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No Time To Explain | Quando o futuro bate à sua porta! (Impressões)

Sabe aquele ditado de não julgar o livro pela capa? Esse é um ótimo ditado para trazer para o review de No Time To Explain, pois trata-se de um game que se o jogador não for atrás para saber sobre o mesmo, é bem possível que deixe um divertido e surpreendente indie game passar despercebido.

Para minha sorte, sempre estive de olho no game desde seu lançamento na Xbox Live ano passado. Meio que sou atraído por games assim, meio toscos, que potencialmente podem vir a serem divertidos. E neste caso acertei em cheio! E veja que a capa do game é bem singela e o primeiro trailer de lançamento que assisti (este aqui) não foi esclarecedor o suficiente para descobrir o quão viciante e divertido o game de fato é. Acabou sendo um game que ficou na minha cabeça, esperando uma oportunidade para jogá-lo, o que finalmente aconteceu há uma semana atrás.

Conturbado desenvolvimento

No Time To Explain graficamente parece muito simples, até porque inicialmente o título surgiu como um game em flash, isso lá em meados de 2011. Aliás o jogo tem uma história bem interessante a respeito de seu desenvolvimento. Há um artigo realmente tocante no site da desenvolvedora, a tinyBuild Games, explicando porque a primeira versão de No Time To Explain era realmente ruim.

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Resumidamente – para quem não lida muito bem com o inglês – o artigo conta a trajetória do game desde sua concepção. Como o protótipo de 2011 ainda era bem problemático com seu código, porque os programadores eram novatos mesmo e não sabiam a complexidade da programação, como o desenvolvimento de uma versão completa do game aconteceu com a ajuda de um Kickstarter muito bem sucedido, porém em contra partida se enfiaram em uma roubada ao aceitar uma parceria de uma empresa na Rússia para aprimorar ainda mais o game e como esta parceira foi cancelada sem que os desenvolvedores vissem um centavo da grana que eles parcialmente já haviam investido no game.

Em tempos onde entrar no Steam não era tão amigável como é hoje em dia, houveram problemas em divulgar o game, o que resultou em uma primeira versão do game dividido em duas temporadas e como no final de tudo o estúdio quase fechou as portas, se não fosse por um outro indie game (SpeedRunners) deles que acabou dando certo, graças a comunidade e fãs que sempre os apoiaram. O fenômeno dos You Tubers também deram uma baita força para eles na época. Tais eventos ainda o ajudaram inclusive a reformular totalmente No Time To Explain para uma nova versão (refeito na engine Unity) e que permitiu o relançamento do game em julho de 2015, de graça na Steam para quem já tinha a versão anterior do game e em um port do mesmo para Xbox One, que por sinal foi a versão que testei. Tudo acabou dando certo, e em março desse ano, No Time To Explain também debutou no PlayStation 4.

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A história de desenvolvimento do game é realmente impressionante. A galera da tinyBuild teve muita garra e perseverou por muito tempo até conseguir finalmente entregar o game da forma como originalmente idealizaram. Hoje a tinyBuild além de desenvolver games, também mantém parcerias com outros desenvolvedores indies ainda menores do que eles e se posicionaram como distribuidora (publisher) de vários outros indie games. Party Hard, avaliado aqui no site recentemente é um destes exemplos.

“Sem tempo para explicações”

No Time To Explain é um destes games que pega o jogador de surpresa. É fácil presumir que o game vai seguir uma linearidade de mecânicas no que diz respeito a jogabilidade após alguns minutos e rápidas fases tutoriais logo no começo, porém conforme a história progride novas mecânicas, novas propostas e mudanças no level design vão surgindo de maneiras inesperadas, tornando a experiência do game fantástica.

Trata-se de um título de plataforma com alguns elementos que misturam ação e puzzle, dentro de um modelo mais arcade de game. O jogador tem em mãos uma arma tão poderosa que o arremessa ao ar, fazendo com que seja obrigatório sua utilização para saltar obstáculos e chegar a altitudes que, sem ela, seria impossível.

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Foi inesperado descobrir que o game seria mais do que apenas isso do começo ao fim. De repente novos elementos começam a ser apresentados conforme o game progride. A própria arma muda ao longo da campanha, mudando a cadência e o formato do tiro. O personagem também muda, ora estando amarrado em uma camisa de força tendo que saltar como se tivesse uma espécie de estilingue invisível dentro da área da fase (o jogador estica e puxa algo que arremessa o personagem para o lado oposto, podendo repetir isso infinitamente, até mesmo com o personagem no ar), ou dando o controle ao jogador de uma espécie de clone defeituoso do protagonista com a habilidade de se agarrar em paredes e até mesmo no teto. Ou quem sabe em um mundo de doces onde você fica rechonchudo e sai rolando pela fase? Tudo acaba sendo possível em No Time To Explain!

Até mesmo o ambiente das fases muda dependendo do cenário proposto. Há um mundo que discute se videogames são artes, então todas as fases possuem como trilha sonora faixas de música clássica e pequenos personagens em pixel discutindo quando é que game são artes. Estas fases são uma tela em branco, com o personagem atirando com uma arma de tinta preta, para assim descobrir o caminho da fase. É genial!

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Há brincadeiras com fases destrutivas, com fases que mexem com saltos e tração gravitacional, com fases que rotacional em seu eixo, fases aquáticas e até mesmo um momento onde o jogador é engolido e precisa passar por caldos de suco gástrico para chegar em grandes alturas. Sim, o personagem pode pegar fogo!

No Time To Explain acaba sendo um game realmente impressionante pelo desafio do jogador constantemente ter que se adaptar a novos mundos, fases, mecânicas e personagens diferentes que vão surgindo. Claro que as fases são curtinhas, algo em torno de 3 a 5 minutos, dependendo da quantidade de vezes que morrer para conseguir a impulsão perfeito pelo recuo da arma. E cada vez que o jogador morre, o personagem volta ao último ponto em que ele estava com o pé no chão. A fase não se reinicia desde o começo. O que de uma certa forma é um alívio.

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Esse modelo de jogo lembra um pouco games como Fenix Furia e Super Meat Boy, porém sem massacrar o jogador. Sem aquela tortura de tentar jogar 30 vezes uma fase até passá-la. O checkpoint amigável talvez seja justamente para isso, nada de frustrar demais o jogador. É mais para ser divertido do que excruciante, até porque como as mecânicas estão sempre mudando, é mais sobre até onde os desenvolvedores podem pirar na jogabilidade do que simplesmente criar níveis mais complexos e difíceis sob a meta de fazer o jogador morrer centenas de vezes.

Maluquice no mundo das realidades alternativas

O plot de No Time To Explain brinca com esse personagem, tranquilão em sua casa, quando de repente uma versão dele do futuro chega quebrando a parede. “Eu sou você do futuro, não há tempo para explicar…” e antes que o mesmo possa continuar a frase um enorme caranguejo o agarra e sai em fuga para um portal. O personagem pega a arma deixada pelo seu eu do futuro e sai em busca de si mesmo por tal portal.

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Logo fica claro que não se trata apenas de um portal do tempo, mas de um portal que rompe a própria barreira das realidades. Essa é a desculpa do título para deixar o jogo surreal, insano e absurdo. Com realidade alternativas tudo é possível. Mas qual é a do caranguejo gigante ou do tubarão fora da água que sai com outro você na boca pelas fases? Rá, não se preocupe com estes detalhes. No Time To Explain pode não fazer muito sentido, e talvez seja melhor assim, mas até nisso os produtores souberam brincar (e explicar dentro das possibilidades bizarras da trama).

Existe entre os muitos sócias do protagonista que estão presente no game, uma realmente má, que anda querendo destruir todas as realidades e todas suas versões. É bobo, é maluco, mas é comicamente divertido. No Time To Explain se apoia muito no humor absurdo para ser engraçado, e de uma certa forma, ele é. Pelo menos para quem gosta desse humor tipo Family Guy.

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É o tipo de absurdo narrativo que até mesmo amarra outros pontos do game, como o modo multiplayer local para quatro jogadores, sendo que todos são versões do próprio protagonista. Acaba sendo um modo hilário para se jogar com amigos reunidos em um só lugar. A zoeira acaba sendo sem limites, já que é possível sacanear os amigos destruindo caminhos ou simplesmente deixando-os para trás. E isso não é punitivo, pois o game não exige que todos terminem a fase. Basta um jogador conseguir.

Gosto também das batalhas de chefe de No Time To Explain, sendo que todos possuem cenários e mecânicas distintas para derruba-los, ainda que boa parte deles consistam em descobrir o ponto fraco e atirar com sua arma nesse ponto até o chefe ser derrotado. E ao contrário das fases normais, que possuem vidas infinitas, contra os chefes há um limite de quantas vezes o jogador pode morrer, sendo que se esgotar esse limite, a batalha é reiniciada.

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Aliás como No Time To Explain é um game de visual simples, basicamente não há grandes loadings ao longo do game. Mortes são reiniciadas instantaneamente, assim como as batalhas de chefes.

Vale ou não vale?

Ao todo levei aproximadamente 3 horas e alguns minutos para concluir No Time To Explain. Não é um título muito longo, ou que queira punir demais o jogador para alongar sua duração. É um game curtinho, mas nem sempre isso é algo necessariamente ruim.

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Games muito longos também podem ser um problema quando cansam o jogador, enquanto o que os games curtos não podem fazer é dar a sensação de estar entregando ao jogador algo incompleto, o que felizmente não é o caso de No Time To Explain.

Acredito que o game me entregou um tempo exato de experiência. Nem pouco, nem demais. Talvez se o título tivesse mais 2 ou 3 horas, eventualmente pudesse acabar me cansando, especialmente se ele não conseguisse continuar se renovando e se reinventando como o fez em suas 3 horas originais. Teve o tempo necessário para me fazer adorá-lo, sem que ficasse chorando por ter acabado. Sabe aquela de estar satisfeito ao chegar ao fim de um game? Isso me ocorreu aqui.

No Time To Explain

E olha que após seu término, dois novos mundos são abertos, com algumas fases extras. Um destes mundos é feito pelos desenvolvedores, cheio de tiradas hilários sobre internet e um outro com as melhores fases feito pela comunidade do game, já que na versão de PC há um modo de criação de fases, que infelizmente não está disponível nos consoles. E eu ainda conferi um pouco mais destes extras pós fim de jogo.

Outra coisa que vai aumentar um pouco mais a longevidade do título são os chapéus presentes em quase todas as fases. São estes itens colecionáveis que permitem alterar a “cabeça do personagem”, detalhes para a imagem de uma raposa em muitas das capturas que fiz para esse review, de longe o chapéu mais engraçado que encontrei. E há chapéus de tudo quanto é tipo! Terminei o game com apenas metade deles coletados. E tenho vontade tranquilamente para voltar em alguns mundos para procurar pelos demais.

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Então acrescente aí mais uma ou duas horas de extras para o título. Nada mal para um Indie Game tão divertido, viciante e simpático. E que custa um preço bacana: 29 reais no Xbox One, 28 reais no Steam e – vai entender o porque – 46 reais no PlayStation 4.

No Time To Explain é um game que me fez rir, que me surpreendeu em suas mecânicas e me divertiu como muitos games as vezes não conseguem. Joguei todo o game com um sorriso no rosto, como uma criança feliz por ter encontrado um game que não esperava que fosse tão legal.

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De uma certa perspectiva posso entender que o game tem uma certa simplicidade em seu todo. Visualmente pode ser tosco (mas é um tosco engraçado, a serviço do humor), e o gameplay mesmo que se reinvente parte sempre de uma mesma premissa (vá do ponto A para o ponto B) e não há nada realmente revolucionário no título, mas há aquele charme, aquele esmero dos criadores por deixar o título, ao menos em sua versão de 2015, extremamente divertido e prazeroso de jogá-lo.

Exagero meu ou não, acabou sendo um dos mais divertidos indie games que joguei este ano, mesmo tendo sido lançado ano passado. Porque as vezes eu ligo o videogame não para interagir em uma puta história ou se sodomizar com um game mega difícil, as vezes só quero jogar algo legal e divertido, que me faça rir (mesmo sendo bobo) que me pegue de surpresa com mudanças na jogabilidade que não poderia vir chegando. E No Time To Explain conseguiu tudo isso!

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Um trailer que vale conferir!

Um último comentário. No Time To Explain é um game que dependendo da versão do trailer que você assistir ou se nem isso você viu e parou na capa ou em artes oficiais do game, é bem provável que não pesque o quão divertido (e pirado) o game é. A capa as vezes esconde um ótimo livro, como disse no começo do review. Sendo assim fui procurar e encontrei esse trailer, que aí sim mostra exatamente como é No Time To Explain! Assista!

Mais imagens!

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Inesperadamente maluco em um bom sentido
Mecânicamente se reinventa a todo momento
Visualmente simples, mas ainda assim há certa simpatia
Multiplayer local para até 4 jogadores
Excelentes (e bizarras) batalhas de chefes
Sem localização em português (legendas ou áudio)
Boa brincadeira com a personalização de personagem

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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