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Cinema: Super 8 – Eu Fui! [70's, Opinião, Comentário]

Super 8 distribuído pela Paramount Pictures estreou dia 10 de junho de 2011 nos EUA, dia 28 de julho de 2011 em Portugal e estreou nas salas de cinema do Brasil dia 12 de agosto de 2011 (hoje). E qual resultado esperaria de um filme contextualizado nos anos 70’s e produzido por Steven Spielberg e J. J. Abrams?

Inesperado. Estonteante. Emotivo. Desde os primeiros minutos do filme, uma atmosfera inteiramente inspiradora consegue criar um ambiente propício ao mistério, à paixão pelo cinema como uma arte, uma forma de expressar aquilo que se sente, à firmação de um possível clássico. E o filme melhora até o fim dos créditos.

“One of the most original, mind-blowing and epic experiences you will have in the theatres this year!” – Kevin McCarthy, FOX-TV / CBS Radio

J. J. Abrams e Steven Spielberg fizeram da colaboração mútua, uma obra de arte que esconde na produção inspirações pessoais que remontam à infância de cada um destes gênios. E tudo começou como o título “Super 8” indica. Sabe aquela câmera que surgiu nos anos 60’s que projetava os momentos gravados? É por aí.

Eles conseguiram conduzir um grupo de crianças à amizade sincera, à lidar com os seus desejos e sonhos quando o mundo à sua volta, embora não perfeito, se firma imprevisível (e nos levou junto por identificação espontânea). Apenas garanto que o resultado final foi melhor do que o trailer (abaixo) sugerira. A partir daí, imagina o filme. Mas não crie expectativas elevadas!

Viagem induzida por Super 8: surpreendente! Não ter ido ao cinema esperando muito do filme ajudou muito na excelente impressão que tive, claro, da produção cinematográfica, mas, mesmo com alguma expectativa, não acredito que haja como a pessoa não se envolver na história, dar umas risadas, se comover ou se sentir acolhida por um sentimento de nostalgia, como se tivesse tido um contato próximo com a época em que era criança.

O filme acolhe a audiência – esse é o segredo, o ingrediente decisivo. E essa deve ser a principal razão pela qual Super 8 atingiu muita gente, inclusive eu próprio, alcançou uma aprovação favorável e vantajosa, todavia não desmerecida. Defendo que um bom trabalho sendo reconhecido é mais do justo, concorda?

Às 16 horas, dia 31 de Julho de 2011, lá estava para assistir um bom filme. E de repente já tinha acabado. Deixou uma marca, algo para me fazer lembrar dele no futuro e penso que um bom filme “inesquecível” (digamos assim mesmo, entre aspas) consista nisso. Pode continuar lendo, não haverá spoilers por enquanto. Há detalhes por trás da produção que merecem atenção prioritária. Se quiser passar para as impressões do filme, pule os próximos parágrafos.

A concepção de Super 8 – J. J. Abrams e Steven Spielberg?

Raras vezes levantamos questões de natureza explanatória durante um filme. Por outro lado, isso também depende dos filmes. De onde eles vêm? Não caem do nada, tenho a certeza. Nem pousam (trazido pela cegonha?), nem chegam no correio, nem desembarcam de um trem com hora e dia marcados.

Toda arte nasce e não seria diferente com um filme, com Super 8. Para nascer é preciso haver concepção e vamos parar a metáfora por aqui. Qual terá sido a concepção de Super 8 que obrigou Spielberg e J. J. Abrams a trabalharem juntos? Sim, começaremos em 1970’s. Resumirei para não deixar o texto se prolongar e se tornar exageradamente extenso.

Na verdade, a ironia é que o filme, apesar de ser ficção, reflete a infância do produtor de Lost, Abrams, e do produtor de E.T., Spielberg, só para mencionar algumas referências. Super 8 é uma ficção científica baseada em experiências reais e alguma dose de inventividade. Abrams começou a filmar aos 8 anos com a sua câmera Super 8, gravando tudo que o inspirava – perseguições, monstros e por aí em diante. Mais tarde ele até submeteu um filme ao Super 8 Film Festival.

“We both thought it would be cool to make a movie about young people having an adventure making movies,” – Steven Spielberg.

Primeira razão para Spielberg e Abrams desenvolverem Super 8 foi, então, reviver o momento em que descobriram o impulso criativo para filmar, gravar períodos de tempo do mundo real e dar forma à imaginação. Eles queriam partilhar essa experiência que os acompanha em memória com a audiência. E assim fizeram. O filme deveria ser uma produção nostálgica renovadora. Em parte, até foi.

Eles se puseram dentro dos filmes e deixaram as personagens ganharem vida. Ou seja, pelo que podemos perceber, a ideia principal não era criar uma história ou um mistério envolvente. Inicialmente, o plano era criar esses personagens, essas crianças dos anos 70’s, recriar a cultura da época e dar ênfase nos personagens que seriam atores agindo como produtores e diretores na maior parte do tempo. Para mim, toda essa tentativa de estabelecer um clima sombrio cultural e carismático funcionou por fim e, por mais que tratassem da história, os personagens roubaram sempre o protagonismo.

Abrams doou uma ideia que já tinha em mente há algum tempo, segundo a qual haveria um trem transportando algo da Area 51. Encontrado um pretexto, um contexto, para introduzir e partilhar os personagens admirados, Super 8 estava pronto para ser filmado, produzido e, logo que desse, projetado. Terá o resultado sobrevivido aquilo que fora idealizado?

Atenção! Haverá spoilers daqui para frente, continue lendo apenas se já foi ao cinema ou se não for alérgico aos mesmos!

Super 8 – Câmera pronta, filme projetado! [Análise/Opinião]

No início, o filme aparenta ser meio silencioso, meio triste, lidando desde já com a morte. Entretanto, não se limitaram a manter um clima meio silencioso e sombrio, misturaram um calor humano, uma sensação de conforto e naturalidade. Souberam reproduzir uma química humana bem próxima da perfeição. Por aí já me tinha conquistado.

Super 8 não era suposto ser um filme de proporções épicas como Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2 (comparação com pouco sentido, só a faço por serem filmes quase da mesma época de exibição), e assim conseguiu satisfazer ainda mais. Por mais que admire a franquia, o último filme de Harry Potter teve falhas na produção irrecuperáveis e devo dizer que Super 8 quase superou a produção da Warner Bros. em termos do impacto que teve em mim – pareceu mais concreto, sem pressa, sem cortes. Algo espontâneo e levemente profundo.

Largando as comparações de lado, estava tudo que era necessário lá: excelente elenco, uma história que fluía sem tensão, interpretações muito cuidadas e uma certa magia, quase como se fosse uma máquina do tempo que nos lançava para uma dimensão perdida, humilde e nostálgica.

Esquece complexidade ou exagero de informação. Steven Spielberg e J. J. Adams apostaram no oposto: a simplicidade ordinária cortada fria e subitamente. Joe, uma criança recentemente sem mãe, vivendo uma vida pacata numa cidade no interior de Ohio com seu pai, delegado, deprimido com a morte da sua esposa, se compromete a ajudar na maquiagem e produção do filme do seu amigo Charles.

Durante a elaboração do filme de zombies, um acontecimento traz algo extraordinário à cidade sossegada. E começa o mistério, os desaparecimentos e a solidificação dos personagens que até então pareciam ser bem comuns. Depois de tudo, ainda imagino se Super 8 teria dado certo em outro contexto temporal, fora dos anos 70’s que, aliás, foram muito bem aproveitados e representaram um clima meio clássico.

O fato mais bizarro que posso relatar é que fiquei mais fascinado com a produção do filme das crianças do que com o resto, do que com o mistério ou com o extraterrestre. Os personagens foram indispensáveis – eles eram marcados por traços próprios, tinham personalidades inteligentemente desenvolvidas e acabavam por se relacionar entre eles e com o contexto por vias particulares, cada um dando o seu contributo.

Outra observação. Daquilo que aguardava, rir não estava incluído. Porém, eu ri e [relativamente] bastante. Para além do suspense, sempre investiram no humor, seja através de Cary (Ryan Lee) com os explosivos, de Charles (Riley Griffiths) ou do grupo em si. O rápido conflito entre Joe e Charles, grandes amigos, humanizou ainda mais a dimensão social do filme.

Super 8 narra a história de um grupo de amigos sendo surpreendidos por um acidente ferroviário durante uma gravação de um filme Super 8 mm. Podemos considerar o filme dividido em duas partes: a parte anterior ao acidente que liberta o extraterrestre e a parte posterior.

A primeira caracterizada por tranquilidade, iluminação mais moderada e sombria, nostalgia, conhecimento das personagens e entre as personagens, e a produção do filme Super 8 (filmagem).

A segunda mais violenta, mais agitada. Marcada por desaparecimentos, por mortes/homicídios, por conflitos e consolidações emocionais das personalidades e por libertação e redenção. O fim, destaco, pode ter sido um dos mais objetivos que já vi. Todos salvos, o extraterrestre livre da ignorância brutal do ser humano [Força Aérea] e sentimentos reprimidos partilhados.

Elle Fanning, reconheço, mereceu interpretar Alice. Acho até que tinha a obrigação porque não vejo como outra atriz poderia ter feito uma melhor atuação. Ela tinha a tarefa de atuar dentro de uma atuação como uma esposa preocupada e conseguiu cumprir com esse objetivo de forma excelente. Melhor momento do filme inteiro: atuação da Alice na estação de trem.

Tendo sido Super 8 inspirado em “E. T. – O Extraterrestre“, deu para perceber alguns paralelismos, como as bicicletas, a atmosfera do filme em geral, a relação entre o grupo de amigos, o extraterrestre incompreendido, o encontro e a amizade instantânea entre Joe e a criatura, até mesmo as expressões faciais do extraterrestre me lembraram de “E. T.”. Esse traço esteve indiscutivelmente presente.

Antes que mude de assunto, gostei da comunicação telepática via tato entre o extraterrestre e a raça humana. E o foco moral contribuiu tanto positivamente como negativamente. Nada contra, o ego e a arrogância humana servem de tema para muitas obras cinematográficas, literárias entre outras que representem manifestação artística, então esse foco peca por ser um tanto cliché. Todavia, algo nostálgico pode não escapar de um cliché bom, certo? E assistir o homem se curvar perante a sua crueldade oriunda da ignorância e da arrogância ainda tem potencial para ser explorado (às vezes).

Não apressaram o filme, não se precipitaram, usaram tudo e todos a favor da concretização correta do filme proposto. O ritmo foi perfeito e adequado. Nenhuma relação entre as personagens foi menos do que genuinamente convincente – parecia verdadeira. A atração entre Alice e Joe, inclusive, permaneceu equilibrada, nada “melosa”. E transmitiram sempre aquele espírito puro e inocente entre crianças.

Sabe aquele filme capaz de prender a atenção do início ao fim sem decepcionar? Super 8 foi um exemplo disso. Relações, passados, segredos e paixões de uma vida ordinária explodem quando todos são abalados por destruição e pânico. Os temas principais constituíram personagens reais e humanos, crianças com sonhos e paixões, as tragédias da vida e como lidar com elas, relações humanas, o remorso e estar preso ao passado que levam à decadência de uma pessoa (ou de um alien? Ambos).

Adorei a direção do filme, os efeitos especiais – não deixaram a desejar, acredite -, os personagens, os alicerces da inspiração baseados na elaboração de filmes caseiros no formato Super 8 mm, a redenção e o drama que envolvia a morte da mãe de Joe, a culpa dos Dainard, as repercussões de acidentes e o sofrimento de Jackson Lamb.

A introdução da força aérea, dos túneis (que foram geniais), do extraterrestre e dos sequestros e mortes vieram apenas complementar a experiência. Porém, não se iluda. Super 8 é simples, ao estilo de filme calmo entrecortado com toques de ação e de humor familiar e corrente; um blockbuster de verão define bem o filme em conceito. Diria ser o ideal para assistir com amigos ou com a família, talvez de tarde embora pareça ser mais inclinado para a noite – unicamente por combinar com o lado sombrio e mais escuro.

Em mais cenas que exaltaram emoções, posso mencionar o detalhe de Joe descobrindo o pai, no banheiro, com lágrimas nos olhos, o desabafo de Alice enquanto o filme da mãe de Joe era projetado na parede do quarto, a conversa entre Jackson (Kyle Chandler) e Louis (Ron Eldard) no carro e o contato psíquico entre Joe e o extraterrestre. Isso sem referir, claro, Alice atuando na estação de trem e depois como zombie e a cena da maquiagem dela feita por Joe.

Quando terminou, o primeiro pensamento que tive identificava apenas uma falha: não terem mostrado o resultado final do filme “The Case” produzido em Super 8 pelas crianças. E, como surpresa, o filme “The Case” estava passando do lado dos créditos! Fantástica organização, inclusão e incrementação dos créditos finais que costumam ser ignorados. E bem, por falar disso, gostei do resultado, mais um ponto positivo.

Aliás, o filme “The Case”, a filmagem interior, é algo mais independente de “Super 8” do que a maioria pode imaginar. Na verdade, ele teve outra direção, outro tema, outro objetivo, outra produção e outra câmera (uma real Super 8). J. J. Abrams e Spielberg não tiveram nada a ver com as falas – tudo foi feito e elaborado pelo próprio elenco de crianças. Eles escreveram as falas, organizaram e planejaram. Penso que isso deixa tudo ainda melhor e impressionante!

E claro, há conselhos deixados por Super 8 para aqueles que estiveram atentos. Como interpretar o momento final quando Joe larga o colar com a foto dele com a mãe? Joe ensinou o extraterrestre a valorizar o seu futuro e se ver livre das mágoas remotas. Então, ele deveria fazer o mesmo e assim permitiu que a lembrança material de sua mãe se elevasse para longe.

Acredito que a ideia tenha sido exatamente mostrar como é importante esquecer o passado para viver o presente e projetar o futuro, assim como é importante esquecer a produção de um filme para aproveitar a realidade mágica e alternativa do filme presente e da sua projeção nas pessoas, na audiência como um alvo privilegiado. E da mesma forma aconselha a libertação de sentimentos reprimidos perante uma vida ordinária que sofre, não um, mas vários abalos irreversíveis. Essa é a correlação entre a vida e Super 8? Sim, provavelmente.

Ficha Técnica

Título Original: Super 8
Realizador/Diretor:
J. J. Abrams

Produtor:
Steven Spielberg
Gênero:
Thriller/Ficção Científica
Elenco:
Elle Fanning, Amanda Michalka, Kyle Chandler, Riley Griffiths, Joel Courtney, David Gallagher, Ryan Lee, outros.

Estreia nacional:
12/08/2011
Duração:
112 minutos

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“Aquilo que era separado terminou unido, assim como a visão e a sua projeção.”


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Araphawake

Gamer de nascença, entusiasta do YouTube, cinéfilo e sobrevivente de The Walking Dead. Adoro livros e penso demais nas coisas. Na vida pessoal sou extremamente nostálgico e exagerado. Quem não me compreende ou conhece pode achar que sou antipático.
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