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Inesperadamente emocionante!

Cinema + vídeogame + quick time events = Need For Speed: The Run!

Ver uma produtora se desdobrando todos os anos para lançar uma sequência da mesma franquia é preocupante. Primeiro porque isso não dá espaço para coisas novas surgirem, eu por exemplo acho que o câncer dessa geração está nessas dúzias e mais dúzias de FPS genéricos que saem todos os anos. Sinto saudades da época em que Crash Bandicoot era um jogo obrigatório para quem tinha um PSOne. Segundo, porque as chances de desgastes ou uma total perda da essência de uma série são quase certos. Dentre tantos jogos/séries que se encaixam nesse grupo de risco, Need For Speed para mim está entre os mais notórios. Com exceção do último Hot Pursuit e os saudosos Underground 1 e 2, eu não tenho muitas lembranças dos outros jogos, mas mesmo tendo ficado de fora de lançamentos como Carbon, Undercover ou Most Wanted, não deixei de me impressionar com as transformações que esses jogos trouxeram para a franquia, bem como não deixei de me abismar com tantas outras trazidas por Pro Street ou pela série Shift.

Desgaste na produção não deve rolar tão cedo porque a EA tem mais de dois estúdios trabalhando nos jogos que saem anualmente, mas com o tempo acho que um desgaste das idéias deve ser inevitável. Sinceramente não sei qual é o problema em pausar o ritmo um pouco e deixar os fãs na saudade, tirar outras franquias tão importantes quanto essa do limbo e reciclar a fórmula. Não me lembro de ter ouvido falar que alguma vez um Need For Speed vendeu tanto quanto a mina de ouro da Activision chamada Call Of Duty, logo, não entendo esse desespero de lançar um jogo todo ano. Pode não ser hoje, pode não ser amanhã, mas ainda sou um daqueles que acha que a Electronic Arts mais cedo ou mais tarde vai quebrar a cara com a série Need For Speed.

Por um tempo eu até achei que isso já iria rolar em 2011 depois que vi o primeiro trailer de The Run na E3. Botões de ação no jogo? O piloto saindo do carro? Correndo a pé pelos telhados enquanto um helicóptero atirava freneticamente? A princípio aquilo me assustou um pouco, pensei que GTA tinha trocado de lar ou só errado o caminho de casa. Só que para minha total surpresa, a união de quick time events, uma história meia boca e corridas em condições bem adversas foram a receita mais gostosa para games de corrida que já tive em meses. Inesperadamente emocionante é o único termo no qual consigo encaixar as coisas para definir esse último Need For Speed.

Na verdade também dá para encaixar essa célebre frase para resumir o assunto: ‘Aí sim fomos surpreendidos novamente!”.

Um racha maluco, uma mulher debruçada num carro, manobras sobre duas rodas, uma partida de pega pega entre polícia e ladrão, sei lá. O novo Need For Speed poderia começar com qualquer um desses momentos clichês e dar o tom esperado de sempre, mas os produtores preferiram chamar a minha atenção desde o início com algo bem diferente. Sem muito blá blá blá a gente encarna o Jack, um cara que não está muito bem ”na fita” com a mafia e precisa de grana preta para salvar o próprio pescoço. Mas ao invés de estar num carrão pensando em como a vida é uma merda, ele já está provando disso na prática preso num ferro velho entre a vida e a morte.

No meio de uma corrida? Não, antes mesmo das primeiras batidas e freadas bruscamente mal calculadas causadas pelo meu ligeiro afastamento dos últimos jogos de corrida que andaram saindo, os quick time events já deram as caras. Botões para bater nos vidros, direcional livre para procurara melhor saída, me assustei, me impressionei ao mesmo tempo e por fim sai pro abraço, digo… para dentro do carro. Mas por favor muita calma nessa hora hein gente, para quem é mais fã da franquia que eu e até hoje chora as pitangas por um Underground 3, saiba ao menos que o jogo não é tumultuado por essa novidade.

Na verdade, ao longo do jogo eles mal aparecem (e ficaram longe das corridas, diga-se de passagem), eles estão lá mais para balançar as coisas, mudar um pouco os ares. A mafia está atrás da cabeça do Jack e a polícia também não deixa por menos, logo, as cutcenes com os botões de ação dão todo um clima para a história. Parece coisa de filmeco da Globo numa tarde de domingo, tipo um Velozes e Furiosos com um cara que pilota um carro que nem maluco e nas horas vagas troca balas com a polícia. O novo Need chega para testar se esse diferencial cola (mas sem a parte das armas) e sinceramente depois de uma ou duas corridas dá sim para entrar nesse clima e se divertir com a sensação de velocidade e perigo tomando conta do ambiente, a total interação com as cenas ajuda muito a contar a história e prova que a inclusão delas foi uma decisão acertada para não deixar essas passagens do jogo caírem numa profunda chatice. Diferente de outras produtoras por aí que já deviam saber o serviço de cor e salteado, a Black Box ainda foi além e soube não só dosar e separar bem as coisas como também ampliar as opções na hora das cenas. Já me esqueci de quantas vezes eu errei um chute ou me esqueci de apertar o A para correr quando o botão surgia na tela e a cena seguia adiante como se nada tivesse acontecido para me dar outra chance de escapar dos policiais.

Eu só achei uma pena os personagens e até a trama não serem mais profundos, as cutcenes estão num número tão ínfimo e são tão pouco intrusivas no gameplay que seria totalmente válido adicionar mais cenas apresentando melhor tudo o que cercava a travessia. Não cheguei a jogar Most Wanted ou Undercover como eu citei ali em cima, mas se não me engano eles apresentavam a mesma proposta de The Run, contando uma história além das corridas. Gostaria de ver a Black Box tendo mais liberdade para criar um outro jogo nesse estilo, talvez até uma continuação de The Run, só que com mais liberdade para criar e dar vida de verdade aos personagens. Assim como Call Of Duty (xiii… falei dele de novo) cativou a muitos com um multiplayer dinâmico e single extremamente cinematográfico, acho que essa vertente da série Need For Speed se daria muito bem. Contar uma história indo além de estar dentro do carro? Porque não? Cenas como essa me fazem crer que a fórmula tem muito a render desde que uma boa história esteja lá para ser contada e que personagens igualmente interessantes possam fazer parte dela. O único obstáculo é passar por cima das vontades dos fãs mais xiitas e tentar abranger um público novo sem desagradar essa massa, mas para essa tarefa eu acho que a EA não é lá muito boa.

Agora quando o assunto é correr, as pistas deram um show à parte. A travessia vai de São Francisco até Nova York e isso traz uma diversidade enorme para os cenários. Cada ambiente também tem as suas peculiaridades, como deixar o carro mais rápido, mais escorregadio ou simplesmente difícil demais para se controlar pelo excesso de curvas. A física do jogo ficou de acordo pra mim e contribuiu muito para causar uma boa sensação de desafio. Correr aqui não é uma opção, é uma lei, mas ainda assim o jogo te força a administrar a velocidade o tempo todo, não só pelas curvas ou pelos desafetos do Jack fungando no seu cangote, mas também pelo fato de que a travessia não é algo oficial (capitão óbvio falando). Tudo rola na pista expressa, isso quando não entramos em alguma cidade super movimentada e somando isso a imersão e a velocidade que andam lado a lado, eu acabei tendo um misto de medo ridículo de bater com a vontade de abusar das turbinas. Eu bem que tentei me controlar a maior parte do tempo, mas quando os corredores mais chatos apareciam acelerar ao máximo era inevitável, o problema é que os malditos caminhões que aparecem do nada na contramão dão o ar da graça exatamente quando você4 mais precisa daquela ultra passagem que salvaria a pátria.

E as batidas então? Ô coisa triste, é uma herança do bom e velho Hot Pursuit, mas ainda assim é de cortar o coração pilotar um lamborguini e segundos depois vê-lo voando pelos ares. E é tanto lugar para visitar, com tantas pistas mal asfaltadas ou corta caminhos nada espaçosos para um carro que fica nítido desde o começo que o amor pelos carros ou prazer de tuná-los jamais esquecido desde a série Underground  é a última coisa a ser levada em conta nesse jogo.

O único porém no gameplay para mim é o fato do carro não poder sair muito da pista, basta você sair dela por qualquer descuido ou alguns poucos segundos que seja e a corrida é dada como perdida, coisa bem broxante quando você está naquela adrenalina. Também não gostei da pouca variedade de carros, já que o personagem atravessou meio mundo sob quatro rodas, nada mais justificável que vários carros estivessem a nossa disposição para experimentar, nem que fosse roubando um em cada cidade por onde a gente passou. Conseguir os carros mais cobiçados também não é algo fácil, poucos são aqueles que você guarda durante a travessia e a maioria só dá as caras jogando tudo de novo numa dificuldade maior, sem falar que a EA decidiu impor mais uma vez as recompensas mediante desafios e eventos do Autolog, coisa que não tenho o menor saco para fazer. Dos gráficos não tenho muito o que dizer, a FrostBite 2 cumpre bem o seu trabalho e o resultado é aquele efeito lindo de sombra que muda de acordo com o ambiente para realçar a beleza dos carros. Na aparência dos personagens a qualidade se repete sem problemas, inclusive as cutcenes são todas in game se não engano, a única coisa que eu achei bizarra são as cenas em que a câmera mostra o Jack dentro do carro, o nível baixíssimo de detalhes no interior do veículo nem condiz com toda qualidade gráfica presente no resto do jogo.

Ainda sobre as pistas, a regra é ganhar posições e nisso não há segredo, chegue em primeiro entre os 6 do trecho e você continua dentro da corrida que tem mais de 150 vagabundos disputando. Nenhuma dificuldade monstruosa aparece e se bem me lembro um nível de dificuldade acima do normal só é habilitado depois que você fecha o jogo pela primeira vez, mas as pistas finais não deixam de guardar os corredores mais chatos e tem também os rachas com os rivais do Jack. Nessas pistas a dificuldade aumenta, mas não pelo piloto e sim pelos obstáculos que vão surgindo no trajeto. Gostei demais da pista cheia de neve por exemplo (não vou lembrar nem que me paguem dos nomes dos lugares e googlar isso vai ser um saco), primeiro começamos correndo e vendo ao longe bombas explodindo e derrubando pequenos pedaços da neve na pista, a avalanche ao longe é linda e você fica pensando o quanto seria legal a adrenalina de ver o seu carro correndo para fugir dela, mas você só fica passando vontade até faltar um ou dois minutos para bandeirada final, quando os carros encostam na montanha e uma rajada de pedregulhos começa cair acabando com quase toda visão da pista. Show demais, nem o PC consegui controlar o carro naquela hora, só não pude comemorar mais  porque segundos depois também fui achatado por uma das pedras. Nada é perfeito.

O desafio na planície também foi legal, mal haviam curvas para causar dor de cabeça, mas em compensação a regra era manter a velocidade e tentar não bater nos carros entre uma ultra passagem e outra, também tinha várias rampas enormes quase gritando para mim, algo do tipo: Vamos lá, usa esse turbo, sua marica!!! E obviamente não aguentei, o resultado foi ver o carro pulando por cima de outros três a toda velocidade, sinceramente… sem comentários.

O jogo também carrega muito do que a gente viu no Need Hot Pursuit da Criterion ano passado, tem muita pista para correr contra os competidores e os policiais ao mesmo tempo, dá até para sacanear os perseguidores jogando um carro contra o outro e vez ou outra a câmera mostra que você destruiu um carro dos policiais bem ao estilo Burnout. A mafia não fica atrás e coloca um par de vans pretas na rua para descer bala e dar cabo do Jack. E quando essas duas forças meio que se unem, a ilusória sensação de poder nas ruas da cidade vai lá em cima, a última corrida antes do desafio final exemplifica bem isso. É carro na contramão surgindo do nada, é o helicóptero da polícia atirando em tudo que pode para bloquear o caminho, os mafiosos logo atrás fazendo aquele estrago na traseira do carro, os pneus que não param de cantar a cada curva… enfim, se os veículos em The Run tivessem uma barra de status para computar o dano das batidas talvez correr pela sua vida nesse jogo não fosse assim tão excitante.

E o melhor de tudo fica naturalmente para a pista final com o último adversário do Jack sobrando na jogada e você na direção de um super carro lindo demais. Aqui sim foi uma legítima corrida ala Velozes e Furiosos, nunca me diverti tanto desviando de um táxi na última hora, fugindo para não ser esmagado por um trem e estraçalhar o meu carro incessantes vezes nos momentos mais ridículos antes de decorar tudo o que eu tinha que fazer pra me dar bem na reta final. A última travessia só não foi mais épica ainda porque os produtores cometeram o grande erro de não colocar Lonely Boy para tocar durante a corrida. Seria foda com todas as letras, essa música passa longe de falar sobre o quanto é bom essa sensação de êxtase em correr loucamente por aí colocando a máfia e a polícia para comer poeira, mas as batidas, a levada, a sonoridade, enfim (não entendo de música), tudo isso é a cara desse espírito rebelde do Jack, ou mesmo dessa corrida toda eu diria. Foi só isso o que faltou para ser perfeito.

Sem mais minha gente, Need For Speed The Run não é o tão esperado Underground 3 que todo mundo está esperando, mas nem por isso ele merece as críticas que muito haterzinho de YouTube anda fazendo. Considerando que a EA não vai frear as rédeas da franquia tão cedo, experiências como essa são e serão cada vez mais inevitáveis. E como toda experiência que se preze, algumas vão ser um completo fracasso e outras uma grata surpresa. Quando eu paro para analisar a experiência que tive com The Run, só consigo pensar na segunda opção. E você? Gostou desse Need ou vai esperar pelo próximo experimento que vão lançar?

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K o n S a m a

Do ser sem razão a essa explosão de emoção, do preguiçoso leitor ao (meia-boca) escritor, do tímido calado ao ator inquieto, do caminho já traçado à esquina do destino incerto. Tentei me definir, mas sem sucesso. Games, filmes, música, animes, são só o começo desse quebra-cabeça sem nexo.
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