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Análise | Contra Anniversary Collection

Disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC

Contra Anniversary Collection foi lançado no último mês de junho, dia 11, para a atual geração de consoles e PC. O título é parte das comemorações de 50 anos da Konami, a qual também lançou outros dois pacotes de clássicos das antigas: Arcade Classics Anniversary Collection e Castlevania Anniversary Collection. São jogos que representam a era de outro da Konami, resgatando alguns dos melhores títulos clássicos da empresa.

Importante ressaltar que esta coletânea não traz exatamente todos os jogos da franquia Contra, deixando de lado alguns títulos que seria bem interessante se tivessem sido resgatados. Jogos que nunca saíram de suas plataformas originais e que estão perdidos no tempo. Vou citar alguns destes casos mais a frente desta análise.

Para esta coletânea a Konami preparou justamente os jogos mais icônicos e importantes da franquia, em diferentes plataformas e regiões a quais estes títulos foram originalmente lançados. Basicamente o que encontramos aqui são os quatro principais títulos da série, em múltiplas versões que totalizam dez jogos, além disso há seis versões japonesas de alguns destes clássicos, que foram adicionados em uma atualização gratuita, hoje já presente no pacote à venda.

Entendendo o pacote

Para entender certinho é preciso apontar jogo a jogo, não vai ter jeito. Então vamos lá, conte comigo. Há o Contra (1) original de arcade, lançado em 1987, e sua versão japonesa  também de arcade (2). Também estão presentes a versão Contra que saiu no NES (3) e também do Famicon – como o NES é conhecido no Japão – (4), ambos de 1988. Com estes são quatro versões do primeiro jogo da série.

Aí vem Super Contra (5) de arcade, lançado em 1988. Aí tem a sua versão japonesa, Super Contra: Alien No Gyakushu (6), também para arcade. E fechando as versões do segundo game, tem Super C (7), que é o nome que o jogo recebeu quando saiu em 1990 no NES. Neste bolo, talvez valha considerar Operation C (8), que saiu para Game Boy, em 1991, e é baseado nesta versão do jogo, ainda que não seja exatamente igual. Super C (9) e Operation C (10) também chegam ao pacote em suas versões japonesas. Dez jogos, e ainda estamos nos dois primeiros jogos da série.

A coleção continua com Contra III: The Alien Wars (11), um dos mais memoráveis da série, lançado no Super Nintendo em 1992. Sua versão japonesa, também inclusa aqui, se chama Contra Spirits (12). E aí temos o curioso título Super Probotector: Alien Rebels (13), de Super Nintendo, também de 1992. Trata-se da versão de Contra III lançado na Europa e Austrália, em quê os protagonistas soldados são substituídos por uma espécie de robôs policiais. É estranho e bizarro, mas estranhamente interessante.

Chegando na reta final do pacote, temos Contra: Hard Corps (14), lançado para Mega Drive, em 1994, assim como sua contra parte japonesa, Contra: The Hard Corps (15). E aí tem Probotector (16), que é a versão europeia e australiana com mais robôs protetores e menos soldados. Totalizando assim, dezesseis jogos, em quatro das primeiras versões da franquia. Ufa!

Similares, mas não idênticos

O que vale apontar nesse tanto de versões dos mesmos jogos é que nem todos são exatamente iguais. Graficamente há diversas diferenças, especialmente nos Contra originais. A versão de arcade é bem inferior visualmente em relação a versão de NES, por exemplo. Já nas versões japonesas, é curioso ver que há cutscenes que apresentam a história do jogo, enquanto a versão ocidental é direta ao ponto, sem mostra muito o enredo do jogo. Estes exemplos ocorrem em todas as versões mencionadas mais acima. Sempre há uma coisinha ou outra diferente entre as versões. Sejam gráficos aprimoradas, mapas, ou cenas que apresentam a história do jogo.

Isso pra não mencionar a bizarra versão com os robôs policiais, a qual – segundo contos da internet – teria a ver com a época a qual estes jogos foram lançados e as duas regras de conteúdo violento para crianças na Alemanha, a qual proibia conteúdos que glorificavam a guerra. Soldados lutando contra aliens talvez fossem demais para esse período histórico. Então os personagens humanos foram alterados para estes robôs guardiões. Faz total sentido. Posteriormente estes robôs, conhecidos como RD008 e RC011, até seriam incorporados ao universo de Contra, mais especificamente em Contra 4 – para Nintendo DS e que não está neste pacote – , na qual são personagens secretos, assim como canonicamente chegaram a lutar juntos com os protagonistas clássicos da série, Bill Rizer e Lance Bean.

Claro que, em termos práticos, é difícil visualizar alguém jogando todas as versões da coletânea, porém faz total sentido reuni-las em um só pacote. A preservação histórica destes jogos é totalmente justificada aqui. Entretanto, é claro que o jogador menos fanático, vai apenas pegar a versão que melhor lhe agrada destes quatro clássicos e experimentar o que mais lhe é interessante, seja visualmente, seja pelo elemento da nostalgia da época em que jogou tal clássico.

Experiência clássica, sem novidades

Diferente do que a Capcom tem feito em suas coletâneas de clássicos, ou a Nintendo com seus clássicos em seu serviço de assinatura online, ambas adicionando extras, funções e pensando em meios de atualizar estes clássicos a forma como os fãs gostariam de jogar em tempos modernos, a Konami não entrega nenhum tipo de modificação ou função que mexa na experiência original destes clássicos de Contra.

Admito que isso me chateou um pouco. Em teoria porque os jogos da série Contra são tradicionalmente difíceis. São clássicos run & gun (correr e atirar) planejados em uma quantidade insana de vezes que deseja matar o jogador. Seu personagem morre com qualquer dano tomado. Dito isso, não há funções que amenizem esse tipo de brincadeira, como um rebobinar ou até mesmo um cheat de continues ou vidas ilimitadas.

Acredito que jogar qualquer um dos jogos desse pacote não sejam mais sobre até onde consegue chegar sem tomar um Game Over na cara. Se é sobre isso, não deveriam ser mais. É sobre relembrar e apresentá-los a uma nova audiência, que não tem mais a paciência pela repetição que os velhos jogadores do século passado possuíam.

Mas calma que nem tudo é terrível. A Konami adicionou um sistema de save manual que lhe permite salvar e recomeçar qualquer um dos jogos a partir de qualquer ponto salvo. Não é o ideal, mas já é alguma coisa. Cada jogo tem seu próprio save, então um não salva em cima do outro.  Basta ficar de olho nas vidas indo embora e saber o momento exato de salvar e não ficar naquele cenário em que seu save mais recente te leva pra um momento em que você só tem uma vida e zero continues. Se chegar a isso, ferrou.

Outra forma de vencer muitos destes clássicos é se lembrar do Konami Code. Muitos jogos clássicos da Konami tem um código de cheat a ser feito na tela de press start dos jogos que lhe dá alguma vantagem antes de iniciar os jogos. Lembre: cima, cima, baixo, baixo, esquerda, direita, esquerda, direita, B, A. Sendo que no caso de consoles como o PlayStation 4 ou o Xbox One, o B e o A não ficam na mesmo posição do que o B e A dos clássicos controles da Nintendo ou Sega. No Xbox One, tive que usar esse comando com os botões X e Y.

Tem outro detalhe ainda no que diz respeito a usar o Konami Code no controle do Xbox One. Fica como curiosidade à parte. No meu caso, precisei testar isso em três controles do console que tenho em casa. Apenas em um deles funcionou – justamente no controle novíssimo que tenho aqui guardado e nem cheguei a usar. Isso ocorre porque é um código muito preciso que não aceita erros, ou comandos diagonais. Descobri com isso que o controle do Xbox, tanto o analógico quanto o D-Pad dos meus controles mais usados, estão totalmente descalibrados – devido ao uso contínuo, não é por maus tratos. Imagino que muita gente vai testar o Konami Code nestes controles e não vai conseguir ativá-los. Seja por causa da troca do B e A dos controles, seja porque são controles mais sensíveis e que possuem o hábito de ficarem levemente descalibrados. É imperceptível na maior parte dos games, mas nesse caso acabou sendo totalmente perceptível.

Enfim, acabei fazendo o Konami Code com o controle zerinho que tenho aqui e fiz um save manual no Contra original. Ganhei 30 vidas. Aí voltei para o meu controle velho de guerra e terminei o Contra original de NES. Que delícia terminar o jogo sem me preocupar com ter vidas para chegar ao fim. É uma experiência bem mais legal assim. E que só deu certo porque fui atrás de pesquisa na internet para ver o que poderia fazer para não me frustrar com o limite de 3 vidas do jogo original.

Por conta disso é que lamentei que a Konami não tenha inserido esse tipo de opção explicitamente em todos os jogos da coleção. Talvez não vidas infinitas, mas funcionaria se fossem continues infinitos. Já seria legal o bastante. Rebobinar, deixar escolher as fases, ter um modo Boss Rush. Nada disso atrapalharia a nostalgia que o jogo por si só já possui. Apenas tornaria mais palatável a dificuldade que todos os jogos da série possuem.

De extra mesmo na coleção, há apenas um belo manual com mais de 70 páginas (!) contando toda a história da série em detalhes. Altamente informativo. Com as histórias de cada um dos jogos, assim como uma entrevista com o criador da série entre outras coisas, como artes e storyboards. É muito bacana mesmo, se fosse uma versão impressa deixaria fãs da série malucos para adquirirem (e não duvido que lá fora tenha algo assim). O ponto ruim pra nós, aqui do Brasil, é que todo o conteúdo desse manual está em inglês, tal qual os jogos clássicos. Não há qualquer tipo de localização para nosso português.

O que para os jogos originais faz total sentido, e é perdoável. A coletânea lembra muito a emulação destes jogos. Provavelmente a Konami pegou os arquivos do jogos originais e tratou apenas o formato da resolução de tela dos mesmo. Não mexeu em sua programação. Tanto que glitches e sprites estourados na tela em alguns dos jogos mais antigos, permanecem como ocorrem nos originais. Não se mexeu nisso. Não que não exista retro consoles alimentados por sistemas como o recalbox, que não façam a mesma coisa e ainda vão além, adicionando cheats e funções de forma mais automatizada, como faziam os antigos Gameshark. De fato a Konami podia ter brincado nesse sentido.

Contra ainda é divertido?

É uma pergunta relevante, especialmente os antigos jogos da série, que possuem aquele ciclo de morte e memorização de padrões para vencer seus estágios. E digo que sim, Contra ainda é um exemplo do melhor que a fórmula run & gun tem a oferecer.

Fora que para os padrões da época, o jogo tem um ritmo muito interessante, mesclando fases de avanço lateral, com estágios isométricos, chefes gigantes e diversos tipos de power up para sua arma de fogo. Adicione o fato de que todos os jogos possuem o sempre divertido coop de sofá para dois jogadores. Há uma progressão de level design e diversidade de mecânicas que poucos jogos à sua época tinham a audácia de terem.

E é perceptível o avanço que a série tem desde o primeiro Contra, para Super Contra, e culminando nos excelentes Contra III e Contra Hard Corps. Foi tudo ficando mais rápido e caótico, de uma forma positiva. Os estágios passaram a brincar muito mais com desafios de plataforma, com verticalidade. Passa a poder usar bombas, a poder ter um segundo tipo de tiro secundário para se alternar entre o principal. Há novos personagens, dentre os robôs e um lobisomem. O jogo foi ficando criativo ao longo dessa sua década inicial. Melhorando em todos seus principais aspectos. Sem nunca perde seu carisma e chame. Sem nunca sair de sua fórmula de sucesso. Ao menos, claro, nos quatro jogos que englobam esta coleção.

Vantagem também é sua pixel art, que apesar de dar sinais de datada nos dois primeiros jogos da franquia, ainda são totalmente aceitáveis nos dias de hoje. Visualmente os jogos são cativantes, assim como a clássica trilha sonora, que dá o tom certo da atmosfera da aventura.

No que diz respeito a trama, esta eu nunca dei atenção quando criança e sigo sem conseguir prestar muita atenção nos dias de hoje. Sei que a série começa em um futuro, hoje não tão distante, e que a humanidade está combatendo aliens invasores. Simples assim. Não preciso de mais detalhes, já comprei a ideia décadas atrás, não me preocupo muito com isso hoje em dia. Me dê aliens e eu acabarei com os mesmo.

Gosto como os controles ainda são precisos, na medida em que estes jogos podiam ser originalmente. Pulos funcionam, tiros em múltiplas direções idem. Se o jogador morre é porque foi pensado em segmentos em que o jogo lhe pega de surpresa e pegadinhas acontecem. Padrões precisam ser reconhecidos e memorizados para evitar isso. Outra premissa de antigos clássicos.

Mesmo que outros jogos desse gênero tenham surgido posteriormente para mexer com a supremacia de Contra, e aqui estou pensando em Metal Slug, isso não significa que a série perdeu relevância. Não é preciso ser tão extremista aqui. Há espaço para ideias e séries diferentes, mas que compartilhem de uma fórmula equivalente. Reafirmo, sim, estes clássicos de Contra ainda são extremamente divertidos de serem relembrados ou de se conhecer pela primeira vez. São jogos que funcionam bem até os dias de hoje.

Considerações finais

Contra Anniversary Collection é uma importante coletânea para a franquia, que é uma das maiores séries de todos os tempos dos videogames. Isso não há a menor dúvida. A argumentação final está mais relacionada a forma como a Konami poderia ter trabalhado melhor nestes jogos clássicos para apresentá-los de um jeito mais dinâmico e melhor ritmado a uma geração nova de jogadores.

Ausências talvez sejam sentidas, especialmente para aqueles que nasceram na geração PlayStation e estão com títulos como Contra: Legacy of War, Contra: Shattered Soldier ou até mesmo Neo Contra em suas memórias. Ainda que estes não sejam lá títulos tão icônicos, e que graficamente envelheceram terrivelmente mal. No meu caso, gostaria de ter visto coisas “relativamente” mais recentes, como Contra Rebirth que saiu unicamente no WiiWare em 2009, assim como Contra: Evolution, que é um jogo com gráficos tridimensionais datados de 2010, mas que ainda não envelheceu tão mal assim, e saiu para apenas para celular e arcade. E como não falar do maravilhoso Hard Corps: Uprising, que é um spin-off sim, mas é incrivelmente bem feito e ficou esquecido na geração passada. Enfim, é de se pensar que há espaço aí para um segundo pacote de coletâneas da franquia.

O pacote de Contra Anniversary Collection é justo naquilo que promete. É a parte clássica de Contra, a essência da franquia. Nunca houve a promessa de uma coleção completa, não é isso que diz seu título. É uma celebração, e para tal, os primeiros cumprem bem sua função. São jogos que ainda divertem, que oferecem um desafio acima dos padrões atuais, e que ainda funcionam em multiplayer cooperativo local para dois jogadores, compartilhando um sofá da forma mais nostálgica possível.

Na parte de funções extras o jogo deixa realmente a desejar, e esse é um impacto bem ruim ao pacote. Ter várias versões do mesmo jogo é outro ponto que talvez não empolgue a todos, mas apenas aos fãs mais assíduos mesmo. Porém, seu preço (internacional) é justo com o que o pacote traz: 20 dólares. Poderia custar 5 dólares a menos? Poderia, mas está dentro das expectativas. Só é uma pena que a alta do nosso dólar o tenha feito chegar por aqui custando 80 reais. Para nossos padrões é um valor mais salgado para jogos que muitos já jogaram em emuladores em algum momento da vida. Para quem não avalia preço, isso não faz diferença, mas quem tem as economias mais tímidas, certamente deve procurar um preço mais promocional. Tal qual normalmente é com nosso mercado de jogos em geral – nenhuma surpresa nesse sentido.

Finalizo dizendo que Contra Anniversary Collection é uma coleção nostálgica, que me fez recordar de quanto gostava de Contra quando mais jovem. Descobrir que hoje, aos 35 anos, ainda preciso de um Konami Code para chegar ao final do original foi uma inesperada surpresa. Prova de que é realmente um título de um distante passado dos videogames, na qual eles não tinham piedade de seus jogadores.

Galeria

Dando uma nota

São 4 jogos e muitas versões deles mesmo, os mais icônicos estão aqui - 8
Contra ainda é visualmente bonito, Contra III e Hard Corps ainda impressionam na pixel art - 8.5
Material de 70 páginas digitais é realmente impressionante (mas está em inglês) - 7.5
Konami tropeça ao não adicionar funções extras (cheats novos ou rebobinar gameplay) - 5.5
Dificuldade original ainda é assustadora, pode frustrar jogadores não acostumados a isso - 7
Salvar o gameplay a qualquer momento é uma boa ideia, mas tem que tomar cuidado - 7
Multiplayer local para dois jogadores torna os jogos mais divertidos - 7.8

7.3

Clássico

Contra Anniversary Collection é um pacote de respeito com os mais clássicos dos clássicos jogos da série Contra. São diversas versões, que possuem pequenas variações, em uma experiência totalmente baseada no passado. A Konami tropeça apenas na parte de repensar em extras que poderiam tornar estes títulos mais palatáveis com o que os jogos são hoje em dia. A dificuldade chega a assustar até os dias de hoje, cabendo ao jogador pesquisar um pouco para descobrir o que o Konami Code pode fazer para melhorar isso. É um resgate importante, e prova que Contra ainda tem força para uma experiência realmente divertida.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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