Análise | Call of Duty: Modern Warfare 4

Disponível para PlayStation, Xbox, Nintendo Switch & PC

Call of Duty: Modern Warfare 4 chega depois de alguns tropeços que comprometeram o andamento da trilogia reiniciada, a Infinity Ward parece finalmente ter encontrado o caminho de volta. Também vem com o jogo a  responsabilidade de encerrar um arco narrativo que passou por altos e baixos, especialmente depois de um terceiro capítulo que deixou bastante a desejar. A boa notícia é que o resultado é muito mais positivo do que se poderia imaginar. Com uma campanha envolvente, personagens mais bem trabalhados, conflitos de grandes proporções e boas novidades na jogabilidade, o novo título consegue recuperar parte da identidade que tornou Modern Warfare uma das séries mais queridas da franquia Call of Duty.

Recebemos o jogo por meio da assessoria brasileira da Activision, e como já é tradição aqui no site, seguiremos apresentando conteúdo sobre ele, começando com o modo Campanha, o maior destaque do título. A expectativa em torno da campanha era considerável. Afinal, quando falamos de Infinity Ward, estamos falando de um estúdio que historicamente sabe construir boas experiências single-player. Modern Warfare (2019) foi um excelente ponto de partida para essa nova interpretação da franquia, mas seus sucessores não conseguiram manter o mesmo nível de consistência. Modern Warfare 2 (2022) apresentou bons momentos, enquanto Modern Warfare 3 (2023) acabou prejudicando bastante o entusiasmo em relação ao universo reiniciado.

Felizmente, Modern Warfare 4 consegue recuperar elementos importantes dessa identidade, sem simplesmente tentar reproduzir o passado. A narrativa aproveita acontecimentos dos jogos anteriores, mas também encontra espaço para desenvolver novas situações e personagens. O resultado é uma campanha que consegue funcionar relativamente bem por conta própria, embora conhecer a trajetória de Price, Ghost e companhia seja importante para aproveitar melhor determinados acontecimentos.

Uma campanha que recupera a essência de Modern Warfare

Um dos maiores acertos de Modern Warfare 4 está justamente na maneira como sua narrativa é construída. Em vez de tentar abraçar todos os acontecimentos apresentados nos jogos anteriores, a Infinity Ward parece ter entendido que era necessário organizar melhor esse universo, aproveitando aquilo que realmente funcionou e deixando de lado parte do excesso de elementos que acabou tornando a história confusa.

A campanha apresenta dois caminhos narrativos que se complementam muito bem. De um lado, acompanhamos operações militares de grande escala, com soldados atuando em meio a conflitos intensos e situações que fazem o jogador se sentir parte de uma força muito maior. Do outro, temos as operações mais discretas, envolvendo grupos menores, infiltrações e missões nas quais personagens como o Capitão Price assumem o protagonismo.

Essa divisão funciona especialmente bem porque recupera uma característica muito presente na trilogia original: a alternância entre grandes confrontos militares e operações especiais mais intimistas. É justamente essa combinação que ajuda a dar personalidade à campanha.

Um dos principais destaques está na situação de Price. Depois dos acontecimentos de Modern Warfare 3, o personagem precisa lidar com as consequências de suas próprias decisões e acaba atuando de maneira independente, mantendo contato com Laswell, mas sem contar com a estrutura tradicional da Força-Tarefa 141.

Essa nova condição coloca Price em situações bastante interessantes, especialmente quando ele precisa estabelecer alianças improváveis. Uma delas envolve Valeria e o cartel de Las Almas, uma parceria que naturalmente cria conflitos morais e situações desconfortáveis. Afinal, Price está trabalhando ao lado de pessoas envolvidas em atividades criminosas, enquanto testemunha as consequências das atitudes de seus próprios aliados.

É uma abordagem interessante porque mostra um personagem menos idealizado. Price continua sendo o militar experiente e determinado que conhecemos, mas agora suas decisões têm consequências mais evidentes.

Personagens mais humanos e conflitos com peso dramático

Se existe um aspecto no qual Modern Warfare 4 realmente consegue se destacar, é na construção de seus personagens.

Price recebe um desenvolvimento particularmente interessante, mas a relação entre ele e Ghost também merece atenção. Os dois apresentam divergências importantes sobre a maneira como estão conduzindo suas operações, especialmente diante das atitudes cada vez mais imprudentes do capitão.

Ghost demonstra frustração com o comportamento de Price, principalmente considerando os acontecimentos envolvendo Soap no jogo anterior. Essa tensão acrescenta uma camada de personalidade aos personagens e ajuda a construir diálogos muito mais interessantes.

Outro ponto positivo está na equipe de fuzileiros navais sul-coreanos que acompanhamos durante parte da campanha. Park, personagem controlado pelo jogador, divide espaço com Dunn, Chao, Co e Cal. Embora Park não seja necessariamente o protagonista mais desenvolvido da experiência, o grupo consegue estabelecer uma boa dinâmica.

Dunn, em particular, chama a atenção pelo comportamento descontraído e pelas falas bem-humoradas, funcionando como um contraponto interessante à seriedade dos acontecimentos. É aquele tipo de personagem que conquista o jogador sem precisar de grandes discursos.

Os antagonistas também recebem um tratamento mais cuidadoso. Marov, Archer e os irmãos Re, especialmente a personagem feminina, ajudam a sustentar os conflitos da narrativa. Embora não estejam entre os vilões mais memoráveis de toda a franquia, representam uma evolução em relação ao que vimos anteriormente, principalmente na maneira como Marov foi apresentado em Modern Warfare 3.

Outro mérito está na maneira como a campanha trabalha suas consequências. Sem entregar detalhes que comprometam a experiência, existem mortes importantes e acontecimentos que realmente dão peso aos riscos enfrentados pelos personagens. Não parece que a história está simplesmente eliminando figuras conhecidas para provocar impacto barato. Existe uma intenção narrativa por trás dessas decisões.

A escala dos conflitos também ajuda bastante. A invasão da Coreia do Sul pela Coreia do Norte estabelece uma situação de grandes proporções, com cidades sendo devastadas e confrontos que fazem a campanha recuperar aquela sensação de urgência que marcou os melhores momentos da trilogia original.

Jogabilidade: novidades interessantes em uma fórmula conhecida

Naturalmente, Modern Warfare 4 não reinventa a estrutura tradicional da franquia. A maior parte das missões segue o modelo clássico de Call of Duty: avançar por cenários relativamente lineares, enfrentar grupos de inimigos, cumprir objetivos e acompanhar sequências cinematográficas que ajudam a conduzir a narrativa.

Isso não é necessariamente um problema. Afinal, essa fórmula continua funcionando muito bem quando executada com competência. O diferencial está em algumas novidades que ajudam a tornar determinados momentos mais interessantes.

Uma das melhores adições é o combate corpo a corpo. Em algumas situações específicas, o jogador pode enfrentar adversários utilizando os próprios punhos, com a possibilidade de bloquear golpes, realizar aparadas e executar contra-ataques.

Diferentemente de confrontos anteriores da franquia, que frequentemente dependiam de eventos de tempo rápido, aqui o jogador participa efetivamente da luta. O sistema apresenta animações bem elaboradas e transições interessantes entre os momentos de combate e pequenas sequências cinematográficas.

O resultado é surpreendentemente divertido. Existe uma sensação de confronto físico que combina muito bem com as situações apresentadas, sem parecer deslocada dentro da experiência. É uma mecânica que poderia facilmente ser aproveitada em outros modos da franquia, desde que devidamente adaptada.

Outra novidade está em uma missão com estrutura de mundo aberto. A proposta divide opiniões, principalmente porque Call of Duty nem sempre conseguiu aproveitar bem esse formato. Modern Warfare 3, por exemplo, apresentou missões abertas que acabaram prejudicando o ritmo da campanha.

Aqui, entretanto, a abordagem funciona melhor. O jogador fica preso em território inimigo após a queda de um helicóptero e precisa explorar a região em busca de suprimentos e equipamentos, cumprindo três objetivos principais.

O interessante é que a exploração é opcional. Existe a possibilidade de utilizar viagens rápidas entre os pontos de interesse, permitindo que cada jogador escolha quanto tempo deseja dedicar à exploração. Investigar os cenários pode render equipamentos e recursos que facilitam os confrontos seguintes, tornando a atividade útil sem obrigar ninguém a transformar a campanha em uma experiência de mundo aberto.

Ainda assim, essa missão acaba interrompendo um pouco o ritmo da narrativa. Não chega a comprometer a experiência, mas deixa aquela sensação de que talvez pudesse estar posicionada de maneira diferente.

Cenários variados e uma excelente imersão

Visualmente, a campanha também apresenta bons resultados. Embora não explore uma quantidade enorme de países, passando principalmente pela Coreia, Estados Unidos, França e Índia, existe uma preocupação evidente em diferenciar os ambientes. A própria Coreia apresenta regiões urbanas, áreas cobertas de neve e cenários marcados pela chuva, criando uma variedade interessante dentro de uma mesma localização.

Outro aspecto positivo é a preocupação com a imersão. A interface é discreta e evita exageros de informações na tela, permitindo que o jogador concentre sua atenção nos ambientes e nos acontecimentos ao redor.

Essa escolha funciona muito bem para uma campanha que pretende transmitir uma sensação mais realista e militar. Os personagens, os cenários e a apresentação dos confrontos ajudam a construir uma experiência bastante convincente.

Os problemas que impedem a campanha de ser ainda melhor

Apesar dos acertos, Modern Warfare 4 não está livre de decisões questionáveis. E a principal delas envolve justamente um elemento que parece ter saído diretamente de Warzone: as placas de blindagem.

O sistema está presente em praticamente toda a campanha e exige que o jogador reponha constantemente sua proteção durante os confrontos. A intenção provavelmente é adicionar uma camada extra de gerenciamento de recursos, mas a execução acaba sendo bastante inconveniente.

Como o jogador recebe tiros com frequência, é necessário interromper constantemente o ritmo dos combates para substituir as placas. É uma mecânica que parece pouco natural dentro de uma campanha tradicional e que, em determinados momentos, acaba mais atrapalhando do que acrescentando profundidade. Curiosamente, algumas das melhores missões são justamente aquelas que não utilizam esse sistema.

Seria interessante se a Infinity Ward tivesse encontrado uma alternativa mais adequada, como coletes que absorvessem uma quantidade determinada de dano antes de precisarem ser substituídos. Dessa maneira, o gerenciamento continuaria existindo, mas sem exigir intervenções tão frequentes.

Outro problema está no encerramento da campanha. Sem entrar em spoilers, os momentos finais parecem um pouco apressados, principalmente considerando a importância desse capítulo para a história. Existe uma sensação de que faltou um último grande momento para construir o encerramento. A missão final poderia ter sido mais extensa, com uma sequência de ação mais elaborada e um desenvolvimento que transmitisse melhor a sensação de conclusão.

É uma pena, porque o restante da narrativa constrói expectativas bastante interessantes. A campanha apresenta conflitos importantes, consequências e situações de grande escala, mas não consegue entregar um desfecho tão impactante quanto poderia.

A trilha sonora também merece uma observação. Não chega a ser ruim, muito pelo contrário: existem boas composições que acompanham adequadamente os acontecimentos. Entretanto, falta aquela música imediatamente memorável, capaz de transformar determinadas cenas em momentos inesquecíveis, como aconteceu em outros capítulos da franquia.

Veredito

Call of Duty: Modern Warfare 4 é uma campanha muito competente e representa uma recuperação bastante importante para a franquia. Depois de um terceiro capítulo que deixou muitas dúvidas sobre os rumos desse universo, a Infinity Ward consegue entregar uma experiência envolvente, com personagens mais interessantes, uma narrativa bem construída e conflitos que finalmente parecem ter consequências reais.

A alternância entre grandes operações militares e missões mais discretas funciona muito bem, enquanto o combate corpo a corpo demonstra que ainda existe espaço para experimentar novas mecânicas dentro da fórmula tradicional de Call of Duty.

Os problemas com as placas de blindagem, a interrupção do ritmo em determinados momentos e, principalmente, o encerramento apressado impedem que a campanha alcance todo o seu potencial. São questões que merecem atenção, mas não apagam os méritos de uma experiência que consegue superar as expectativas.

É impossível não pensar no quanto essa nova trilogia poderia ter sido melhor aproveitada desde o início. Modern Warfare 3 deixou pontas soltas e desperdiçou oportunidades importantes, fazendo com que este quarto capítulo precisasse trabalhar também para recuperar o entusiasmo perdido ao longo do caminho.

Ainda assim, a sensação ao terminar a campanha é bastante positiva. Modern Warfare 4 consegue resgatar elementos que fizeram a trilogia original tão especial e oferece uma despedida satisfatória para essa etapa da história. Não é necessariamente a melhor campanha de toda a franquia, e seu final poderia ter sido muito mais marcante, mas certamente está entre as experiências mais interessantes que Call of Duty apresentou nos últimos anos.

No fim das contas, é bom ver a Infinity Ward lembrando que Call of Duty não precisa depender apenas de explosões, tiroteios e momentos cinematográficos exagerados. Uma boa história, personagens com personalidade e conflitos que realmente importam continuam sendo ingredientes fundamentais.

E, felizmente, Modern Warfare 4 acerta muito mais do que erra nessa missão.

Ficha Técnica

  • Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch e PC
  • Desenvolvedor: Infinity Ward
  • Publisher: Activision
  • Gênero: Tiro em Primeira Pessoa
  • Lançamento: 23 de Outubro de 2026
  • Versão analisada: Xbox Series X

 

GALERIA

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Dando nota

Narrativa envolvente e bem construída. - 10
Boa dinâmica entre as duas perspectivas da campanha. - 9
Recuperação da identidade clássica de Modern Warfare. - 9.5
Excelente desenvolvimento de personagens, especialmente Price e Ghost. - 10
Conflitos de grande escala e sensação de consequências reais. - 9.5
Encerramento apressado e pouco impactante. - 8
Alguns personagens poderiam receber maior desenvolvimento. - 8.5
Sistema de placas de blindagem excessivamente inconveniente. - 7.5

9

Vale o Preço

Modern Warfare 4 resgata a essência clássica da franquia com uma campanha envolvente, personagens bem desenvolvidos, conflitos de grande escala e novidades interessantes na jogabilidade. Apesar de alguns problemas, como o uso excessivo das placas de blindagem e um encerramento apressado, o novo capítulo consegue superar as expectativas e se destacar como uma das melhores campanhas de Call of Duty dos últimos anos.

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