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Análise | The Messenger

Disponível para Nintendo Switch e PC

Inesperadamente cheio de surpresas. Essa é uma boa forma de descrever em poucas palavras The Messenger, título desenvolvido pelo estúdio canadense Sabotage, e publicado pelo clã das sombras da Devolver Digital. O jogo foi lançado em agosto do ano passado no PC e Switch, e ainda segue sem previsão de quando chegará a novas plataformas.

Mesmo tendo terminado-o recentemente, posso classificar The Messenger como um dos melhores jogos independentes lançados em 2018. O jogo tem altíssimos méritos em quase tudo a qual se propõe a fazer, seja pelo apelo nostálgico de uma parte de sua estética, pela atenciosa trilha sonora ou a ágil mecânicas dignas dos mais habilidosos ninjas. Dou pontos extras ao fato do mesmo estar totalmente localizado em português, com uma tradução e adaptação digna de aplausos, com um humor incrivelmente afiado e impossível de não sorrir ou até mesmo rir de alguns diálogos presentes na aventura.

O carteiro ninja que salvou o dia

Saber contar uma história que me envolva na aventura nem sempre é um requisito para um jogo ser bom, ou ter a minha atenção. Por isso The Messenger me surpreendeu ao trazer uma divertida e maluca trama sobre um ninja qualquer que não é o herói do dia, ao menos é que todos lhe dirão ao iniciar sua jornada.

O mundo foi dominado por um Rei Demônio. Tudo caiu em desgraça e os ninjas não foram o suficiente para derrotá-lo. Há um herói do tempo que surge para tentar algo, mas não é essa a história que o jogador terá acesso no começo. Você começa como um simples ninja, que sobreviveu ao ataque das trevas e por isso é o que tem para hoje.

Sua missão? Entregar um pergaminho secreto (ou sagrado? Bem, não faz diferença ainda) no topo de uma montanha para alguém que vai saber como lidar com todo esse problema dos demônios estarem causando terror no mundo dos humanos. O jogo lhe diz que você é “O Mensageiro”. Não “O Herói Salvador de Todos”. Apenas é o cara que precisa entregar um documento importante em meio ao caos que se tornou o mundo.

Claro que essa é uma das muitas brincadeiras e piadas encontradas no jogo. Logo você irá encontrar uma estranha loja, com um lojista de capuz ainda mais divertido para lhe entreter com respostas enigmáticas, contos com morais e diálogos que talvez quebrem a quarta parede do enredo. O bom humor é um dos pontos mais incríveis do jogo (mas não é o único).

Nada de pulo duplo

Outra característica singular de The Messenger diz respeito as suas mecânicas de movimentação. O título, acima de tudo, não tem como foco um combate hardcore, a maior parte dos inimigos morre com um único golpe. O desafio no jogo estar em sua mobilidade.

O ninja mensageiro não sabe dar pulo duplo. As regras aqui são diferentes. Ao pular, se você bater em algum inimigo ou objetivo, se obtém o direito de pular no ar. Enquanto continuar acertando coisas no ar, você pode ir ganhando saltos extras. Então espere por corredores onde espinhos e buracos estão por toda a parte, e você deve pular e bater para pular novamente sem nunca cair pisar no chão.

Mais à frente da campanha, o jogador vai adquirindo novas habilidades, dentre elas um planador. Com o planador a coisa fica ainda mais interessante. Ao planar e bater em algo, você dá um impulso para cima, e além disso ganha um pulo extra para se usar enquanto estiver no ar.

Muitos dos desafios do jogo consiste exatamente em atravessar telas fazendo malabarismos com esse sistema de pulos, impulsos, armadilhas, buracos, bater e pular e afins. Soa como algo que vá ficar cansativo com o tempo? Felizmente não fica. O jogo tem um level design muito bem feito, ao ponto de nunca deixar o jogador com tédio ou cansado. Até porque o ritmo dessa dinâmica é feita com cuidado em adição aos outros elementos do jogo.

Os inimigos, por exemplo, ainda que não sejam vastos e diversificados, correspondem muito bem à tal estrutura do gameplay. Demônios que cospem fogo são ótimos, pois suas bolas de fogo são projéteis que o ninja pode bater e ganhar o pulo extra no ar. Um outro, que parece um ser de pedra ouvindo um punk rock, lança pedras que também servem para impulsionar o jogador no ar.

Além disso, todo o game tem esse elemento de coletar estes cristais laranjas que lhe entretém por quase toda a aventura. E quando param de servir para alguma coisa, isso bem próximo ao fim, rendem uma excelente conversa envolvendo uma pia para jogá-los fora.

A morte em The Messenger também não é agressivamente punitiva, tendo em vista que o game tem generosos checkpoints espalhados por todas suas áreas. Além disso há excelentes batalhas de chefes, que também usam com sabedoria as mecânicas de saltar, bater e saltar. Completam o repertório do título uma simples, mas eficiente árvore de habilidades que progridem ao longo da aventura, assim como salas segredas com moedas verdes a serem coletadas.

Virando a mesa

Agora o que surpreende mesmo em The Messenger, e esse é um aspecto que aparece nos trailers do jogo, e então posso revelá-lo aqui, diz respeito a transformação do jogo de 8-bit para 16-bit. Como isso funciona?

Não vou dar muitos detalhes específicos, pois parte da diversão do título é vivenciar os acontecimentos, o ponto é que o jogo tem três atos muito bem separados. O primeiro ato você está no passado (presente da história) e então todo o mundo a sua volta é representado em estilosos gráficos em 8-bit. E o jogo permanece assim por um bom tempo.

Inicialmente até achei que o jogo adicionaria a mecânica de transição entre 8-bit para 16-bit logo na primeira hora do jogo. Não, isso não acontece, e mesmo assim quando a transição acontece há motivos para tal. Não é muito livre da forma como os trailers do jogo pareciam demonstrar. E não, isso não é um aspecto negativo.

O fato é que no segundo ato do título o jogo se passa no futuro. E no futuro estamos já em 16-bit. É lógico! Os gráficos mudam, mas a jogabilidade continua afiada e funcional. Até aí beleza. Um detalhe, até aqui o jogo funciona de forma bem linear, com o jogador progredindo por áreas específicas, sempre avançando na história.

Até aí, The Messenger é um jogo 2D de ação, aventura no estilo plataforma. No terceiro ato, quando o jogador já está com horas e horas de campanha, o título muda novamente seu estilo, se tornando um metroidvania com todo o mundo interconectado, fazendo o jogador ir e voltar para novas áreas e mundos previamente vencidos, alternando entre o passado e  futuro. E isso é fantástico.

Toda essa brincadeira faz The Messenger um jogo com um belo ritmo. Quase nunca se torna cansativo, e parece estar se reinventando a todo momento. Ao final, a impressão é que terminar três jogos em um único título. É estranho de uma forma muito positiva.

Minha única crítica a esta fórmula está apenas em uma ou duas horas na transição do segundo para o terceiro ato, quando o jogo se torna metroidvania e me largou para brincar à vontade nos mundos, sem exatamente deixar claro para onde devo ir. A princípio o jogador fica meio perdido e sem saber exatamente o que fazer.

A minha dica se isso acontecer? Não sinta que está trapaceando indo ao lojista e pedindo para ele lhe dizer para aonde você deve ir. Ele cobra um preço de 300 cristais pela informação, mas vale a pena ter um senso de direção quando o jogo para de ser linear.

Considerações finais

Ótima senso de humor, em uma divertida aventura, com um senso de jogabilidade, mecânicas intuitivas e que incrivelmente dão uma excelente experiência de jogo, somadas a um ritmo agradável e que jamais se torna enjoativo ou mais do mesmo. The Messenger é uma obra prima. Parece exagero, mas não é.

É muito difícil encontrar jogos assim hoje em dia, que cumpram todos os quesitos técnicos que fazem um game ser excelente. Este título tem tudo isso. Há capricho nos detalhes, em todos eles. Há muito conteúdo, há excelentes confrontos de chefe, há exploração, há sensação de estar sendo recompensando a todo o momento, há a vontade de ir até o último dos pontos finais que o jogo finge ter (até que o mesmo de fato acabe).

Posso elogiar mais um elemento antes de terminar esse texto? A trilha sonora do game. O jogo não muda apenas seus gráficos, transitando entre a geração de 8-bit e 16-bit. Todos os efeitos sonoros e música mudam também. Até mesmo a música embaixo d’água muda, tornando-se abafada. É isso que estou dizendo. Detalhes que fazem a diferença.

Ao fim, The Messenger me tomou mais de 11 horas para concluí-lo. E mesmo assim sem que tivesse recolhido todas as 42 (ou 43) moedas verdes que há espalhados por todos os seus mundos. Além disso, após finalizá-lo há ainda um modo New Game+ que permite o jogador desfrutar toda a aventura novamente com algumas modificações. E se você não estiver satisfeito com isso, saiba que há um conteúdo adicional gratuito que deve chegar em breve a todos que adquiriram o game. Tem como não ficar animado? The Messenger foi uma incrível surpresa.

Galeria

Dando uma nota

Todo em português, o humor é certeiro - 10
Brinca muito bem na transição de 8 para 16 bits - 10
Jogabilidade afiada nas mecânicas de mobilidade - 9.5
Bom ritmo, peca só um pouquinho quando abre sua exploração livre - 8.9
Trilho sonora que envolve o jogador em seu mundo - 10
Poucos inimigos diferentes, mas ótimas batalhas contra chefes - 9
Muitas áreas, quando você acha que acabou... o jogo lhe dá mais! - 10

9.6

Excelente

The Messenger pode facilmente ser colocado como um dos melhores indie games de 2018. Acerta em praticamente todos seus elementos, entregando um divertido jogo, com bom desafio e ritmo que dificilmente torna-se cansativo.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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