blood of Dawnwalker mostra que ainda existe espaço para RPGs que deixam o jogador descobrir suas próprias histórias.

Existe algo estranhamente prazeroso em jogar um RPG de mundo aberto sem saber exatamente o que fazer. Hoje, basta uma pesquisa rápida para descobrir qual decisão tomar, onde encontrar determinado item, como desbloquear uma missão secreta ou qual caminho seguir para conseguir o melhor resultado possível. Guias, vídeos e wikis transformaram os grandes RPGs em verdadeiras planilhas de otimização.

The Blood of Dawnwalker segue na direção contrária.

Desenvolvido pela Rebel Wolves, equipe formada por profissionais que trabalharam em The Witcher 3: Wild Hunt, o jogo coloca o jogador em uma Europa medieval fictícia devastada pela Peste Negra e dominada por vampiros. Mas, em vez de transformar sua aventura em uma simples corrida para cumprir objetivos, Dawnwalker coloca uma pressão muito mais interessante sobre o jogador: você tem tempo limitado para salvar aquilo que realmente importa. E o jogo faz questão de não dizer exatamente como fazer isso.

Uma história de vampiros, peste e sobrevivência

A aventura acompanha Cohen, um jovem que vive com sua família na vila de Lazlia, localizada na região de Veil Sangora. O cenário já seria suficientemente sombrio apenas pela presença da peste. Mas a situação se torna ainda pior depois que a antiga nobreza humana é derrubada pelo senhor vampiro Brencis.

Apesar de seus poderes assustadores, Brencis conquista parte da população ao demonstrar que o sangue dos vampiros é capaz de curar doenças — inclusive a peste. O preço dessa “salvação”, entretanto, é bastante alto. Os habitantes precisam participar semanalmente das chamadas missas de sangue, cerimônias nas quais oferecem parte do próprio sangue e participam de um ritual que remete diretamente à comunhão religiosa. É uma maneira bastante eficiente de estabelecer a relação de poder entre humanos e vampiros.

Cohen tenta fugir da região com sua irmã Lunka, que está sendo afetada pela peste. A tentativa dá errado, sua família acaba capturada e Cohen é transformado em um Viri. Então vem a notícia que estabelece o relógio da aventura: Brencis pretende sacrificar sua família em um antigo ritual dentro de 30 dias. Cohen precisa impedir isso. E precisa decidir como.

O relógio está correndo

Aqui está uma das ideias mais interessantes de Dawnwalker. O jogo não coloca um cronômetro gigantesco no canto da tela obrigando você a correr desesperadamente pela floresta. O tempo avança conforme determinadas ações são realizadas. Missões, atividades e decisões consomem tempo.

Isso significa que o jogador precisa escolher onde investir seus dias. Quer explorar uma região? Pode. Quer caçar criaturas para ganhar experiência? Também pode. Quer realizar missões secundárias para ajudar personagens que encontrou pelo caminho? Vá em frente. Só não esqueça que cada uma dessas decisões pode aproximá-lo do momento em que sua família será sacrificada.

É uma mecânica simples no papel, mas extremamente eficiente na prática, porque cria uma sensação constante de urgência sem transformar a aventura em uma corrida contra o relógio. E o mais interessante é que o jogo não exige que você faça tudo. Na verdade, tentar fazer absolutamente tudo pode não ser a melhor estratégia.

Escolhas que realmente constroem a aventura

Grande parte da experiência está nas missões envolvendo os membros da corte de Brencis.

Existem três personagens importantes ligados ao governo vampírico, e realizar determinadas atividades aumenta seus respectivos níveis de hostilidade. Quando essa relação chega a determinado ponto, novas missões e confrontos são desbloqueados. Mas essas missões também funcionam como pequenas histórias independentes.

Em determinado momento, por exemplo, Cohen pode libertar um prisioneiro que posteriormente aparece roubando um comerciante ligado à corte. E então o jogo coloca o jogador diante de uma situação bastante simples e desconfortável:

Você vai ajudar o homem que acabou de libertar ou defender o comerciante que trabalha para os vampiros?

Não existe uma resposta piscando em verde dizendo “ESCOLHA CORRETA”.

Você simplesmente escolhe. É justamente esse tipo de situação que faz Dawnwalker funcionar tão bem como RPG narrativo. O mundo não parece estar esperando pelo protagonista. As pessoas possuem interesses próprios, as situações continuam acontecendo e personagens que você encontrou anteriormente podem reaparecer em circunstâncias completamente diferentes.

Um mundo aberto que recompensa explorar

Outro ponto interessante é como o jogo utiliza seus períodos de dia e noite. Algumas atividades só podem ser realizadas durante o dia, quando Cohen possui acesso às suas habilidades relacionadas à bruxaria. Outras dependem da noite e das habilidades adicionais oferecidas por sua forma vampírica. Isso transforma a exploração em algo mais do que simplesmente atravessar um mapa enorme.

Você começa a observar. Começa a procurar caminhos. Começa a pensar sobre o melhor momento para realizar determinada atividade. E, principalmente, começa a aceitar que talvez você não veja absolutamente tudo em uma única jornada. Curiosamente, porém, a experiência descrita na transcrição indica que é possível chegar muito perto de completar tudo em uma única campanha, desde que o jogador administre bem seu tempo e não desperdice oportunidades.

O combate é simples, mas funciona

Dawnwalker também apresenta uma mecânica de combate bastante interessante. Os ataques e bloqueios possuem direções específicas. Cohen automaticamente se movimenta em direção ao inimigo selecionado, enquanto o jogador utiliza o analógico para determinar o lado do golpe ou da defesa. Quando um inimigo ataca, um indicador mostra a direção do golpe nas dificuldades mais baixas. Bloquear no momento correto pode atordoar o adversário e abrir uma janela para contra-atacar.

Mais tarde, novas habilidades permitem realizar respostas ainda mais poderosas depois de uma defesa perfeita. É um sistema que começa relativamente simples, mas ganha sabor conforme o jogador aprende seus padrões. Enfrentar vários inimigos ao mesmo tempo pode produzir alguns dos melhores momentos da aventura. Existe uma satisfação genuína em alternar entre bloqueios e ataques enquanto diversos adversários tentam cercar Cohen. O problema é que a variedade não acompanha a qualidade da mecânica.

O problema da repetição

Durante uma aventura que pode chegar a aproximadamente 50 horas, a variedade de inimigos começa a pesar. Muitos adversários possuem comportamentos semelhantes, recebendo apenas mudanças visuais. Depois de determinado momento, o jogador começa a reconhecer os ataques simplesmente pelas animações.

Isso pode até ser interpretado como uma consequência positiva do aprendizado do sistema de combate, mas também deixa evidente uma limitação. Os chefes acabam se destacando justamente porque oferecem confrontos mais particulares. Os inimigos comuns, por outro lado, começam a parecer repetitivos. E isso é uma pena, porque o combate possui uma base bastante competente.

Problemas técnicos atrapalham a experiência

Também é impossível ignorar alguns problemas técnicos encontrados durante a experiência analisada. Cohen ocasionalmente pode ficar preso na geometria dos cenários, especialmente em áreas mais apertadas ou durante combates com muitos personagens. Também foram observadas situações em que inimigos caíam para áreas inferiores do cenário sem morrer, obrigando o jogador a procurá-los para conseguir concluir o confronto.

Visualmente, o jogo alterna momentos impressionantes com problemas mais evidentes. Há cenários realmente bonitos, mas também aparecem falhas de iluminação e situações em que elementos do ambiente parecem carregar novamente durante determinadas cenas. É importante ressaltar que a experiência utilizada como base foi realizada em uma versão anterior ao patch de lançamento, em um Xbox Series X, que foi a versão que recebemos do estúdio para a nossa análise. Portanto, existe a possibilidade de parte desses problemas ser corrigida posteriormente.

Quando suas escolhas encontram seus limites

A narrativa é provavelmente o maior triunfo de Dawnwalker, mas também apresenta sua principal frustração. O jogo consegue fazer com que várias decisões do jogador sejam refletidas durante a aventura. Personagens podem reagir às suas escolhas, determinadas situações podem assumir caminhos diferentes e até mesmo a maneira como o jogador chega ao confronto final pode ser influenciada pelo que aconteceu anteriormente. Isso é ótimo.

O problema aparece quando chegamos ao final. Apesar das diferentes possibilidades e caminhos, a história tende a convergir para um resultado semelhante. Ou seja: suas escolhas importam bastante durante a jornada, mas aparentemente não possuem a mesma força para alterar o destino final. É uma diferença importante.

Dawnwalker é excelente em fazer o jogador sentir que suas decisões têm peso. Mas ainda deixa a sensação de que algumas dessas decisões poderiam ter provocado consequências maiores no desfecho. Ainda assim, o encerramento estabelece uma promessa interessante para o futuro, já que a Rebel Wolves pretende continuar esse universo em novos capítulos.

Vale a pena jogar The Blood of Dawnwalker?

Sim, especialmente para quem sente falta de RPGs que valorizam exploração, escolhas e descoberta.

The Blood of Dawnwalker não tenta reinventar completamente o gênero, mas combina suas ideias de maneira inteligente. O sistema de tempo é provavelmente seu maior diferencial. Ele transforma a tradicional liberdade do mundo aberto em uma liberdade com consequências: você pode fazer quase tudo, mas não necessariamente terá tempo para fazer tudo. O combate também funciona bem, embora seja prejudicado pela variedade limitada de inimigos.

E a narrativa consegue criar uma rede de acontecimentos bastante interessante, fazendo Veil Sangora parecer um lugar onde as coisas continuam acontecendo mesmo quando Cohen não está olhando. Existem arestas, bugs, problemas técnicos, repetição de ações um pouco em demasia.

E existe também um final que poderia responder às escolhas do jogador de maneira mais radical. Mas existe algo muito mais importante: personalidade. Dawnwalker parece uma aventura feita por uma equipe que sabe exatamente que tipo de experiência quer entregar. É sombrio, é tenso, é curioso e, acima de tudo, respeita o jogador o suficiente para não explicar tudo. Às vezes, você simplesmente precisa escolher. E depois conviver com a escolha.

Como nos bons e velhos RPGs. The Blood of Dawnwalker é um RPG promissor, ambicioso e com personalidade própria. Ele não acerta em absolutamente tudo, mas consegue algo que talvez seja ainda mais difícil: criar curiosidade. Você quer descobrir o que existe depois daquela montanha. Quer saber o que aconteceu com aquele personagem. Quer descobrir o que teria acontecido se tivesse escolhido diferente. E, principalmente, quer continuar jogando para descobrir se conseguirá salvar sua família antes que o relógio chegue ao fim.

No mundo dos RPGs modernos, onde muitas vezes existe um guia para absolutamente tudo, The Blood of Dawnwalker lembra como pode ser divertido simplesmente não saber o que vai acontecer. E, quando um jogo consegue fazer você desligar o Google e confiar nas próprias escolhas, já conseguiu alguma coisa muito especial.

Galeria

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Dando nota

Sistema de tempo inteligente, que transforma decisões em parte importante da estratégia. - 8
Exploração recompensadora, com atividades diferentes dependendo do período do dia. - 7.5
Ambientação medieval sombria muito bem construída. - 9
Narrativa não linear, com diversas histórias e acontecimentos conectados. - 9.5
O impacto das escolhas no desfecho final poderia ser maior. - 7.5
Algumas situações acabam ficando repetitivas depois de muitas horas. - 7

8.1

De dia ou de noite, caminhe!

The Blood of Dawnwalker é um RPG promissor, ambicioso e com personalidade própria.

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